02/02/2017
por Tory Oliveira
Carta Capital
Católica, Thainara Faria (PT) diz discordar
da prática porque ela exclui os adeptos de outras religiões.
"Na Constituição, o Estado
é laico"

Em seu primeiro mandato, Thaianara é a primeira
mulher negra na Câmara dos Vereadores de Araraquara
Em Araraquara (SP), todos os dias, antes da abertura
de cada sessão na Câmara dos Vereadores, cinco versículos
da Bíblia são selecionados e lidos pelos parlamentares,
como determina o regimento interno da Casa.
No início de janeiro deste ano, porém,
uma vereadora questionou a tradição. Eleita pela primeira
vez, Thainara Faria pediu a palavra e, para espanto dos colegas, disse
discordar da prática, uma vez que ela feria a laicidade do Estado
e não contemplava as demais religiões.
“Quis me posicionar na Câmara porque sou
católica, mas estou aqui para servir ao povo e à Constituição.
E lá está previsto que o nosso Estado é laico”,
justifica a vereadora do PT.
Primeira mulher negra e a mais jovem da história
a ser eleita para o cargo, Faria, 22 anos, conta que não esperava
tanta repercussão. “Isso deveria ser um posicionamento
natural para um legislador, mas muitos são omissos.Não
fiz para causar, mas entre as minhas bandeiras está a tolerância
religiosa. Infelizmente, no Brasil algumas religiões ainda sofrem
muita perseguição”.
Oriunda da periferia e estudante de Direito, Faria relata que a cidade
de 200 mil habitantes não escapa da intolerância, inclusive
com episódios de perseguição às religiões
de matriz africana. Em setembro de 2015, um terreiro de umbanda foi
atacado na cidade. O caso é investigado como suposto crime de
ódio.
Localizada a 270 quilômetros da capital São
Paulo, metade da cidade professa a religião católica.
A seguir, as religiões mais populares são a evangélica
e a espírita. Os ateus ou sem religião declarada são
cerca de 12 mil. Os que se declaram adeptos do candomblé ou umbanda
também são relativamente poucos, mas existem: são
cerca de 700 pessoas declaradas, segundo o Censo do IBGE.
Assim, a vereadora sugeriu aos outros 17 colegas na Câmara a ampliação
do leque espiritual, contemplando a leitura de outros livros sagrados,
como Evangelho Kardecista, lido pelos espíritas, o Alcorão
dos muçulmanos ou mesmo textos sobre o ateísmo.
“A Casa do Povo não pode ter religião,
é absurdo. É como dizer que o Brasil é só
de católicos ou de evangélicos. Ao ler apenas trechos
da Bíblia, estamos excluindo parcelas da população
que não seguem o Evangelho”.
O discurso gerou muitas caras feias. “Não
tive nenhuma reação positiva. Temos uma Câmara de
pastores e outros religiosos, então foi difícil a reação
dos colegas. Mas não é por ser uma tradição
que é correto, precisamos defender a laicidade do Estado”,
justifica.
Em média, a cada três dias chega uma denúncia
de intolerância religiosa à Secretaria de Direitos Humanos
da Presidência da República, segundo dados reunidos entre
2011 e 2014. Fiéis de religiões de matriz africana, o
como o candomblé e a umbanda, são um terço dos
atingidos por esse tipo de violência.
Em 2015, no Rio de Janeiro, uma menina de 11 anos levou
uma pedrada quando saía de um culto de candomblé. Em São
Paulo, um terreiro também foi alvo de pedradas e xingamentos.
Fonte: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/em-defesa-da-laicidade-vereadora-critica-leitura-da-biblia-na-camara-de-araraquara
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