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e relação entre espiritualidade e saúde mental
29/06/2017
Estudo da FMUSP avalia perfil de médiuns
e relação entre espiritualidade e saúde mental
22/06/2017
por Laila Mouallem
Desde tempos remotos, as experiências
espirituais têm sido objeto de discussão nas mais diversas
esferas da sociedade, de céticos a religiosos. São inúmeras
as interpretações de sua origem e, ainda que não
haja uma resposta definitiva, a comunidade científica tem se
dedicado cada vez mais ao tema nos últimos anos. Atualmente,
o Brasil é o 5º país que mais produz pesquisa em
espiritualidade e saúde, segundo busca na base de dados Scopus
realizada pelo pesquisador e psiquiatra Alexander Moreira de Almeida
– um dos mais reconhecidos estudiosos do assunto, e que hoje
compõe o Nupes (Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade
e Saúde), vinculado à Universidade Federal de Juiz de
Fora.
Na Universidade de São Paulo,
as pesquisas se iniciaram no final dos anos 1990. Nesse começo,
é relevante citar a fundação do Neper (Núcleo
de Problemas Espirituais e Religiosos) em 1999, da qual participou
Alexander. Ele conta que o Neper foi o primeiro grupo acadêmico
de estudo sistemático de medicina e espiritualidade no país,
e continua em atividade até hoje, mas com o nome de ProSER
(Programa de Saúde, Espiritualidade e Religiosidade).
Grandes nomes da Psiquiatria e da
Psicologia, no entanto, já haviam tomado a espiritualidade
enquanto objeto de análise, como Sigmund Freud, Carl Jung,
William James, Pierre Janet e Friedrich Meyer. Dentre as principais
hipóteses já levantadas, há uma grande diversidade:
a experiência mediúnica seria uma manifestação
do inconsciente do indivíduo; ela estaria relacionada à
patologia, sendo um quadro psicótico; as pessoas que vivenciam
esse fenômeno teriam, de fato, acesso a informações
paranormais, tendo uma expansão de sua capacidade mental e
uma percepção extrassensorial; ou, ainda, elas teriam
um contato real com outra dimensão e outras consciências
extracorpóreas.
Por ser um assunto de grande complexidade, que perpassa questões
culturais e religiosas, abordá-lo a partir de observações
científicas pode ser desafiador. Essa foi uma das principais
preocupações de Alexander, ele conta, ao desenvolver
sua tese de doutorado em 2004, intitulada Fenomenologia das experiências
mediúnicas, perfil e psicopatologia de médiuns espíritas,
pelo Instituto de Psiquiatria da FMUSP. De acordo com o pesquisador,
toma-se como ponto de partida o fato de que essas manifestações
sempre existiram; o que se põe em discussão são
tópicos como suas causas, por exemplo. “Nós consideramos
médiuns as pessoas que referem estar sob influência ou
ter o contato com uma dimensão espiritual. Se elas estão
ou não em contato, isso é um outro tópico”,
afirma. “A experiência em si, o que a pessoa vivencia,
é o que a ciência vai investigar – e isso é
um fato.”
A sua tese, portanto, teve como objetivo central
estudar questões de fenomenologia que envolvem os médiuns,
avaliando também seu perfil sociodemográfico, sua saúde
mental e o histórico de suas experiências. Para isso,
Alexander contou com entrevistas e aplicações de escala
de 115 médiuns espíritas em atividade, selecionando
aleatoriamente em centros espíritas da cidade de São
Paulo. “Posso perguntar o que ela sente, como ela sente, como
ela vê o que chama de espírito. E posso relacionar essas
experiências-relatos com outros dados. Por exemplo, as pessoas
que referem ouvir mais vozes de espíritos têm mais ou
menos depressão? Mais ou menos dificuldade de inserção
social?”, diz Alexander. “Então, nesse sentido,
a gente consegue estudar a religiosidade como fato objetivo, como
qualquer outro dado.”
Assim, o estudo considerou como médiuns pessoas
que tinham visões, ouviam coisas ou tinham um transe completo,
chamado de incorporação. Os resultados apontaram participantes
mentalmente saudáveis, com uma razoável adequação
social e altos níveis socioeducacionais. Além disso,
indícios da psicofonia – para os espíritas, a
comunicação de espíritos através da voz
do médium – foram definidos como a sensação
de presença e diferentes sintomas físicos, além
de sentimentos e sensações não reconhecidas como
do indivíduo. O mesmo vale para a intuição, que,
por sua vez, está relacionada ao surgimento de pensamentos
que a pessoa não identifica como sua. A audição
e a vidência, ainda, foram caracterizadas pela percepção
de imagens ou vozes interna ou externamente.
