26/11/2016
O teólogo e professor Martin Dreher prefere
encaixar Martinho Lutero no grupo daqueles que pediam uma reforma da
Teologia

Martin Dreher é professor e
pesquisador no PPG em História da Unisinos, possui graduação
em Teologia, pela Escola Superior de Teologia (EST), e doutorado em
Teologia com Concentração em História da Igreja,
pela Ludwig Maximilian Universitat München. Recentemente, o professor
da Unisinos organizou, juntamente com os pesquisadores Imgart Grützmann
e J. Feldens, o livro A imigração alemã no Rio
Grande do Sul. Recortes (São Leopoldo: Oikos, 2008). Além
desse, Dreher publicou outras obras, dentre as quais destacamos Populações
rio-grandenses e modelos de Igreja (Porto Alegre: EST; São Leopoldo:
Sinodal, 1998), História do povo luterano (São Leopoldo:
Sinodal, 2005) e A Igreja no mundo medieval (São Leopoldo: Sinodal,
2005).
Por: Graziela Wolfart
IHU On-Line - Quais as principais contribuições
de Lutero para a história da Igreja Cristã?
Martin Dreher - No período que
designamos de Reforma e que não devemos considerar restrito à
Reforma Luterana, pois engloba movimentos como a Reforma Suíça,
liderada por Ulrico Zwínglio, o Movimento Anabatista, o calvinismo
e a própria Reforma Católica, sob a liderança da
Companhia de Jesus, além do surgimento do Anglicanismo, muitas
foram as tentativas de renovação do Cristianismo ocidental,
a começar pela iniciativa de Isabel, a Católica, e Cisneros,
na Espanha. Enquanto algumas iniciativas buscavam moralizar, isto é,
realizar uma reforma moral da Igreja, profundamente comprometida pelo
comportamento da Cúria e, em especial, de papas como VI (1492-1503),
Júlio II (1503-1513) e Leão X (1513-1521), mas também
de cardeais, como Alexandre Farnese, neto de Paulo III, outros dentre
aqueles que buscavam responder ao clamor por uma reforma “na cabeça
e nos membros da Igreja” pediam um reforma da Teologia. Permito-me
enquadrar Lutero nesse grupo.
Incertezas teológicas
O período anterior à Reforma foi de grandes
incertezas teológicas. Na historiografia, buscou-se subsumir
essas incertezas na expressão “justificação
por graça e fé”. Contudo, a expressão não
abarca o todo. Havia grandes incertezas no tocante à imagem de
Deus e esta incerteza levava a incertezas relativamente à figura
do próprio Cristo, decorrentes de questões não
resolvidas e relacionadas com a Doutrina da Penitência, que culminaram
no final da Idade Média na discussão em torno da venda
de indulgências, estopim para a eclosão do movimento reformatório
luterano, em 1517. Mas as indefinições relativas à
Penitência estavam a mostrar que maiores ainda eram as indefinições
em relação à Doutrina de Pecado e Graça,
apesar das contribuições de Santo Agostinho, o que preparava
grandes discussões em torno da Eucaristia e do Batismo. Todas
essas indefinições, contudo, concentraram-se na temática
da eclesiologia. De fato, é bom lembrar que só existe
uma eclesiosologia romano-católica uniforme desde o Concílio
Vaticano II, o qual privilegiou a formulação que fala
do “povo de Deus”. Lutero procurou dar resposta a essas
indefinições. Por isso, sua maior contribuição
para a história da Igreja Cristã está na sua tentativa
de dar respostas teológicas a essas questões.
IHU On-Line - Qual a importância
das pregações de Lutero para o tema do diálogo
inter-religioso?
Martin Dreher - Nos dias de Lutero
(ele viveu de 1483 a 1546), a outra religião conhecida era o
islã. Era a “religião do turco” que na época
chegou até as portas da cidade de Viena. Na Europa, estava presente
também o judaísmo. No tocante ao islã, não
podemos falar de diálogo e, no tocante ao judaísmo, a
postura de Lutero deve ser vista de forma distinta. Se durante os anos
iniciais de sua atividade acentuou que jamais se deveria esquecer que
“Nosso Senhor Jesus Cristo nasceu judeu”, em sua velhice,
sob a influência de leituras apocalípticas do final do
mundo, produziu textos injustificáveis, como “Acerca dos
judeus e de suas mentiras”, prenhe de discurso anti-semita. O
mundo do século XVI não se presta para o diálogo;
nele, está o nascedouro do discurso absolutista, também
do discurso da fé cristã como “absoluta”.
Podemos tirar a contraprova disso no que aconteceu com aqueles missionários
jesuítas que buscaram conviver com religiões diferentes
na Índia e na China.
IHU On-Line - Como o senhor vê
que as demais religiões cristãs assimilam até hoje
a reforma conduzida por Lutero?
Martin Dreher - É inegável
a influência que Lutero teve no calvinismo e no anglicanismo.
