15/06/2017
Cátaros: A heresia dos séculos
Para eles, Jesus não era filho de Deus e mulheres e homens eram
iguais. Uma cruzada foi convocada para sua destruição
por Pedro Silva

Cátaros sendo perseguidos | Crédito:
Wikimedia Commons Images
Os forasteiros chegam à pequena
vila sem causar nenhum alarde. Após percorrer centenas de quilômetros
a pé, seu andar tornou-se arrastado e seus calçados se
deterioraram. Têm a cabeça raspada e vestem-se de forma
maltrapilha, com uma longa batina de cor negra presa por uma tira fina
de couro. Após uma recepção praticamente inexistente,
eles começam a ser reconhecidos e respeitados pela comunidade.
Em pouco tempo, se tornarão líderes religiosos capazes
de fazer frente à influência da poderosa Igreja Católica.
No fim do século 12, as cenas
descritas acima se tornariam cada vez mais comuns na ampla região
do Languedoc, no sul da atual França. Cidade após cidade,
os cátaros iam espalhando sua fé, baseada na simplicidade
e na busca da pureza (katharos, em grego, significa “puro”).
A religião nascera do cristianismo, mas era marcada por profundas
diferenças em relação às doutrinas do Vaticano.
Acusados de heresia e até chamados de adoradores do diabo, os
cátaros provocaram uma implacável reação
do papado. O esforço para eliminá-los incluiu uma cruzada
e foi um dos principais motivos para a criação do Tribunal
do Santo Ofício – mais conhecido como Inquisição.
No século 14, cerca de 200 anos
após o catarismo ter surgido, seus últimos representantes
foram varridos do mapa. Para entender a intensidade da violência
promovida pela Igreja Católica contra eles, é fundamental
compreender como os cátaros foram capazes de conquistar os corações
e as mentes medievais. E sua brutal eliminação é
um dos exemplos mais bem acabados do incrível poder do papado
sobre a Europa da Idade Média.
Bispos vistosos
O primeiro grupo cátaro conhecido apareceu na
década de 1120, na cidade de Limousin. Logo eles chegaram a povoados
próximos, como Albi, Toulouse e Carcassonne, sempre no Languedoc.
A região, separada do resto do território francês
pelas montanhas dos Pirineus, era governada pela dinastia dos Raimundos.
Eram terras prósperas, fortes na agricultura e na indústria
têxtil. À primeira vista, seria difícil prever que
num local tão estável – e religioso – pudesse
surgir uma crença que desafiasse a Igreja. Mas, àquela
altura, a sociedade medieval estava passando por importantes transformações.
A Europa vivia uma fase de aumento populacional e melhoria
das condições de vida, com o desenvolvimento das cidades
medievais. No ambiente urbano, aumentava o contato entre as pessoas
e a busca pelo conhecimento. Uma parcela da população
começou então a refletir sobre várias questões,
entre elas a própria fé. Na origem da expansão
do cristianismo, que ocorrera cerca de nove séculos antes, estavam
valores como a pobreza, o sofrimento pessoal e a sensação
de unidade com Deus. Por volta do século 11, entretanto, a situação
do clero não era exatamente essa.
Por todo lado, pululavam grandes edifícios religiosos, magnificamente
ornamentados – alguns deles deram início ao estilo que
ficaria conhecido como “gótico”, que caracteriza
algumas das principais catedrais da Europa. Além disso, os sacerdotes
cristãos (sobretudo os bispos e seus representantes locais, os
padres) usavam os fartos recursos da Igreja para garantir a si mesmos
uma vida tranquila. A imagem típica do cristianismo, aquele Jesus
magro, de olhar triste e agonizando na cruz, era apenas uma vaga recordação
– o perfil do clero estava mais próximo do bispo rechonchudo
de roupas vistosas e dedos ornados com toda a sorte de joalharia.
Abaixo os dogmas
Diante das contradições
da Igreja, a influência dos cátaros avançava rapidamente.
Em 1167, alguns deles se reuniram no encontro que marcou o nascimento
oficial da nova religião: o concílio de Saint-Félix-de-Caraman
(hoje Saint-Félix-Lauragais, no sul da França). Compareceram
cátaros não só do Languedoc, mas de áreas
mais distantes como a Lombardia (na atual Itália) e a Catalunha
(hoje na Espanha). Muito pouco se sabe sobre o que ocorreu na reunião.
Ela provavelmente foi presidida por um homem chamado Nicetas –
um cristão dissidente vindo de Constantinopla e apelidado de
“papa” – e organizou as bases do catarismo.
