09/08/2016
Idosos órfãos de
filhos vivos são os novos desvalidos do século XXI
reportagem originalmente publicada
no Portal Plena, dedicado à 3a. Idade
por Por Ana Fraiman, Mestre em Psicologia
Social pela USP
Atenção e carinho estão
para a alegria da alma, como o ar que respiramos está para a
saúde do corpo.
Nestas últimas décadas surgiu uma geração
de pais sem filhos presentes, por força de uma cultura de independência
e autonomia levada ao extremo, que impacta negativamente no modo de
vida de toda a família. Muitos filhos adultos ficam irritados
por precisarem acompanhar os pais idosos ao médico, aos laboratórios.
Irritam-se pelo seu andar mais lento e suas dificuldades de se organizar
no tempo, sua incapacidade crescente de serem ágeis nos gestos
e decisões.

A ordem era essa: em busca de melhores
oportunidades, vinham para as cidades os filhos mais crescidos e não
necessariamente os mais fortes, que logo traziam seus irmãos,
que logo traziam seus pais e moravam todos sob um mesmo teto, até
que a vida e o trabalho duro e honesto lhes propiciassem melhores condições.
Este senhor, com olhos sonhadores, rememorava com saudade os tempos
em que cavavam buracos nas terras e ali dormiam, cheios de sonho que
lhes fortalecia os músculos cansados. Não importava dormir
ao relento. Cediam ao cansaço sob a luz das estrelas e das esperanças.
A evasão dos mais jovens em busca de recursos de sobrevivência
e de desenvolvimento, sempre ocorreu. Trabalho, estudos, fugas das guerras
e perseguições, a seca e a fome brutal, desde que o mundo
é mundo pressionou os jovens a abandonarem o lar paterno. Também
os jovens fugiram da violência e brutalidade de seus pais ignorantes
e de mau gênio. Nada disso, porém, era vivido como abandono:
era rompimento nos casos mais drásticos. Era separação
vivida como intervalo, breve ou tornado definitivo, caso a vida não
lhes concedesse condição futura de reencontro, de reunião.
Separação e responsabilidade
Assim como os pais deixavam e, ainda
deixam seus filhos em mãos de outros familiares, ao partirem
em busca de melhores condições de vida, de trabalho e
estudos, houve filhos que se separaram de seus pais. Em geral, porém,
isso não é percebido como abandono emocional. Não
há descaso nem esquecimento. Os filhos que partem e partiam,
também assumiam responsabilidades pesadas de ampará-los
e aos irmãos mais jovens. Gratidão e retorno, em forma
de cuidados ainda que à distância. Mesmo quando um filho
não está presente na vida de seus pais, sua voz ao telefone,
agora enviada pelas modernas tecnologias e, com ela as imagens nas telinhas,
carrega a melodia do afeto, da saudade e da genuína preocupação.
E os mais velhos nutrem seus corações e curam as feridas
de suas almas, por que se sentem amados e podem abençoá-los.
Nos tempos de hoje, porém, dentro de um espectro social muito
amplo e profundo, os abandonos e as distâncias não ocupam
mais do que algumas quadras ou quilômetros que podem ser vencidos
em poucas horas. Nasceu uma geração de ‘pais órfãos
de filhos’. Pais órfãos que não se negam
a prestar ajuda financeira. Pais mais velhos que sustentam os netos
nas escolas e pagam viagens de estudo fora do país. Pais que
cedem seus créditos consignados para filhos contraírem
dívidas em seus honrados nomes, que lhes antecipam herança.
Mas que não têm assento à vida familiar dos mais
jovens, seus próprios filhos e netos, em razão –
talvez, não diretamente de seu desinteresse, nem de sua falta
de tempo – mas da crença de que seus pais se bastam.
Este estilo de vida, nos dias comuns, que não inclui conversa
amena e exclui a ‘presença a troco de nada, só para
ficar junto’, dificulta ou, mesmo, impede o compartilhar de valores
e interesses por parte dos membros de uma família na atualidade,
resulta de uma cultura baseada na afirmação das individualidades
e na política familiar focada nos mais jovens, nos que tomam
decisões ego-centradas e na alta velocidade: tudo muito veloz,
tudo fugaz, tudo incerto e instável. Vida líquida, como
diz Zygmunt Bauman, sociólogo polonês. Instalou-se e aprofundou-se
nos pais, nem tão velhos assim, o sentimento de abandono. E de
desespero. O universo de relacionamento nas sociedades líquidas
assegura a insegurança permanente e monta uma armadilha em que
redes sociais são suficientes para gerar controle e sentimento
de pertença. Não passam, porém de ilusões
que mascaram as distâncias interpessoais que se acentuam e que
esvaziam de afeto, mesmo aquelas que são primordiais: entre pais
e filhos e entre irmãos. O desespero calado dos pais desvalidos,
órfãos de quem lhes asseguraria conforto emocional e,
quiçá material, não faz parte de uma genuína
renúncia da parte destes pais, que ‘não querem incomodar
ninguém’, uma falsa racionalidade – e é para
isso que se prestam as racionalizações – que abala
a saúde, a segurança pessoal, o senso de pertença.
