29/04/2017
Na véspera da viagem do Papa de Roma, Francisco
I, ao Egito, a superficialidade e as distorções com as
quais se vê os cristãos do Oriente, a partir do Ocidente,
assediam a difícil visita ao Cairo. Dão a entender que
o líder cristão mais acompanhado pelo sistema midiático
global sairá de Roma para oferecer um pouco de visibilidade efêmera
aos batizados um pouco desafortunados das Igrejas orientais, espalhados
em terras muçulmanas. Mas, seria suficiente ver precisamente
os coptas, sua história e sua condição
presente, para intuir que talvez o Papa Francisco vá ao Cairo
movido pelo espírito de mendigo. Como um peregrino que busca
repouso nos rostos e nas palavras dos mártires e dos santos,
porque são eles que oferecem o testemunho de que “Cristo
está vivo” (homilia do Papa Francisco na Basílica
de São Bartolomeu, na Ilha Tiberina, durante a liturgia em memória
dos Novos Mártires).
- reportagem da REVISTA IHU ON-LINE
Copta

ou.Remenkimi en.Ekhristianos, literalmente: "cristão
egípcio" - são egípcios cujos ancestrais abraçaram
o cristianismo no século I.
Formam um dos principais grupos etno-religiosos do país. A palavra
"copta" foi usada originalmente no árabe clássico
para se referir aos egípcios em geral, porém passou por
uma mudança semântica ao longo dos séculos, e passou
a se referir mais especificamente aos cristãos egípcios
depois que a maior parte da população egípcia se
converteu ao Islã (após o século VII).
Foi por volta do século III que surgiu
o termo copta, palavra essa que se referia a egípcio, sendo uma
variação da palavra grega aiguptios
de onde originou-se a palavra egípcio. Inicialmente, copta designava
tanto o povo que vivia no Egito e um dos idiomas utilizado no país,
a língua copta, surgida no século III,
baseada no alfabeto grego e na escrita demótica,
sendo essa de origem egípcia. Assim, quando o Antigo Testamento
foi traduzido para o grego, os cristãos coptas como ficaram conhecidos,
transcreveram o Antigo Testamento para seu idioma, isso contribuiu para
a identidade desses cristãos.

Edição da Bíblia escrita em
língua copta
Cristianismo Copta
O Cristianismo copta é uma das várias igrejas cristãs
existentes pelo mundo, sendo uma das mais antigas da História
e particulares em suas origens, já que foi a primeira igreja
cristã estabelecida no continente africano. Ao longo dos séculos,
a igreja copta se desdobrou em várias outras igrejas de mesma
vertente, e hoje possui adeptos em vários cantos do mundo.
Marcos
A história do Cristianismo no continente africano
começa bem cedo ainda no tempo do Império Romano, quando
o Egito era uma província do mesmo. Segundo fontes religiosas
e historiadores romanos, gregos, judeus, etc., o Cristianismo teria
sido pregado no continente pelo apóstolo Marcos Evangelista.
De acordo com alguns historiadores do século I como Eusébio
de Cesareia, por volta de 43, Marcos viajou de Roma para a Alexandria,
com a missão de pregar a palavra de Cristo no Egito. Nessa época,
Alexandria era a maior cidade da província egípcia, e
o porto mais importante do império no continente africano. Alexandria
era uma metrópole da Antiguidade, tendo crescido muito desde
que foi fundada no século IV a.C por Alexandre, o Grande. Nesse
caso, pessoas de vários cantos do império romano e até
mesmo de além desse, iam para essa cidade.
Porém, não foi apenas pelo fato de Alexandria
ser uma cidade grande e movimentada, nela já existiam pequenos
grupos de judeus por essa época. Os primeiros cristãos
foram judeus que aceitaram Jesus Cristo como sendo o Messias, logo estes
judeus acabaram posteriormente se tornando os cristãos. Tal fato,
levou alguns historiadores a denominarem estes indivíduos de
"cristãos primitivos" ou "judeus-cristãos".

