27/05/2017
Por Texto: José Tadeu Arantes | Agência
FAPESP
Cento e vinte e nove anos depois da abolição
da escravidão, e a despeito do mito da democracia racial, o preconceito
de raça continua bastante disseminado na sociedade brasileira
– tão disseminado que se manifesta até mesmo no
interior de “famílias inter-raciais”.
Esta foi a conclusão de uma pesquisa
realizada pela psicóloga social Lia
Vainer Schucman.

O estudo foi tema de pós-doutorado realizado
na Universidade de São Paulo (USP) com apoio da FAPESP,
colaboração de Felipe Fachim
e supervisão de Belinda
Mandelbaum, coordenadora do Laboratório de Estudos da
Família do Instituto de Psicologia da USP.
“Nosso objetivo foi verificar
se e como as hierarquias raciais da sociedade se reproduzem no interior
de famílias cujos integrantes se autoclassificam diferentemente
em relação à ‘raça’: como ‘brancos’,
‘negros’ ou ‘mestiços’. E como essas
hierarquias coexistem e interagem com os afetos”, disse Schucman
à Agência FAPESP.
Além de esgotar a literatura especializada, a pesquisa, que se
estendeu por três anos, valeu-se de entrevistas presenciais com
13 famílias de diferentes regiões do país. Os resultados
foram reunidos no livro Famílias Inter-raciais: tensões
entre cor e amor, com lançamento previsto para 2017.
“O tema configurou-se a partir de minha interação
com pessoas dessas famílias – pessoas que, por assim dizer,
vivenciavam as ‘contradições raciais’ em suas
próprias peles. Isso aconteceu no final da minha pesquisa de
doutorado, que tratou da questão da ‘branquitude’
[leia a respeito dessa pesquisa anterior em http://agencia.fapesp.br/20628].
Nessa época, em função do estudo que estava realizando,
comecei a ser bastante convidada para dar palestras. E, frequentemente,
depois das palestras, pessoas se aproximavam para contar casos de sofrimento
decorrentes do racismo em suas próprias famílias. Isso
ocorreu muitas e muitas vezes. A partir dessas conversas, percebi que
as famílias poderiam ser uma chave para entender as relações
‘inter-raciais’ no contexto maior da sociedade”, disse
a pesquisadora.
Schucman partiu do pressuposto de que “raça” não
é um dado biológico, mas uma construção
social. Trata-se, segundo ela, de uma construção, baseada
no fenótipo, que engendra e mantém profundas desigualdades
materiais e simbólicas na sociedade, e impacta o cotidiano de
milhões de pessoas.
“Se a existência de ‘raças humanas’ não
encontra qualquer comprovação no âmbito das ciências
biológicas, elas são, contudo, plenamente existentes no
mundo social, como afirmou o sociólogo Antonio Sérgio Alfredo Guimarães”,
disse Schucman. Com base nesse critério, ela selecionou, para
o estudo, famílias nas quais pelo menos um dos integrantes reconhecia
que o grupo familiar era composto por pessoas de diferentes raças.
Uma mesma família pode ser considerada ‘inter-racial’
para um de seus integrantes e não ser para outro. Além
disso, uma família tida como ‘inter-racial’ no Rio
Grande Sul pode ser classificada como ‘branca’ na Bahia.
Diante da fluidez das classificações, decidi que só
consideraria uma família como ‘inter-racial’, e portanto
objeto do estudo, se minha impressão subjetiva fosse corroborada
por um dos membros da própria família. Se alguém
me dissesse ‘eu sou negro e minha irmã é branca’,
ou ‘meu pai é negro e minha mãe é branca’,
ou qualquer outra afirmação desse tipo, a família
se enquadraria no escopo da pesquisa”, explicou.
Segundo a literatura especializada,
as relações inter-raciais iniciaram-se no Brasil, no âmbito
da vida privada, desde os primórdios da colonização
– principalmente a partir do estupro e de outras formas de violência
cometidas por “homens brancos” portugueses contra “mulheres
negras” ou “indígenas”. O censo de 1960 apontou
que, naquele ano, 8% dos casamentos eram “inter-raciais”
no país. Em 2010, esse percentual saltou para 31%. Ou seja, quase
um terço das uniões matrimoniais realizadas no Brasil
acontece entre pessoas que se autoclassificam como sendo de “raças
diferentes”. “O fenômeno é muito comum entre
as classes mais pobres, porém raríssimo entre as classes
ricas”, comentou Schucman.
“Atualmente, a configuração
predominante é a do casamento do ‘homem negro’ com
a ‘mulher branca’, ou do ‘homem pardo’ com a
‘mulher mais clara’. Alguns estudos, como os de Elza Berquó
e Ana Claudia Lemos Pacheco, sugerem que tal predominância decorre
de uma sobreposição de sexismo e racismo, produzindo uma
hierarquia na qual o ‘homem branco’ é a principal
escolha e a ‘mulher negra’ é a grande preterida”,
prosseguiu a pesquisadora.