É do medo de perder o pouco que seus filhos lhes concedem em
termos de atenção e presença afetuosa. O primado
da ‘falta de tempo’ torna muito difícil viver um
dia a dia em que a pessoa está sujeita ao pânico de não
ter com quem contar.
A irritação por precisar mudar alguns hábitos.
Muitos filhos adultos ficam irritados por precisarem acompanhar os pais
idosos ao médico, aos laboratórios. Irritam-se pelo seu
andar mais lento e suas dificuldades de se organizar no tempo, sua incapacidade
crescente de serem ágeis nos gestos e decisões. Desde
os poucos minutos dos sinais luminosos para se atravessar uma rua, até
as grandes filas nos supermercados, a dificuldade de caminhar por calçadas
quebradas e a hesitação ao digitar uma senha de computador,
qualquer coisa que tire o adulto de seu tempo de trabalho e do seu lazer,
ao acompanhar os pais, é causa de irritação. Inclusive
por que o próprio lazer, igualmente, é executado com horário
marcado e em espaço determinado. Nas salas de espera veem-se
os idosos calados e seus filhos entretidos nos seus jornais, revistas,
tablets e celulares. Vive-se uma vida velocíssima, em que quase
todo o tempo do simples existir deve ser vertido para tempo útil,
entendendo-se tempo útil como aquele que também é
investido nas redes sociais. Enquanto isso, para os mais velhos o relógio
gira mais lento, à medida que percebem, eles próprios,
irem passando pelo tempo. O tempo para estar parado, o tempo da fruição
está limitado. Os adultos correm para diminuir suas ansiosas
marchas em aulas de meditação. Os mais velhos têm
tempo sobrante para escutar os outros, ou para lerem seus livros, a
Bíblia, tudo aquilo que possa requerer reflexão. Ou somente
uma leve distração. Os idosos leem o de que gostam. Adultos
devoram artigos, revistas e informações sobre o seu trabalho,
em suas hiper especializações. Têm que estar a par
de tudo just in time – o que não significa exatamente saber,
posto que existe grande diferença entre saber e tomar conhecimento.
Já, os mais velhos querem mais é se livrar do excesso
de conhecimento e manter suas mentes mais abertas e em repouso. Ou,
então, focadas naquilo que realmente lhes faz bem como pessoa.
Restam poucos interesses em comum a compartilhar. Idosos precisam de
tempo para fazer nada e, simplesmente recordar. Idosos apreciam prosear.
Adultos têm necessidade de dizer e de contar. A prosa poética
e contemplativa ausentou-se do seu dia a dia. Ela não é
útil, não produz resultados palpáveis.
A dificuldade de reconhecer a falta que o
outro faz.
Do prisma dos relacionamentos afetivos
e dos compromissos existenciais, todas as gerações têm
medo de confessar o quanto o outro faz falta em suas vidas, como se
isso fraqueza fosse. Montou-se, coletivamente, uma enorme e terrível
armadilha existencial, como se ninguém mais precisasse de ninguém.
A família nuclear é muito ameaçadora para o conforto,
segurança e bem-estar: um número grande de filhos não
mais é bemvindo, pais longevos não são bem tolerados
e tudo isso custa muito caro, financeira, material e psicologicamente
falando. Sobrevieram a solidão e o medo permanente que impregnam
a cultura utilitarista, que transformou as relações humanas
em transações comerciais. As pessoas se enxergam como
recursos ou clientes. Pais em desespero tentam comprar o amor dos filhos
e temem os ataques e abandono de clientes descontentes. Mas, carinho
de filho não se compra, assim como ausência de pai e mãe
não se compensa com presentes, dinheiro e silêncio sobre
as dores profundas as gerações em conflito se infringem.
Por vezes a estratégia de condutas desviantes dão certo,
para os adolescentes conseguirem trazer seus pais para mais perto, enquanto
os mais idosos caem doentes, necessitando – objetivamente –
de cuidados especiais. Tudo isso, porém, tem um altíssimo
custo. Diálogo? Só existe o verdadeiro diálogo
entre aqueles que não comungam das mesmas crenças e valores,
que são efetivamente diferentes. Conversar, trocar ideias não
é dialogar. Dialogar é abrir-se para o outro. É
experiência delicada e profunda de auto revelação.
Dialogar requer tempo, ambiente e clima, para que se realizem escutas
autênticas e para que sejam afastadas as mútuas projeções.
O que sabem, pais e filhos, sobre as noites insones de uns e de outros?
O que conversam eles sobre os receios, inseguranças e solidão?
E sobre os novos amores? Cada geração se encerra dentro
de si própria e age como se tudo estivesse certo e correto, quando
isso não é verdade.