De acordo com Alexander, foi ainda apresentado que
quanto maior era a frequência dessas experiências, melhor
era a saúde mental desses médiuns; e essa saúde
mental era, ainda, melhor do que a da população em geral.
Outra conclusão importante da tese foi que a maioria dos participantes
tiveram o início de suas experiências mediúnicas
na infância, muitas vezes gerando sofrimento pelo não
entendimento dos fenômenos, mas sendo posteriormente integradas
de modo positivo em seus cotidianos.
A importância do diagnóstico diferencial
A constatação de que essas vivências
alucinatórias ou de influência não necessariamente
implicam em um diagnóstico de esquizofrenia, por exemplo, traz
à tona a necessidade de distinção entre tais
condições por parte da comunidade médica. “É
preciso tomar cuidado para não ‘patologizar’ uma
experiência normal, mas nem o inverso – ou seja, não
achar que é normal uma experiência patológica”,
afirma o pesquisador. A questão, por sua vez, tem sido muito
investigada. Alexander faz parte de um grupo de trabalho da OMS (Organização
Mundial da Saúde) que faz essa análise e que trabalhou
com uma proposta para o CID-11 – a próxima versão
da Classificação Internacional das Doenças.
Segundo o pesquisador, há alguns critérios
que ajudam a fazer essa diferenciação, ainda que não
sejam absolutos. Um deles é o sofrimento que a experiência
causa no indivíduo, gerando empecilhos em seu convívio
social e impossibilitando o desenvolvimento de atividades diárias,
como o trabalho ou o estudo. Além disso, há outros sintomas
específicos que estão presentes em um quadro de esquizofrenia,
como a desorganização cognitiva, que prejudica a capacidade
de raciocínio. São sintomas negativos, que não
acontecem na experiência espiritual, segundo Alexander. “A
pessoa saudável, de modo geral, tem uma certa noção
de que aquilo ali pode não ser bem compreendido pelos outros.
Ela tem um insight sobre o problema”, acrescenta. Outro ponto
é o controle sobre a experiência – com o tempo,
o indivíduo que não possui uma condição
patológica consegue lidar com essas manifestações,
extraindo até mesmo benefícios delas. “Ela gera
até um aprimoramento de sua personalidade e do seu bem-estar,
diferente da doença mental”, diz.
Distinção entre experiências
espirituais e transtornos mentais - Prof. Alexander Moreira-Almeida
Desde 2004, entretanto, avanços aconteceram na área.
Evidências disso são a criação de uma comissão
de estudos e pesquisa em espiritualidade e saúde mental pela
Associação Brasileira de Psiquiatria e o I Encontro
Global de Espiritualidade e Saúde Mental no Congresso Brasileiro
de Psiquiatria, ocorrido em Florianópolis, no ano de 2005.
Além disso, a Associação Mundial de Psiquiatria
agora tem uma seção dedicada à espiritualidade
e psiquiatria, da qual Alexander é o coordenador, e que publicou,
em 2016, um position statement – ou seja, uma normativa
– acerca da importância de psiquiatras conhecerem a espiritualidade
de seus pacientes.
Mas, mesmo que a visão acerca dos impactos
da espiritualidade na saúde tenha se modificado muito, há
ainda alguns desafios a serem ultrapassados na área. Dentre
eles, o pesquisador cita a importância de se aprofundar os conhecimentos
sobre diagnóstico diferencial entre experiências patológicas
e saudáveis. A tentativa de entender a origem dessa experiência,
por sua vez, também entra na lista de desafios. Alexander,
ainda, fala sobre a necessidade de se estudar as formas como a espiritualidade
influencia a saúde das pessoas, além da melhor maneira
de aplicar esses conhecimentos na prática clínica. “Não
se trata de doutrinar alguém, de converter a pessoa para uma
visão religiosa ou anti-religiosa. Jamais impor qualquer visão
é muito importante”, diz. “Mas trata-se de trabalhar
com a religiosidade, espiritualidade do paciente.”