Nem toda pessoa que se mata
tem depressão - , diz especialista em suicídio.
Há 24 anos, a psicóloga
Karina Okajima Fukumitsu, 43, se dedica a explorar profissionalmente
um tabu, o suicídio. Seu envolvimento com o tema, porém,
começou na infância. Sua mãe tentou se matar inúmeras
vezes. Mais tarde, foi ela mesma quem tentou tirar a própria
vida em três situações.

Karina Okajima Fukumitsu, suicidologista
“Comecei a estudar psicologia
para compreender e poder ajudar pessoas que passam por um sofrimento
existencial e, por isso, tentam se matar”, conta. Segundo dados
da Organização Mundial de Saúde (OMS), mais de
800 mil pessoas tiram a própria vida por ano no mundo. No
Brasil, acontecem, em média, 11 mil suicídios em 12
meses, de acordo com levantamento do Sistema de Informação
sobre Mortalidade.
Em 2016, foram registradas no país 30 mil tentativas
de mulheres e 15 mil de homens. Para Karina, os altos números
refletem também tentativas de comunicação. Apesar
de homens tentarem menos, eles são as maiores vítimas
letais, por usarem métodos mais agressivos.
“Suicídio é a concretização da falta
de sentido da vida, é o ápice de um processo de ‘morrência’.
Ele costuma ser cometido por alguém que está definhando
existencialmente, que deixou de acreditar em sua própria capacidade,
como ser humano, de transformar a dor em amor”, explica Karina.
A psicóloga recebeu a reportagem em seu consultório,
em São Paulo, onde atende de adolescentes a idosos que tentaram
ou cogitam o suicídio, para desmistificar essa morte violenta.
Como começou seu envolvimento com a questão
do suicídio?
Karina Okajima Fukumitsu: Eu tinha 8 anos
quando começaram as crises suicidas da minha mãe. Aos
10 anos, me lembro claramente de ir ao pronto-socorro, tentando socorrê-la
das várias tentativas de se matar. Em 1989, entrei no curso
de psicologia para compreender esse fenômeno, ajudar quem queria
se matar e acolher quem estivesse passando por sofrimentos existenciais.
Essa foi a causa da morte da sua mãe?
Não. A última vez que ela tentou o suicídio foi
em 2006, quando me declarei como suicidologista. Eu estava grávida
do meu primeiro filho, o telefone tocou e ela disse que estava pensando
em se matar novamente. A gente falava abertamente do processo de ‘morrência’
dela. Pedi que tivesse calma, porque a morte viria para todo mundo,
é uma condição do ser humano. Durante a conversa,
tive um aborto espontâneo e vi minha mãe renascer das
cinzas, dizendo que eu a tinha convencido sobre ter uma missão
de vida. Foi um verdadeiro paradoxo. Coincidência ou não,
ela acabou desenvolvendo a doença do ‘coração
grande’, uma miocardiopatia grave. Foram 18 internações
até 2013, quando ela foi vencida pela doença.
De que maneira essa experiência ajudou você a
seguir adiante?
Com a história dela entendi que é possível resignificar
a vida, ter alguma esperança. Em 2012, durante o lançamento
do meu primeiro livro, ‘Suicídio e Gestalt-Terapia’
(ed. Digital Publish & Print), ela ficou do meu lado. Eu dizia
que ela era minha coautora e ela se apresentava dizendo: ‘Oi,
eu sou a kamikaze”. Ela é a prova de que o acompanhamento
cura.
Você já tentou o suicídio?
Sim, três vezes. A primeira aos 12 anos, meu pais tinham se
separado e eu estava exausta de tantas brigas. Lembro de estar na
cozinha e ter tomado medicamentos da minha mãe. Eu não
queria mais viver. Quando ela me viu, perguntou o que eu estava fazendo.
Respondi: “Exatamente aquilo que você sempre faz”.
