Religião e espiritualidade influenciam
índices de qualidade de vida
Pesquisa reúne estudos e observa efeitos causados por intervenções
religiosas e espirituais na saúde mental

De maneira geral, práticas estão
associadas à redução dos sintomas de ansiedade
em pacientes e do nível de estresse e exaustão emocional
em profissionais da saúde,
diminuição na intensidade do consumo de drogas e nos
sintomas de depressão
– Foto: CC0/Creative Commons
A influência da religiosidade e espiritualidade
na saúde e qualidade de vida de indivíduos é
foco de interesse da sociedade há décadas. Enquanto
muitos acreditam em benefícios da crença como forma
complementar de tratamentos, outros enxergam nela prejuízos
para os métodos da medicina tradicional. Nos últimos
anos aumentou o número de pesquisas que pretendem resultados
mais específicos sobre o tema. Apesar de ainda ser uma área
com escassez de publicações objetivas a respeito da
aplicabilidade clínica de intervenções religiosas
e espirituais, alguns resultados e conclusões já podem
ser analisados e pretendidos como padrões.
Nesse contexto se insere o artigo, produzido na Faculdade
de Medicina da USP (FMUSP), Avaliação da Prática
de Terapia Complementar Espiritual/Religiosa em Saúde Mental,
de Juliane P. de Bernardin Gonçalves, Giancarlo Lucchetti,
Frederico C. Leão, Paulo R. Menezes e Homero Vallada, que analisa
estudos já publicados, a fim de encontrar semelhanças
entre suas conclusões, juntar os resultados em uma técnica
estatística e, então, contribuir para a evolução
da pesquisa na área.
As publicações analisadas estudam as
intervenções espirituais e religiosas – as IERs
– e suas influências na saúde e qualidade de vida,
principalmente de pacientes crônicos, mas também de profissionais
da saúde e indivíduos saudáveis. Trata-se, porém,
de estudos muito heterogêneos, o que, segundo a pesquisadora
Juliane Gonçalves, dificulta a sumarização dos
dados encontrados numa metanálise. Na maioria dos dados analisados
– qualidade de vida, dor, sobrepeso – foi possível
somente uma comparação descritiva dos resultados.
Por trabalhar com conceitos amplos, a pesquisa escolheu
seguir uma linha de pensamento que define a espiritualidade como valores
morais, crença em uma “força maior”, sem
a necessidade de alguma filiação religiosa, podendo
incluir grupos religiosos específicos e até indivíduos
ateus e agnósticos; e a religião como “ligação
com o sagrado ou transcendental através de um sistema organizado
de crenças, práticas, rituais e símbolos”,
como o catolicismo, judaísmo ou islamismo.

Em alguns casos, intervenções podem
auxiliar pacientes
a encontrarem na religiosidade ou espiritualidade fonte de força
para seguirem o tratamento
– Foto: Divulgação
As IERs analisadas se davam, entre outras formas,
através de grupos de oração, troca interpessoal,
discussões sobre valores morais e éticos, psicoterapia,
intervenções com áudio ou vídeo e serviços
pastorais. Os estudos comparavam, então, as IERs com técnicas
complementares já reconhecidamente benéficas, como meditação
tradicional, propostas educativas, yoga e tai chi chuan.
Os resultados obtidos revelaram que as intervenções
têm, na maioria dos casos, efeitos ainda mais benéficos
dos que os já conhecidos na qualidade de vida dos indivíduos.
As IERs estão associadas a redução dos sintomas
de ansiedade em pacientes e do nível de estresse e exaustão
emocional em profissionais da saúde, diminuição
na intensidade do consumo de drogas e nos sintomas de depressão.
Efeito placebo?
Questionada a respeito do “efeito placebo”
dessas intervenções, ou seja, efeitos psicológicos
que interferem nas respostas do organismo ao tratamento pela crença
do paciente, Juliane disse que não é possível
precisar a porcentagem desse efeito no resultado das intervenções.
Isso porque se trata de ensaios clínicos nos quais há
participação e consciência do paciente sobre a
técnica aplicada em seu tratamento.
Em testes de efeito placebo em casos de hipertensão,
por exemplo, o paciente não sabe qual intervenção
recebeu (medicamento placebo ou com princípios ativos): é
a prática chamada de “duplo cego”, impossível
nos casos das IERs. Isso não diminui, porém, a validade
da pesquisa, já que analisa artigos baseados em metodologias
mundialmente reconhecidas. Ainda assim, a pesquisadora garante que
esses efeitos existem e são importantes fatores de influência.
Juliane conta, ainda, que outras pesquisas publicadas
validam os argumentos dos que veem a religiosidade e a espiritualidade
como algo prejudicial.
Respostas negativas ao tratamento são
observadas quando se encara a religião de forma punitiva,
como se a doença fosse um castigo divino ou uma forma de
pagar pelos pecados cometidos. Nesses casos, a crença pode
contribuir para o aumento nos índices de ansiedade, depressão
e até de mortalidade.
A literatura que trata da religião e da espiritualidade
na saúde ainda dá seus primeiros passos. Muitas questões,
inclusive metodológicas, seguem sem respostas. O que se sabe
é que o campo avança nas pesquisas e que elas, via de
regra, indicam para consequências positivas de intervenções
desse tipo na qualidade de vida dos indivíduos.
- Link para o artigo
científico: http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0186539