Estudiosa da religião,
conhecida internacionalmente pelas obras sobre a história das
religiões, Armstrong foi freira por sete anos e defende que
o ser humano deve acreditar em sua própria transcendência

A escritora Karen Armstrong:
"Os jihadistas não são particularmente religiosos"
Foto: PEDRO ÁLVAREZ
De Deus ao Twitter. Da música
ao jihadismo. Karen Armstrong transforma uma conversa
numa montanha russa de conceitos, na qual aparece, recorrente, a palavra
“compaixão” como bálsamo para muitos dos
problemas que inquietam esta sociedade – que, na sua opinião,
não é o que acredita ser. Na organização
Charter for Compassion, ela se esforça para
transformar um mundo onde as pessoas pensam excessivamente em si mesmas
e muito pouco nas demais.
Pequena e enérgica, Armstrong fala durante este encontro em
Oviedo, na Espanha, por ocasião de seu recente Prêmio
Princesa das Astúrias de Ciências Sociais, sobre as semelhanças
entre as religiões. E expressa espanto ante certas modas atuais
que se apresentam como libertadoras. Apaixonada pelo fenômeno
religioso, ela explicou em detalhes, nas páginas do livro Los
Orígenes del Fundamentalismo (As Origens do Fundamentalismo,
ainda sem edição no Brasil), por que ocorre a radicalização
religiosa. E ressaltou no ensaio Em Nome de Deus, editado
pela Companhia das Letras, a importância para o ser humano de
acreditar na própria transcendência.
Pergunta. A senhora
diz que vivemos numa sociedade “essencialmente conservadora”,
mas “altamente dogmática”. No entanto, se sairmos
às ruas para perguntar, quase ninguém se reconhecerá
como dogmático – e muitos, inclusive, se orgulharão
de ser tolerantes.
Resposta. Realmente não gosto da palavra tolerante.
Se analisarmos sua origem, veremos que ela tem uma raiz latina que
significa “suportar algo”. É a linguagem do vencedor
que diz que vai tolerar a minoria. Temos que ir além disso,
pois vivemos num mundo global cada vez mais interdependente. Se a
Bolsa cai num determinado lugar, os mercados também cairão
no mundo todo nesse mesmo dia. Estamos conectados eletronicamente.
O que acontece na Síria hoje pode ter repercussões aqui
amanhã, e já vimos isso. Não podemos viver mais
sem os outros, e ainda assim vemos pessoas que se entrincheiram em
guetos nacionalistas. Embora todos saibam que têm que ser tolerantes,
isso é o que acontece. Acredito que os meios de comunicação
também tenham a sua parcela de responsabilidade.
P. Em que sentido?
R. Dou um exemplo. Eu escrevo sobre o islã.
Desde o 11 de Setembro, foram realizadas pesquisas que deveriam ser
relevantes para o público em geral, mas as pessoas nunca ouviram
falar delas. Depois dos atentados, um psiquiatra forense que não
é exatamente um liberal, e sim um ex-agente da CIA, foi enviado
a Guantánamo para entrevistar os prisioneiros e viu que só
20% deles tinham uma educação muçulmana. Os demais
eram convertidos – alguns autodidatas – ou não
eram praticantes até se converterem ao radicalismo. Não
respondem, portanto, à imagem que temos dos fundamentalistas.
Inclusive dois jovens que deixaram o Reino Unido para combater com
o Estado Islâmico (EI) na Síria haviam encomendado na
Amazon um livro chamado Islam for Dummies (islã para bobos),
o que mostra sua absoluta ignorância! Após o 11 de Setembro,
o instituto Gallup fez sua maior pesquisa até então
realizada: em 35 países de maioria muçulmana e durante
cinco anos. Os participantes deviam responder se justificavam os atentados,
e 93% disseram que não. E seus motivos foram totalmente religiosos,
citando o Corão. O interessante é que, para os 7% que
justificavam o 11 de Setembro, as razões não eram religiosas,
mas políticas. Esse tipo de coisa deveria aparecer nas capas
de jornais como o The New York Times para que o público
tivesse uma ideia mais completa do problema que enfrentamos. É
muito fácil dizer que isso é coisa da religião,
mas o terrorismo, seja qual for a sua motivação, é
sempre político.
