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> Dirigido por Martin Scorsese e com atuações
brilhantes, o filme Silêncio trata dos percalços
do cristianismo no antigo Japão
15/03/2017
por Paulo Cavalcanti
Em meio à polêmica que pautou o Oscar deste
ano, envolvendo o vencedor Moonlight – Sob a Luz do Luar
e o mais “popular” La La Land – Cantando Estações,
algo ficou claro. A temporada foi contemplada por outros títulos
mais consistentes e incisivos que sequer foram indicados.
É o caso de Silêncio, dirigido
por Martin Scorsese, uma adaptação do livro homônimo
de 1966, escrito pelo autor católico japonês Shusaku Endo
(em 1971, o diretor Masahiro Shinoda já havia transformado a
história no filme Chinmoku).
O enredo e alguns personagens são fictícios,
mas a obra é calcada em fatos reais. Ex-seminarista, Scorsese
coloca em seus trabalhos questionamentos sobre a pratica cristã
e por mais de 30 anos quis fazer a própria versão de Silêncio,
que é um dos longas mais pessoais já feitas pelo cineasta.
No século 17, o governo japonês exterminava
de maneira cruel o cristianismo do país. Os jesuítas que
ainda se encontravam por lá eram torturados das formas mais horrendas
possíveis, sendo que a decapitação e a crucificação
são as práticas mais comuns. Mas eles também eram
queimados vivos, esfolados e colocados para sangrar como se fossem gado.
Os convertidos eram obrigados a renegar Cristo, ou teriam o mesmo destino
dos jesuítas. No meio disso, em 1640, o Padre Rodrigues (Andrew
Garfield) e o Padre Garrupe (Adam Driver) vão conversar com o
superior deles, Padre Valignano (Ciarán Hinds), e são
informados de que um importante jesuíta, o Padre Ferreira (Liam
Neeson), que foi para o Japão com intenção de disseminar
o cristianismo, teria perdido a fé e abandonado a causa. Ferreira,
vivendo em Nagasaki, agora teria adotado o estilo de vida japonês
e, além de pregar o budismo, a religião de lá,
também seria um blasfemo, tendo até pisado na imagem de
Jesus Cristo. Ferreira foi mentor e professor de Rodrigues e Garrupe,
que não acreditam no relato e pedem permissão para ir
até o Japão. Mesmo sem conhecer a língua e os costumes
locais e munidos apena de fé, eles desembarcam em um ambiente
hostil, deparando-se com aldeias dizimadas, igrejas destruídas
e repressão por todos os cantos. O guia deles é Kichijiro
(Yosuke Kubozuka), que a princípio pode parecer um simples alívio
cômico, mas se revela muito mais dúbio e trágico
do que aparenta – ele é o Judas de Rodrigues e Garrupe.
A missão de Garfield e Garrupe no Japão é similar
à do Capitão Willard (Martin Sheen) no Vietnã em
Apocalypse Now. No clássico de Francis Ford Coppola, o militar
vai até o distante Vietnã para executar o renegado Coronel
Kurtz (Marlon Brando). Mas se em Apocalypse Now o capitão
Willard se deparava com um Kurtz insano, apostando na anarquia e no
niilismo da guerra, o encontro de Rodrigues com Ferreira tem outro efeito.
O padre apóstata se encontra em plena faculdade mental. Ele diz
ao discípulo que o Japão não necessita de outro
Deus ou de qualquer outra alternativa religiosa. Fala que os nativos
estão muito satisfeitos com a fé que seguem e não
estão interessados em interferência externa. E também
confronta Rodrigues, argumentado que a jornada dele é apenas
uma demonstração de ego. Ao enfrentar uma dolorosa carga
de sacrifícios e provações, ele quer apenas se
igualar a Jesus Cristo.
Quem também está de olho em Rodrigues
é o governador Inoue Masashige (Issey Ogata), também conhecido
como O Inquisidor. Com ameaças veladas e usando fatos e bons
argumentos, o governador quer cooptar Rodrigues. “O Japão
é um imenso pântano. Nada cria raízes aqui”,
ele fala, reforçando que é bobagem tentar implementar
o cristianismo no país.
Com mais de duas horas e meia de duração,
e sem nenhuma trilha sonora para aliviar a tensão, Silêncio
é austero, espartano e rigoroso. Com atuações esplêndidas
e que exigiram muito dos atores tanto emocional quanto fisicamente,
é um filme que também demanda enorme concentração
e esforço por parte do público. Scorsese não toma
partido. Não compromete a visão com sentimentalismo ou
algum sermão desnecessário. Beleza, horror e fé
estão juntos neste que é um dos filmes seminais da temporada.