11/11/2016
Diferentemente do que ocorreu nos
últimos quatro centenários da Reforma Protestante, em
que “o protestantismo se afirmava contra a Igreja Católica,
e esta denunciava as ‘heresias’ da Reforma”, neste
ano, em que se caminha para os 500 anos da Reforma, “pela primeira
vez, a comemoração ocorre num clima de empenho pela unidade
e em espírito ecumênico”, diz Walter Altmann à
IHU On-Line.
por: Patricia Fachin
| 31 Outubro 2016
Revista IHU
O culto ecumênico que será
realizado hoje, 31 de outubro de 2016, pelo bispo luterano palestino
Munib Younan, o pastor chileno Martin Junge, e o papa Francisco, na
“antiga catedral medieval católica que passou a ser catedral
luterana no século XVI”, em Lund, na Suécia, “é
um gesto de grande significado simbólico, que poderá ser
muito reforçado ainda com as palavras que estará proferindo”,
afirma o pastor luterano.
Na avaliação de Altmann,
o “sentido” desse ato que marca a abertura das comemorações
do quinto centenário da Reforma, pode ser entendido em duas perspectivas.
“Há um sentimento de gratidão pelo legado teológico
de Lutero, afirmando a preponderância da graça de Deus,
o acolhimento desta através da fé e o compromisso em favor
da prática do amor ao próximo, da justiça e da
paz. Mas há também um sentido autocrítico para
com as limitações, falhas e deturpações
que ocorreram em Lutero e, sobretudo, na história das igrejas
após o período da Reforma. O papa Francisco tem dado demonstrações
de que encara a história, também a da Igreja Católica,
da mesma forma. Portanto, a Reforma deve ser comemorada em espírito
de gratidão pelo legado evangélico, penitência pelos
pecados cometidos e reafirmação do compromisso evangélico”,
afirma.
Apesar dessa comemoração
histórica, Altmann frisa que “provavelmente não
haverá uma unanimidade” entre católicos e luteranos
acerca do significado deste dia, mas mesmo assim “pode-se dizer
já agora que prevalece entre as igrejas luteranas do mundo o
sentimento de alegria com o fato de que as relações entre
luteranismo e catolicismo tenham progredido tanto a ponto de essa comemoração
conjunta se tornar possível”. E destaca: “Qualquer
divisão da cristandade é lamentável e contrária
à vontade expressa de Jesus Cristo (João 17:21). Aliás,
teologicamente, confessamos todos haver apenas uma igreja una, santa,
católica (universal) e apostólica, ainda que, por múltiplos
fatores teológicos e ‘não-teológicos’,
esteja institucionalmente dividida”.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail
para a IHU On-Line, Walter Altmann comenta as principais contribuições
da Reforma para a modernidade, as aproximações entre o
catolicismo e o luteranismo nos últimos 50 anos e frisa que “em
vez de uma uniformidade” entre católicos e luteranos, “devemos
vislumbrar um futuro de uma diversidade reconciliada, reformada sempre
de novo no que for preciso. A Reforma afirmou e o papa Francisco também
tem afirmado que a Igreja necessita estar em permanente reforma”.
- Walter Altmann é pastor luterano,
graduado em Teologia pela Escola Superior de Teologia e doutor em
Teologia Sistemática pela Universidade de Hamburgo. Atualmente
é professor titular da Faculdades EST. Entre 1995 e 2001 exerceu
o cargo de presidente do Conselho Latino Americano de Igrejas –
CLAI, com sede em Quito. De 2003 a 2007 foi membro do Conselho da
Federação Luterana Mundial – FLM, com sede em
Genebra, na Suíça e, de 2002 a 2010, foi presidente
da Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil.
Entre suas obras, destaca-se Lutero e Libertação –
Uma leitura de Lutero em perspectiva latino-americana.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - O que diferencia a comemoração
da Reforma a ser realizada neste ano em relação a outros
momentos históricos? Por que se optou por dar um tom ecumênico
à celebração, incluindo a participação
do papa Francisco?
Walter Altmann - Todas as celebrações
centenárias anteriores ocorreram num espírito de confrontação
com o “outro”. Isto é, o protestantismo se afirmava
contra a Igreja Católica, e esta denunciava as “heresias”
da Reforma. Agora, pela primeira vez, a comemoração ocorre
num clima de empenho pela unidade e em espírito ecumênico.
