30/10/2016
A pesquisadora Bruna Suruagy conta
o que descobriu sobre a bancada da bíblia, alvo de sua tese de
doutorado
por Andrea Dip
- Pública - Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo

A professora de psicologia Bruna Suruagy,
da Universidade Presbiteriana Mackenzie, fez 42 entrevistas para sua
tese de doutorado "Religião e política: ideologia e
acão da ‘Bancada Evangélica’ na Câmara Federal”.
Ouviu parlamentares da bancada evangélica (de 2007 a 2011), assessores
e jornalistas. Continuou acompanhando o movimento dos políticos
evangélicos e o crescimento da bancada no Congresso. Em entrevista
à Pública, Bruna explica como acontece a seleção
dos candidatos dentro das igrejas, o esquema político das principais
denominações pentecostais e o que querem os políticos
evangélicos.
Como começou sua pesquisa
sobre a bancada evangélica?
Meu objetivo era entender como se processava a articulação
entre os discursos religiosos e políticos. Foi na legislatura
de 2007 a 2011, que aconteceu logo após a CPI das Sanguessugas
que apresentou alguns nomes de parlamentares evangélicos. Na
ocasião, a Igreja Universal retirou a candidatura de muitos parlamentares
e o início da legislatura de 2007 foi bastante tenso por conta
desse processo. Teve uma redução significativa da bancada.
Na época eles estavam com 45 membros.
Quando os evangélicos passaram a se organizar politicamente?
Antes da década de 1990, já existiam vários parlamentares
evangélicos, mesmo antes da Constituinte – muitos protestantes
históricos e alguns pentecostais, mas não existia uma
organização institucional da campanha desse grupo específico.
Eram evangélicos que decidiam se candidatar e eventualmente recebiam
o apoio de suas igrejas. Claro que, embora independentes, havia na Câmara
uma certa articulação em nome sobretudo da manutenção
dos interesses e valores morais próprios desse grupo. Mas no
início da década de 1990 a Universal
passou a protagonizar a participação política entre
os evangélicos e já começou atuando com um plano
político. Ela criou uma forma de fazer política
no sentido de quase atuar como partido.
Funciona assim: A cúpula da igreja, formada por um conselho de
bispos da confiança de Edir Macedo, indica candidatos em um procedimento
absolutamente verticalizado, sem a participação da comunidade.
Os critérios para a escolha desses candidatos geralmente têm
base em um certo recenseamento que se faz do número de eleitores
em cada igreja ou em cada distrito. E cada templo, cada região,
tem apenas dois candidatos, que seriam o candidato federal e o estadual.
Ela desenvolve uma racionalidade eleitoral a partir de uma distribuição
geográfica dos candidatos e a partir de uma distribuição
partidária dos candidatos. Isso mudou um pouco agora porque existe
um partido que é da Universal, o PRB, que fica cada vez mais
forte no Congresso. Na época, havia uma distribuição
por vários partidos para garantir a eleição. E
são escolhidos bispos com um carisma midiático, que conduziram
programas, radialistas e mesmo não bispos, mas figuras que se
destacavam como comunicadores. Porque existe uma interface da mídia
religiosa com a igreja e a política.
Não são parlamentares que se destacam na questão
litúrgica como grandes estudiosos da Bíblia – até
porque a tradição pentecostal está mais na produção
de emoções e de momentos afetivos do que de fato na liturgia.
Então os bispos e líderes religiosos que promovem essas
catarses coletivas e demonstram esse carisma institucional são
normalmente os escolhidos para candidatos. A Universal se tornou um
modelo para outras igrejas porque a cada novo mandato havia um aumento
significativo dos parlamentares da Universal. A Assembleia de Deus,
que hoje tem a maioria dos deputados, mas que não funcionava
assim, passou a ter a Universal como modelo. Não atuando da mesma
forma porque o funcionamento institucional é outro. A Assembleia
é uma igreja com muitas dissidências e muitas divisões
internas, por isso não é possível estabelecer hierarquicamente
os candidatos oficiais. As igrejas têm fortes lideranças
regionais e uma fragilidade do ponto de vista nacional. A sede não
tem tanta força e, por isso, eles criam prévias eleitorais.
As pessoas se apresentam voluntariamente ou são levadas pela
própria igreja e ainda há a ideia de que alguns são
indicados por Deus porque mobilizam grandes multidões, ou contagiam,
como dizia Freud, também termina sendo um critério.
Então tem uma lista, depois uma pré-seleção
que passa por um conselho de pastores – isso em cada ministério
[a Assembleia de Deus é uma igreja com muitas ramificações].
