07/10/2016
Assexuais: a quarta orientação
sexual?
por BARBARA AYUSO | Reportagem EL PAÍS
Assexuais: a quarta orientação
sexual?
Vários assexuais explicam por que reivindicam ser reconhecidos
como uma opção sexual, equiparável à heterossexualidade,
homossexualidade e bissexualidade

A gravata borboleta de Rafael é
mais do que uma questão estética. Suas cores (cinza, preto,
branco e roxo) simbolizam quem é, e lançam uma mensagem
clara: sou assexual. Nem celibatário nem casto nem imaturo nem
impotente. Tampouco inexperiente ou traumatizado. Simplesmente não
sente atração sexual. Algo que, segundo os estudos realizados
pelo sexólogo Anthony F. Bogaert, ocorre com 1% da população,
umas 70 milhões de pessoas em todo o mundo.
No início, eram uma incógnita dentro da equação
do desejo. O pioneiro relatório Kinsey os definiu como “X”
em sua escala, porque sua atração por homens ou mulheres
era nula. As cores que agora hasteiam para se tornarem visíveis
homenageiam o trabalho do sexólogo: “Cada uma simboliza
uma das opções e o roxo, a comunidade”, explica
Rafael. Ele, astrofísico, de 27 anos, também era uma incógnita
para si mesmo. Na adolescência sabia que era diferente dos demais
porque não atravessou o clássico despertar sexual. Não
lhe interessavam nem os garotos nem as garotas. Murmuravam que era “estranhíssimo”
ou homossexual, mas isso não o preocupava demais. “Na escola
sofri bullying, por isso, quando cheguei ao segundo grau, tanto
fazia o que falassem de mim”, esclarece.
O Google deu nome ao que acontecia com ele: era assexual. “Não
foi uma descoberta traumática, simplesmente soube que era algo
perfeitamente normal que acontecia com muita gente”, diz. “Quando
estou na discoteca e os outros veem alguém atraente, dizem: ‘eu
dormiria com ele ou ela’. Isso não acontece comigo. Posso
dizer que é atraente, bonito ou simpático, e que gostaria
de estar com ela, com sofá, filme e cobertor. Mas não
me acontece isso de ‘transa’”, esclarece.
Também descobriu que existia uma ampla comunidade virtual de
assexuais, Asexuality Visibility e Education Network (AVEN)
e sua filial para os falantes de espanhol, a AVENes, que compartilham
experiências e vivências de uma orientação
pouco conhecida e muito propensa a falsos mitos. “Você se
sente muito alienígena porque não pode estabelecer empatia
com os outros. Sente que tem de fingir ou aparentar, para se encaixar”,
conta Marcia, uma garota assexual amiga de Rafael. Embora estudassem
na mesma universidade, ambos entraram em contato por um de seus fóruns,
falando sobre Naoko, uma personagem do romance Norwegian Blues,
de Haruki Murakami. "É um retrato 200% realista. Ela se
enche de culpa por não poder ter sexo com o namorado, e até
tenta uma relação com uma mulher, e tem episódios
de sexo não claramente consensual... é uma assexual do
livro”, diz Marcia.
“Você sente que tem de aparentar
desejo sexual para se encaixar com os demais”
Assexual não significa "nada de
sexo"
Ambos tiveram relações de casal, mas nenhuma satisfatória.
“Eu só tive uma, e não houve relações
sexuais, mas também não foi um problema porque, embora
não soubesse, acho que a outra pessoa também era assexual.
De modo que nunca me sentiu forçado nesse sentido. Tive sorte”,
explica Rafa. Para ela, a situação foi diferente. Em sua
segunda relação já punha nome ao que lhe acontecia,
e seu namorado se esforçou por entendê-la e respeitá-la:
“Mas, ainda assim, você sente uma pressão social
muito grande por parte da família, do entorno... coisas que fazem
com que em qualquer momento que seja especialmente pesado você
ceda, porque você sente que é um parceiro ruim ou que o
seu amor vale menos se for incompleto”, afirma. Outros casos,
como o do antropólogo Javier León, autor do livro Asexualidad:
¿se puede vivir sin sexo? (assexualidade, pode-se viver
sem sexo?), evidenciam que a
vida de casal e a assexualidade são perfeitamente compatíveis.
Eles exemplificam a heterogeneidade do coletivo, no qual é um
erro o enquadramento em tendências delimitadas. Falamos de um
espectro amplo, que inclui uma infinidade de variáveis, as quais
começam por separar dois conceitos que social e historicamente
estão ligados: a atração sexual e a romântica.
Para eles, não estão. Podem, como Marcia, não ter
interesse sexual, e sim romântico, em suas relações
(arromânticos) ou experimentar atração sexual somente
quando houver um laço emocional (demisexuais). Um glossário
complexo, que costuma dar margem a reducionismos. “Admite-se que
pode haver gente desinteressada no sexo. O que acontece é que
se simplifica o não sentir atração sexual, que
é equiparado a um comportamento não sexual, e daí
a uma vida de monge”, afirma Marta Torca, ativista da associação.
