08/02/2017
Livro de professora da UFF
analisa relação entre religiosidade e tráfico
Anos de estudo de campo em favelas e periferias do Rio de Janeiro levaram
a professora da UFF Christina Vital a concluir que a ascensão
das igrejas pentecostais reconfigurou a relação entre
religião e tráfico. As pesquisas realizadas no complexo
de favelas de Acari, entre 1996 e 2009, e no morro Dona Marta, de 2005
a 2009, sinalizaram o crescimento do que a pesquisadora chama de “gramática
pentecostal” – visão de mundo baseada em crenças
que afetam a economia, a política, a cultura, a sociabilidade
e até mesmo a criminalidade nesses espaços. A extensa
análise resultou no livro “Oração de Traficante:
uma etnografia”, financiado pela Faperj e lançado como
fruto de sua tese de doutorado em Ciências Sociais pela Uerj.
Christina é vinculada ao Programa de Pós-Graduação
em Cultura e Territorialidades e ao Departamento de Sociologia da UFF.
A docente conta que ainda hoje frequenta Acari, seja
pela curiosidade como pesquisadora de acompanhar os desdobramentos do
trabalho de campo, seja pelos laços criados com os moradores.
“Fiz a pesquisa lá desde a década de 1990, na iniciação
científica, depois veio o mestrado, então havia períodos
em que a aproximação se dava de modo mais sistemático.
Mas nunca deixei de ir a Acari, também porque ali foram construídas
redes de afeto, estive lá muitas vezes a passeio, para conversar
com as pessoas ou fotografar. Acompanhei três décadas de
presenças religiosas nas favelas de Acari e percebi como aquilo
afeta os moradores e o tráfico local”.
A proximidade com Santa Marta, comunidade situada na Zona Sul do Rio,
ocorreu pela intenção de estabelecer, no doutorado, uma
comparação com Acari, na Zona Norte da cidade. “A
intenção era de não focar apenas num espaço,
mas de poder falar da cidade a partir de dois territórios, um
na Zona Norte, outro na Zona Sul. De modo geral, em Acari a sensação
de ser abandonado pelo poder público era maior do que na Santa
Marta, porque as estruturas de oportunidade e de serviços públicos
e privados fazem muita diferença na sensação de
segurança ou de esquecimento, de ser atendido ou não.
E essas distinções têm a ver com as diferenças
da cidade como um todo”, analisa.
De acordo com Christina, apesar de serem regiões geograficamente
distintas entre si, havia diversos pontos em comum, como a disputa do
território e a formação de redes internas de solidariedade
e proteção. “Acari é um complexo de favelas,
com uma situação de tensão constante entre diversas
facções e as milícias. Em Santa Marta, entre 2001
e 2002, aproximadamente, ocorreu uma tentativa de ocupação
do território com o Bope. Ali era um núcleo importante
de domínio do Comando Vermelho, e tinha um simbolismo histórico
nesse sentido. Quando comecei a pesquisa, em 2005, o Bope não
estava mais lá e exisitia uma grande atuação do
tráfico, como uma cracolândia no lugar que hoje é
a Praça do Cantão, com uma situação muito
pesada e de degradação”, recorda. No morro Dona
Marta, a autora ainda acompanhou o início do processo de ocupação
da favela, a partir da instalação da primeira Unidade
de Polícia Pacificadora (UPP) do Estado do Rio de Janeiro. Uma
questão complexa, segundo ela, ora recebida com desconfiança,
ora de maneira esperançosa em virtude das promessas de melhorias
na localidade.
As estruturas
de oportunidade e de serviços públicos e privados
fazem muita diferença na sensação de
ser atendido ou não.
E essas distinções têm a ver com as
diferenças da cidade como um todo", analisa
Christina Vital.
“Em termos históricos, ‘Oração de Traficante’
marca um debate, porque foi o primeiro trabalho acadêmico que
analisou como a proximidade do universo evangélico veio alterando
formas de comportamento e a cultura local. Isso se deu por meio de dados
empíricos, privilegiando a fala dos envolvidos, tanto dos evangélicos,
quanto dos traficantes, incluindo chefes do tráfico”, ressalta
a professora. Um dos elementos que, para ela, materializa essa mudança
é o surgimento de pinturas com textos bíblicos nas paredes
da comunidade de Acari, cuja aparição se torna gradualmente
crescente, evidenciando a ascensão evangélica.
Christina defende que o papel da Antropologia e da Sociologia Urbana
é estar sempre em campo acompanhando as dinâmicas na prática.