A Federação Luterana Mundial intencionalmente
evita a palavra “jubileu”, bastante usada na Alemanha
(afinal, 500 anos não é uma data qualquer!) ou mesmo “celebração”,
mas, mais modestamente, “comemoração”. O sentido
é: há um sentimento de gratidão pelo legado teológico
de Lutero, afirmando a preponderância da graça
de Deus, o acolhimento desta através da fé e o compromisso
em favor da prática do amor ao próximo, da justiça
e da paz. Mas há também um sentido autocrítico
para com as limitações, falhas e deturpações
que ocorreram em Lutero e, sobretudo, na história das igrejas
após o período da Reforma. O papa Francisco
tem dado demonstrações de que encara a história,
também a da Igreja Católica, da mesma forma. Portanto,
a Reforma deve ser comemorada em espírito de gratidão
pelo legado evangélico, penitência pelos pecados cometidos
e reafirmação do compromisso evangélico.
IHU On-Line - Qual é o significado
da participação do papa Francisco na abertura das comemorações
do quinto centenário da Reforma Protestante, que inicia neste
dia 31-10-2016, em Lund, na Suécia? Que leitura o senhor faz
dessa participação?
Walter Altmann - O papa Francisco que
já como arcebispo de Buenos Aires deu claras demonstrações
de seu compromisso ecumênico, também como “bispo
de Roma”, como gosta de ser intitulado, tem recebido
lideranças luteranas (e de outras confissões cristãs
e religiosas), no Vaticano. Agora, no início dos 500 anos da
Reforma, ele vai a “território” luterano e co-oficiará
com o Presidente da Federação Luterana Mundial
– FLM, o bispo luterano palestino Munib Younan
(e com o Secretário Geral da FLM, o pastor chileno Martin
Junge) o culto comemorativo, e isso numa antiga catedral medieval
católica que passou a ser catedral luterana no século
XVI, quando a totalidade dos bispos suecos e todo o povo, a começar
pelo rei, aderiram à Reforma. É um gesto de grande significado
simbólico, que poderá ser muito reforçado ainda
com as palavras que estará proferindo. Deverá ocorrer
também a assinatura de uma declaração conjunta
pelo Papa Francisco e pelo Bispo luterano Younan.
IHU On-Line - Como a participação
do papa no encontro está repercutindo entre os luteranos?
Walter Altmann - Isso será sentido
mais após o evento comemorativo do que antes, também em
face do que concretamente haverá de ser dito e feito na ocasião.
Provavelmente não haverá uma unanimidade. Haverá
quem o verá de forma crítica, talvez recordando, de um
lado, que há ainda diferenças significativas entre as
igrejas e, de outro, que a Reforma luterana não deveria ser comemorada
neste momento “apenas” com a Igreja Católica, já
que há muitas afinidades teológicas e eclesiais com outras
igrejas oriundas da Reforma. Mas pode-se dizer já
agora que prevalece entre as igrejas luteranas do mundo o sentimento
de alegria com o fato de que as relações entre luteranismo
e catolicismo tenham progredido tanto a ponto de essa comemoração
conjunta se tornar possível. Está prevista também
a assinatura de um convênio de cooperação entre
o Departamento de Serviço ao Mundo da FLM, muito
engajado no apoio a refugiados, e a Caritas Internacional da
Igreja Católica, o que reforçará o significado
do evento. Acrescento, de outra parte, que a FLM estará realizando
sua próxima assembleia geral em maio próximo, na Namíbia,
um país do Sul do planeta, em que a maioria da população
é luterana. Nessa ocasião haverá também
um culto comemorativo conjunto da FLM com todas as confissões
cristãs parceiras da FLM.
IHU On-Line - Hoje, como está
a relação entre católicos e luteranos em geral?
Quais foram pontos de diálogo ecumênico entre ambos ao
longo dos últimos 50 anos? Como as comunidades reagem a esse
processo de diálogo e aproximação?
Walter Altmann - Em nível local
há numerosas experiências de cooperação,
embora em muitos lugares isso tenha mais característica de uma
convivência pacífica do que propriamente de estreita cooperação.
Em nível nacional temos tido de tempos em tempos a organização
ecumênica da Campanha da Fraternidade e, anualmente,
a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos,
muito difundida em comunidades locais. Tem havido cooperação
em pastorais específicas, como a indígena, a da terra
e outras. Em nível teológico-eclesial encontra-se regularmente
desde 1974 a Comissão Bilateral Católico-Luterana
da CNBB e da IECLB. Processos análogos podem ser registrados
em muitos outros lugares do mundo. De um modo geral, há hoje,
em lugar da confrontação e condenação mútua
do passado, uma relação de respeito, de reconhecimento
mútuo do ser cristão e, de maneira pontual, de cooperação.
