
Por que se interessou pela história
do Espiritismo?
Mais recentemente preparamos um curso em que nos propusemos a
analisar estudos científicos realizados para testar as
hipóteses espíritas, como a mediunidade, a reencarnação,
o tratamento fluídico e até a EQM ou Experiência
de Quase Morte. Aproveitamos e estudamos as falácias, a
razão da ciência não ser nosso comportamento
natural, as fraudes mediúnicas do passado, as práticas
estranhas nos Centros Espíritas, o uso indevido de analogias
com os fenômenos quânticos, etc. Concluímos
facilmente, mas só depois de analisar tudo em profundidade,
que a Ciência acadêmica pouco progresso fez na exploração
dos conceitos do Espiritismo. Também não vislumbramos
que em futuro próximo consigamos validar o que infelizmente
vemos constantemente na mídia e nas redes sociais, por
exemplo, “A Ciência comprovou a reencarnação”,
“A Ciência comprovou a eficácia do passe”,
etc. Portanto resolvemos investir em outros aspectos em que pudéssemos
agregar algum valor ao conhecimento espírita. Como a historiografia
do Espiritismo era muito pobre, decidimos fazer pesquisas nesta
área.
Qual seu escopo de pesquisa?
Começamos buscando identificar os médiuns utilizados
por Kardec durante a chamada Codificação. O objetivo
inicial era levantar os seus registros de estado civil, ou seja,
de nascimento, de casamento e de óbito, abrindo caminho
para outros pesquisadores. O primeiro personagem identificado
foi o Sr. Alis D’Ambel, “o médium de Erasto”.
Entre os que mais investimos horas de trabalho estão as
Srtas. Baudin, Japhet e Dufaux, a Sra. Costel e o Espírito
Georges. Além de outros médiuns pesquisamos também
a vida de Rivail, a SPEE e a SA, etc. Estas pesquisas nos deram
acesso a importantes acervos, como o que se encontrava na “Librairie
et Editions Leymarie”, graças ao colega e amigo Charles
Kempf, presidente da Federação Espírita Francesa;
e ao espólio de Canuto Abreu, sob a guarda do Centro de
Documentação e Obras Raras da FEAL. No total já
analisamos mais de 320 cartas, adicionando quase 1.600 comentários,
que são o que chamamos metadados. Contudo, como temos assinado
um contrato de confidencialidade, nenhum informação
foi usada ainda na nossa página CSI.
Você parece gostar muito de números
e estatísticas…
Talvez pela minha formação e pela minha atividade
profissional realizada ao longo de mais de 35 anos… Posso
acrescentar que no CSI, desde sua criação em 4 de
agosto de 2018, já publicamos mais de 600 imagens ou registros
“inéditos”; e tivemos mais de 200 personagens
estudados, todavia não necessariamente publicados. Esta
é outra característica do site: só apresentamos
informações desconhecidas do movimento espírita.
A propósito, por que ”CSI”?
Minha esposa, e consequentemente eu (risos), apreciamos séries
como “Cold Case”, “Law and Order” e “CSI”,
que hoje em dia foram substituídas por outras, mas que
tem como assunto principal a investigação de casos
antigos ou atuais, cuja solução depende da construção
de uma argumentação sólida, desde que se
queira que a Justiça seja feita. Na verdade a dinâmica
é bem parecida com o método científico conhecido
como hipotético-dedutivo. Tudo isso foi a inspiração
para a criação do site “CSI do Espiritismo:
História”, dedicado às imagens e registros
históricos do Espiritismo. Só que para nós
CSI significa “Codification Séances Investigation”
ou “Investigação de Sessões Mediúnicas
da Codificação”. Temos também a página
“CSI do Espiritismo: Ciência”, dedicada aos
artigos e estudos científicos sobre o Espiritismo, e a
“CSI do Espiritismo: Filosofia”, com foco na doutrina
e ética aplicada do Espiritismo.
