29/08/2016
Australiano Peter Singer diz que ajudar
as pessoas mais vulneráveis é um dever moral - mas os
atos têm de ser pensados e calculados sem a influência da
emoção

PETER SINGER DEFENDE QUE CARIDADE SEJA FEITA DE
MANEIRA EFICIENTE E FOCADA EM RESULTADOS
FOTO: ANDREW WILKINSON /WILKINSONMEDIA.NET
por Ana Freitas - Nexo jornal
O filósofo australiano Peter
Singer afirma que fazer caridade é um dever moral e deveria ser
um ato obrigatório. Mas também argumenta que é
preciso fazê-la de maneira racional - e essa preocupação
também deveria ser um dever moral.
No livro "The Most Good You Can Do: How Effective
Altruism Is Changing Ideas About Living Ethically" (O Maior
Bem Que Se Pode Fazer: Como O Altruísmo Eficiente Está
Mudando Ideias Sobre Como Viver Eticamente, sem tradução
no Brasil), ele ataca a caridade impulsiva, que é feita para
que nos sintamos bem. Para Singer, esses atos são tão
ineficientes quanto não fazer nada para mudar o mundo.
Para ele, é possível perseguir uma vida
bastante ética com o altruísmo eficiente: a filantropia
precisa ser feita racionalmente, levando em conta não o apelo
emocional da causa, mas como e quanto exatamente nossos atos podem impactar
efetivamente o mundo.
O que é o altruísmo
eficiente?
PETER SINGER
É a ideia de que deveríamos nos basear
em evidências e na nossa habilidade em analisar evidências,
e em sermos racionais [quando fazemos caridade ou ajudamos alguém]
para garantir que, seja lá o que fizermos, tenha a maior possibilidade
de ter efeito prático. Usar seus recursos para conseguir que
o altruísmo tenha as melhores consequências.
E essa ideia é específica
para momentos em que queremos ajudar alguém ou é possível
aplicar a outros campos da vida?
PETER SINGER
É possível, certamente. Mas uma das
coisas interessantes é que as pessoas sequer aplicam a filosofia
quando fazem caridade. Elas não avaliam se estão fazendo
aquilo da melhor maneira, para obter os melhores resultados possíveis.
E por isso o altruísmo eficiente é tão importante.
Dar esmola é um jeito ineficiente
de fazer caridade, por que é baseado em emoção?
PETER SINGER
Certamente. Esse é só um exemplo.
Um exemplo muito maior é o do [produtor musical] David
Geffen, que doou US$ 100 milhões para a renovação
do Lincoln Center [complexo de edifícios em Nova York que
funciona como sede de companhias artísticas]. Agora, ele
se perguntou se essa era a melhor coisa que ele podia fazer com aqueles
US$ 100 milhões? Eu duvido muito, porque posso pensar facilmente
em coisas que trariam muito mais benefícios do que renovar uma
casa de espetáculos que as pessoas já usam de maneira
muito confortável.
Daria também para aplicar o conceito
nas iniciativas de crowdfunding e mobilizações de ajuda
a causas humanitárias na web?
PETER SINGER
É necessário lembrar que essas causas
mobilizam as pessoas, elas querem ajudar e isso é ótimo.
Mas como elas estão de fato ajudando, para onde esse dinheiro
está indo? Eu acho que pensar nisso também é importante.
De maneira geral, muitas organizações que já têm
uma estrutura funcionando são as que ganham mais dinheiro, enquanto
as causas mais emergentes, que precisam organizar uma estrutura do nada
muito rapidamente têm mais dificuldade de levantar fundos. Muitas
coisas não ganham as manchetes.
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O que o livro diz:
em The Most Good You Can Do, Singer defende que cada indivíduo
tem a obrigação moral de viver uma vida ética e
fazer caridade.
A ideia não é se perguntar quais questões são
mais urgentes, mas em que causa nossa caridade pode ter o maior impacto.
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E por que as pessoas não têm o
costume de acompanhar a rota e a aplicação dos recursos
que doam?
PETER SINGER
A caridade é uma decisão emocional,
não racional. As pessoas doam de maneira impulsiva. Os psicólogos
chamam isso de warm-glow giving
, o ato de doar para se sentir bem por acreditar que
está fazendo a coisa certa. Isso acontece em nível emocional,
e meu argumento é que embora ajudar os outros seja ótimo
e o certo a se fazer, não é o suficiente. É preciso
usar a cabeça tanto quanto o coração.
E como é possível viver uma vida mais ética em
um contexto em que pequenas ações aparentemente inofensivas
acabam gerando consequências sociais ruins? Por exemplo, comprar
um celular pode significar explorar mão-de-obra infantil na extração
de algum mineral em um país em um país em desenvolvimento.
PETER SINGER
É possível viver uma vida 99% ou
98% ética. Algumas pessoas conseguem chegar a 60% ou 70%, digamos.
E isso já faz diferença. Se todo mundo conseguisse viver
de maneira ética - em relação ao consumo de carne
animal e à caridade, por exemplo - em uma parte significativa
da vida, isso já teria um impacto significativo.
A ideia geral de ética começa com proibições,
de que você não deveria mentir, roubar ou trair. Mas como
temos um mundo muito claramente dividido entre ricos e pobres, eu acho
que não é suficiente que aqueles que estão muito
bem somente deixem de matar, roubar, trair e mentir. Os ricos têm
obrigações em relação àqueles que
vivem em uma situação extrema de pobreza.
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Peter Singer diz que altruístas
eficientes procuram fazer o bem o máximo que puderem e não
se sentem culpados pelo que são incapazes de realizar.
Uma maneira de atingir esse nível de ética é consumindo
menos e tirando empolgação e prazer de outras coisas que
não sejam consumo.
“Mas ninguém está querendo ser um santo, então
a ideia também não é andar usando farrapos”,
disse ele em uma entrevista coletiva no Reddit.
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Quais são suas próximas sugestões
e trabalhos para trazer as pessoas até esse nível de 60%
ou 70% de ética no dia-a-dia?
PETER SINGER
O altruísmo eficiente ainda é um
conceito novo, então pretendo continuar falando sobre ele. Também
quero olhar mais para gerações mais recentes, que estão
procurando maneiras de contribuir com organizações que
precisam e fazendo isso via iniciativas tecnológicas.
Fonte: https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2015/12/24/Caridade-%C3%A9-bom-mas-tem-de-ser-racional-diz-fil%C3%B3sofo
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