“Os dados empíricos nos dão condição
de trazer complexidade ao debate, de não exotizar e nem falar
em ‘vitoriosos’ e ‘perdedores’ nesse jogo. Justamente
porque há forças em disputa, com situações
de predomínio num momento e de submissão em outro. Diferentemente
da perspectiva de sociabilidade violenta, que diz que os traficantes
são um domínio armado e que eles fazem o que querem, há
um espaço de diálogo entre o que agrada ou desagrada os
interesses das pessoas e os lugares onde eles estão operando”,
conclui.
A seguir, leia a entrevista com a professora
Christina Vital.
Qual é o diferencial dessa pesquisa em relação
a outras que tomam a religião e as favelas como temática
de estudo, na sua opinião?
Nas primeiras pesquisas sobre religião e a relação
com os presidiários, falava-se muito que as conversões
tinham um caráter utilitário, situacional, no qual a conversão
era marcada por um interesse do preso estar numa cela mais protegida
e gozar de uma moral social renovada. Quando comecei a expor a proximidade
do tráfico com a religião nas periferias, alguns atores
na academia questionaram: ‘que proximidade é essa?’,
‘os traficantes são de fato evangélicos?’.
Mas quem falou que não são, se eles estão dizendo?
Não é só uma questão de rezar a arma na
boca de fumo, que aparece como algo espetacularizado. Eles vão
aos cultos mais de uma vez por semana ou o fazem em suas casas, promovem
cultos de ação de graças, vários deles pagam
dízimo. Não podemos dizer que são falsas conversões.
No livro, conto como os traficantes apresentam e justificam tal comportamento
e qual a qualidade da aproximação dessas narrativas.
Na trajetória de vários traficantes que eu entrevistei,
principalmente nas décadas de 1980 e 90, o presídio fazia
parte dessa história de contato com a cultura pentecostal e com
as redes evangélicas, em virtude da assistência que religiosos
fazem no ambiente prisional é que se começou o acesso
de modo mais consistente e sistemático à doutrina e aos
cultos. Hoje em dia, com o fortalecimento desse caldo cultural pentecostal
nas favelas, acho que o quadro mudou. As prisões deixam de ter
a centralidade que tinham no processo de conversão e aproximação
dessas pessoas.
A importância desse estudo é também a de trazer
um dado que estava operando nas favelas e periferias. A literatura,
até então, falava da proximidade do tráfico com
as religiões de matriz africana de uma maneira naturalizada e
linear. Se admitimos a proximidade com as religiões de matriz
africana, por que temos dificuldade moral de entender essa proximidade
com o cristianismo? Ela existe, então no livro buscamos entender
qual a qualidade dessa aproximação, quais as tensões
causadas no local. O pano de fundo são os elementos morais que
dão às religiões de matriz africana um patamar
de menor status em relação ao que é moralmente
defensável e considerado “certo” – que seria
o cristianismo –, e que serve de sustentação dessa
moral superior e de um catolicismo difuso que permeia a sociedade brasileira,
que aos poucos vai perdendo centralidade para o pentecostalismo nas
favelas e periferias do Rio de Janeiro.
Outro marco importante dessa agenda é que em 2008 começaram
a aparecer algumas matérias nos jornais sobre intolerância
religiosa, enfatizando o tráfico como um ator central na questão.
No momento em que tais discursos localizam o tráfico como evangélico
e intolerante e isso ganha espaço na mídia, vários
atores usam esse discurso para justificar algumas situações
na favela, quando não é bem assim. Existem os próprios
moradores e uma cultura pentecostal que demandam uma atitude do tráfico
em relação aos religiosos de matriz africana e muitas
vezes insuflam os traficantes. E nesse jogo de agradar à população
local, eles às vezes se envolvem em diferentes contendas. Há
favelas em que o tráfico tem uma colocação violenta
em relação a esses templos e religiosos. Mas, por outro
lado, o tráfico quer dinheiro e quer curtir. O que atrapalhar
isso vai sofrer alguma represália. Agora, se não atrapalhou
o ganho nem a curtição, eles não estão nem
aí. Então em Acari, assim como em outros locais, há
uma nuance entre o que está acontecendo de fato e um certo sensacionalismo.
E esse foi o primeiro trabalho a tratar a questão de modo mais
atento, com dados de situações empíricas em duas
favelas do Rio de Janeiro, da Zona Norte e da Zona Sul, para falar sobre
qual o caráter dessa proximidade.
Há ainda correntes na Sociologia Urbana que não tratam
de valores de orientação no tráfico, porque dizem
que os traficantes não têm uma ética que os organize,
pelo contrário, que eles operam pela falta de alteridade, o que
é chamado de sociabilidade violenta. Ao meu ver, existem algumas
figuras que vão operando sob uma lógica muito própria.
