18/02/2017
por Eliana Haddad
Correio Fraterno
Doutor e mestre em lógica e filosofia
da ciência pela Unicamp, graduado em física pela UFRJ,
Cosme Massi é hoje reconhecido no meio espírita por
ser um grande estudioso da ciência e da filosofia espírita.
Carioca radicado em Curitiba, ele dedica grande parte de seu tempo
para difundir o espiritismo não só através
de livros e palestras, mas pela mídia digital. A fundação
do Instituto de Pesquisas Espíritas Allan Kardec,em
2008 encabeçada por ele junto ao um grupo de estudiosos,
é a base para frentes de interação, via site,
com quem deseja estudar e entender a fundo o espiritismo. Ao participar
em agosto de 2015 em São Paulo, do Encontro Nacional da Liga
de Pesquisadores do Espiritismo (ENLIHPE
- 2015), Cosme Massi concedeu ao Correio Fraterno esta reflexiva
entrevista.
Qual o objetivo do seu
trabalho para a divulgação do espiritismo?
Explicar as obras e o pensamento de Allan Kardec. Usamos a lógica,
as ciências e a filosofia como ferramentas para explicar os principais
conceitos utilizados por Kardec. O espiritismo, disse Kardec, é,
ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma
doutrina filosófica. A publicação de Kardec é
um modelo de simplicidade e profundidade. Nosso objetivo é contribuir
para evidenciar a riqueza, o rigor científico-filosófico,
a coerência lógica e a atualidade dessas publicações.
Foi isso que o levou a criar o Instituto de Pesquisas Espíritas
Allan Kardec e o Clube Kardec ?
Sim. Criamos o IPEAK e com um grupo de amigos, colocamos todos os textos
de Kardec relacionados entre si. Neste site é possível
estudar toda a produção de Kardec, inclusive nos originais
franceses. Por outro lado, muitas pessoas enviam-me questões
sobre a obra de Kardec, que expressam dificuldades de leitura e interpretação.
Assim, resolvemos criar o Clube Kardec, um site para explicar o pensamento
e a obra de Kardec, onde o estudioso conta com vídeos que explicam,
inicialmente, O livro dos espíritos, com seus itens
ordenadamente aprofundados e também com diversos temas filosóficos
para a compreensão do pensamento de Kardec.
Em sua opinião, o espiritismo corre perigo se não lhe
forem preservadas as bases?
O espiritismo, tal como formulado nas obras de Kardec, é uma
genuína ciência da alma. Seus textos apresentam de forma
lógica e completa os princípios fundamentais dessa ciência.
O texto de Kardec é tão claro e completo que não
deixa espaço para deturpações. Enquanto continuarem
sendo estudados e divulgados, o espiritismo, como qualquer ciência
bem formulada, não tem nada a temer. As verdades que expressa,
como todas as leis naturais, são eternas e cedo ou tarde se impõem.
O que você nota de mais conflitante do espiritismo do
século 19 e o de hoje?
A falta de estudos profundos e metodicamente bem conduzidos como aqueles
que eram realizados na Sociedade Espírita de Paris, sob o comando
de Allan Kardec. Hoje, de uma forma geral, muitas pessoas enfrentam
dificuldades para estudar, ou ler e interpretar adequadamente, as obras
de Kardec. Essas dificuldades são consequências da baixa
qualidade da educação do país. Os nossos índices
de leitura e de interpretação adequada de textos estão
entre os mais baixos do mundo. A Revista Espírita,
por exemplo, é pouco estudada de forma metódica e profunda.
Nem tudo o que está na Revista Espírita
está nas obras da codificação. Ao estudá-la
não há risco de tomarem-se suas afirmações
por universais?
O conteúdo da Revista Espírita é totalmente
consistente com o conteúdo das cinco obras mais conhecidas de
Kardec . Kardec, no seu pequeno livro Catálogo racional das obras
para se fundar uma biblioteca espírita, denomina todas as suas
obras, incluindo a Revista Espírita, de obras fundamentais
do espiritismo. Ele recomenda o estudo da Revista Espírita simultaneamente
com o estudo das suas outras obras. Ela é fundamental para se
entender com mais detalhes e profundidade vários dos princípios
e dos fenômenos estudados nas outras obras. Claro que nela há
textos que não se encontram nas outras obras, mas não
são textos que entram em contradição com elas.
Kardec não é repetitivo, quando não há necessidade
de sê-lo. A Revista Espírita complementa e explica
as suas outras obras e os princípios fundamentais do Espiritismo.
Se não a estudarmos, corremos o risco de ter uma visão
incompleta e deturpada do espiritismo.

Por que não se fala mais em magnetismo, por exemplo,
se Kardec disse que as duas eram ciências irmãs?
O magnetismo, que foi investigado também por Kardec no século
19, é o estudo da ação dos Espíritos, encarnados
ou desencarnados, sobre os chamados fluidos magnéticos humanos,
elementos sutis e de natureza material desconhecida. Kardec, em A
gênese, faz uma análise desses fluidos, mostrando
como refletem as qualidades morais dos Espíritos que os manipulam.
O estudo desses fluidos se relaciona diretamente com o estudo do perispírito,
por isso a estreita ligação do magnetismo com o espiritismo.
O magnetismo investiga uma parte do conjunto dos fenômenos espíritas
estudados pelo espiritismo. Neste sentido é que se pode dizer
que o magnetismo e o espiritismo são ciências irmãs.
Há nas obras de Kardec importantes referências e contribuições
para o estudo do magnetismo. No século 19, tais estudos eram
mais comuns do que hoje, principalmente na Europa. Não estudei
a razão porque são mais raros hoje. As duas grandes guerras
mundiais e o progresso tecnológico têm favorecido os estudos
e desenvolvimentos das ciências que se apoiam diretamente na física
e na química modernas. O paradigma materialista determina, no
presente, os investimentos para os estudos e pesquisas. Aguardemos o
futuro.