Mesmo naquelas igrejas resultantes dos dissidentes ingleses (dissenters),
que se rebelaram contra a Igreja da Inglaterra (anglicanos), há
marcas indeléveis do legado de Lutero, mesmo que nelas, mais
tarde, tenham surgido aspectos que as tornam distintas do luteranismo,
como o fundamentalismo. Inegável é a presença do
legado de Lutero entre os Metodistas. Mesmo que o catolicismo romano
sempre tenha assumido posturas claras, buscando diferenciar-se de Lutero,
é inegável que toda uma série de decisões
do Concílio de Trento só podem ser entendidas a partir
do debate travado com o pensamento de Lutero. No entanto, o legado de
Lutero que perpassa todas as denominações cristãs
é, sem dúvida, o canto coral, por ele produzido em parceria
com Johann Walther e, depois, tornado bem comum na cultura universal
através do trabalho de Schein, Scheid e Schütz, alcançando
seu ápice em Johann Sebastian Bach.
IHU On-Line - Qual a principal herança de Lutero
em relação ao papel da mulher na Igreja?
Martin Dreher - Lutero viveu em uma
sociedade patriarcal; isso é inegável. Como é sabido,
em 1525, casou-se com Catarina de Bora, outrora monja cisterciense.
A partir de sua convivência com Catarina, definiu o objetivo do
matrimônio na formulação de que nele, homem e mulher
“deveriam tornar-se amigos em Cristo”. Não viu a
sexualidade como mera função de procriação,
mas como complementação de mulher e homem. Partindo do
batismo, por ele entendido como ordenação da pessoa cristã,
para o sacerdócio de todos os crentes, o serviço da comunidade
cristã em relação ao mundo, situou também
a mulher nessa função sacerdotal. Ele, no entanto, não
chegou a divisar a mulher na função de “pastora”,
de presidente da comunidade. Em uma oportunidade, no entanto, chega
a afirmar que, caso em um mosteiro feminino não exista sacerdote,
mulheres podem presidir a eucaristia, o que não deixa de ser
uma formulação “avançada” para o século
XVI. Se, hoje, mulheres luteranas são ordenadas pastoras, isso
se deve, sem dúvida, à Teologia do Batismo formulada por
Lutero.
IHU On-Line - Qual a principal
importância de Lutero enquanto figura histórica e política?
Martin Dreher - Cada geração
tem atribuído um “papel importante” para Lutero.
Foi visto como o exemplo clássico do “herege”. Em
minha adolescência, ainda tive de ouvir, em uma escola católica,
que no dia de sua morte “toda a Alemanha cheirava a enxofre”:
enxofre era cheirado por onde o diabo passava. É raro encontrar-se,
hoje ainda, leitura semelhante, mas continuam a existir “tradicionalistas”,
que jamais ouviram falar de Joseph Lortz, SJ nem de Erwin Iserloh e
de suas leituras católicas de Lutero. Um dos primeiros textos
de Lutero traduzidos para o português, sua interpretação
do Cântico de Maria, o Magnificat, foi publicada pela Editora
Vozes, de Petrópolis, em 1968, e louvado como exemplo de espiritualidade
cristã. No mundo protestante, Lutero foi louvado como “campeão”
ou como “herói da fé”. Ele mesmo se qualificou
de “mísero saco de vermes”. Os românticos alemães
viram nele o precursor do nacionalismo alemão e, depois, o nacional-socialismo.
Prefiro ver Lutero como filho de seu tempo. Não tinha hábitos
refinados; não era pessoa barroca. Estava entre a Idade Média
e a Idade Moderna. No entanto, foi catalisador de anseios medievais
que buscavam por uma Reforma na “cabeça e nos membros”.
Foi teólogo e pensador de porte. Viveu em um contexto de humanismo
e de renascimento. Atraiu humanistas e influenciou artistas. Foi visto
como possível liderança por cavaleiros e por camponeses,
mas desapontou a ambos. Foi poeta e compositor. Como tradutor foi gênio
criador de linguagem. Sua tradução da Bíblia consegue
reproduzir linguagem poética. Soube ser conselheiro de príncipes,
mas também um de seus mais ferozes críticos. Como figura
histórica e política, Lutero foi um ser humano, com erros
e acertos. Por ocasião de sua morte, em Eisleben, a 18 de fevereiro
de 1546, encontrou-se, entre seus pertences, o seguinte bilhete, anotação
sua: “Ninguém consegue entender a Virgílio nas Bucólicas
e nas Geórgicas, a não ser que tenha sido pastor ou agricultor
por cinco anos. Ninguém compreenderá Cícero em
suas cartas (assim penso eu), a não ser que tenha se movimentado
por 40 anos em um importante Estado. Ninguém pense haver experimentado
suficientemente as Sagradas Escrituras, a não ser que tenha dirigido
as Igrejas por cem anos com os profetas. Por isso, trata-se de uma coisa
grande e maravilhosa: primeiro, no que toca a João Batista; segundo,
no que toca a Cristo; terceiro, no que toca aos apóstolos. Não
intentes a Eneida divina, mas inclina-te profundamente, adorando, ante
seus vestígios. Somos mendigos. Esta é a verdade”.
Fonte: http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=2281&secao=280
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