Mas elas não são o regular do tráfico nas favelas,
pois o regular é ir tentando conjugar isso, é um poder
desigual, que é o poder das armas, mas em diálogo com
os interesses e com os gostos do lugar no qual eles estão. Isso
é histórico e se observa desde o traficante que financiava
os enterros e fazia as festas de Cosme e Damião, de Ano Novo
e o Natal da favela, até com novas modalidades de agrado a essa
população.
Como explicar a influência das igrejas
pentecostais nessas localidades e a sua relação com o
tráfico?
Existiam, nos casos estudados, traficantes com uma gramática
evangélica exposta de um modo muito frouxo, e isso tinha mais
uma relação com o próprio comando do que com o
universo religioso. Por outro lado, havia uma série de traficantes
que já tinham sido da igreja e saído, que estavam numa
circulação entre o tráfico e a igreja e sua referência
moral era muito formada por valores pentecostais. E pensando em toda
a doutrina, o modo pentecostal de ver o mundo é, de certo modo,
muito próximo à maneira pela qual os traficantes entendem
o mundo. Os traficantes veem o mundo como uma luta, uma guerra, um campo
de disputas de forças entre o bem e o mal, de disputa de almas
e corpos. E, assim como os evangélicos, também precisam
de proteção para lidar com esse mundo de guerra.
Tem ainda a questão econômica – pentecostais e neopentecostais
não negam o dinheiro, porque isso é a demonstração
da graça, o que dá a possibilidade de os traficantes e
o seu dinheiro serem legitimados também. Vários estavam
numa operação de passagem, num processo que eles chamavam
de libertação do apego ao dinheiro. Alguns faziam uma
programação financeira para a saída do tráfico,
o que, de algum modo, ocorria de maneira mais sistemática. Com
a ajuda desses religiosos, eles conseguem operar isso de modo mais eficiente
para de fato terem no horizonte a saída do tráfico e uma
situação financeira confortável. Há uma
constante pressão para o afastamento do tráfico por parte
dos familiares, muito intensa nesse sentido. E isso sempre está
em jogo, a família pressionando e eles também vendo o
risco e querendo sair daquela vida, porque aí sim se trata de
uma reforma. Afora o fato de que são pessoas muitas vezes já
formadas num ambiente evangélico, pentecostal. Então são
perspectivas de mundo que se entrelaçam.
E é importante observar como mesmo algumas pessoas que não
estão ligadas diretamente às igrejas acionam gramáticas,
estéticas e percepções sobre o mundo que são
muito informadas por um pentecostalismo difuso nessas áreas.
Isso é válido tanto para pensar sobre a intolerância
religiosa, quanto sobre a cultura pentecostal nas favelas e periferias,
que afeta muito os marcos da sociabilidade, economia, política,
criminalidade, cultura e tudo o mais que opera por ali. E só
fomos vendo isso crescer.
O crescimento dos pentecostais provoca uma mudança tamanha no
campo religioso local que, se por um lado os religiosos de matriz africana
perdem a importância que tinham nos termos dos marcos da sociabilidade
e da relação com o tráfico, também a igreja
católica, que tinha um lugar muito pouco visível, tenta
crescer sua importância com a chegada de um padre bastante midiático,
que havia feito casamentos de celebridades, para cuidar da paróquia
local.
Qual a implicação política
do crescimento de políticos e bancadas evangélicas no
país?
Atualmente, aumenta a legitimidade dos discursos pentecostais em favelas
e periferias e na sociedade de um modo geral. Mas penso que não
podemos fazer uma relação direta, por exemplo, entre a
prefeitura de um bispo da Universal e o fortalecimento dos traficantes
evangélicos na favela. O fortalecimento da gramática pentecostal
nos ambientes midiáticos e na política, ganhando peso
no Congresso Nacional e nas assembleias (legislativas), dá a
condição de, nesse contexto, se firmarem ainda mais como
um discurso moral potente, que “venceu”. Mas vamos vendo
também que há muitas limitações a esses
projetos. Não dá para pensar que o prefeito Marcelo Crivella
foi eleito com os votos dos evangélicos ou apenas da Universal.
Vários outros setores da sociedade se mobilizaram em torno dessa
candidatura. E também vale lembrar que houve 47% de votos nulos,
brancos e abstenções. Então não foi a vitória
fragorosa do pentecostalismo, pois 47% estavam fora disso. Na sociedade
há disputa de forças e composições entre
os vários segmentos, religiosos, políticos, e mesmo nas
favelas e periferias a disputa permanece.
Leia as páginas iniciais do livro “Oração
de Traficante” aqui.
Fonte: http://www.uff.br/?q=noticias%2F01-02-2017%2Flivro-de-professora-da-uff-analisa-relacao-entre-religiosidade-e-trafico
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