De acordo com Schucman, uma peculiaridade
da formação cultural do Brasil é o “racismo
de intimidade”. Ao contrário do racismo segregacionista,
que prevaleceu na África do Sul ou no sul dos Estados Unidos,
o que temos aqui é um tipo de racismo que pressupõe a
interação entre “brancos” e “negros”.
E essa relação pode eventualmente ser mediada pelo afeto,
sem deixar de ser racista. “Meu propósito foi analisar
como as ‘famílias inter-raciais’, na sua intimidade,
vivenciam, negociam, constroem ou descontroem o racismo”, disse.
Com base nessa diretriz, suas entrevistas
mostraram que a questão racial pode assumir, no contexto intrafamiliar,
uma ampla gama de configurações: desde o racismo explícito
e brutal, com manifestações de violência física,
até negações extremamente sutis, mediadas pelo
afeto.
O racismo nu e cru
“A história mais dura que
recolhi foi a de uma jovem universitária que me procurou quando
eu já havia dado por encerrada a fase de entrevistas. Ela era
fenotipicamente ‘negra’, filha de mãe ‘branca’.
E me contou que, quando pequena, sua mãe cantava assim: ‘Plantei
uma cenoura no meu quintal / Nasceu uma negrinha de avental / Dança
negrinha / Não sei dançar / Pega no chicote, ela dança
já’. A canção de ninar da mãe não
só era racista, mas também escravista’, disse Schucman.
Conforme a pesquisadora, essa “mãe
branca”, empregada doméstica, de olhos azuis, nordestina
de Recife, tinha casado várias vezes sempre com homens “negros”.
E chamava os ex-maridos de “macacos”. O pai da jovem, pedreiro,
nascido na Bahia, e classificado pela filha como “preto retinto”,
foi o segundo deles.
“Eles haviam se conhecido em São
Paulo. E, quando entrevistei a jovem universitária, estavam separados
há muito tempo. O pai já tinha 80 anos; e a mãe,
70”, detalhou a pesquisadora. A jovem relatou a ela que “soube
que era negra desde pequena”, devido às violências
que sofria por parte da mãe. Quando brigava com ela, a mãe
a chamava de “macaca” e “preta fedida”. Dizia
que seu cabelo era “ruim” como o do seu pai e batia nela
quando chorava ao ser penteada. “Eu olhava para o meu pai, e aquele
homem, que tinha uma identidade negra extremamente negativa, se colocava
como inferior mesmo”, contou a entrevistada.
Na interpretação de Schucman,
essa mãe, uma mulher pobre, ignorante, humilhada, com a autoestima
muito baixa, usava sua “branquitude” como único valor
e instrumento de poder. “Seu racismo não era do tipo meio
disfarçado, meio jocoso, que é tão comum encontrar
no Brasil. Era um racismo cruel, violento, em um contexto de extrema
pobreza. Quando estava desempregada e não tinha um marido para
ajudar, a mãe e os filhos se transformavam em pedintes, e precisavam
bater nas portas de pessoas conhecidas para conseguir comida. A ‘branquitude’
foi a única coisa que lhe restou e ela a usava de maneira muito
tosca, muito básica”, disse.
“Um dos precursores da área
de pesquisas que hoje chamamos de ‘estudos críticos da
branquitude’, o norte-americano William Du Bois, nomeou, no início
do século passado, como ‘salário público
e psicológico’ aquilo que que confere à pessoa branca
acessos e privilégios simbólicos, por pior que seja sua
situação. Eu parti desse conceito e percebi que, na família
em questão, a ‘raça’ era, de fato, um modulador
dos vínculos afetivos. Porque os irmãos ‘mais claros’
sofriam menos. A jovem era a ‘mais escura’. E precisava
dormir com um pregador de roupa no nariz, porque a mãe achava
que, assim, ele iria afinar”, disse Schucman.
A despeito de uma infância tão
adversa, a jovem conseguiu chegar à universidade, e entrou em
contato com o movimento social negro. Foi por meio da atuação
política e do rap que começou a reconstruir sua identidade.
Mais tarde, buscou também a psicoterapia.
“Ela me disse que há duas
pessoas dentro dela: uma que participa do movimento, que é militante,
que assume o cabelo crespo; outra que ainda é
aquela criança massacrada. Afirmou que acredita firmemente que
um dia vai encontrar a redenção. Mas, por enquanto, essa
criança continua lá. E dói”, disse Schucman.