IHU On-Line - Como o senhor vê
a celebração da Reforma 500 anos depois, num mundo que
é bastante secularizado e no qual as pessoas, inclusive, vivem
sem necessariamente adotar ou seguir os valores proclamados pela Reforma?
Que contribuições o protestantismo pode dar à sociedade
secularizada?
Walter Altmann - Bem, a meu ver o que
caracteriza o cenário religioso hoje não é simplesmente
secularização, porque há também um forte
recrudescimento das religiões. Assim, o cenário hoje é
caracterizado precisamente pela concomitância de secularismo e
forte impacto religioso. Nesse sentido, o próprio secularismo
poderia ser entendido como uma forma secular do religioso e muitos de
seus adeptos assumem uma postura por assim dizer “missionária”
de suas convicções. Isso é, claro, radicalmente
diferente do cenário religioso na época da Reforma,
em que se deu um conflito religioso, mas à base de um entendimento
comum de se estar num ordenamento de cristandade. Daí porque
a divergência acabou confluindo para a ruptura e até em
trágicos conflitos bélicos. Mas, sem dúvida, a
Reforma, ao defender que o âmbito secular não
podia ser tutelado pelo espiritual, contribuiu para a emergência
paulatina do Estado moderno e laico. Contudo, a Reforma
também confrontou os poderes políticos com o que lhe parecia
ser o bem comum e advogando, em especial, em favor do cuidado social
com todos os cidadãos, em especial os mais vulneráveis.
Isso continua altamente relevante.
IHU On-Line – A ênfase
no aspecto pessoal da fé não serviria também a
um processo de relativização que culmina na enorme explosão
numérica de igrejas? Como equalizar essa questão de modo
que as pessoas tenham uma fé pessoal, mas que não gere
esse efeito e que não se tenha, de outro lado, uma fé
e uma espiritualidade esvaziadas?
Walter Altmann - Fé pessoal
não significa uma fé arbitrária, cada qual a seu
gosto, o que de fato daria no resultado que apontas. Isso seria um desvirtuamento
do que Lutero propunha: uma fé pessoalmente assumida em suas
implicações e consequências, por exemplo, o compromisso
de amor ao próximo. Acrescentaria à valorização
da fé pessoal e da consciência de cada qual, contudo vinculadas
à Palavra de Deus.
IHU On-Line - Quais são as principais
contribuições da Reforma para a modernidade?
Walter Altmann - Mencionei na pergunta
anterior a distinção entre o secular e o espiritual, distinção,
não separação, o que seria um grosseiro mal-entendido
do que a Reforma defendeu. Acrescentaria a valorização
da fé pessoal e da consciência de cada qual. Dessa forma,
a Reforma afirmou o sacerdócio geral de todas
as pessoas batizadas. Ao enfatizar a justificação por
graça mediante a fé, valorizou todos os seres humanos
por igual. Teve também um acento todo especial na constituição
de comunidades, como base da igreja no seu todo. Quanto à educação,
propugnou por uma educação universal e ordenada pelos
agentes públicos, municipais em primeira linha, inclusive e explicitamente
em favor das meninas, algo totalmente revolucionário na época.
É interessante notar-se também, por sua relevância
para hoje, que, sem ser pacifista, Lutero rechaçou
totalmente o conceito de uma guerra santa e colocou estritos limites
para uma guerra ser considerada justa (apenas defensiva, com meios não
excedentes aos sofridos pela agressão ocorrida, busca da conciliação
etc.). Acrescento ainda como altamente relevante Lutero
ter identificado entre os ídolos que se contrapõem a Deus,
como principal deles, Mâmon, isto é, as
riquezas, o que permite uma crítica contundente a valores materialistas
de um capitalismo especulativo e espoliador.
IHU On-Line – O senhor concorda
que o luteranismo, diferente do catolicismo, não teve uma expansão
de caráter universal? Por quê?
Walter Altmann - Em dimensão
mais modesta do que o catolicismo, o luteranismo também teve
uma expansão universal, sim. Aliás, a FLM
propõe a comemoração da Reforma não como
um evento “alemão”, mas, sim, “global”.
A FLM representa hoje uma comunhão de 145 igrejas
luteranas em 98 países, de todos os continentes, com mais de
74 milhões de membros. Se bem que o maior número de luteranos
ainda hoje se encontra na Alemanha (mas divididos administrativamente
em várias igrejas luteranas territoriais), a maior igreja luterana
no mundo hoje é a Igreja Mekané Yesus,
da Etiópia, disputando a primazia com a Igreja
da Suécia. Também a Igreja Evangélica
Luterana na Tanzânia tem experimentado um notável crescimento.
Já mencionei que na Namíbia pouco mais da metade da população
é luterana. Também a Indonésia deveria ser lembrada.