Ela me fez vomitar e nada aconteceu. Mas foi o mais próximo
que cheguei do ato. Nunca mais falamos sobre isso. Depois, aos 20
anos, descobri que um namorado de longa data me traía. Pensei
na possibilidade da morte, mas não agi. A terceira vez foi
em 2014, quando recebi o diagnóstico equivocado de esclerose
múltipla. Fiquei internada por 13 dias, parei de andar, esqueci
a ordem alfabética, os números e fatos da minha vida.
No ápice do meu desespero, pensei novamente em suicídio.
Mas me agarrei na certeza de que a vida não é do jeito
que a gente quer. Me recuperei completamente.
Suicídio é hereditário?
Não, o suicídio não corre nas veias. Só
que existem modelos de repetição de enfrentamento que
são prejudiciais, é o que a gente chama de “transmissão
psíquica geracional familiar”. Alguns comportamentos
tóxicos da família se repetem. Se a gente não
tiver plena atenção, entra num círculo vicioso.
Cabe a cada um construir novas modalidades de responder às
adversidades da vida.
Por que ainda é um tabu?
Porque é uma morte violenta, repentina e que confronta exatamente
o sentido de instinto de sobrevivência que aprendemos. É
quando a pessoa começa a acreditar que a morte é mais
interessante que a vida. Às vezes, a pessoa não quer
morrer, ela só quer matar uma parte dela que está causando
sofrimento. Viver sem sofrer é uma utopia. Por isso, precisamos
trabalhar a tolerância existencial.
Por que suicídio é visto como algo abominável?
Não temos tempo e espaço para lidar com a vulnerabilidade
humana. Isso que o torna abominável. Ele escancara aquilo que
mais se quer esconder, sentimentos indesejáveis, como tristeza,
raiva, fraqueza. Não cabe a ninguém julgar o outro.
Suicídio não é loucura, fraqueza, covardia ou
coragem. O suicidologista norte-americano Edwin S. Shneidman, referência
no assunto, o definiu como um ato definitivo para um problema que
deveria ser temporário.
É irresponsável defini-lo como uma escolha pessoal?
Não. Se a gente pensar que cabe a cada um sua própria
vida, o mesmo vale para a morte. Mas o ideal é que ela seja
natural. Então, cada ser humano deve se apropriar e zelar pelos
seus sentimentos, e pedir colo quando eles estiverem borbulhando.
Costumo dizer que suicídio é uma dor sentida, mas não
consentida. Criei um mantra que é: se tem vida, tem jeito.
Como você avalia o cenário brasileiro?
Infelizmente, estamos entre os dez países com as maiores taxas
de suicídio do mundo. Está mais perto do que imaginamos.
É muito comum conhecer alguém que se matou, só
que preferimos fingir que não existe. Lamento que seja um problema
de saúde pública, mas não existam planos de prevenção
efetivos. O Ministério da Saúde trouxe uma possibilidade
de diminuir os números até 2020. Na prática,
porém, nada está sendo feito para isso.
Há poucos profissionais dedicados a isso?
Vejo poucos profissionais treinados para acolher o sofrimento humano.
Quando uma pessoa está desesperançosa, desamparada e/ou
desesperada – o DDD da cartilha da psiquiatria -, precisamos
encontrar uma maneira de mostrar a ela um sentido para sua vida. Já
ouvi muito médico dizendo que quem tenta o suicídio
atrapalha o tempo deles. Quando eu levava a minha mãe ao hospital,
lembro das enfermeiras dizendo: “Dona Yoko, a senhora não
tem o que fazer a não ser tentar se matar? Não tem dó
dessas meninas que te trazem aqui há tanto tempo? De pessoas
que estão querendo viver?”. Esses comentários
machucam ainda mais a pessoa que está em sofrimento. Se não
houver resignificação, vai acontecer novamente. Quando
há diagnóstico de transtorno mental, a reincidência
acontece entre 40% e 50% dos casos.
Existem grupos de vulnerabilidade?
Sim. A comunidade LGBT, as vítimas de violência doméstica
e aqueles diagnosticados com doenças mentais. Ou seja, grupos
que não têm suas dores legitimadas nem espaço
para expor suas vozes e se defenderem.
Quais são os sinais de alerta de quem pensa em se matar?
Isolamento, abuso de álcool e drogas, e qualquer mudança
abrupta de comportamento. Há sinais indiretos também.