Existe uma ciência espírita? Em que ela difere
da ciência "oficial"?
Sim, a ciência contida nas obras de Kardec. A ciência espírita
é a ciência que trata do Espírito como elemento
independente da matéria. As chamadas ciências oficiais
estudam a matéria e suas propriedades. A diferença essencial
está, portanto, no objeto de estudo. Claro que as chamadas ciências
humanas estudam o homem e o seu mundo mental, mas o fazem com o pressuposto
de que o pensamento é uma propriedade do cérebro, não
a de um Espírito imortal. Assim, os objetos de estudo são
bem distintos. O estudo do Espírito, como ser independente da
matéria, foi elaborado por Kardec de forma rigorosamente científica,
segundo as mais modernas concepções de ciência.
O espiritismo é, sem sombra de dúvidas, uma genuína
ciência da alma imortal.
O espiritismo é uma ciência completa?
Nos seus princípios fundamentais, sim. O paradigma, o programa
de pesquisa ou a teoria fundamental se encontram formulados nas obras
de Kardec. Uma ciência é o resultado da interação
harmoniosa da razão com a experiência. O desenvolvimento
da ciência espírita deve ser conduzido seguindo a estrutura
lógica e experimentalmente comprovada dos conceitos e princípios
elaborados por Kardec e pelos Espíritos Superiores, e que se
encontram claramente nessas obras. O progresso de uma ciência
não pode ser confundido com a aceitação de propostas
sem fundamentos e que entram em contradição com os princípios
já estabelecidos e comprovados.
Há algo na teoria espírita que já tenha
sido superado por outras pesquisas?
Desconheço. Tenho estudado as obras de Kardec por mais de trinta
anos e até agora não fui apresentado a algum novo conhecimento
espírita que possa, com fundamento racional e científico,
superar o que ele apresentou nas suas diversas obras. Claro que estou
falando dos conhecimentos a cerca dos objetos de estudos do espiritismo:
os Espíritos, sua natureza, origem e destino, bem como suas relações
com o mundo corporal. Informações que Kardec tenha utilizado
das ciências oficiais de sua época podem ter sido alteradas.
Mas isso não se trata de espiritismo.
A terceira revelação está completa?
Se denominarmos, como fez Kardec na obra A gênese, o
espiritismo como a terceira revelação, já respondemos
que o espiritismo é uma ciência completa, no que diz respeito
aos seus princípios fundamentais. Mas, se a pergunta se refere
à possibilidade de uma quarta revelação, não
creio. Pois como nos disse o Espírito de Verdade, no capítulo
VI, do Evangelho segundo o espiritismo: "Deus dirige um supremo
apelo aos vossos corações por meio do espiritismo."
A expressão 'supremo apelo' pode ser interpretada como uma indicação
de que uma nova revelação seja completamente desnecessária.
Sendo o espiritismo uma ciência muito bem construída e
com a sublimidade de sua moral, não vejo o que poderia surgir
de mais racional, convincente e consolador.
Um dos pontos mais incompreendidos é a reencarnação,
tida por muitos como castigo. Por que isso acontece?
Kardec nunca deixou dúvidas sobre o que é a encarnação
ou a reencarnação e seus objetivos. Muitas das perguntas
que recebo refletem uma incompreensão de algum conceito ou lei
proposta pelo espiritismo, decorrência da falta de estudos das
obras de Kardec. A reencarnação é uma necessidade
para o progresso do Espírito, não é necessariamente
um castigo ou punição. Existem reencarnações
que são, ao mesmo tempo, provas e expiações e que,
como expiações, são consequências do mal
anteriormente praticado. Mas, nem toda reencarnação é
uma expiação ou uma punição. Os Espíritos
Bons da Escala Espírita, que só desejam o bem, reencarnam
até atingirem o estado de Espírito Puro, mas suas reencarnações
não são punições, pois nenhum mal praticaram
como Espíritos Bons para serem punidos. Os Espíritos Imperfeitos,
ao praticarem o mal, reencarnam em situações de expiação
ou punição. Arrependimento, expiação e reparação
expressam ao mesmo tempo a justiça e a misericórdia de
Deus. A misericórdia divina concede sempre novas oportunidades
aos Espíritos Imperfeitos de repararem o mal praticado. Ninguém
fica perdido no reino de Deus. Todos têm oportunidades de recomeçar
e refazer um caminho mal percorrido. Nenhum mal fica impune, mas, também,
todo aquele que pratica o mal terá a oportunidade de repará-lo.
Qual seria o papel das casas espíritas para a melhoria
da sociedade?
Ensinar o espiritismo conforme se encontra nas obras de Kardec. O indivíduo
educado segundo o espiritismo se torna um cidadão melhor, transformando
para melhor a sociedade em que vive. A casa espírita deve ser
antes de tudo uma escola de educação espírita.
A vida em sociedade só se tornará equilibrada e feliz
com a transformação moral dos seus indivíduos.
O ensino bem conduzido produz a crença e esta é a base
para a prática da caridade. Só a caridade possibilita
uma vida social verdadeiramente feliz, conforme observa Kardec:
"Nós reconhecemos que a base da caridade
é a crença; que a falta de crença conduz ao materialismo,
e o materialismo ao egoísmo." (Viagem espírita,
1862, Discurso III)
Para saber mais, acesse:
IPEAK: www.ipeak.com.br
Clube Kardec: www.clubekardec.com.br
Fonte: Publicado no jornal Correio
Fraterno - Edição 465 setembro/outubro 2015
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