Como é a pesquisa?
Primeiramente fizemos um cruzamento intensivo entre mensagens
das obras consideradas fundamentais com mensagens similares nas
Revistas Espíritas. A partir daí fomos identificando
os médiuns mais representativos em termos de importância
ou quantidade de comunicações. Em seguida mergulhamos
na busca de endereços e datas, que geralmente são
as chaves para novas descobertas. Com a digitalização
em larga escala que foi feita na França, o trabalho do
pesquisador sério e comprometido pode ser realizado de
forma inteligente e eficaz, sem a necessidade de muitas pesquisas
de campo em Paris e outras cidades da Europa. Algumas de nossas
principais fontes de consulta primária são a Gallica
da Biblioteca Nacional da França, os Arquivos Nacionais
da França, os Arquivos Municipais de Paris e de várias
outras comunas francesas, etc. Mas é claro que alguma pesquisa
de campo precisou ser feita. E muitas outras ainda dependem disso,
como em Yverdon na Suíça, na busca da lista de pensionistas
estrangeiros; em Ajaccio, sobre um suposto Sr. Carlotti; em Périgueux,
sobre a sucessão do pai de Kardec; em Paris, na busca dos
herdeiros da dissolução da “Société
Civile Immobilière d’Études Métapsychiques”,
para a recuperação dos quadros espoliados pelos
nazistas, etc, etc.
E por que se interessou pela “A
Gênese”?
Bem, primeiramente notamos algumas inconsistências nas pesquisas
anteriores, por exemplo, a Declaração de Impressão
feita pela tipografia Rouge com data de 4 de fevereiro de 1869
e com a informação de 12 páginas de impressão
foi atribuída a uma 4ª edição de 1868,
embora a Declaração de Impressão de 1867
indicasse 15 páginas de impressão para as primeiras
edições. A Declaração de Impressão
de 1872 era exatamente igual a de 1869 e diferente da de 1867.
Temos várias outras inconsistências, mas também
continuamos com algumas dúvidas razoáveis ainda
hoje.Quanto às alterações ou a responsabilidade
de Leymarie, sempre repetimos: todos sabemos que Leymarie permitiu
a infiltração do roustanguismo, da teosofia, do
esoterismo, etc na Revista Espírita, e que o Espiritismo
não se coaduna com nada disso. Todos sabemos que a 5ª
edição tem mais de 400 alterações,
incluindo simples correções de pontuação
até novas ideias, o que não é o caso do item
67 do capítulo XV retirado da 4ª edição
e substituído pelo 68. Kardec afirmou neste capítulo,
e esta declaração não foi retirada: “Jesus,
pois, teve, como todo homem, um corpo carnal…”. A
eliminação de um item qualquer não compromete
em nada esta posição de Kardec de que Jesus teve
um corpo carnal, a não ser que se tenha dificuldades de
interpretação de texto. Aliás, Kardec tentava
aumentar a obra, em termos de ideias e conceitos, sem aumentar
o volume. Leymarie, neste caso específico, não teve
nenhuma culpa, uma vez que assumiu a Sociedade Anônima e
a Revista Espírita apenas em junho de 1871, com a renúncia
de Desliens; e a Livraria Espírita em junho de 1873, com
a renúncia de Bittard. Já para aqueles que negam
a existência da 5ª edição de 1869, desenvolvemos
vários argumentos na nossa página. Infelizmente
existem pessoas que emitem suas opiniões apaixonadas, mesmo
antes de ler e refletir sobre tais argumentos. O futuro dirá
quem está fazendo mais bem ou mais mal à nossa esclarecedora
doutrina. Mas na dúvida, bom seria se todos pudessem estudar
as duas edições, fazer as comparações
e decidir por si mesmos, sem necessidade de terceirizar seu raciocínio.
O que mais poderia falar sobre esta descoberta
da 5ª edição de 1869?