Para os cátaros, o livro sagrado era a Bíblia (em particular
o Novo Testamento). Sua religião, entretanto, divergia muito
do catolicismo. O princípio fundamental era o dualismo: segundo
ele, o mundo seria composto de dois reinos opostos e coexistentes. O
primeiro, comandado por Deus, seria invisível e luminoso, onde
só existiria o bem. Já o segundo reino, material e visível,
seria controlado pelo diabo. Em outras palavras: segundo o catarismo,
o inferno ficava na Terra. E o objetivo da vida humana seria escapar
do mal através da purificação dos espíritos,
reencarnação após reencarnação. Se
isso fosse feito, quando chegasse o Juízo Final, todos se salvariam
e iriam para o reino de Deus.
Apesar de se considerarem cristãos, os cátaros não
acreditavam que Jesus fosse filho de Deus. Ele era apenas considerado
um profeta importante, que havia divulgado alguns ideais que mereciam
ser seguidos. Para completar a afronta ao catolicismo, os cátaros
viam São João Batista como nada menos que um instrumento
a serviço do diabo. Afinal, por meio do batismo, ele teria cumprido
a profecia de que Jesus era o messias – coisa na qual, como vimos,
o catarismo não acreditava.
Assim como a teoria, a prática
dos cátaros era bem diferente da dos católicos. Eles recusavam
o ritual da hóstia sagrada (em suas cerimônias, bastante
simples, havia apenas a repartição do pão). Tampouco
aceitavam o papel subalterno que o papado romano reservava para as mulheres
– para o catarismo, o ser humano não admitia distinção
entre sexos. A elas era permitido, inclusive, celebrar ritos religiosos.
A autoridade do papa ou de seus bispos
não era reconhecida pelos cátaros. Sem uma liderança
espiritual única, eles dividiam os seguidores da religião
em três níveis. O mais alto deles era o dos Perfeitos,
também conhecidos como “bons homens”. Para chegar
a esse posto, era preciso passar por duras provas e receber o Consolamentum,
o único sacramento cátaro (que, grosso modo, resumia num
só o batismo, a ordenação e a extrema-unção).
Os Perfeitos eram celibatários e passavam grande parte dos dias
em oração e jejum.
Abaixo dos Perfeitos estavam os Crentes, categoria que reunia a grande
maioria dos cátaros. Eles comungavam das práticas de virtude
e humildade, mas não estavam obrigados a qualquer tipo de abstinência.
Podiam casar (embora preferissem o concubinato) e só tinham direito
a receber o Consolamentum na hora da morte. O terceiro nível
da sociedade cátara era composto pelos Ouvintes. Simpatizantes
da religião, eles acompanhavam as palestras dos Perfeitos e se
curvavam perante eles para receber a bênção.
Na virada do século 13, o avanço
dos cátaros havia se tornado a maior preocupação
da Igreja. “Havia o perigo de que a contestação
à ordem imposta por Roma se estendesse rapidamente a outras regiões
da cristandade”, escreveu o historiador Ernest Bendriss em artigo
publicado na revista espanhola História y Vida. A reação
não tardaria.
Armas contra a fé
“Matem-nos todos. Deus saberá
reconhecer os seus!” De acordo com alguns registros, foi com essas
palavras que o abade Arnoldo de Amaury incitou à aniquilação
total dos cátaros que se escondiam na fortaleza de Béziers,
no Languedoc, em julho de 1209. Há quem defenda a tese de que
a frase nunca foi dita. De qualquer modo, ela resume bem o espírito
da sangrenta Cruzada Albigense – graças à grande
concentração de cátaros na cidade de Albi, eles
também eram conhecidos como “albigenses”.
Antes de recorrer às armas, entretanto,
a Igreja tentou combater o catarismo no campo da fé. Há
relatos de que, entre 1165 e 1198, os cátaros foram perseguidos
publicamente em locais tão díspares quanto Lombers (França),
Colônia (Alemanha) e Oxford (Inglaterra). Para ouvir e julgar
os hereges, a Igreja montou tribunais eclesiásticos. Graças
à experiência dos cátaros como oradores, entretanto,
eles se defenderam brilhantemente das acusações e viram
sua fé ganhar status de religião. Apesar de ter havido
algumas condenações, o prestígio dos Perfeitos
saiu fortalecido.
