07/02/2017
Monja ameaçada de morte:
disse que Maria fazia sexo com o marido!
Mauro Lopes
blog Caminho para Casa
A monja dominicana Lucía Caram
Os seguidores de Jesus devem ser como uma lâmpada
acesa, luz no mundo, sal na terra. Estes são os apelos de Jesus
dirigidos aos seus amigos e amigas e que constituem o centro do Evangelho
que será ouvido nas missas deste 5º Domingo do Tempo Comum
(Mt 5,13-16).
Em outras palavras: cristãos e cristãs
devem buscar a verdade, tornar a vida saborosa, incomodar o reino das
verdades estabelecidas ou, como disse uma vez o Papa, causar confusão
(veja no final). Mas isso não é fácil. Nos últimos
dias tivemos um bom exemplo disso.
Lucía Caram, uma monja dominicana argentina que
vive num mosteiro em Barcelona concedeu uma entrevista
em 29 de janeiro a um programa da TV espanhola e fez uma afirmação
aparentemente prosaica:
“Acho que Maria estava apaixonada por José
e que eles eram um casal normal – e ter relações
sexuais é algo comum”.
Foi o suficiente para que desabasse uma tempestade brutal
sobre ela, a ponto de receber ameaças de morte! Foi repreendida
pelo bispo de Vic, sofreu toda sorte de insultos nas redes sociais ao
redor do mundo, especialmente na Espanha, onde circula uma petição
para que ela seja afastada de sua ordem. A manchete de um site conservador
espanhol evoca o período inquisitorial: “A dominicana Lucía
Caram blasfema contra a Virgem Maria”. O assunto mereceu uma reportagem
do jornal britânico The
Guardian.
Tudo porque ela disse que Maria fazia sexo com
seu marido! A monja Lucía Caram afrontou um dogma da virgindade
permanente da mãe de Jesus, “inscrito na pedra” no
Catecismo da Igreja Católica, promulgado (não coincidentemente)
por João Paulo II em 1992 e que estabelece: “O aprofundamento
da fé na maternidade virginal levou a Igreja a confessar a virgindade
real e perpétua de Maria” (499). Este documento, o Catecismo,
é considerado, ao lado do Código de Direito Canônico,
como as duas referências básicas do cristianismo, no entendimento
do pensamento conservador católico –em vez dos Evangelhos.
O episódio, inserido no contexto da onda moralizadora dos últimos
tempos, que tem como um de seus pontos culminantes a eleição
de Donald Trump nos Estados Unidos com o discurso da “supremacia
cristã”, dá razão a um grito de angústia
que se multiplica: “Para o século XXI que eu quero descer!”
O que fez a monja Caram? Iluminou um canto empoeirado
e escuro da Igreja Católica e do cristianismo conservador; ela
foi sal, causou incômodo a ponto de reações como
ameaças de morte.
O dogma da “virgindade eterna” de Maria, mãe de Jesus,
é insustentável à luz dos Evangelhos e sua construção
ao longo da história da Igreja tem pouco de teológica
e muito de ideológica.
O que dizem os Evangelhos?
No tema específico da vida sexual de Maria há
apenas uma citação direta, em Mateus 1,25, no relato da
concepção de Jesus e da reação de José,
então noivo da jovem. José aceitou a noiva grávida,
“Mas não a conheceu até o dia em que ela deu à
luz um filho” (na tradução da Bíblia de Jerusalém).
A palavra conhecer, em sentido bíblico, quer dizer exatamente
manter relações sexuais com uma pessoa -
Uma busca da ressonância hebraica do texto indica
que o verbo hebraico para o episódio seria iada’, que tem
o sentido de penetração (tanto física quanto intelectual),
o que levaria à seguinte tradução: “Ele não
a penetra até que tenha gerado um filho” –com o sentido
duplo de não penetrar em Maria física e intelectual/emocionalmente,
permanecendo para José “um impenetrável mistério”,
até que ele a irá conhecer depois do nascimento de Jesus.[1]
Portanto, o que o texto nos diz? Que o casal se absteve de sexo até
o nascimento de Jesus –nada mais. Em várias passagens,
os Evangelhos informam-nos taxativamente que Jesus teve irmãos
e irmãs, indicando que a monja Caram iluminou o assunto-tabu:
Num episódio relatado em Marcos e Mateus, na sinagoga de Nazaré,
a terra de Jesus, logo no começou de sua missão, quando
as pessoas ficam espantadas com a sabedoria do homem da terra:
“Não é este o carpinteiro, o filho
de Maria, irmão de Tiago, Joset, Judas e Simão? E as
suas irmãs não estão entre nós?”