É interessante que os que pretendem se candidatar assinam um
documento se comprometendo a apoiar o candidato oficial caso ele não
seja escolhido. Na Universal, como o poder é nacional, tem uma
sede hierarquizada que consegue controlar a instituição,
candidaturas independentes não acontecem. Até porque os
parlamentares que foram eleitos com esse apoio institucional e que na
segunda legislatura tentaram se candidatar de forma independente não
ganharam as eleições. A vitória está totalmente
atrelada à instituição. Existe uma estratégia
bem construída porque eles preveem uma fidelidade de 20%, que
não é alta. A Assembleia de Deus está tentando
construir essa fidelidade e essa unidade política que são
extremamente difíceis devido a essa fragmentação
interna. E faz as prévias nacionais com a participação
de pastores e obreiros, novamente sem a participação da
comunidade – não é um processo transparente. No
Congresso então você tem essas lideranças religiosas
que demonstram uma maior habilidade na interlocução com
o sujeito, um carisma que gera catarse, contágio, impacto afetivo
e as lideranças que foram identificadas e constituídas
pela igreja como nomes importantes para ocupar o cenário nacional.
"ainda
há a ideia de que alguns são indicados por
Deus porque mobilizam grandes multidões"
A bancada evangélica é homogênea?
Na bancada evangélica no Congresso e também nas bancadas
estaduais e municipais, você tem uma diversidade tão grande
de integrantes que não dá pra pensar esse grupo como um
bloco coeso, homogêneo. Muitos vêm representando a Assembleia
de Deus e a Universal e algumas neopentecostais que tentam imitar essa
estratégia, como, por exemplo, Sara Nossa Terra, de onde saiu
o Cunha. Você tem muitos parlamentares das chamadas protestantes
históricas [batistas, presbiterianas, luteranas, metodistas]
que têm uma candidatura totalmente independente porque não
há um plano político já estabelecido dentro das
igrejas. Eles simplesmente são evangélicos, mas a trajetória
política geralmente não se dá dentro da igreja
e não há uma vinculação direta ao exercício
da fé. Esses parlamentares gostam de dizer que separam bem a
fé no âmbito privado da política na esfera pública.
Mas é uma distinção contraditória porque
eles tomam, sim, como referência algumas crenças e valores
para orientar suas práticas parlamentares e votações
como quando se discute aborto e homofobia, por exemplo.
Lembro que um parlamentar me disse na época em que fiz as entrevistas
que não há como fazer uma separação absoluta
porque um marxista, por exemplo, vai acabar se submetendo a essa orientação
de consciência na hora de atuar. E que ele, como cristão,
se submete a essa orientação de consciência. Mas
que vota orientado pela consciência, e não por uma filiação
religiosa ou institucional específica. Então, nas protestantes
históricas, não há essa presença ostensiva
da instituição. A pentecostal, que traz consigo a teologia
da prosperidade, que tem a presença do neoliberalismo, do conservadorismo
institucional e moral, já tem essa coisa de práticas políticas
fisiológicas e clientelistas. É um grupo heterogêneo,
mas os parlamentares pentecostais têm uma posição
mais orientada pelas instituições religiosas. O mandato
não é do parlamentar; é pouco do partido, é
mais da instituição.
"a Universal passou a protagonizar a participação
política entre os evangélicos e já
começou atuando com um plano político"
Isso já é combinado com relação
aos temas que eles vão defender? “Te ponho lá mas
você me garante que o aborto não sai!”
No começo, a gente tem a impressão de que a igreja interfere
totalmente em tudo. Mas o Edir Macedo, por exemplo, é um líder
muito complexo. Alguns parlamentares me contaram que ele determinou
que eles precisavam ter uma formação política.
Então eles frequentam cursos de formação política
na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Alguns outros cursos são
dirigidos para bispos e parlamentares da Igreja Universal. Eles disseram
isso explicando que não iam totalmente despreparados. “A
gente tem uma formação, antes de vir tenta entender e
conhecer.” O grande paradoxo da Universal é que no período
eleitoral há uma mistura entre religião e política
que é clara, não é velada. Ela se dá dentro
do templo, o templo vira palco, o púlpito vira palanque político
e as discussões pragmáticas sobre as eleições
acontecem no púlpito. Tem toda uma pedagogia eleitoral que acontece
dentro do templo. E no Parlamento eles tentam separar o discurso político
do discurso religioso. Na verdade, isso começou a ser exigido
pela cúpula da Universal depois de aparecerem escândalos
e irregularidades envolvendo parlamentares evangélicos. Na época,
quem era o grande líder político era o Bispo Rodrigues,
que era o braço-direito do Edir Macedo. Depois dos escândalos
do caso Waldomiro e do mensalão [que o levou à condenação
a seis anos e três meses de prisão por lavagem de dinheiro],
ele renunciou em 2005, perdeu o título de bispo e retiraram todas
as candidaturas dos parlamentares justamente para não arranhar
a imagem da igreja. Dizem que o Edir Macedo tem o privilégio
de não participar desses momentos.