P. O mundo laico identifica dogmatismo com religião.
Em muitos ambientes, declarar que se professa uma religião
é como segurar um cartaz com a palavra dogmático escrita
nele.
R. Continuemos com o exemplo do islã. O dogmatismo
que se vive nele é uma coisa relativamente recente. Até
o século XIX, o sufismo era a tendência dominante, e
um sufi lhe dirá que ele não é nem muçulmano,
nem cristão, nem judeu. Que se sente em casa numa mesquita,
numa igreja e numa sinagoga. Infelizmente, isso mudou por causa da
Arábia Saudita, que conta com um grande apoio do Ocidente graças
ao petróleo e que exportou uma forma muito peculiar do islã
que remonta apenas ao século XIX. Várias gerações
de jovens muçulmanos cresceram com essa versão muito
limitada de sua religião.
P. A senhora diz que, durante o século passado, o fanatismo
ganhou terreno nas três grandes religiões. Mas a percepção
nas sociedades ocidentais não é essa. Não há
um terrorismo cristão matando gente.
R. Sim, mas existe um terrorismo budista matando
gente no Sri Lanka e, perdão que lhe diga isso, estou sentada
num hotel que se chama Reconquista, recordando que aqui se lutou em
nome de Deus. Embora soe estranho, os jihadistas não são
particularmente religiosos. Se fossem, insisto, eles não fariam
essas coisas. E a mídia é responsável por não
ressaltar, com a suficiente determinação, ideias que
vão contra essa imagem. Desde que começamos a nos transformar
num mundo global, no século XX, ganhou projeção
a ideia de como as religiões são diferentes: judaísmo,
cristianismo e islã. E existem pessoas que se refugiaram em
pequenos grupos que denominamos fundamentalistas. Isso começou
nos Estados Unidos e, posteriormente, chegou ao Oriente Médio
a partir da Guerra dos Seis Dias. A derrota árabe nesse conflito
foi vivida como um drama, e tudo isso levou a um sentimento de profundo
medo da aniquilação, do qual esses grupos se aproveitam.
P. Desde a Revolução Francesa,
é complicado o encaixe da religião na sociedade moderna.
A senhora enfatiza que a religião é um fator que ajuda
a manter as coisas tranquilas, mas a realidade parece seguir na direção
contrária.
R. Atualmente, escrevo um livro sobre a importância
da escritura nas religiões. E, para a minha surpresa, vi que
todas podem nos ajudar a lidar com nosso presente. Por exemplo, a
religião hindu trata do meio ambiente... e temos um furacão
avançando rumo à Irlanda [em referência à
tempestade Ofélia, que atingiu o país europeu em outubro].
As religiões monoteístas sempre insistiram na igualdade
e na justiça. É a mensagem do Corão, do Evangelho
e dos profetas de Israel, mas não encontramos ainda uma motivação
racional para promover a universalização dos direitos
humanos. E são as religiões, e não os Estados,
que hoje falam em nome dos pobres. Aí está o Papa –
nunca me imaginei dizendo isso – por exemplo. Realmente gosto
do que ele está fazendo. Está colocando o dedo na ferida,
e não vejo muitos outros fazendo isso. A separação
entre Igreja e Estado sempre é boa, mas a religião pode
servir de contrapeso.
P. Façamos um silogismo. As religiões,
segundo a sua obra, são algo essencialmente prático.
A tecnologia também é prática. É a nova
religião?
R. Dá um pouco de medo. Veja o caso
do Twitter. A ideia de que você pode expressar pensamentos substanciosos
em 140 caracteres, ou quantos forem, é perigosa, pois reduz
a complexidade. Isso sem falar de todo o ódio que aparece e
que as pessoas podem lançar sem estar cara a cara com os interlocutores.