Precisamente as igrejas da África e da Ásia estão
experimentando crescimento. Na América Latina a presença
é numericamente menos significativa, sendo a Igreja Evangélica
de Confissão Luterana no Brasil - IECLB a maior das
igrejas luteranas. Há ainda, adicionalmente mais algumas igrejas
luteranas não afiliadas à FLM, como, no Brasil a Igreja
Evangélica Luterana do Brasil – IELB, no tal mais
alguns milhões de fiéis. É verdade, porém,
que a expansão global do catolicismo foi muito mais vigorosa,
tendo se dado fortemente a partir das navegações e colonizações
do século XVI. A expansão do luteranismo deu-se só
séculos mais tarde e de outras formas. Na época da Reforma,
o catolicismo e a ação política do Imperador Carlos
V não foram capazes de restituir a unidade da Igreja Católica,
extinguindo a Reforma, mas pôde contê-la praticamente confinada
à Europa Central e à Escandinávia.
IHU On-Line - Qual foi o impacto da
Reforma no cristianismo como um todo? Alguns fazem uma crítica
de que a Reforma gerou uma divisão na Igreja e, mas outros consideram
que a divisão proporcionou momentos importantes. Que leitura
o senhor faz?
Walter Altmann - Qualquer divisão
da cristandade é lamentável e contrária à
vontade expressa de Jesus Cristo (João 17:21). Aliás,
teologicamente, confessamos todos haver apenas uma igreja una, santa,
católica (universal) e apostólica, ainda que, por múltiplos
fatores teológicos e “não-teológicos”,
esteja institucionalmente dividida. Já a divisão entre
cristandade oriental (igrejas ortodoxas, em torno do Patriarcado
Ecumênico de Constantinopla) e ocidental (sob Roma)
é dolorosa, como também a divisão na Igreja Ocidental,
com a Reforma. Lutero jamais pretendeu “criar”
uma nova igreja nem queria que qualquer pessoa se designasse de “luterana”,
mas apenas de “cristã”. Igualmente lamentável
também são as sucessivas divisões ocorridas posteriormente,
inclusive a enorme fragmentação da cristandade que temos
hoje. Importante é lembrar que os 500 anos de Reforma
não significam 500 anos de uma nova igreja, mas 500 anos da Reforma
no intuito de fidelidade ao evangelho apostólico, 2.000 anos
atrás. Por outro lado, é certo também que as diferentes
confissões cristãs têm características e
ênfases próprias, a maioria delas perfeitamente legítimas,
que, uma vez reconciliadas, podem conferir uma inusitada beleza à
Igreja una. Em vez de uma uniformidade, devemos vislumbrar um futuro
de uma diversidade reconciliada, reformada sempre de novo no que for
preciso. A Reforma afirmou e o papa Francisco também
tem afirmado que a Igreja necessita estar em permanente reforma.
IHU On-Line - Alguns luteranos têm
sugerido que com a data de celebração dos 500 da Reforma
- conforme demonstra o documento “Do conflito à comunhão",
redigido pela Comissão Internacional Católico-Luterana
em 2013 -, os luteranos deveriam ter um olhar crítico sobre si
mesmos não só considerando o passado, mas também
o futuro. O que seria, para o senhor, esse olhar crítico? Ele
é plausível nesse momento? Por quê?
Walter Altmann - Em relação
ao passado essa visão crítica, ainda que nunca um empreendimento
agradável, é mais fácil. É possível
detectar à distância o que em meio à confrontação
não era possível: as radicalizações de parte
a parte, os desvirtuamentos das posições alheias, as lutas
por poder e espaço, até ao ponto de guerras religiosas.
Como herdeiros dessa tradição, devemos solicitar perdão
uns aos outros e, sobretudo, ao próprio Deus. Mais difícil
é sermos críticos a nós mesmos em nosso próprio
tempo. Mas é algo igualmente necessário. Não devemos
tomar como algo absoluto nossas próprias concepções,
nossas teologias, nossas estruturas, mas exercitar a abertura ao outro,
buscar a convergência e enfrentar conjuntamente os grandes desafios
à nossa frente: como ter um testemunho de credibilidade em nosso
tempo, como viver a solidariedade do amor de Cristo para com as pessoas
que padecem, como sermos instrumentos da paz e da justiça, como
cuidar da criação que nos foi confiada por Deus. Não
precisamos assumir esses compromissos de maneira isolada. Ao contrário,
seremos mais eficazes e teremos mais credibilidade se unirmos esforços,
no espírito de uma comunhão fraterna.