Marcos pregando em Alexandria, Gentile Bellini
A reportagem abaixo é de Gianni Valente, publicada
por Vatican Insider, 24-04-2017.
Uma Igreja que não se esconde
Os coptas não pedem para ser “defendidos”
e tampouco procuram protetores estrangeiros. Reivindicam, às
vezes, até mesmo de maneira exasperada, a própria fisionomia
de cristianismo autóctone. Dizem que são os “verdadeiros”
egípcios, que se tornaram cristãos durante a época
da pregação apostólica, muito antes da chegada
dos conquistadores muçulmanos. Desde então, sempre mantiveram
a própria propensão a se arranjarem sós. Sua própria
história os distancia de qualquer tentação de se
imaginar como representantes do Ocidente cristão in partibus
infidelium.
Durante as controvérsias cristológicas do século
V, inclusive a adesão às fórmulas monofisitas (que
rejeitavam uma distinção muito nítida entre a natureza
humana e a natureza divina de Cristo) e a rejeição ao
Concílio de Calcedônia foram adotadas
pelos coptas como fator de distinção e contraposição
em relação aos “calcedônios” ocupantes
bizantinos. Quando chegaram os conquistadores muçulmanos, os
coptas os receberam como libertadores.
A forte pegada autóctone dos coptas voltou a surgir com força
quando nasceu o Egito moderno, com a massiva participação
nas diferentes passagens do processo de emancipação nacional.
Grande parte deles, com a benção do Patriarca
Cirilo V, envolveram-se no movimento nacionalista contra a
dominação britânica, entrando em massa (após
a Primeira Guerra Mundial) no Wafd, o bloco
nacionalista que levaria o Egito a sua independência. Sua luta
comum com os muçulmanos contra os estrangeiros foi sincera e
convencida: os coptas não viam nenhum benefício na perpetuação
do protetorado britânico, que lhes parecia parte do jogo do proselitismo
protestante e das Igrejas ocidentais. Nessa época, o bispo Sergio
incitava à revolta, a partir da catedral do Cairo, e a abria
aos muçulmanos, depois que o governo, sob a ala britânica,
tinha fechado a mesquita de al-Azhar.
Convencidos também da consistência numérica (na
atualidade, estima-se que são cerca de 10 milhões, mas
eles afirmam ser muito mais), os coptas nunca se submeteram docilmente
à condição de minoria remota, essa que o direito
muçulmano reserva aos dimes, os que acreditam nas demais
religiões abraâmicas. Sua visibilidade social, alimentada
pelo “despertar espiritual” de matriz monástica,
que se verificou durante o século passado, expressa-se em manifestações
exuberantes. Sua devoção não ficou encerrada em
seus corações, nem no silêncio de suas igrejas:
as peregrinações, os jejuns comunitários, as conferências,
as catequeses para jovens nas igrejas em que se pronunciam hábeis
pregadores são expressão ordinária de sua vida
comunitária.
Na era Mubarak, com sua companhia eclesial estruturada,
os coptas representaram (com a Irmandade Muçulmana)
a única realidade popular capaz de oferecer redes de proteção
social, de saúde e educacional aos próprios fieis. E o
perfil não marginal da comunidade copta sempre teve um peso,
inclusive nas últimas décadas, no complexo jogo de suas
relações com o poder político e com a maioria muçulmana.
Nenhum desconto dos Reis
Em outros países árabes, como Iraque e Síria, os
regimes autoritários “pan-arabistas” representaram
portos de sobrevivência para as comunidades cristãs locais.
Contudo, para os “volumosos” coptas egípcios nunca
foi assim. Após a revolução de 1952, justamente
o regime de Nasser, ao insistir na identidade “árabe-muçulmana,
tratou de relegá-los à condição marginal
de entidade “estrangeira”, assimilando-os com outras comunidades
cristãs não autóctones. Durante os anos 1970, para
encontrar consensos em sua marcha para se distanciar do socialismo nasseriano
filossoviético, o presidente Sadat se abriu ao islã conservador,
anunciando a intenção de islamizar a legislação.
A mobilização dos coptas, em 1980, contra uma proposta
de lei que previa a condenação à morte em caso
de apostasia, inaugurou um período de tensões que acentuaram
a fenda de mútuo ressentimento entre a comunidade copta e o regime,
com Sadat, que fez prender oito bispos e obrigou o
Patriarca Shenouda III a se exilar, durante anos, no