Em 1205, Domingos de Gusmão criou
a ordem dos dominicanos. Pregando uma postura moral exemplar e o retorno
aos princípios originais da cristandade, eles tentavam competir
com a “pureza” dos cátaros. O problema é que
os sacerdotes católicos não conseguiam se aproximar da
população como os Perfeitos. Quando um líder cátaro
chegava a uma vila, sua primeira preocupação era encontrar
emprego. Após trabalhar de dia para se manter, ele dedicava a
noite ao diálogo com os locais, procurando transmitir seus conceitos
religiosos. Enquanto isso, os monges católicos raramente eram
vistos em contato com o povo – optavam, em geral, pela clausura.
Diante da contínua perda de fiéis,
o papa Inocêncio III decretou o confisco dos bens de todos aqueles
considerados hereges. Sua vontade foi cumprida por todos os cantos da
Europa. Exceto no Languedoc, onde os governantes se recusaram a agir
contra os cátaros. A alternativa encontrada pelo pontífice
foi montar uma verdadeira força-tarefa: ordenou que os clérigos
se unissem aos pregadores dominicanos para, em conjunto, redobrar a
batalha pela fé no Languedoc. Sacerdotes católicos se
misturaram aos Perfeitos nas ruas, mas pouca coisa parecia mudar. Até
que um crime selou o destino dos cátaros.
Em 1208, o legado papal (figura máxima
da hierarquia da Igreja na região, representante direto do pontífice)
Pedro de Castelnau foi morto por alguns habitantes de Toulouse. Logo
correu a notícia de que os assassinos eram, supostamente, cátaros.
Inocêncio III teve, então, a deixa de que precisava. Em
10 de março, organizou uma cruzada liderada por Arnoldo de Amaury
e pelo bispo Folquet de Marselha. No campo de batalha, o comando coube
a Simão de Montfort, à frente de um exército com
10 mil homens.
Caçador de cátaros
Simão de Montfort acabou morto por uma guarnição
feminina
Antes de ser convidado para comandar
as tropas da Cruzada Albigense, Simão de Montfort, nascido por
volta de 1160, já havia sujado suas mãos de sangue em
nome da Igreja. Ele participara da fracassada Quarta Cruzada, entre
1202 e 1204. O movimento havia sido convocado para expulsar os muçulmanos
da Terra Santa, mas acabou se desviando um bocado do objetivo. Um dos
culpados foi o próprio Simão de Montfort, que no meio
do caminho resolveu saquear com seus homens a cidade de Zara (hoje Zadar,
na Croácia), contrariando as determinações do papa
Inocêncio III para que nenhum cristão fosse atacado durante
a campanha – a Quarta Cruzada, aliás, terminaria de modo
ainda pior, com a pilhagem de Constantinopla, em 1204. Anos mais tarde,
durante a Cruzada Albigense, Montfort reforçou sua reputação
de líder inflexível e implacável. Glorificado como
herói da fé católica por diversos cronistas, ele
foi o responsável direto pela morte de milhares de pessoas –
já que raramente dava ordens para poupar alguém. Em 1209,
Montfort se tornou visconde de Béziers e Carcassonne, duas localidades
que suas tropas haviam arrasado. Liderando um massacre após o
outro, ele logo se transformou no senhor absoluto da região do
Languedoc. Montfort lutou pela expansão de seus domínios
até a morte, em 1218, durante um cerco à cidade de Toulouse.
Segundo alguns relatos, ele foi atingido por uma pedra atirada por uma
catapulta da guarnição feminina da resistência cátara
– destino apropriado para alguém conhecido por ser “firme
como uma rocha”.
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Além dos cátaros, o alvo
da cruzada foram os principais nobres que davam proteção
a eles: o conde Raimundo VI de Toulouse e o visconde Raimundo Rogério
de Trencavel. O primeiro grande ataque, em Béziers, surpreendeu
pela violência intensa e indiscriminada. Cátaros e católicos,
Perfeitos e padres, não importa: todos foram massacrados pelos
cruzados. “Os cruzados não mostravam clemência. Mulheres
e crianças amontoaram-se na igreja de Santa Maria Madalena, na
parte alta da cidade”, escreve o historiador canadense Stephen
O’Shea em A Heresia dos Cátaros. “Deveriam
ter sido à volta de mil, um cálculo baseado na capacidade
da igreja. Fossem quantos fossem, a igreja estava apinhada de aterrorizados
católicos e cátaros quando os cruzados derrubaram os portões
e massacraram todos os que ali se encontravam”, completa. Em 1840,
durante uma reforma do templo, várias ossadas foram descobertas
sob o piso.