IHU On-Line - Uma vez o Papa João
XXIII disse que “o que nos une é maior do que o que nos
divide”. O que une e o que divide católicos e luteranos
hoje? Quais são os pontos teológicos em que católicos
e luteranos divergem substancialmente, caracterizando as diferenças
entre ambos? E quais são os principais pontos de aproximação
entre ambos?
Walter Altmann - “O que nos une é maior
do que o que nos divide” é uma formulação
que passou a ser hoje praticamente um lugar-comum, mas expressa uma
realidade básica. Fundamentalmente, nos une a fé em Jesus
Cristo, como também o batismo que reconhecemos mutuamente.
Muitos pontos doutrinais nos são comuns, ainda que, aqui e ali,
tenhamos algumas formulações diferentes, mas sem afetar
a substância. A salvação, a Trindade, o batismo,
a valorização da Bíblia como fonte da revelação,
a compreensão de um sacerdócio geral das pessoas batizadas
e muitos outros aspectos nos unem. Desde 1999, quando foi assinada em
Augsburgo, Alemanha, pelo Vaticano
e pela FLM, a Declaração Conjunta
acerca da Doutrina da Justificação, também
há consenso na verdade básica de que a salvação
é concedida por graça de Deus e não à base
de nossas obras, mas é acolhida em fé. As diferenças
de formulação e ênfase remanescentes na formulação
da doutrina já não invalidam o consenso básico
alcançado. Isso é particularmente significativo porque
para Lutero esse era precisamente o ponto em que a Igreja “permanece
ou cai”.
Os 50 anos de diálogo bilateral católico-luterano
registaram enormes consensos. O documento “Do conflito à comunhão”
registra a necessidade de maior diálogo acerca da organização
eclesiástica, acerca do ministério e do ministério
ordenado. Mas já houve muitos avanços nesses tópicos
também, em particular no que diz respeito à Eucaristia.
Ainda assim, até agora a Igreja Católica não vê
alcançada a condição que permitiria a comunhão
em torno de uma única mesa eucarística, tampouco para
uma hospitalidade eucarística (a recepção de fieis
da outra igreja na sua própria Eucaristia), o que não
seria dificuldade para a esmagadora maioria dos luteranos. No fundo,
para a Igreja Católica está a pergunta do ministério
ordenado: quem está autorizado a presidir a mesa eucarística?
Quanto ao ministério petrino
(o ministério do papa), há ainda muito a dialogar. A Igreja
Católica o considera essencial para a igreja, enquanto o luteranismo
desenvolveu outras formas de liderança na Igreja. Uma porta aberta
para o diálogo consta na Encíclica Que Todos sejam
Um, do papa João Paulo II, ao mencionar a possibilidade
de ser revista a forma de exercício do ministério petrino.
Há no luteranismo vozes que defendem um “ministério
da unidade”, sem, contudo, o poder jurisdicional que o papado
detém na atualidade na Igreja Católica.
No tocante à mariologia está removida
a concepção muito arraigada no protestantismo de que os
católicos “adorariam” a Virgem Maria. Permanece,
porém, na concepção protestante, a noção
de que as orações a Deus são mediadas sempre pelo
próprio Cristo, valorizando-se a Virgem Maria e os santos não
como intercessores, mas como exemplos de fé a inspirar os fiéis.
IHU On-Line - Que leitura o senhor
faz da organização do documento “Do conflito à
comunhão”, redigido pela Comissão Internacional
Católico-Luterana, a partir da sua perspectiva religiosa? Como
esse documento repercutiu nas comunidades?
Walter Altmann - O documento é
de alta importância, mas até agora não repercutiu
muito em nível de comunidades, por ter sido publicado em português
mais recentemente e ainda não ter sido muito difundido. Seus
grandes méritos são fazer uma cuidadosa retrospectiva
dos 50 anos de diálogo, apresentar uma interpretação
católica e uma luterana acerca dos fatos da Reforma e da teologia
de Lutero de maneira convergente e em espírito ecumênico,
bem como traçar o mapa para conversações futuras.
Mas ele próprio não avançou em novas áreas
teológicas pendentes, em parte, talvez, porque propostas anteriores,
como em relação à Eucaristia, ainda não
foram assumidas oficialmente na prática das igrejas. Como seja,
ele é um poderoso convite a perseverarmos na caminhada do entendimento
e na busca da unidade plena. A comemoração dos 500 anos
da Reforma em espírito ecumênico poderá gerar novos
impulsos para a caminhada ecumênica das igrejas.
Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/561784-500-anos-da-reforma-manifesta-o-desejo-de-um-futuro-de-diversidade-reconciliada-entrevista-especial-com-walter-altmann
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