03/06/2016
por Camila Appel
“Vamos falar sobre o luto”
é a inciativa de sete amigas da área da comunicação
que, ao vivenciarem perdas, se uniram para criar uma plataforma de apoio
ao enlutado. Dar voz aos que desejam falar sobre a morte e não
encontram esse espaço no dia a dia. Elas enviaram um depoimento
ao blog.
“Vamos falar sobre o luto
é um espaço aberto para quem quer falar e saber mais e
tornar a experiência da morte de alguém próximo
menos solitária. Publicam histórias inspiradoras de gente
que encontrou novas formas de enxergar a morte e transformar a dor em
amor”.
Leiam o depoimento na íntegra,
abaixo.
por Mariane Maciel, Rita Almeida, Amanda
Thomaz, Fernanda Ferraz Figueiredo, Gisela Adisse, Sandra Soares e Cynthia
de Almeida
Veja
um post sobre o assunto aqui no blog nesse link, e outros na categoria
luto.
Vamos falar sobre o luto? A pergunta nasceu
de encontros entre amigas que experimentaram perdas e viram como era
bom falar, ouvir e receber o amparo uma das outras. Que bom era poder
dizer o nome das pessoas amadas que se foram, chorar e rir com as lembranças
e sua eterna presença em nossas vidas. Surgia ali um insight
e outra pergunta: será que mais gente quer falar sobre o seu
luto? O grupo de sete amigas da área de comunicação
(Mariane Maciel, Rita Almeida, Amanda Thomaz, Fernanda Ferraz Figueiredo,
Gisela Adisse, Sandra Soares e Cynthia de Almeida) já vivenciara,
cada uma de sua maneira, a sensação de incômodo
social que cerca a morte e a dor do enlutado. Sofre-se duplamente: pela
dor da perda e pelo tabu em torno do morrer. Vivemos numa cultura que
celebra a vida como se fosse possível eternizá-la. Não
queremos pensar e falar sobre a morte até que ela acontece (e
sempre acontece) e nos pega despreparados, cercados por pessoas igualmente
despreparadas para prestar o acolhimento de que se necessita. Quando
perdemos alguém, o que se vê é uma onda inicial
de suporte e solidariedade e, em seguida , um silêncio que muitas
vezes cala vozes dentro da própria família. A solidariedade
disponível vem quase sempre na contramão dos sentimentos,
buscando abreviar ou tirar a pessoa da tristeza, estabelecendo um prazo
de validade para o direito de sofrer.
Fomos ouvir pessoas, primeiro através de uma
página divulgada em nossas redes sociais em que repetimos a pergunta:
Vamos Falar Sobre o Luto? Vieram dezenas, depois centenas de histórias.
Belas, tristes, inspiradoras. Os depoimentos nos motivaram a formar
grupos de discussão para entender o que ajudava a atravessar
esse momento difícil pelo qual todos vamos passar. A pergunta
foi de novo respondida: Sim, vamos falar sobre o luto. O primeiro insight
era agora o projeto do site, feito pelo grupo de voluntárias
e com a ajuda de todos os que colaboraram com seu financiamento coletivo.
A pergunta agora é afirmação e
o vamosfalarsobreoluto.com.br
é um espaço aberto para quem quer falar e saber mais e
tornar a experiência da morte de alguém próximo
menos solitária.
Publicamos histórias inspiradoras de gente que
encontrou novas formas de enxergar a morte e transformar a dor em amor.
Entrevistamos especialistas (somos todas leigas, mas contamos com uma
rede de conselheiras psicólogas) , pensadores, compartilhamos
diferentes visões e filosofias. Não prestamos atendimento,
indicamos profissionais. Sugerimos leituras, filmes, grupos, eventos
e também trazemos dicas de como agir para apoiar amigos, família,
colegas de trabalho. Tudo isso dentro de um ambiente de leveza e delicadeza:
nosso site é lindo , sem os tons carregados e sombrios com que
costuma cercar o conteúdo sobre a morte e o morrer.
Entramos no ar em janeiro com a expectativa de uma audiência
modesta e fomos surpreendidas por 200 mil visitas logo na primeira semana.
Nossa página do Facebook tem mais de 6 mil fãs e nossos
posts são compartilhados por milhares de seguidores. Os comentários
comovidos e gratos aquecem nosso coração.
Essa é a melhor resposta que poderíamos
ter à primeira pergunta: as pessoas querem falar sobre o luto.
Querem encontrar e compartilhar apoio, querem desenvolver a empatia
e um novo entendimento sobre a finitude da vida. Querem, principalmente,
não se sentir um incômodo na sociedade e parar de pedir
ou ouvir desculpas por falar sobres seus mortos queridos.

vamosfalarsobreoluto.com.br. - Arte de Carol Santos
Fonte: http://mortesemtabu.blogfolha.uol.com.br/2016/04/28/voz-ao-luto-rede-de-apoio-abre-espaco-para-relatos-leia-o-depoimento-das-organizadoras/
Leiam mais:
“Vamos falar sobre o luto” é um
site criado por um grupo de amigas que em conversas informais e por
experiências pessoais, perceberam a carência de informação,
literatura e apoio a pessoas em processo de luto.
