07/10/2016
Edison Carneiro: o Ogã comunista
por José Tadeu Arantes | Agência
FAPESP

Foto da Academia dos Rebeldes, novembro de 1936,
reproduzida do livro O Intelectual Feiticeiro.
Da esquerda para a direita (em pé): Aydano do Couto Ferraz e
Alves Ribeiro;
(sentados) Azevedo Marques, João Cordeiro, Edison Carneiro, Jorge
Amado e Clóvis Amorim
(foto: Acervo particular de Waldir Freitas Oliveira/autoria desconhecida)
Autor de mais de uma dezena de livros,
entre eles Religiões Negras (1936), Negros Bantos
(1937), Candomblés da Bahia (1948), O Quilombo dos
Palmares (1947) e Antologia do Negro Brasileiro (1950),
o etnógrafo e folclorista baiano Edison Carneiro
(1912 – 1972) é nome referencial nos estudos sobre relações
étnico-raciais, religião afro-brasileira, folclore e cultura
popular. Graças à sua intermediação, literária
ou direta, muitos intelectuais do país e do exterior tiveram
acesso aos candomblés de Salvador, a maior cidade negra do mundo
fora da África.
Um tanto esquecida nos anos recentes, a trajetória de Edison
Carneiro foi recuperada pelo livro O intelectual feiticeiro: Edison
Carneiro e o campo de estudos das relações raciais no
Brasil, escrito por Luiz Gustavo Freitas Rossi e publicado com
apoio
da FAPESP.
O livro resultou da tese de doutorado de Rossi, que é atualmente
pós-doutorando no Departamento de Antropologia da Universidade
Estadual de Campinas (Unicamp). Esse estudo, também apoiado pela FAPESP,
foi considerado pela Coordenação de Aperfeiçoamento
de Pessoal de Nível Superior (Capes) o melhor trabalho em antropologia
do ano 2011.
“Meu estudo centrou-se mais
na vida e no trabalho que Edison Carneiro desenvolveu junto aos candomblés.
E também na fusão, um tanto inusitada para o padrão
cultural da época, que ele fez ao articular esse estudo com
sua filiação marxista”, disse Rossi à Agência
FAPESP.
“Jorge Amado (1912 – 2001), que foi, desde
muito cedo, amigo pessoal e companheiro político de Edison
Carneiro, afirmou que este recebeu no candomblé o título
de Ogã, cargo honorífico atribuído àqueles
que protegem e auxiliam as casas de culto. Mas não acredito
que ele tenha sido um praticante. Era mais um estudioso. Foi também,
na década de 1930, um pioneiro na defesa da plena liberdade
religiosa”, informou o pesquisador.
“Meu livro desenvolve-se em torno de dois grandes
eixos: um é o lugar de Edison Carneiro no campo de estudos
das relações étnico-raciais no Brasil nos anos
1930; outro é a própria experiência racial dele
no contexto das classificações raciais vigentes na Bahia
no período compreendido entre a Proclamação da
República e a Revolução de 1930. Procurei mostrar
como essas duas dimensões se relacionaram, enfatizando a questão
de como ele experimentou o mundo racialmente, de como a negritude
foi vivenciada por ele, oriundo que era de uma família negra
pertencente à elite social baiana”, afirmou o pesquisador.
O pai de Edison, Antônio Joaquim de Souza Carneiro,
foi um personagem de destaque na cidade de Salvador. Engenheiro civil,
intelectual polivalente e professor da Escola Politécnica da
Bahia, era filho de pai “mulato”, também engenheiro,
e mãe “branca”. Diplomou-se em 1904, menos de duas
décadas depois da abolição da escravidão.
Em uma sociedade provinciana e conservadora, recém-egressa do
período escravista, seu status social e prestígio dependeram
da proteção do principal chefe da oligarquia baiana, José
Joaquim Seabra (1855 – 1942), por duas vezes governador da Bahia.
“Éramos seabristas de três gerações”,
afirmaria muitos anos mais tarde Nelson Carneiro (1910 – 1996),
irmão mais velho de Edison e então senador da República.
A Revolução de 1930 retirou do poder o segmento oligárquico
com o qual a família mantinha laços de fidelidade. E Antônio
Joaquim de Souza Carneiro perdeu seu cargo na Escola Politécnica
da Bahia. Mesmo assim, em uma sociedade ciosa das classificações
raciais, seria identificado como “branco” em sua certidão
de óbito. A mãe do etnólogo, Laura Coelho de Souza
Carneiro, era classificada como “mulata”.
“A negritude sempre foi vivenciada por Edison
de maneira muito ambivalente. Os outros o classificaram ora como ‘mulato’
ora como ‘branco’. E essa ambiguidade se traduziu, de
certa forma, no trabalho dele. Por exemplo, na dificuldade em incorporar
sua própria vivência racial no texto, colocando-se de
maneira um tanto distanciada, falando dos negros na terceira pessoa
e não na primeira”, comentou Rossi.