A dificuldade de reconhecer limites característicos do envelhecimento
dos pais. Este é o modelo que se pode identificar. Muito mais
grave seria não ter modelo. A questão é que as
dores são tão mascaradas, profundas e bem alimentadas
pelas novas tecnologias, inclusive, que todas as gerações
estão envolvidas pelo desejo exacerbado de viver fortes emoções
e correr riscos desnecessários, quase que diariamente. Drogas
e violência toldam a visão de consequências e sequestram
as responsabilidades. Na infância e adolescência os pais
devem ser responsáveis pelos seus filhos. Depois, os adultos,
cada qual deve ser responsável por si próprio. Mais além,
os filhos devem ser responsáveis por seus pais de mais idade.
E quando não se é mais nem tão jovem e, ainda não
tão idoso que se necessite de cuidados permanentes por parte
dos filhos? Temos aí a geração de pais desvalidos:
pais órfãos de seus filhos vivos. E estes respondem, de
maneira geral, ou com negligência ou, com superproteção.
Qualquer das formas caracteriza maus cuidados e violência emocional.
Na vida dos mais velhos alguns dos limites físicos e mentais
vão se instalando e vão mudando com a idade. Dos pais
e dos filhos. Desobrigados que foram de serem solidários aos
seus pais, os filhos adultos como que se habituaram a não prestarem
atenção às necessidades de seus pais, conforme
envelhecem. Mantêm expectativas irrealistas e não têm
pálida ideia do que é ter lutado toda uma vida para se
auto afirmar, para depois passar a viver com dependências relativas
e dar de frente com a grande dor da exclusão social. A começar
pela perda dos postos de trabalho e, a continuar, pela enxurrada de
preconceitos que se abatem sobre os idosos, nas sociedades profundamente
preconceituosas e fóbicas em relação à morte
e à velhice. Somente que, em vez de se flexibilizarem, uns e
outros, os filhos tentam modificar seus pais, ensinando-lhes como envelhecer.
Chega a ser patético. Então, eles impõem suas verdades
pós-modernas e os idosos fingem acatar seus conselhos, que não
foram pedidos e nem lhes cabem de fato.
De onde vem a prepotência de filhos adultos e netos adolescentes
que se arrogam saber como seus pais e avós devem ser, fazer,
sentir e pensar ao envelhecer? É risível o esforço
das gerações mais jovens, querendo educa-los, quando o
envelhecimento é uma obra social e, mais, profundamente coletiva,
da qual os adultos de hoje - que justa, porém indevidamente -
cultivam os valores da juventude permanente e, da velhice não
fazem a mais pálida ideia. Além do que, também
não têm a menor noção de como haverão
eles próprios de envelhecer, uma vez que está em curso
uma profunda mudança nas formas, estilos e no tempo de se viver
até envelhecer naturalmente e, morrer a Boa Morte. Penso ser
uma verdadeira utopia propor, neste momento crítico, mudanças
definidas na interação entre pais e filhos e entre irmãos.
Mudanças definidas e, de nenhuma forma definitivas, porém,
um tanto mais humanas, sensíveis e confortáveis. O compartilhar
é imperativo. O dialogar poderá interpor-se entre os conflitos
geracionais, quem sabe atenuando-os e reafirmando a necessidade de resgatar
a simplicidade dos afetos garantidos e das presenças necessárias
para a segurança de todos.
Quando a solidão e o desamparo, o abandono emocional, forem reconhecidos
como altamente nocivos, pela experiência e pelas autoridades médicas,
em redes públicas de saúde e de comunicação,
quem sabe ouviremos mais pessoas que pensam desta mesma forma, porém
se auto impuseram a lei do silêncio. Por vergonha de se declararem
abandonados justamente por aqueles a quem mais se dedicaram até
então. É necessário aprender a enfrentar o que
constitui perigo, alto risco para a saúde moral e emocional para
cada faixa etária. Temos previsão de que, chegados ao
ano de 2.035, no Brasil haverá mais pessoas com 55 anos ou mais
de idade, do que crianças de até dez anos, em toda a população.
E, com certeza, no seio das famílias. Estudos de grande envergadura
em relação ao envelhecimento populacional afirmam que
a população de 80 anos e mais é a que vai quadruplicar
de hoje até o ano de 2.050. O diálogo, portanto, intra
e intergeracional deve ensaiar seus passos desde agora. O aumento expressivo
de idosos acima dos 80 anos nas políticas públicas ainda
não está, nem de longe, sendo contemplado pelas autoridades
competentes. As medidas a serem tomadas serão muito duras. Ninguém
de nós vai ficar de fora. Como não deve permanecer fora
da discussão sobre o envelhecimento populacional mundial e as
estratégias para enfrentá-lo.
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Fonte: http://www.portalplena.com/vamos-discutir/1292-idosos-orfaos-de-filhos-vivos-sao-os-novos-desvalidos-do-seculo-xxi
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