15/01/2017
Uma projeção linear da transição
religiosa no Brasil: 1991-2040
"Evidentemente, ninguém sabe, com certeza,
como será o dia de amanhã. Mas as indicações
atuais apontam para um Brasil, no futuro, menos católico, mais
evangélico e com maior pluralidade religiosa (inclusive com maior
presença das pessoas que se declaram sem religião)",
escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia
e professor titular do mestrado e doutorado em População,
Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional
de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado
por EcoDebate, 11-01-2017.
Eis o artigo.
O Brasil está passando por uma grande transformação
na sua moldura religiosa. Os católicos continuam
como o grupo majoritário, mas perdem espaço em termos
absoluto e relativo. Os evangélicos, em sua multiplicidade e
diversidade, é o grupo que mais cresce. Mas também tem
aumentado as demais denominações não cristãs
e o número de pessoas que se declaram sem religião. Isto
quer dizer que o Brasil está passando por uma mudança
de hegemonia entre os dois grupos cristãos (católicos
e evangélicos), ao mesmo tempo em que aumenta a pluralidade religiosa,
pois cresce e diversifica a proporção das filiações
não derivadas do cristianismo. Este processo
ocorre em todo o território nacional, mas em ritmos diferentes
nas escalas espacial e social. Porém, uma coisa é clara:
pluralidade gera pluralidade, pois quanto mais diversificadas são
as opções religiosas (incluindo os sem religião)
mais rápido é a diminuição da proporção
de católicos.

Os católicos agregavam quase 100% dos brasileiros antes da Proclamação
da República, em 1889. Esta proporção caiu ligeiramente
nas oito décadas seguintes, mas os católicos ainda eram
ampla maioria em 1970, quanto representavam 91,8% da população.
A partir daí a queda se acelerou e chegou a 83% em 1991. A diminuição
foi de 8,8% em 21 anos. Mas o pior viria entre 1991 e 2010, pois a perda
foi de 18,4% em 19 anos. Isto representou quase um por cento de perda
ao ano (-0,97%). Os católicos são doadores universais.
Para cada 100 pessoas que deixaram de ser católicos, 72 foram
para as filiações evangélicas, 18 para os sem religião
e 10 para as outras religiões não cristãs.

Se a tendência da transição religiosa ocorrida no
período 1991 a 2010 continuar, pode-se fazer uma projeção
linear até 2040, com os católicos perdendo 0,97% aa, os
evangélicos ganhando 0,69% aa, os sem religião ganhando
0,17% aa e as outras denominações aumentando 0,1% aa.
O resultado pode ser visto no gráfico 1, quando
em 2036, os evangélicos (em sua multiplicidade), com 40,3%, ultrapassarão
os católicos, com 39,4%. Em 2040, os católicos teriam
35,5% e os evangélicos teriam 43%. Os cristãos (católicos
+ evangélicos) passariam de 92% em 1991, para 86,8%
em 2010 e cairiam para 78,6% em 2040. Portanto, este quadro caracteriza
bem a transição religiosa, com mudança de hegemonia
entre os dois maiores grupos e aumento da pluralidade (queda da percentagem
de cristãos).
Mas há quem discorde deste cenário. O sociólogo
Paul Freston, considera que a queda dos católicos tem um piso
e a subida dos evangélicos tem um teto. Ele diz: “Pelas
tendências atuais, o futuro previsível da religião
no Brasil vai depender de três fatores. Em primeiro lugar, o catolicismo
continua a declinar (perde cerca de 1% da população anualmente),
mas haverá um limite nesse declínio. Há um núcleo
sólido de católicos praticantes, pelo menos 25% da população,
que dificilmente vai ser erodido. Além disso, se a Igreja Católica
conseguir se organizar melhor e fazer frente à concorrência,
é improvável que fique abaixo de 40%. Em segundo lugar,
atualmente, de cada duas pessoas que deixam de se considerar católicas,
apenas uma passa a ser evangélica. A outra adere a uma outra
religião, ou se torna ‘sem religião’. Em terceiro
lugar, o resto do campo religioso está muito pulverizado, e não
há sinais de uma ‘terceira força’ religiosa.
O resultado de tudo isso é que, “a continuarem as tendências
atuais”, nunca haverá uma maioria evangélica no
Brasil. O mais provável é que a população
evangélica não passe de uns 35%, na melhor das hipóteses.
Teríamos, então, o seguinte cenário: 40% de católicos,
35% de evangélicos, e 25% de outras religiões e de pessoas
‘sem religião’” (2009, p. 2).
Porém, esta hipótese de haver um limite ao processo de
transição religiosa não apresenta argumentos convincentes
e não se sustenta nas evidências empíricas. Como
mostram Alves, Cavenaghi e Barros
(2014): “A cidade de Seropédica, é
um exemplo de rápida mudança religiosa. Até o início
dos anos de 1990, Seropédica fazia parte do
município de Itaguaí. No censo demográfico
de 1991, Itaguaí tinha 55% de pessoas que se declaravam católicas
e 21% de evangélicos. Em Seropédica,
houve quase um empate no ano 2000, com os evangélicos
atingindo 35,9% e os católicos 38,8%. As outras
religiões perfaziam um percentual de 5,3% e os sem
religião 20,1%. Na primeira década do século
XXI a mudança continuou de maneira acelerada entre a população
total do município, com os católicos caindo para 27,4%
em 2010, os evangélicos subindo para 44%, as outras religiões
para 6,3% e os sem religião subindo para 22,3%. Portanto, entre
1991 e 2010, os católicos de Seropédica
caíram de mais de 50% para cerca de um quarto (25%). Foi uma
perda muito acelerada e parece que não vai ser interrompida imediatamente,
pois os católicos estão mais representados entre os idosos
e os evangélicos mais representados entre as mulheres em período
reprodutivo e as novas gerações. Independentemente da
migração inter-religiosa, haverá mudança
apenas por conta da inércia demográfica e da sucessão
de gerações” (p. 1078).