Estima-se que, em Béziers, nada menos que 20 mil pessoas tenham
sido mortas – praticamente toda a população da cidade.
Depois disso, os cruzados destroçaram Carcassonne, Bram, Minerve,
Termes e Lavaur, ignorando quaisquer tentativas de rendição.
Como recompensa pelo extermínio dos hereges, os cruzados ganharam
o perdão pelos seus pecados – e puderam repartir entre
si as riquezas e terras do Languedoc. A carnificina só parou
em 1229, quando foi celebrado o tratado de paz de Meaux-Paris, entre
Raimundo VII de Toulouse e o rei Luís IX da França.
A fogueira final
Inocêncio III morreu sem ter conseguido
extinguir o catarismo. A tarefa coube a seu sucessor, Gregório
IX, que assumira em 1227. Com a situação aparentemente
controlada em termos militares, o papa teve uma idéia que seria
decisiva para a história dos séculos seguintes. Em 1231,
por meio da bula Excommunicamus, criou a Santa Inquisição.
Não é exagero dizer que a caça aos cátaros
foi uma das principais razões para a novidade. Afinal, após
anos de perseguição, eles haviam mudado sua maneira de
agir. Agora, os Perfeitos misturavam-se à população,
sem usar a tradicional veste negra. Para facilitar a identificação
dos cátaros, a Inquisição empregava métodos
sofisticados – e sórdidos – de interrogatório
e investigação.
A última ação militar
contra os cátaros foi o cerco a Montségur, em 1243. Naquela
época, a Inquisição já havia provado sua
eficácia para eliminar seletivamente os hereges. Depois das condenações
nos tribunais inquisitórios, a Igreja usava o “fogo purificador”:
de acordo com o discurso oficial, a morte na fogueira seria a única
forma de salvar as almas dos cátaros.
Encurralados, os cátaros eram colocados diante da seguinte escolha:
negar sua fé ou enfrentar a fogueira. De uma forma ou de outra,
a religião ia sendo exterminada. Em 1321, foi executado o último
sacerdote cátaro conhecido, Guillaume Bélibaste, que havia
se refugiado no oeste da Espanha. Cerca de um século depois,
já não se ouvia mais falar de seguidores do catarismo.
Terminava assim a trajetória dos contestadores que, com humildade
de caráter e simplicidade de métodos, haviam conquistado
o respeito do povo – da mesma forma que os primeiros cristãos
haviam feito, 12 séculos antes, na Palestina.
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Heresias sortidas
Na época dos cátaros, católicos também
desafiaram a Igreja
Papa Gregório V / Foto: Wikimedia Commons
Images
Percebendo que a Igreja estava se desviando
de seus princípios originais, o papa Gregório V promoveu
uma ampla mudança na instituição. A Reforma Gregoriana,
iniciada em 1075, reforçava a obrigatoriedade do celibato no
clero e atacava a simonia (a venda de falsas relíquias cristãs).
Enquanto o papado tentava reestruturar o catolicismo, entretanto, a
confusão teológica era generalizada. Além de grupos
cristãos dissidentes – entre os quais os cátaros
se destacaram –, a Igreja daquela época foi obrigada a
enfrentar vozes dissonantes dentro de sua própria comunidade
de seguidores e sacerdotes. Em 1110, o religioso Tanchelm de Antuérpia,
originário da região de Flandres (hoje na Bélgica),
levou alguns fiéis católicos a idolatrá-lo cegamente
– a ponto de aceitarem beber a água que ele usava para
tomar banho. Crítico dos rumos da Igreja, ele se proclamou messias
e acabou preso na cidade alemã de Colônia. Ficou na cadeia
entre 1113 e 1114 e, no ano seguinte, após ser libertado, foi
morto por um padre católico. Na mesma época, Pedro de
Bruis, nascido na Provença, quis reformar a Igreja na marra.
Apesar de ser padre, ele chacoalhou o sul da França promovendo
ataques a igrejas e queimando crucifixos – assim como os cátaros,
ele detestava a opulência dos templos católicos e desprezava
o significado místico da cruz. Acusado de heresia, foi executado
na fogueira em 1126.
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Saiba mais
A Heresia dos
Cátaros – Uma Revolução Medieval, Stephen
O’Shea, 2003
Hereges de Deus – A Cruzada dos Cátaros e Albigenses, Aubrey
Burl, 2003
Fonte: http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/cataros-a-heresia-dos-seculos.phtml#.WUKRw2jyuHv
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