mosteiro de Anba Bishoy.
Inclusive, na formal proclamação dos princípios
do laicismo, sob Sadat e depois sob Mubarak,
prosseguiu a marginalização dos cristãos pelos
quadros das instituições públicas. Em 1910, entre
os funcionários públicos, os coptas representavam 45%,
ao passo que no Parlamento, em inícios dos anos 1990, os coptas
eram somente 7 de 454. Após as chamadas Primaveras Árabes
e o parêntese islamista de Mohamed Morsi, o novo
homem forte do Egito, o presidente ex-general Abdel Fattah al-Sisi,
demonstra sinais inéditos de atenção e consideração
para com a Igreja copta. Durante os últimos anos, ela se tornou
o objetivo da violência dos grupos islamistas e dos massacres
perpetrados pelo terror jihadista.
As “geometrias variáveis”
com o islã
Nas relações mais que milenares entre os coptas e os muçulmanos
egípcios aconteceu de tudo. Os primeiros governadores muçulmanos
garantiram aos coptas um lugar nenhum pouco marginal no interior da
nova ordem islâmica. Depois, com os soberanos mamelucos começaram
as violências e, sob o domínio dos sultões turcos,
os coptas foram reduzidos ao status de minoria étnico-religiosa
tolerada e submetida, segundo o sistema otomano das Millet.
No Egito moderno, o crescimento da Irmandade Muçulmana
e do islã político contribuíram para a marginalização
política dos coptas. Diante do aumento da violência contra
os cristãos, durante as últimas décadas (com um
saldo aproximado de mais de 1.800 cristãos assassinados nos últimos
35 anos), os coptas nunca esconderam ou minimizaram as perseguições
sofridas, mas denunciaram claramente a falta de proteção
por parte dos onipresentes aparatos policiais. Contudo, os líderes
leigos e eclesiásticos da Igreja copta sempre
evitaram reagir à violência com acusações
genéricas e indiferenciadas à comunidade muçulmana.
Em suas intervenções oficiais, os líderes coptas
sempre chamaram à concórdia inter-religiosa como garantia
da unidade do país, reivindicando a própria comunidade
de destino com os muçulmanos. E sempre evitaram se identificar
excessivamente com o Ocidente. Com os muçulmanos, muitos coptas
compartilham também a desconfiança frente aos modelos
da modernidade ocidental, considerados como fatores de ateísmo
prático e de perda da identidade comunitária. Durante
as últimas décadas, esta linha “realista”
só tem sido contestada e colocada em dificuldades pelo ativismo
de alguns setores da diáspora copta nos Estados Unidos, Canadá
e Austrália.
As redes do terror
As redes do terror têm muito claro qual é o caminho para
desestabilizar o Egito e sabem que passa pela deliberada provocação
de enfrentamentos confessionais entre os coptas e os muçulmanos.
No entanto, já em 1981, quando os ataques contra cristãos
provocaram 17 mortes em Zawiya-el-Hamra, o Conselho comunitário
da Igreja copta se referia a um Egito em que “os
minaretes e os campanários se abraçam”, e onde a
unidade nacional havia nascido com as batalhas em que “o sangue
do muçulmano se misturou com o sangue do cristão”.
Desse modo, os cristãos coptas se distanciam das armadilhas do
sectarismo. E, sobretudo, continuam tendo uma visão cristã
frente aos casos martiriais que vivem em carne e osso, evitando protestos
e recriminações “perseguicionistas”. Diante
dos últimos massacres de coptas, perpetrados pelos terroristas
em duas igrejas, no Domingo de Ramos, o Patriarca
Tawadros II consolou os irmãos convidando-os a considerar
que as vítimas, justamente por ter morrido nesse dia, levaram
“os ramos de palma e de oliveira ao próprio Cristo”,
e no momento do martírio, passando através da dor, chegaram
“à alegria gloriosa da Ressurreição”.
Se esta é a história passada e recente da Igreja
copta, talvez deveriam considerá-la certos auto-eleitos
“protetores” tresnoitados, que com suas fúrias militantes
mortificam e insultam os cristãos do Oriente, tratando-os como
agentes sequestrados em terras estrangeiras.
Fontes: http://www.ihu.unisinos.br/566943-o-tesouro-dos-coptas
Fonte complementar: http://seguindopassoshistoria.blogspot.com.br/2012/05/cristianismo-copta.html

- Gravura, de Marcos, o Evangelista

-
Gravura da cruz Copta

- Arte Copta
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