É claro que essa opção atendia,
em parte, a um imperativo de estilo, na medida em que o etnógrafo
buscou, na escrita, um resultado com pretensões à objetividade.
Mas, segundo o pesquisador, esse aparente distanciamento era também
parte das estratégias de inserção social das pessoas
que, como Edison, pertenciam à elite negra no contexto de uma
sociedade de hegemonia branca.
“Não colocar em primeiro plano sua própria
identidade racial era uma forma de evitar que outros o fizessem. Esse
silêncio não deve ser entendido como alienação
ou vergonha. Era, antes, um modo de responder e até de desafiar
uma ordem social redutora”, explicou Rossi
Como indivíduo, portanto síntese de múltiplas
determinações, Edison Carneiro não queria ser reduzido
à mera identidade racial.
“No próprio discurso do Partido Comunista,
no qual Edison militou, a questão racial, embora jamais negada,
nunca foi colocada em primeiro plano, pois era subordinada à
questão de classe social e inserida na unidade maior que constituía
o núcleo central do ideal revolucionário. O fato de
Edison, sendo comunista, ter-se dedicado tão prioritariamente
ao estudo das relações raciais pode até ser considerado
uma exceção”, lembrou o pesquisador.
Prova disso foi que, apesar de a cultura afro-brasileira
ser uma realidade absolutamente central em uma cidade como Salvador,
uma realidade central na construção da experiência
de vida das classes pobres, muitos militantes comunistas soteropolitanos
declararam, mais tarde, que só chegaram ao candomblé pelas
mãos de Edison Carneiro. Pois, para além da mítica
“democracia racial”, uma barreira, ora explícita
ora disfarçada, separava, e ainda separa, brancos e negros.
"Mestre Antigo"
A militância comunista de Edison Carneiro iniciou-se nos tempos
de estudante universitário. Por ser enorme e bagunçada,
a casa do professor Antônio Joaquim de Souza Carneiro recebeu
dos colegas do filho o apelido de “Casa Brasil”, conforme
relembrou Jorge Amado no artigo “O professor Souza Carneiro”
(A Tarde, Salvador, 1981). Foi na “Casa Brasil”,
na qual galinhas transitavam despreocupadamente pela sala, que se criou,
na primeira metade da década de 1930, a célula comunista
da Faculdade de Direito da Bahia. Quem organizou a reunião de
fundação foi o “camarada Stanislaw”, codinome
de Carlos Marighella (1911 – 1969), que viria a ser membro da
direção do Partido Comunista do Brasil (depois renomeado
Partido Comunista Brasileiro – PCB) e, posteriormente, o principal
dirigente da Ação Libertadora Nacional (ALN).
Apenas um ano mais velho do que Edison Carneiro e, como ele, nascido
em Salvador, Marighella também tinha ascendência negra,
pois seu pai era um imigrante italiano e sua mãe, descendente
de escravos da etnia hauçá, originária do sahel
africano. Consta ter sido aluno do pai de Edison na Escola Politécnica
da Bahia.
Como diria, décadas mais tarde, o então dirigente comunista
Armênio Guedes (1918 – 2016), Edison Carneiro era, na juventude,
o “intelectual máximo do grupo”. Embora não
tivesse, na ocasião, mais do que 25 anos, recebeu de seus colegas
o apelido de “Mestre Antigo”, porque havia lido de tudo
e, sentado à tarde em sua mesa no Bahia Bar, era capaz de responder
a qualquer pergunta.
“Com o desenvolvimento de seus estudos etnográficos,
ele viria a se tornar, mais tarde, uma espécie de mediador.
Por um lado, porta-voz das demandas políticas e simbólicas
dos candomblés baianos. Por outro, facilitador do acesso de
intelectuais brasileiros e estrangeiros ao mundo da religiosidade
afro-brasileira. Assim, estabeleceu e estreitou contatos com pesquisadores
como Gilberto Freire, Arthur Ramos, Donald Pierson e, principalmente,
a etnóloga norte-americana Ruth Landes (1908 – 1991),
com quem teve uma aproximação não apenas intelectual
mas também amorosa”, relatou Rossi.
O avanço cultural e político da chamada
“consciência negra”, protagonizado no Brasil por intelectuais
do calibre de Abdias Nascimento, Milton Santos e Kabengele Munanga,
tornou Edison Carneiro em certa medida ultrapassado. Mas, no contexto
da década de 1930, ele foi, antes da chegada ao país do
etnólogo francês Pierre “Fatumbi” Verger (1902
– 1996), uma ponte entre mundos: o mundo dos negros e o mundo
dos brancos, o mundo da religião popular e o mundo da cultura
acadêmica.
O intelectual Feiticeiro - Edison
Carneiro e o campo de estudos das relações raciais no
Brasil
Autor: Gustavo Rossi
Editora: Editora Unicamp
Ano: 2015
Páginas: 280
Preço: R$ 48
Mais informações: www.editoraunicamp.com.br/lancamento_detalhe.asp?id=1084
Fonte: http://agencia.fapesp.br/edison_carneiro_o_oga_comunista/24087/
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