Supostamente é algo que serve para unir, mas, ao mesmo tempo,
está fazendo aflorar alguns de nossos piores defeitos. Apesar
disso, é curioso como as pessoas preferem falar dessa maneira
em vez de fazê-lo pessoalmente. É até mesmo dramático
ver como um grupo sentado ao redor de uma mesa, em vez de conversar,
concentra-se individualmente em seus telefones. É estranho,
pois é como sair do próprio corpo. Os neurologistas
dizem que aprendemos através dele; por isso os rituais são
importantes. Não é por acaso que um muçulmano
reza voltado para Meca e que o canto tenha sido tão importante
na Idade Média. Esse aprendizado com o corpo está se
perdendo, especialmente desde o Iluminismo, e a tecnologia é
o último passo nessa direção.
P. Causa-lhe preocupação que grande parte das
novas gerações seja incapaz de processar ideias complexas?
R. Isso poderia acontecer. A tecnologia está mudando
a linguagem e a maneira de falar e escrever. Muita gente é
incapaz de escrever. Mas, para ser sincera, não escrevemos
durante tanto tempo assim; somente poucas pessoas podiam fazê-lo
até o século XIX. E devo dizer que, além do Papa,
tampouco vejo as pessoas no campo da religião utilizando a
complexidade. O islã, por culpa da influência saudita,
está sofrendo o crescimento do dogmatismo e da simplicidade
mal entendida. E não é o único. Representantes
da Igreja da Inglaterra se reuniram uma vez para debater a questão
dos padres gays. Pudemos ver isso, porque foi retransmitido pela BBC,
e eles falavam entre si com tanto ódio...
P. Existe remédio para isso?
R. Recordar a regra de ouro: nunca faça aos outros
o que não deseja que façam com você. Enquanto
não aprendermos a aplicar isso de uma maneira global, incluindo
a todos, gostemos deles ou não, o mundo simplesmente não
será um lugar onde se possa viver. É muito interessante
ver como muitas das pessoas que oferecem ajuda não são
os líderes religiosos, e sim homens de negócios, o que
tem seu lado bom porque eles sabem como fazer as coisas de uma maneira
prática. Alguns descobriram que a avareza e o egoísmo
são ruins para o negócio em si. Deveríamos estar
falando de como fazer para que as pessoas pensem nos demais. Buda,
Cristo e Maomé não viveram em sociedades pacíficas,
e sim mergulhadas em instabilidade, e os três insistiram que
não se pode aplicar a compaixão somente para os do seu
grupo.
P. Hoje, no entanto, como convencer alguém de que ter
compaixão não é ser fraco?
R. É um assunto complicado. Parte do problema não
tem a ver com ser forte ou fraco, mas com o fato de que estamos transformando
a religião numa espécie de viagem da pessoa em si mesma.
Há muita ioga que acaba parecendo um Cubo de Rubik (ou cubo
mágico), algo do tipo “seja mais feliz”. O mindfulness
[forma de meditação também conhecida como “atenção
plena”], por exemplo, é uma loucura. Tudo se baseia em
estar em contato com você mesmo, com os seus sentimentos, quando
na verdade o ponto central do mindfulness budista consiste justamente
no contrário: em renunciar completamente a você mesmo!
Existem pessoas que te dizem: “Ok, mas começo tendo compaixão
por mim mesma.” Isso é ficar muito aquém do objetivo.
É preciso ir até o final, compreender e amar os inimigos,
entendendo o que isso realmente significa. Não se trata de
algo sentimental, e sim de algo mais prático. Não é
se amar, é se ajudar e se importar com os interesses dos outros.
Se o Império Britânico tivesse se comportado segundo
essa regra de ouro, não teríamos tantos problemas hoje
no Oriente Médio.
P. O lema da diplomacia deveria ser algo como “não
faça o que não deseja que lhe façam”?