Tem até um líder de outra igreja, o Robson Rodovalho,
que é da Sara Nossa Terra, que se candidatou e se elegeu, que
dizia que era muito difícil para ele como líder estar
ali. Que para o Edir Macedo era muito mais fácil porque, se algum
parlamentar fosse citado ou cometesse alguma irregularidade, ele simplesmente
diria que não sabia de nada. No caso dele, a igreja correria
o risco de se enfraquecer. O que me chamou atenção quando
fiz as entrevistas foi que nenhum tinha mais o título de bispo.
Com os outros, eu começava sem perguntar nada sobre a religião,
e eles mesmos em algum momento entravam nessa parte da fé. Já
os parlamentares da Universal não falavam de Deus, era um discurso
totalmente parlamentar. Não mais progressista, mas eles queriam
separar os processos. E, segundo um deles, o próprio Edir Macedo
orienta os parlamentares a seguir as orientações do partido
nas votações exatamente para que eles não tenham
divergências e eventualmente percam as verbas públicas
destinadas às emendas parlamentares.
"O templo vira palco,
o púlpito vira palanque político e as discussões
pragmáticas sobre as eleições acontecem
no púlpito"
Então qual é o grande interesse da Universal?
Quando as temáticas são institucionais, relacionadas a
isenção fiscal, alvará de funcionamentos das igrejas,
doações de terrenos, distribuição de concessão
de rádios e TV, a transformação de eventos evangélicos
em eventos culturais pra receber financiamento da Lei Rouanet, questões
relacionadas à lei do silêncio. Aí eles atuam de
forma articulada, como um bloco, convergem em nome desses interesses,
como em relação a questões morais. Com algumas
diferenças, mas muitas aproximações. Alguns cargos
dos gabinetes têm que ficar à disposição
da igreja, que indica quem vai ocupar. É uma igreja pragmática,
tem muito mais interesses institucionais do que morais. Se for analisar
do ponto de vista moral, é muito mais flexível e aberta
do que igrejas como a Assembleia de Deus. Essa, sim, tem um discurso
de natureza moral além do institucional, de manutenção
da ordem. Quando há convergência nesses temas institucionais
e morais, a bancada se articula. É importante salientar que poucas
vezes você verifica a articulação desse bloco de
forma totalmente coesa. Eles excluem a política nessa discussão
de pauta dos parlamentares evangélicos para criar uma falsa aparência
de unidade. Muitas vezes a imprensa anuncia a bancada evangélica
como um ser único, e para a bancada é muito interessante
aparecer assim como um corpo único, um bloco suprapartidário…
E dizer “a bancada” convenientemente não
dá nomes, né?
Exatamente, uma entidade com um poder e as divisões não
aparecem. Mas no discurso desses parlamentares que estão à
frente e que normalmente são os das igrejas pentecostais apresentam
a bancada dessa forma. “A bancada decidiu”.
Eles se reúnem?
A mídia faz parecer que sim, mas não. Porque eles estão
filiados a partidos e a movimentação na Câmara se
dá por partidos. Eles ficam muito indignados com a falta de poder
que têm, porque têm poder na igreja, mas a divisão
por partido privilegia o alto clero. Você tem alguns líderes
partidários que definem as orientações e eles tem
que seguir ou são punidos de alguma forma, principalmente não
tendo as verbas públicas para realização das emendas
parlamentares. “Estou aqui mas não tenho muito poder de
decisão, tenho sempre que obedecer partido, não tenho
autonomia” eram reclamações constantes. Estou falando
principalmente desse grupo pentecostal, que é o mais barulhento
e que fala pela bancada, principalmente os assembleianos [da Assembleia
de Deus]. Eles têm o Feliciano, o Cunha, o João Campos,
que é o líder da Frente. Engraçado que na época
em que eu fiz a pesquisa o Eduardo Cunha era superinexpressivo como
integrante da bancada evangélica. Mas eles se reúnem muito
pouco, às vezes no dia do culto, quarta de manhã, fazem
o ritual religioso e têm alguma discussão sobre projetos
de lei e discussão de pauta.