Em outras cidades fluminenses, como Japeri e Queimados,
os católicos já estavam abaixo de 30%
e os evangélicos acima de 40%. Nas grandes cidades,
como Nova Iguaçu e Duque de Caxias,
os evangélicos já estão acima dos 35% e ultrapassaram
os católicos. Em Paty do Alferes os evangélicos
passaram de 33% em 2000 para 46,2% em 2010. Assim, independentemente
do trânsito religioso, os evangélicos devem continuar crescendo
por conta de estarem mais representados entre as mulheres e os jovens,
tornando a transição religiosa uma realidade.
O IBGE não fez nenhuma pesquisa sobre religião
na atual década. Mas existem outras pesquisas que apontam para
a continuidade da transição religiosa. Pesquisa encomendada
à Universidade Municipal de São Caetano pela Diocese
de Santo André para diagnosticar a transformação
do Grande ABC e sua população desde os anos 1960 até
agora, apontou que a Igreja Católica vem gradativamente
perdendo fiéis. Cinquenta e seis anos atrás,
dos 499.398 moradores da região, 90,7% eram católicos.
Em 2010, das 2,5 milhões de pessoas, 56,5% se declararam seguidoras
do catolicismo e, neste ano, elas representam 46,8% em universo de 2,7
milhões de habitantes. Portanto, os católicos perderam
quase 10 pontos em apenas 6 anos. O que mostra que a transição
está se acelerando e não se reduzindo (Oliveira,
07/12/2016).
Pesquisa Datafolha, divulgada no dia de Natal (25/12/2016),
mostra que a percentagem de católicos
caiu de 63% em 2010 para 50% em 2016, os evangélicos subiram
de 24% para 29%, os sem religião de 6% para 14% e as outras denominações
ficaram constante em 7%, no mesmo período, segundo a Datafolha.
Entre 1994 e 2016 a perda dos católicos tem sido de 1,14% ao
ano, superior ao que aponta os censos demográficos do IBGE (em
outro artigo vamos tratar das pesquisas Datafolha sobre
religião).
Portanto, as indicações são de que a transição
religiosa está se aprofundando e se acelerando no Brasil, assim
como ocorre em outros países da América Latina. David
Stoll, em livro bastante conhecido (América Látina se vuelve Protestante),
já havia registrado, em 1990, que a América Latina estava
se tornando protestante. De fato, países como Guatemala
e Honduras já estão bastante avançados
na transição religiosa, enquanto o Uruguai é o
país menos católico e menos religioso da região.
Evidentemente, ninguém sabe, com certeza, como será o
dia de amanhã. Mas as indicações atuais apontam
para um Brasil, no futuro, menos católico, mais evangélico
e com maior pluralidade religiosa (inclusive com maior presença
das pessoas que se declaram sem religião). Muito provavelmente,
o país vai superar os 500 anos de predomínio católico
e terá uma nova arquitetura religiosa no século XXI.
Referências:
ALVES, J. E. D; NOVELLINO, M. S. F. A dinâmica das filiações
religiosas no Rio de Janeiro: 1991-2000. Um recorte por Educação,
Cor, Geração e Gênero. In: Patarra, Neide; Ajara,
Cesar; Souto, Jane. (Org.). A ENCE aos 50 anos, um olhar sobre o Rio
de Janeiro. RJ, ENCE/IBGE, 2006, v. 1, p. 275-308
ALVES, JED, CAVENGHI, S. BARROS, LFW. A transição religiosa
brasileira e o processo de difusão das filiações
evangélicas no Rio de Janeiro, PUC/MG, Belo Horizonte, Revista
Horizonte – Dossiê: Religião e Demografia, v. 12,
n. 36, out./dez. 2014, pp. 1055-1085
ALVES, JED, BARROS, LFW, CAVENAGHI, S. A dinâmica das filiações
religiosas no brasil entre 2000 e 2010: diversificação
e processo de mudança de hegemonia. REVER (PUC-SP), v. 12, p.
145-174, 2012.
ALVES, JED. A vitória da teologia da prosperidade, Folha de São
Paulo, 06/07/2012
ALVES, JED. Os Papas, os pobres e a perda de hegemonia dos católicos
no Brasil, Ecodebate, RJ, 31/07/2013
ALVES, JED. “A encíclica Laudato Si’: ecologia integral,
gênero e ecologia profunda”, Belo Horizonte, Revista Horizonte,
Dossiê: Relações de Gênero e Religião,
Puc-MG, vol. 13, no. 39, Jul./Set. 2015
ALVES, JED. A transição religiosa no Brasil: 1872-2050.
Ecodebate, RJ, 25/07/2016
STOLL, David. Is Latin America turning protestant? The politics of Evangelical
Growth. University of California Press, 1990.
FRESTON, Paul. Presente e futuro da igreja evangélica no Brasil
(parte 2). Ultimato Online, Edição 316, Janeiro-Fevereiro
2009
OLIVEIRA, Vanessa. Número de católicos cai quase pela
metade no Grande ABC, Diário do Grande ABC, 7 de dezembro de
2016
Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/563863-uma-projecao-linear-da-transicao-religiosa-no-brasil-1991-2040
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