R. Sim. Após o atentado ao Charlie Hebdo em Paris,
estive na Jordânia num encontro com a família real, políticos
e diplomatas. Havia ali uma pessoa que tinha trabalhado no acordo
de paz com Israel. Em certo momento, ela disse: “O Ocidente
perdeu sua humanidade”, e isso me deixou comovida. Ela dizia
isso pela quantidade de pessoas que morrem – inclusive hoje
– em países como Iraque, Síria, Afeganistão
e Paquistão por ataques de drones ocidentais que nunca são
mencionados. Estamos dando a impressão ao mundo de que certas
vidas valem mais que outras. Deveríamos estabelecer relações
fraternais entre cidades, mas não como ocorre na Europa com
um bonito povoado alemão, e sim com lugares como Karachi; com
pessoas as quais possamos dizer: “Conte-nos o que estamos fazendo
de errado”.
P. E, no meio desse panorama, a senhora reivindica a música.
R. Sim, claro. A música é significado sem palavras.
Nos toca profundamente. É uma arte física, não
uma viagem mental. Durante muito tempo, os instrumentos foram fabricados
com tripas e tendões, algo muito físico, mas ao mesmo
tempo [a música] é misteriosa porque chega até
nós sem palavras e ajuda na nossa própria transcendência.
Agora que estou mais velha, o que preenche meu coração
são os cantos gregorianos que aprendi sendo freira. O que os
monges gregos fazem é incrível: o canto faz brotar o
sentido. Limitar-se a ler as escrituras religiosas não proporciona
isso. Assim, Haendel e Bach vêm resgatar as cerimônias
protestantes, para dar a elas essa dimensão. O silêncio
também é importantíssimo. Por exemplo, esse momento
que ocorre no final de um concerto, quando a orquestra terminou de
tocar mas ninguém ainda começou a aplaudir. É
um momento muito intenso.
P. Se essa música é tão importante, o
que escutamos diariamente em todos os lugares é uma perversão
da música?
R. Não sei. Eu era uma grande fã de Bob Dylan.
Ele é inconformista e tem letras maravilhosas. Quando deixei
de ser freira, foi a primeira voz moderna que escutei. Mas não
entendo a música atual. Dum-dum-dum. A música deve levar
nossa atenção a alguma coisa, não apenas rememorar
uma espécie de tambor tribal. É algo que deveria empurrar
você para fora de si. Como dizia Buda, depois de conseguir a
iluminação você deve voltar a se colocar no lugar
de um macaco e praticar a compaixão com todos os seres humanos.
Nenhuma dessas grandes pessoas ficou no alto da colina praticando
mindfulness e coisas do tipo. Buda enviou seus monges entre as pessoas.
Jesus não ficou sentado à mesa; inclusive era considerado
um criador de problemas. Confúcio foi falar com um imperador
sobre como mudar a China; e Maomé regressou a Meca para enfrentar
o caos que havia ali naquele momento.
P. A religião, então, não é algo
sobre o céu, e sim sobre o mercado?
R. É preciso ir ao mercado e levar algo. Maomé
dizia que você não pode professar uma fé se puder
dormir tranquilo sabendo que alguém passa fome. E nós
hoje sabemos da fome e da devastação em grande escala
porque as vemos nas telas todas as noites. Isso deveria nos trazer
um profundo incômodo, pois nos mostra como nossa vida é
incrivelmente privilegiada. Como prática espiritual, deveríamos
conservar conosco uma dessas terríveis imagens e recordá-la
três vezes por dia. Pensar nessa criança doente e faminta
desde a primeira hora da manhã. Podemos acreditar que não
se pode fazer nada, mas não devemos cair na autoindulgência
de dizer: “Sou muito sensível a isso, mas não
posso.” O incômodo é o que nos fará sair
da nossa armadura.
P. Mas agora podemos serenar nossa consciência dando
likes ou compartilhando fotos no Facebook.
R. Mas não é suficiente. É um pouco
perverso ter um instante de compaixão e depois passar para
outra coisa. Sentir-se incomodado com a realidade é bom; caso
contrário, algo estranho está acontecendo. Você
deveria se sentir incomodado!