O interessante é a atuação dos assessores. Eles
acompanham os projetos diariamente, em uma tentativa de mapeamento dos
projetos em tramitação e seleção dos mais
importantes, projetos “anticristãos”. Você
também tem uma distribuição dos parlamentares pelas
comissões que eles consideram mais importantes como a de Seguridade
Social, de Direitos Humanos, de Constituição Justiça
e Cidadania. Aí eles vão tentando barrar a tramitação
dos projetos. Alguns mais ativos tentam conseguir posto de presidente
ou relator. Você tem uma estratégia bem elaborada, mas
não conta com uma participação tão ativa
quanto parece. É uma bancada barulhenta, intempestiva, aguerrida,
beligerante, e esse barulho cria a impressão de volume, de quantidade
de poder, de coesão. Acho que também é uma estratégia
de parecer maior do que é pelo grito. Que é o que acontece
nas próprias igrejas. As igrejas têm esse discurso de guerra,
de combate. O exército da Universal que deixou todo mundo perplexo,
mas isso sempre aconteceu, é o discurso de todas as igrejas.
A convocação nas igrejas tem todo esse ritual bélico
mesmo. E o soldado é aquele que está ali para obedecer
e para combater. A bancada usa isso também. Você valoriza
o tamanho do adversário para convocar os integrantes. Mas eu
ouvi muitos relatos de parlamentares que estavam acompanhando votações
e que tinham poucos para impedir a continuação da votação.
Aí o assessor ligava para a lista da FPE: “Esse é
pró-vida, vou chamar”. Aí liga: “Deputado,
vem aqui, pede vista”. Eles têm uma assessoria que conhece
os procedimentos regimentais e que orienta os parlamentares que muitas
vezes não sabem nem o que está acontecendo ali. Tem uma
disponibilidade em participar quando convocados e uma entrega total
de alguns pela causa
Qual é a missão da bancada evangélica nesse sentido?
Ao meu ver, é de preservação, não de criação.
Eles não querem criar projetos, querem manter tudo intacto. É
uma atuação ideológica, se posicionar contra projetos
inovadores, transformadores. Agora que houve algumas críticas,
eles estão tentando elaborar projetos mais numa perspectiva de
manutenção de uma ordem do que de transformação.
É uma ação mais combativa, defender uma ordem social
hegemônica. Os projetos que estão surgindo são pra
fazer frente a projetos que estão em andamento, por exemplo,
com relação a projetos do grupo LGBT. Criminalização
da homofobia – criminalização da heterofobia. São
projetos estapafúrdios. Aborto, drogas, criminalização
da homofobia, casamento entre pessoas do mesmo sexo, são contra
a discussão de gênero, a favor do ensino religioso, contra
todos os projetos pedagógicos e educativos que combatem qualquer
tipo de discriminação de gênero, sexual…
"É uma bancada barulhenta, intempestiva,
aguerrida, beligerante, e esse barulho cria a impressão
de volume, de quantidade de poder, de coesão"
Você acha que é uma causa legítima? Eles
acreditam mesmo nisso?
Antes do Eduardo Cunha, eles estavam caminhando para um discurso mais
coerente com aquele espaço. No fim de 1980, os discursos condenavam
o aborto e justificavam trazendo passagens bíblicas, dizendo
que Deus não permite. Depois a bancada amadureceu um pouco nesse
sentido, entendeu que não dava pra usar esse discurso porque
não tinha coerência e começaram a argumentar de
forma mais legislativa, aderir a um discurso que tinha mais ressonância
naquele contexto. Toda moral é um sistema de controle. A sexualidade
é um tema central na igreja com um discurso muito forte constante
porque a sexualidade de alguma forma expressa liberdade. Então,
você tem um sistema normativo de controle. É genuíno
no sentido de que eles acreditam nessas coisas, mas virou, sim, um jogo
de poder com os movimentos LGBT, por exemplo. O aborto é um tema
controverso. Alguns acham que o aborto deveria ser crime hediondo, que
é um assassinato. Mas outros, como os da Universal, acham que
o aborto é uma possibilidade. É uma defesa genuína
de posições morais que eles querem transferir para a realidade
social. É legítimo que um grupo pense assim. O que não
é legítimo é trazer esse discurso para a esfera
pública de um Estado laico.
Fonte: http://apublica.org/2015/10/afinal-o-que-os-evangelicos-querem-da-politica/
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