(Mc 6,6 e Mt 13,55-56).
E noutro, quando Jesus pregava, relatado tanto por Mateus
como Marcos e Lucas:
“Estando ainda a falar às multidões,
sua mãe e seus irmãos estavam fora, procurando falar-lhe”
(Mt 12,46).
Desde a Antiguidade houve indagações sobre
estas passagens. Eram eles irmãos e irmãs de Jesus no
espírito de uma família nuclear ou primos e primas, considerando-se
a família ampliada semítica? Eram filhos de José
e Maria ou de um suposto primeiro casamento de José?
A interpretação conservadora quer fazer
as pessoas crerem que “sempre” esteve estabelecido o sentido
que favoreceria o dogma da virgindade permanente de Maria. Mas não
é assim. No século IV, quando o debate estava muito aceso,
Helvídio (apoiado pelos textos de um dos Padres da Igreja, Tertuliano)
contestou a tese da virgindade perpétua, sendo contestado por
Jerônimo num tratado (“A Virgindade Perpétua da Abençoada
Maria”).
Mas se o sentido original do texto evangélico
era indicar primos e primas de Jesus, porque eles são mencionados
junto com a mãe de Jesus? Além disso, por qual razão
os autores dos três Evangelhos sinóticos, escritos em grego,
usariam em todas as passagens adelphoi que designa irmãos
de sangue, quando há outras palavras para primos, como nepsios?[2]

A fúria dos conservadores contra uma monja tem uma razão
clara: sob o dogma da virgindade permanente de Maria está alicerçada
boa parte do edifício de controle e submissão das mulheres
na Igreja institucional. Em que pese o caráter claramente misógino
do dogma, ele serve igualmente para manter os homens igualmente sob
controle e submissos. O dogma da virgindade de Maria é a negação
do direito ao prazer e à vida plena para mulheres e homens.
As descobertas da psicanálise na virada do século XIX
para o XX deixaram patente que toda a vida humana, todas as
relações estão perpassadas por nossa dinâmica
afetivo-sexual. A sexualidade é o terreno a partir do qual cada
pessoa constrói sua inserção no mundo, reivindica-se
a si próprio, encontra-se com o outro. Não é à
toa que, desde sempre, como William Reich apontou há quase cem
anos, os poderes cuidaram de usar a repressão sexual como arma
de obter docilidade e vassalagem.
Há uma série de afirmações encadeadas, oposições
e deslocamentos que buscam negar o direito à sexualidade dos
homens e mulheres católicos, e todas elas baseadas na imaginária
virgindade de Maria.
Maria foi sempre a mãe virgem e casta. Maria é o modelo
da mulher. Portanto, a mulher deve ser uma mãe virgem e casta,
afastando-se liminarmente de qualquer desejo sexual: “Qualquer
expressão de desejo sexual a torna digna de suspeita, porque
o sistema social convencionou que a alternativa à mãe
é a prostituta”.[3] Mãe
ou prostituta, cada mulher que faça sua escolha, segundo a construção
ideológica disfarçada de teologia. Maria, segundo este
estatuto, precisa ser mantida virgem a todo custo, sob o risco de despertar
na mulher o desejo, a reivindicação, a palavra.
É significativo que ao lado de virgindade e castidade, a imagem
mais recorrente dos conservadores para Maria é a da mulher “pura”.
À pureza contrapõe-se a impureza, ao limpo o sujo. Ser
virgem e casta, portanto, é manter-se pura. Abandonar a virgindade
é abandonar a pureza, entregar-se à “sujeira”.
Sexo, portanto, é o caminho da impureza e da sujeira. Pode parecer
pueril, e o é, mas em pleno século XXI os conservadores
ainda pretendem manter incólume tal lógica.
É preciso manter Maria virgem, casta, pura e calada. Para que
toda mulher assim seja. Para que em minha neurose eu possa, em Maria,
olhar para minha mãe e imaginar que ela me teve sem nunca ter
tido sexo com meu pai, sem nunca ter gozado. É esta prisão
que sustenta o discurso de vastos segmentos de clérigos e leigos
conservadores. Escute o discurso de um padre conservador sobre a mãe
–para ele, sua mãe biológica é Maria, invariavelmente.
No entanto, a essencialidade de Maria nos Evangelhos nunca esteve vinculada
à sua virgindade ou “pureza”. Maria é bem-aventurada
porque escutou a palavra de Deus e a viveu intensamente. É o
depoimento de Jesus sobre ela ao longo dos Evangelhos.