Diante das inconsistências comentadas resolvemos fazer uma
pesquisa intensiva em todos os catálogos virtuais de todas
as bibliotecas existentes no mundo. Ao encontrar um indício,
entramos em contato com o bibliotecário que nos forneceu
as informações solicitadas. Aliás, todas
as pessoas com as quais tivemos contato em Neuchâtel, onde
está a 5ª edição de 1869, e na Basileia,
onde está a 6ª edição sem data, nos
atenderam prontamente e foram muito gentis. O resto da história
todos conhecem, desde que tenham visitado o nosso site e lido
atentamente as publicações.Quanto ao conteúdo
em si, não é escopo do “CSI do Espiritismo:
História”, mas sim do “CSI do Espiritismo:
Filosofia”, onde registramos as discussões de um
curso presencial que chamamos “Codificação
sem pressa”. Acabamos de revisitar a obra “O Livro
dos Espíritos”, cujo estudo demorou dois anos. Faremos
assim com todos os livros, brochuras e revistas de Kardec. Neste
último estudo vimos várias polêmicas, por
isso nos causa espanto esta ideia fixa em relação
à obra “A Gênese, os milagres e as predições
segundo o Espiritismo”. Apenas para dar um exemplo: na resposta
à questão 1006, São Luís “subordina
a duração das penas aos esforços do Espírito,
jamais lhe tirando o livre-arbítrio”, mas na resposta
da questão 1008 diz que “sim, há penas que
lhe podem ser impostas”. Forçando a interpretação,
diríamos que as leis divinas nos foram impostas, por exemplo,
há pessoas q comem demais, e passam mal, mas que não
pensam nisso enquanto comem, e continuam comendo, prolongando
o mal-estar futuro. Nós estamos totalmente alinhados com
este pensamento de autonomia. E mais, as pessoas esquecem que
o Espiritismo é uma doutrina dinâmica, em evolução,
seguindo “pari passu” o progresso da Ciência,
sem se deter onde ela agora para. Em “A Gênese”,
eu preferia o texto da 4ª edição dos itens
58 a 60 do capítulo VI sobre “A Ciência”,
que foram excluídos e substituídos; e do item 23
do capítulo X sobre “Geração espontânea”,
que foi reescrito. Mas Kardec, como dissemos, preferiu sintetizar
ideias e conceitos já apresentados anteriormente, abrindo
espaço para outros assuntos. Sobre a geração
espontânea, é claro que existiu nos primórdios
da Terra, quando haviam as condições propícias,
o que já não acontece. Mas seria um anacronismo
julgar as declarações de Kardec à luz dos
conhecimentos atuais, assim como esquecer a teoria miasmática
quando analisando o item 10 do capítulo XVIII da 5ª
edição, sobre a epidemia da Ilha Maurícia.
Particularmente, também temos dificuldades para entender
as questões 536 a 540 de “O Livro dos Espíritos”,
acrescentando que o átomo de hidrogênio na água
que bebemos hoje, talvez tenha existido desde os momentos iniciais
do “big bang”, a 13.7 bilhões de anos atrás.
Portanto, polêmicas não existem só em “A
Gênese”. Enfim, comparamos a 5ª edição
de 1869 com a de 1872 e elas são idênticas, tanto
em conteúdo quanto tipograficamente. Foi uma comparação
visual, sujeita a erros. Estamos desenvolvendo uma comparação
automatizada com a ajuda de outros pesquisadores.
E como você vê a reação
com relação a esta descoberta?
Desproporcional. Ninguém visita o Código de Hamurabi
no Museu do Louvre e fica discutindo se ele está lá
ou se é uma ilusão. Neste contexto jamais fiz qualquer
crítica a qualquer pesquisador, que não sabiam da
existência desta edição no momento que desenvolveram
suas análises. Já repeti isso várias vezes,
mas acho oportuno fazer como Isaac Newton, e dizer mais uma vez:
“Se eu vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes.”.
