15/06/2017
The New York Times
Sharon Otterman
Em Newark (Nova Jersey, EUA)

Paroquianos da Basílica da Catedral do Sagrado
Coração jantam após missa, em Newark
A palavra "peregrinação" geralmente
evoca visões de lugares distantes e exóticos, mas para
cerca de cem católicos gays e lésbicas dos EUA e suas
famílias uma peregrinação à Basílica
do Sagrado Coração, nesta cidade, em um domingo recente,
mais parecia uma festa de volta ao lar.
As portas da catedral foram abertas para eles, que foram recebidos pessoalmente
pelo líder da Arquidiocese de Newark, cardeal Joseph Tobin. Eles
se sentaram em cadeiras dobráveis no centro da catedral, na frente
do altar no grandioso santuário,
sob o brilho azulado dos vitrais.
"Eu sou Joseph, seu irmão", disse Tobin ao grupo, que
incluía católicos gays, lésbicas, bissexuais e
transgêneros de Nova York e das cinco dioceses de Nova Jersey.
"Eu sou seu irmão, como discípulo de Jesus. Sou seu
irmão, como um pecador que encontra o perdão no Senhor."
A recepção à missa de um grupo de pessoas declaradamente
gays, por um líder da estatura de Tobin na Igreja Católica
dos EUA seria impensável cinco anos atrás. Mas Tobin,
que o papa Francisco nomeou para Newark no ano passado, faz parte de
um pequeno mas crescente grupo de bispos que estão modificando
o modo como a Igreja Católica americana se relaciona com seus
membros gays. Eles tentam ser mais inclusivos e indicam aos sacerdotes
subordinados que devem fazer o mesmo.
"A palavra que eu uso é 'receptividade'", disse Tobin
em uma entrevista pouco antes da missa, em maio. "Estas são
pessoas que não se sentiram bem recebidas em outros lugares,
minha oração para elas é que se sintam. Hoje na
igreja lemos um trecho que diz que você tem de dar um motivo à
sua esperança. Eu estou rezando para que esta peregrinação
para eles, e para toda a igreja, seja um motivo de esperança."
Quatro anos atrás, o papa Francisco incendiou o mundo católico
com seu comentário sobre padres gays que buscam a Deus: "Quem
sou eu para julgar?" Mas não ficou claro como suas palavras
afetariam os católicos que buscam aceitação nos
bancos das igrejas.
Afinal, a igreja ensina no catecismo que os atos homossexuais são
"intrinsecamente desordenados". Os homens que "apresentam
tendências homossexuais arraigadas ou apoiam a chamada cultura
gay" não devem se tornar padres, segundo instruções
do Vaticano renovadas em 2016.
Os bispos católicos dos EUA se opuseram fortemente ao casamento
entre homossexuais. Mais de cem funcionários de instituições
católicas em todo o país perderam seus cargos nos últimos
três anos por serem gays ou se casarem com pessoas do mesmo sexo,
segundo Marianne Duddy-Burke, diretora-executiva da DignityUSA, uma
organização de católicos que defende a igualdade
para pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros.
Mas gestos como o de Tobin são uma evidência de que as
palavras do papa Francisco estão causando efeito. Os bispos hoje
têm latitude para se concentrar nas partes mais inclusivas do
catecismo católico sobre homossexuais, como o apelo a aceitá-los
com "respeito, compaixão e sensibilidade". Eles podem
seguir o princípio do acompanhamento, que significa que podem
se reunir com pessoas onde elas estiverem espiritualmente e formar relacionamentos
que as ajudem a aprofundar sua fé.
"É o começo de um diálogo", disse Francis
DeBernardo, diretor-executivo do New Ways Ministry [Ministério
Novos Caminhos], grupo que defende a atende aos gays católicos.
"A liderança da igreja, nos últimos 40 anos, foi
tão silenciosa e avessa ao diálogo, avessa a orar com
os católicos LGBT que, apesar de este não ser o último
passo, é um primeiro passo", disse ele sobre a receptividade
de Tolbin.
Alguns membros conservadores da igreja ficaram desconfiados, porém.
O problema, segundo eles, não é a ideia de receber - afinal,
Jesus recebia a todos -, mas que o abraço público a esse
grupo possa ser interpretado como a aceitação da igreja
de um estilo de vida homossexual, que o ensinamento da igreja proíbe.
"Todos são bem-vindos à igreja, mas ninguém
é aceito como é", disse o reverendo Robert Gahl,
professor de ética na Universidade Pontifícia da Santa
Cruz, da Opus Dei, em Roma. "Estou muito feliz que eles tenham
ido à missa na catedral, mas espero que o cardeal Tobin os tenha
desafiado, como devem fazer os bons pastores, a viver segundo os ensinamentos
de Jesus."
Em resposta, Tobin disse em uma entrevista na semana passada que misturar
boas-vindas com críticas não teria sido uma recepção
plena.
"Isso me parece um pouco atravessado", disse ele. "Foi
apropriado receber as pessoas para virem rezar e chamá-las do
que elas são. Mais tarde podemos conversar."
Para mostrar como o simples ato das boas-vindas pode ser delicado, o
cardeal disse que depois da missa ele recebeu uma grande quantidade
de mensagens de ódio de outros católicos. Alguém
estava até organizando uma campanha de cartas
para pedir que outros bispos o corrigissem.
"E há muita coisa a ser corrigida em mim, sem dúvida",
disse Tobin. "Mas não por receber as pessoas. Não."
