28/02/2017
Reportagem do jornal El País e da Revista Nature
Três crânios encontrados na República
Checa associados com o período gravetiano
O estudo genético de restos mortais de europeus
que morreram há milhares de anos, abriu uma janela única
para a pré-história do continente. O trabalho abrange
grande parte do Paleolítico Superior, de 45.000 até 7.000
anos atrás, e revela vários episódios até
agora desconhecidos.
“O que vemos é uma história das
populações tão complexa quanto a dos últimos
7.000 anos, com muitos momentos em que populações substituem
outras, imigração em uma escala dramática e em
um momento no qual o clima estava mudando radicalmente”, resumiu
David Reich, geneticista da Universidade de Harvard e principal autor
do estudo, publicado na revista Nature.
O estudo analisou o DNA de 51 euroasiáticos,
uma amostra 10 vezes maior que qualquer estudo anterior. Abarca desde
os humanos modernos mais antigos registrados aos caçadores-coletores
que viveram pouco antes da revolução neolítica
que trouxe consigo a agricultura ao continente.
A primeira conclusão do estudo é que, embora os neandertais
e os humanos modernos (os Homo sapiens) se cruzaram e tiveram filhos
férteis, a percentagem de DNA dessa outra espécie que
carregamos diminuiu rapidamente, passando de 6 % para os 2% de hoje.
Isto implica certa incompatibilidade evolutiva que já tinha sido
destacada por outros estudos recentes.
Há 19.000 anos, alguém enterrou na Cantábria
uma das mulheres mais misteriosas da pré-história
europeia. Trata-se da Dama Vermelha, que em seus 35 ou 40
anos recebeu uma sepultura muito estranha, o que poderia indicar
um significado sagrado. Seu cadáver tinha decomposto
ao ar livre e, em seguida, seus ossos foram cobertos com tinta
vermelha. Tanto deviam respeitar aquela mulher que um de seus
ossos foi cuidadosamente devolvido ao túmulo depois
que um animal selvagem o profanou para se alimentar. Além
de uns desenhos esquemáticos e a presença de
pólen, pouco se sabe sobre a mulher e o significado
que a cultura à qual pertencia queria dar à
sua sepultura. A senhora é um dos 51 indivíduos
que foram analisados neste estudo. A equipe de Manuel González
Morales está preparando uma reconstrução
do aspecto que teve essa mulher, cujo genes mostram que era
negra, explica.
Embora os primeiros sapiens tenham chegado à
Europa há cerca de 45.000 anos, sua marca genética desapareceu
completamente nas populações atuais. As primeiras populações
que possuem algum parentesco com os europeus de hoje remontam a uns
37.000 anos atrás. Os autores do trabalho identificam essa população
com o período aurignaciano.
Embora os primeiros sapiens tenham chegado à
Europa há cerca de 45.000 anos, sua marca genética desapareceu
completamente nas populações atuais.
“Estão associados a esta cultura os primeiros
exemplos de arte e música, assim como as pinturas da caverna
de Chauvet na França ou as flautas de ossos”, diz Manuel
González Morales, pesquisador da Universidade da Cantábria
e coautor do trabalho.
Naquela época, a Europa vivia a última
idade do gelo, com geleiras avançando do norte da Europa e empurrando
povos inteiros à migração ou ao extermínio.
Segundo dados do trabalho, há 33.000 anos outro grupo substitui
quase totalmente o anterior e é associado com o período
gravetiano, caracterizado por pinturas com as mãos em negativo
e as redondas estatuetas das Vênus paleolíticas esculpidas
em osso, explica González.
Inesperadamente, há cerca de 19.000 anos, reaparecem os descendentes
do período aurignaciano. Os restos humanos encontrados na Cantábria
mostram agora que os habitantes desta região estavam diretamente
relacionados com eles.
Uma das possíveis explicações é que aquele
povo migrou para refúgios quentes do sul da Europa, em particular
a Península Ibérica. Depois do momento mais frio da última
idade do gelo esta população volta a se expandir para
o norte da Europa, recuperando o território perdido e substituindo
seus habitantes.
Última onda
Mais uma vez, cerca de 14.000 anos atrás, outra
população vinda das terras do Oriente Médio desembarca
no continente e passa a ser dominante, substituindo boa parte das anteriores.
Esta última onda, que não era conhecida até agora,
foi identificada pelos restos de um caçador e coletor encontrado
em Villabruna, Itália e que deu nome a esta população.
A marca genética deste grupo se perpetuou durante
milênios, já que, por exemplo, o caçador coletor
de La Braña (Leão), que viveu há 7.000 anos estava
relacionado com este grupo.
Os genes do homem de La Braña mostram que tinha pele escura e olhos azuis.
De acordo com González, até a chegada de seus ancestrais
à Europa cerca de 14.000 anos atrás, todos os europeus
tinham a pele escura e os olhos castanhos.
“O trabalho mostra que os primeiros indivíduos
com genes de pele clara viveram há uns 13.000 anos”,
explica o pesquisador da Universidade da Cantábria.
Depois, com a chegada dos primeiros agricultores do
Oriente Médio começa o Neolítico e a pele branca
se torna muito mais comum. Em outras palavras, os europeus foram negros
durante a maior parte de sua história.
Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/05/04/ciencia/1462380282_766551.html
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