Jesus insurgiu-se contra a marginalização da mulher, contra
a sacralização da família e contra o pai como símbolo
de opressão – e isso é insuportável para
os que acreditam (ou fazem propaganda) da virgindade eterna de Maria.
A concepção da virgindade perpétua de Maria implica
uma consequência igualmente dramática: a impotência
de José, que é a condenação à impotência
de todos os homens. No sistema de poder eclesiástico –e
em todos os sistemas de poder- há uma lógica de dupla
face na qual ao mesmo tempo ao homem-pai é entregue e retirada
toda a potência. Ao homem é entregue todo o poder na família:
pode controlar, bater, humilhar, embriagar-se… mas não
pode fazer sexo, não pode ter prazer com a mulher.
Há uma articulação entre a virgindade pureza da
mulher (mãe) e a potência impotente do homem (pai) que
se afigura como uma condenação a aprisionar a vida do
casal num redemoinho de infelicidade, indiferença, des-encontro.
Um casamento de fachada.
Mas não se iluda. Como escreveu George Orwell no clássico
A Revolução dos Bichos, “todos os animais são
iguais, mas uns são mais iguais do que os outros”.
Visite uma paróquia católica. Em boa parte delas há
apenas um homem potente: o padre. Ao redor dele subsiste uma pequena
multidão de homens e mulheres submissos e assexuados. É
um microcosmos do desenho da Igreja institucional e da sociedade no
capitalismo.
É um sistema, uma construção ideológica
que nada tem a ver com Jesus e sua mensagem. No topo do sistema há
lugar para homens potentes –como constatamos na sociedade e numa
Igreja marcada pelos casos de pedofilia e relações nas
sombras de tantos sacerdotes. Se uma vida sexualmente ativa e prazerosa
é condenada como um mal, pecado, quase um crime pelos poderosos
de plantão, abandone as ilusões e entenda a plena dimensão
da expressão de Freud: “(…) o Estado proíbe
ao indivíduo a prática do mal, não porque deseja
aboli-la, mas porque deseja monopolizá-la”.[4]
A monja Lucía Caram cometeu um “crime” ao tocar numa
pedra angular do edifício de controle da Igreja institucional.
Foi luz e sal, na expressão de Jesus no Evangelho, que sofreu
as consequências pela denúncia das pedras angulares da
igreja da época (o judaísmo oficial). A pena para isso
é a morte, pelo que conhecemos da história de Jesus e
se depreende das mensagens furiosas dos conservadores.
Quanto à monja, vale o breve diálogo com o Papa num breve
encontro na Praça São Pedro em outubro de 2015, quando
Francisco ele saía de uma de suas audiências das quartas-feiras
e ela contou brevemente a ele sobre a ação de sua comunidade
com crianças e sem teto. O relato
é da própria Lucía: “Eu lhe disse. Sim, Santidade,
mas a Igreja não facilita as coisas, hoje é muito difícil
ser cristão na Igreja Católica. Ele não hesitou,
soltou uma risada cúmplice e disse: ‘Vou responder como
aquele que disse: ‘Senhora, é a mim que diz isso?’
Rimos os três [5] e ele me disse:
‘Continue a criar confusão, não se canse, os pobres
são o mais importante, isto é o Evangelho. Faça
bagunça.”
Faça bagunça você também ou, em outras palavras,
no ritmo do Evangelho do domingo: continue sendo luz –Lucía
ou Lúcia é nome derivado de lux(luz) em latim, que quer
dizer iluminada.
[1] Chouraqui, André. A Bíblia –
Matyah. Rio de Janeiro, Imago, 1966, p. 55
[2] Barbaglio, Giuseppe; Fabris, Rinaldo; Maggioni, Bruno. Os Evangelhos
1. São Paulo, Edições Loyola, 2002, p. 458
[3] Morano, Carlos Dominguez. Crer depois de Freud. São Paulo,
Edições Loyola, 2014, p. 190
[4] Freud, Sigmund. Reflexões para os tempos de guerra e morte,
Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas
Completas de Sigmund Freud. 2.ed., v.XIV. Rio de Janeiro, Imago, p.
316
[5] Lucía Caram estava acompanhada da superiora de seu mosteiro.
Fonte: http://outraspalavras.net/maurolopes/2017/02/04/monja-ameacada-de-morte-disse-que-maria-fazia-sexo-com-o-marido/
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