O outro lado da negação
Outras entrevistas mostraram à pesquisadora formas
bem mais sutis de negação, levando-a a concluir que o
racismo das pessoas não necessariamente impede o afeto. “Na
maioria dos casos, o indivíduo ‘negro’ é amado
por seus familiares. O que ocorre, isto sim, é que, por amá-lo
ou para amá-lo, esses familiares muitas vezes negam sua condição
de ‘negro’. Em vez de reelaborarem o seu racismo com o intuito
de superá-lo, os familiares simplesmente retiram a pessoa amada
do grupo estigmatizado. Utilizei o conceito de ‘negação’,
de Freud, para interpretar esse comportamento”, explicou.
No caso de uma das famílias ouvida por Schucman,
originária da Bahia, a mãe considerava que todos os seus
familiares eram “brancos”. E que, portanto, a própria
entrevista não fazia sentido. Mas um dos filhos se autoconsiderava
“negro, com uma irmã branca”, vivendo, assim, em
uma “família inter-racial”. Para a mãe, essa
ideia do filho era “uma bobagem, que ele adotou depois de entrar
na universidade”. Esse filho era o que recebia o maior afeto da
mãe, mas, para que pudesse amá-lo, ela, de alguma forma,
precisava negar que ele fosse “negro”. Daí o conceito
de “negação”.
Por uma dessas “ironias do destino”, que
parecem exemplificar o conceito psicanalítico de “retorno
do recalcado”, a irmã do rapaz, que nascera “bem
clara”, “bem branca”, teve um relacionamento “inter-racial”
com um homem que a família classificava como “muito preto”.
E ficou grávida. A expectativa em relação à
cor da criança provocou o maior período de tensão
na dinâmica intrafamiliar. “A mãe dessa família,
portanto avó da criança, me disse uma frase altamente
significativa: ‘Estávamos muito nervosos. Mas, quando vimos
que minha neta havia nascido branca, todo mundo se apaixonou por ela’”,
contou Schucman.
Quando a pesquisadora entrevistou a família,
a menina tinha já 14 anos, e se autoclassificava ora como “morena”
ora como “mulata”, dizendo que não era “negra”
porque as “negras” tinham cabelo crespo e ela alisava o
dela. “Assim como seus familiares, ela precisava negar sua ‘negritude’
para legitimar o afeto que recebia”, disse.
Segundo Schucman os traços fenotípicos
do filho provinham provavelmente de seu pai. Mas este era o grande ausente,
o grande desconhecido, cuja presença nenhuma foto documentava
e sobre o qual nada se dizia. Por outro lado, a mãe, apesar da
pele clara e dos cabelos alisados, tinha visivelmente ancestrais negros,
embora não os reconhecesse como tal.
No caso de outra família entrevistada, de São
Bernardo do Campo, no Estado de São Paulo, o pai não era
desconhecido, desaparecido ou ausente. A família convivia com
ele, o amava, mas a mãe nunca admitiu que seu marido fosse “negro”.
De acordo com a pesquisadora, a filha do casal sofreu
ainda outros tipos de negação. Quando era criança,
e ia passar os finais de semana com suas primas por parte de pai, voltava
sempre com os cabelos trançados, no estilo afro. Ao chegar em
casa, a mãe lhe dizia que aquilo estava horrível, e imediatamente
desmanchava as tranças. E, mesmo quando adulta, se colocava brincos
muito grandes ou vestia roupas mais coloridas, a mãe a criticava
por “usar coisas de negro”.
“Ela me disse: ‘Minha mãe falava
que eu era quase branca, mas que meu nariz não era de branco.
Quando pequena, sempre tive a sensação de tentar ser algo
que não era, a sensação de ser corporalmente inadequada.
Mais tarde, quando tive filho, minha mãe falou para eu passar
bastante a mão no narizinho dele enquanto ainda era bebê,
e a cartilagem era molinha, para afinar a forma”, disse Schucman.
A conclusão da pesquisadora é a de que,
no Brasil, é possível ser contra o racismo, achar que
o racismo é um mal a ser combatido, casar com “negro”,
e, mesmo assim, ser racista. Racista no sentido de hierarquizar as pessoas
a partir do fenótipo, de achar o “cabelo do branco”
mais bonito, o “nariz do branco” mais bonito, e assim por
diante. “Mas, se a ‘família inter-racial’ é,
muitas vezes, o lócus de vivências racistas, ela também
pode ser um espaço privilegiado para o acolhimento e o desenvolvimento
de estratégias de enfrentamento do racismo da sociedade envolvente,
como pude verificar em mais de uma entrevista”, disse.
Fonte: http://agencia.fapesp.br/pesquisa_investiga_marcas_do_racismo_em_familias_interraciais/25364/
>>> clique aqui para acessar a página principal
de Notícias
>>>
clique aqui para voltar a página inicial do site
>>>
clique para ir direto para a primeira página de Artigos, Teses e Publicações