Aliás, interessante, em janeiro de 2018, quando percebi
o equívoco com relação ao nascimento da Srta.
Ermance Dufaux, apresentei as evidências e alertei a várias
federativas e instituições. Só a Biblioteca
Nacional da França, através do seu data.bnf.fr,
e outra instituição de Bron, comuna da área
metropolitana de Lyon, corrigiram isso até a data de hoje,
mais de dois anos depois. No Brasil está tudo como dantes.
Ela nasceu em Cambrai, e não em Fontainebleau. Existe uma
grande quantidade de registros equivocados sobre ela e outros
médiuns no movimento espírita brasileiro. Mas voltando
para “A Gênese”, gostaria de acrescentar que
a responsabilidade pelas Declarações de Impressão
e pelos Depósitos Legais era das tipografias. A responsabilidade
pelos registros em Paris era da Chefatura de Polícia, que
aliás sofreu um incêndio em maio de 1871, com o fim
da Comuna. Kardec só se envolvia com o texto enviado à
editora, que contratava a tipografia. Existem outras obras nesta
situação, isto é, sem Depósito Legal
encontrado, por exemplo, a edição de 1865 do “Resumo
da Lei dos Fenômenos Espíritas”. E mais, a
Livraria Internacional foi substituída pela Livraria Espírita
na publicação de “A Gênese”. Esta
livraria deve ter sido estabelecida antes do dia primeiro de abril
de 1869, conforme hipótese já explicada e desenhada
em nosso site.
Você é ligado a alguma instituição?
Como pessoa física, sou presidente de uma instituição
na cidade de Jacareí, SP há mais de 20 anos. Infelizmente
este tempo dilatado mostra nossas falhas na gestão para
a renovação da diretoria. Enfim, com o site CSI
somos totalmente independentes. Até oferecemos o resultado
das pesquisas a algumas instituições, porém
nenhuma federativa se interessou em divulgá-las. Hoje temos
um espaço na kardecpedia e outro no allankardec.online
mas as pesquisas colaborativas em tempo real continuam acontecendo
apenas no facebook. Não pretendemos escrever nenhum livro,
mesmo que transferindo qualquer eventual lucro a alguma instituição
beneficente. Também não temos intenção
de correr o mundo divulgando o resultado das nossas pesquisas,
nem criar qualquer outro canal de divulgação. Prefiro
o estilo “low profile” agora, uma vez que minha vida
profissional já me proporcionou as alegrias mundanas do
reconhecimento e das viagens. Na verdade, só preciso agradecer
à minha esposa, pela compreensão de tantas horas
ausentes no que seria uma aposentadoria merecida.
E o que pretende com seu trabalho, no
curto, médio e longo prazos?
A curto prazo, resgatar a verdade, por exemplo, a grande maioria
do movimento espírita ainda acredita que Kardec trabalhou
com crianças e adolescentes. Já mostramos que não.
Uma motivação são as palavras do historiador
John Warne Monroe, professor associado da “Iowa State University”.
Após avisá-lo de um equívoco no seu livro
“Laboratories of Faith”, ele me escreveu: “Por
favor, mantenha-me informado das coisas interessantes que encontrar,
independentemente de contradizerem ou afirmarem meu livro. Como
historiador, é claro que é sempre profundamente
gratificante ver todos se aproximando da verdade.”.A médio
prazo espero continuar com as pesquisas, num ritmo menos alucinante,
agora com foco no estudo da Revista Espírita. A longo prazo
não tenho qualquer expectativa.
Poderia nos passar os links mencionados
nesta entrevista?
Claro. O curso sobre estudos científicos está em
http://www.ceamorajesus.org.br/moodle/login/index.php.
Entrar como visitante, e clicar em Grupo de Estudos Avançados
“Chico Xavier” – GEA2. Pode explorar também
os outros cursos e até testar seus conhecimentos das obras
fundamentais.
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Muita paz