É preciso estar atendo a quem começa a se desfazer de
coisas importantes, a declarações de amor inesperadas
e quando a pessoa usa expressões como “pode ser tarde”,
“não vou dar mais trabalho”. Tem ainda a “falsa
calmaria”, que é o caso de quem sempre falou que ia se
matar e parou de comunicar de uma hora para outra. Isso é uma
pegadinha. Ela fica quieta para não ser interrompida. Prevenir
é olhar para esses sinais e tentar criar espaços de
diálogo.
A depressão é um fator comum aos suicidas?
Não, acho reducionismo pensar assim. Não necessariamente
uma pessoa que se mata é deprimida, apesar de existirem vários
casos de pessoas que tinham depressão e se mataram. Quando
isso acontece, é que elas perderam o sentido de viver.
Quais são os maiores mitos sobre suicídio?
O principal é achar que se vai provocar o suicídio ao
perguntar diretamente para a pessoa se ela está pensando em
se matar. O suicídio é um ato de comunicação.
E a pessoa, na maioria das vezes, tenta comunicar em morte o que ela
gostaria de comunicar em vida. Precisamos falar abertamente sobre
isso. Os sinais de alerta são pedidos de acolhimento.
E se a pessoa nos disser que quer se matar?
Pergunte de volta como pode ajudar. É muito equivocado achar
que quem tenta se matar está querendo só chamar atenção.
Aliás, acho ótimo que eles chamem atenção.
Prejudicial é tratar com desprezo. Se você não
der atenção agora, vai se sentir culpado mais tarde
por não ter atendido ao chamado de um ente querido.
O que você mais ouve de quem quer se matar?
“Eu não vou aguentar se algo acontecer”. “Se
eu fracassar, não vou suportar.” Ela começa a
antecipar tudo o que ela imagina que de pior vai acontecer, porque
não sabe lidar com situações de fracasso. Diante
do desespero, num ato impulsivo, ela tenta o suicídio.
É um processo?
Salvo os casos de impulsividade, que acontecem em menores proporções,
o comportamento suicida passa pelo pensamento, ideação,
planejamento e só então chega ao ato.
É perverso buscar as motivações daqueles
que tentam se matar?
Acho que é elucubração, porque não existe
uma única causa para o suicídio. Mas é importante
entender a fantasia da pessoa na tentativa. O que ela queria matar?
O que ela queria que morresse? Já quando a morte é consumada,
ela leva toda a verdade.
O que buscam os sobreviventes do suicídio?
Existem dois grupos de sobreviventes: aquele dos que tentaram, mas
não tiveram a morte consumada, e os enlutados pela morte de
alguém próximo. Os dois buscam a mesma coisa, um acolhimento
para os seus sofrimentos. O problema é que ainda existe um
forte julgamento, quem tentou ou se matou é visto como louco.
Não quero normalizar o suicídio, quero deixar claro
que disfuncionalidade acontece com todo mundo.
Procurar culpados é um caminho positivo?
De jeito nenhum. Como diz o filósofo Jean-Paul Sartre, “nós
somos aquilo que nós fazemos com o que o outro faz da gente”.
E esse foi um dos grandes problemas da série “13 Reasons
Why”. A personagem principal fica culpando os outros por suas
escolhas erradas e em nenhum momento exercitou a capacidade de enfrentamento.
Mais grave ainda foi mostrar a maneira como ela se matou. Isso é
grave.
Onde buscar ajuda?
Não existe uma única fórmula. Vale procurar desde
alguém próximo, até especialistas. O Centro de
Valorização à Vida é um ótimo caminho.
O que digo sempre para as pessoas em sofrimento é: acredita
que você merece receber amor e ajuda.
O quão pesado é lidar com a morte tão
de perto?
Acho que a gente lida muito mal com aquilo que é mais nosso.
A única certeza que temos é a de que morreremos. Precisamos
falar mais sobre isso. Ela faz parte do nosso desenvolvimento. Só
que, no intervalo entre nascer e morrer naturalmente, precisamos aprender
a viver com qualidade.