Paróquias de todo o país têm há décadas
ministérios para gays e lésbicas. Mas forças mais
tradicionais prevaleceram entre a hierarquia da igreja, conduzida por
uma carta do Vaticano escrita em 1986 pelo cardeal Joseph Ratzinger,
mais tarde
papa Bento 16, advertindo contra qualquer aceitação da
homossexualidade.
Os gays católicos tornaram-se um dos grupos mais marginalizados
da igreja. Depois do tiroteio a uma boate em Orlando, na Flórida,
no último verão, por exemplo, só um punhado de
bispos americanos fez declarações públicas de apoio
à comunidade gay que havia sido alvo do ataque.
O reverendo James Martin, padre e autor jesuíta, disse que achou
o silêncio dos bispos revelador. Ele escreveu um livro pedindo
pequenos passos adiante, que seria lançado nesta semana, "Building
a Bridge: How the Catholic Church and the
LGBT Community Can Enter Into a Relationship of Respect, Compassion
and Sensitivity" [Construindo uma ponte entre a Igreja Católica
e a comunidade LGBT].
O livro pede que os líderes da igreja mostrem respeito usando
termos como "gay" e "LGBT", em vez de expressões
como "aflitos pela atração pelo mesmo sexo".
Ele também afirma que esperar um estilo de vida sem pecado dos
católicos gays, mas
não de qualquer outro grupo, é uma forma de "discriminação
injusta", e que os gays não devem ser demitidos por se casarem
com pessoas do mesmo sexo.
"O estilo de vida de quase todo mundo é pecaminoso",
disse Martin. "A menos que a Mãe Abençoada apareça
na fila da comunhão, não há ninguém sem
pecado em nossa igreja."
Em todos os EUA houve recentes gestos de abertura que não teriam
sido possíveis sob papas anteriores, disse DeBernardo.
A diocese de Jefferson City, no Missouri, por exemplo, disse no mês
passado que permitiria estudantes transgêneros em suas escolas.
Em outubro, o bispo Robert McElroy, de San Diego, organizou um sínodo
sobre a família que pediu um ministério melhor voltado
para católicos LGBT. Em uma conferência nacional do New
Ways Ministry em abril, o bispo John Stowe, de Lexington, Kentucky,
disse que admira e respeita pessoas LGBT que continuaram fiéis
à igreja apesar de nem sempre serem bem recebidas.
Tobin e o cardeal Kevin Farrell, prefeito do Dicastério para
os Laicos, a Família e a Vida, do Vaticano, que foi nomeado pelo
papa Francisco, escreveu comentários positivos ao livro de Martin.
Farrell, que antes foi bispo de Dallas (Texas), escreveu
que acredita que o livro "ajudará os católicos LGBT
a se sentirem mais em casa no que, afinal, é a sua igreja".

Reverendo Francis Gargani, no centro, durante missa
na Catedral Basílica do Sagrado
Coração
Mas as boas-vindas de Tobin na missa de 21 de maio foi
o mais significativo desses gestos recentes, por causa do simbolismo
de um cardeal receber um grupo de gays católicos, alguns deles
casados com pessoas do mesmo sexo, para participarem do
sacramento da comunhão no centro de uma catedral, sem qualquer
questionamento.
A "peregrinação LGBT" foi organizada por ministérios
gays da Igreja do Sagrado Coração em South Plainfield,
Nova Jersey, e a Igreja do Sangue Precioso em Monmouth Beach. Ela foi
consequência de uma conversa entre David Harvie, do grupo paroquiano
de South Plainfield, e o reverendo Francis Gargani, um padre do Brooklyn
que, como Tobin, pertence à Ordem do Santíssimo Redentor,
e levou a ideia a ele.
Tobin foi embora logo depois de receber os participantes da missa, afirmando
que tinha um compromisso anterior, mas oito padres a celebraram com
Gargani. O grupo também foi recebido pelo reitor da catedral,
bispo Manuel Cruz, que lhes disse que as portas da catedral estão
sempre abertas para eles, "porque somos filhos de Deus e nossa
identidade é que todos pertencemos a ele".
Muitos dos participantes foram levados às lágrimas. "Parecia
um milagre", disse Ed Poliandro, membro da paróquia de São
Francisco Xavier em Manhattan e um trabalhador social clínico.
"Foi um milagre ouvir líderes da igreja dizerem 'Vocês
são bem-vindos; vocês pertencem'. E eu senti, depois de
uma vida de lutas, que estamos em casa."
O antecessor de Tobin em Newark, arcebispo John Myers, enfatizou a imoralidade
da homossexualidade durante seu mandato, apoiando, por exemplo, a demissão
em 2016 da diretora de um colégio católico em Paramus,
Nova Jersey, que se casou com sua parceira lésbica. Por isso
a receptividade de Tobin foi especialmente poderosa para os membros
de sua própria diocese.
"Ele trouxe Francisco para nós", disse Thomas Smith,
66, um diácono que serve à comunidade de surdos na Catedral
de Newark. "Estive esperando 25 anos por isto. Sou diácono
da igreja e tinha de ser cauteloso. E temeroso."
Ele chorou ao lembrar que seus pais morreram pensando que ele iria para
o inferno se encontrasse alguém para amar. "Isto é
incrível para mim", disse Smith.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Fonte: https://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/2017/06/15/e-um-milagre-catolicos-gays-celebram-aceitacao-e-incentivo-em-igrejas-dos-eua.htm
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