Muitos assexuais, na realidade, mantêm relações
frequentemente. Seja para agradar a seu parceiro, para procriar ou porque,
em determinadas situações, chegam a sentir desejo esporádico
(os que ficam na chamada zona cinza, ou Grey-A, em inglês). E
podem desfrutar do sexo. “Além disso, aí entram
em jogo o que se considera relações sexuais porque nem
tudo se reduz ao coito”, especifica Rafa. A masturbação
também não é nenhum tabu: “Às vezes
você pode fazer por uma necessidade fisiológica, mas não
evoca uma pessoa nem uma situação”, explica. Marcia
acrescenta uma metáfora: “Uma vez alguém definiu
isso como quando você tem muita vontade de comer, mas vai à
geladeira e, ao abri-la, vê que não gosta de nada. Algo
assim”, diz. São conscientes de que a batalha da compreensão
é longa: “A assexualidade é muito diversa e fazer
essa diversidade chegar vai ser custoso. Fazer entenderem que uma pessoa
pode ter relações sexuais, um parceiro que, sim, sente
atração sexual, masturbar-se, ter impulso sexual (diferente
de atração) e ainda assim continuar sendo assexual”,
diz Torca.
“Alguns sexólogos chegam
a recomendar que você se force a fazer sexo para se curar”
Ativismo e visibilidade
Há um ano, a comunidade virtual
começou também a organizar eventos presenciais. Mas Marcia
e Rafa detectaram uma falha importante, embora só pareça
ser um detalhe: “Eram convocadas pessoas com assexualidade, e
não os assexuais. Como se fosse um problema ou algo de que você
sofre”, recorda ela, desenhando no ar as três letras da
preposição. Esse foi o gérmen da associação
que fundaram em fevereiro de 2016, a primeira da Espanha: Assexual Community
España (ACE), focada na visibilidade e no ativismo do grupo.
Pretendem lutar, entre outras coisas, contra essa preposição
maldita. E contra os tratamentos que tentam corrigir sua condição:
“Alguns sexólogos chegam a recomendar que você se
force a ter sexo para se curar”, afirma Marcia.
Em 2013, a assexualidade deixou de ser considerada transtorno pelo Manual
Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM-IV),
mas, segundo denunciam, continuam existindo profissionais que enquadram
a condição como patologia. E dão exemplos: “Há
pouco tempo, uma união de sexólogos publicou um artigo
afirmando que nós, assexuais, tínhamos uma falha de conceito,
e um transtorno moldado na infância. Até nos compararam
com estrelas do mar”, diz Marcia. Eles recorrem a estudos como
o da sexóloga Lori Brotto ou de Bogaert, que desmistificam uma
das ideias mais disseminadas. A que sustenta que a assexualidade é
motivada por algum trauma.
Algo que também detectam no âmbito social. Os assexuais
se sentem continuamente questionados porque a incredulidade é
a reação dominante quando confessam que não sentem
atração sexual: “Não pode ser”, “é
que você não teve uma boa experiência”, “você
não conheceu a pessoa adequada”, “Você não
é homossexual?”, “Olhou os hormônios? Pode
também ser um problema de libido”, são as perguntas
desgastantes de todos os dias.
“Os assexuais sofrem o questionamento
constante de sua condição”
Por isso, recebem com agrado iniciativas
como a do anúncio de colchões Flex, que tratava de afugentar
certos tópicos enfrentados pelos assexuais, como o de que sofrem
aversão ao sexo. A campanha também ajudou a aproximar
da realidade muita gente que, por questões geracionais, não
fazia parte da comunidade virtual e até desconhecia o conceito:
“Uma mulher de 50 anos que conheceu a assexualidade por esse meio
nos escreveu, e se sentiu identificada. Nunca lhe tinha dado nome e
está a vida inteira forçando o desejo, com filhos e marido,
mas sem se entender a si mesma. É uma vivência que se você
vive na solidão pode chegar a ser alienante”, diz Marcia.
Eles afirmam que, em uma sociedade hipersexualizada, os homens ficam
com a pior parte, embora também não seja simples para
as mulheres: “A ideia da masculinidade está muito associada
com o sexo, quem não faz parece que é menos homem. Uma
garota pode livrar-se de um chato e sair aplaudida porque está
exercendo sua liberdade de dizer não. Mas se uma moça
bonita se insinua para um rapaz, e ele lhe diz não, é
logo tachado de maricas e tem de aguentar piadas e alfinetadas”,
explica Marta Torca. O próprio Rafa afirma viver situações
muito semelhantes: “A uma moça particularmente insistente
tive de dizer que fosse se aquecer em sua casa”, conta.
Além de livrar o grupo dos estigmas, sua agenda política
é mais ambiciosa: buscam ser reconhecidos como a quarta orientação.
“Consideramos a assexualidade uma orientação sexual
equiparável à homossexualidade, bissexualidade e heterossexualidade.
É uma ideia que já vem do ano 1979, com o modelo de Storms”,
diz Torca. Avaliam que, se não for ampliado o marco da diversidade,
sempre ficarão à margem. Marcia volta a lançar
mão das metáforas: “Se você é calvo
e te perguntam a sua cor de cabelo, você pode dizer: sou calvo
como a cor do cabelo, ou acontece que não tenho cabelo. O mesmo
se dá com a orientação, que tem de ser reconhecida.
Gostaríamos que existisse como opção: porque se
você é calvo não é nem ruivo nem moreno nem
loiro. É calvo”. Os assexuais já não são
nenhum “X”, mas ainda têm incógnitas a eliminar.
Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/09/25/estilo/1474774500_292073.html
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