Entenderam que para poder ajudar, deveriam começar escutando,
e por isso o projeto tem como ponto de partida a apuração
de depoimentos de quem já vivenciou o luto. O site foi lançado
há um mês e já recebeu quase cem depoimentos. Eles
servirão de base para uma pesquisa sobre o processo do luto e
resultar em caminhos com o objetivo de ajudar as pessoas nesse difícil
momento. Um documentário também será produzido
como fruto desse trabalho. Em maio do ano que vem, apresentarão
o material consolidado, apontando traços comuns, diferenças,
assim como o que ajudou as pessoas e o que as atrapalhou, para que possam
refletir a respeito e traçar caminhos.
Mariane Maciel, idealizadora do projeto, vivenciou o luto e sentiu
ser uma experiência muito solitária. Passou a vê-lo
de forma diferente, se solidarizando com pessoas que estão vivenciando
esse processo, mesmo quando não são muito próximas.
Ela diz que a empatia passa a ser imediata. Tatiana Chiari, faz parte
da equipe do projeto e também acredita que o processo de luto
é uma busca muito solitária e por isso e a essência
dessa iniciativa é oferecer amparo para essa busca. Ela é
jornalista, dirige uma área de áudio visual de uma agência
de comunicação e será responsável pelo documentário
que será produzido no ano que vem.
Os depoimentos são confidenciais e muitos iniciam as parabenizando
pela iniciativa e comentando nunca terem tido um espaço como
esse para se abrir sobre algo tão difícil de ser expressado,
o que confirma para suas idealizadoras a razão de ser do portal.
Mariane é responsável por ler todos os relatos e se surpreendeu
com a qualidade da descrição das histórias, escritas
com muitos detalhes e sinceridade. Esperava ver casos mais recentes,
mas percebeu como lutos antigos ainda permanecem atuais, pois mesmo
neles, a riqueza dos detalhes se faz presente. Ela ressalta que os depoimentos
lidam muito com o lembrar e o esquecer, porque é comum mencionarem
o medo do esquecimento ao descrever lembranças e o ímpeto
de se apegar a elas. “Não existe a vontade de esquecer,
a lembrança da pessoa é muito querida e por isso a vontade
de falar sobre ela”, Mariane diz.
Nesse sentido, Contardo Calligaris publicou em sua coluna na Folha,
o artigo “Como viver em luto”, onde indica a solução
para o luto nunca ser o esquecimento, mas sim expressá-lo numa
atividade concreta, como o diário publicado por Boris Fausto
(“O Brilho do Bronze”, Cosac Naify, 2014), sobre a perda
de sua esposa.
Suzana Herculano, na coluna da Folha, “Luto em vida”, diz
que o luto é “o processo de convencimento do cérebro
de que todas as expectativas que envolvem uma pessoa querida não
se realizarão mais” e discorre sobre o luto que ocorre
em vida, que seria o sofrido pela família dos portadores de demências
como o Alzheimer. E indica uma possibilidade interessante: o uso da
técnica do teatro do improviso para lidar com a situação.
O instituto de psicologia “4 Estações” oferece
suporte psicológico para situações de perda e luto.
Funcionam desde 1998, em São Paulo, com a missão de oferecer
suporte a indivíduos, comunidades, profissionais da saúde
e educação. No site, afirmam que sua “proposta está
fundamentada em princípios de Psicologia Clínica e Psicologia
da Saúde e resulta da experiência junto a clínicas,
hospitais, organizações, instituições de
ensino e de pesquisa, entre outras”. Nesse portal, oferecem informações
para enlutados, publicações online, apuração
de depoimentos, assim como sugestões de filmes, literatura, poesia
e música que tratam do tema. O instituto também tem um
grupo especifico, o IPE (Intervenções Psicológicas
em Emergências) para apoiar organizações e comunidades
atingidas por desastres e emergências. Os membros do grupo estão
disponíveis para contato 24 horas, 7 dias da semana e a lista
de clientes tem instituições conhecidas como Banco Mundial
e a Leroy Merlin.
Também oferecem consultorias para escolas, hospitais, além
de palestras, cursos e workshops ao público em geral.
É uma organização bem completa e respeitada para
lidar com o tema do luto e um bom portal para suporte. Nesse link, tem
vários textos interessantes disponíveis.
O Centro de Psicologia Maiêutica criou uma rede de apoio ao enlutado,
utilizada por alguns cemitérios para qualificar seus colaboradores,
que os “diferenciam por sua visão humanizada da situação
de luto, criando condições que favorecem o trabalho do
luto de seus clientes”. O que é uma iniciativa muito bem
vinda, visto a falta de preparo de alguns agentes do setor funerário
para lidar com a situação.
A Casa do Cuidar é uma organização especializada
em cuidados paliativos, que também oferece suporte ao luto e
capacitação àqueles que desejam trabalhar nessa
área.
Há outras instituições como essas pelo Brasil.
No Rio Grande do Sul, tem a Luspe, que lida com circunstâncias
de luto e perdas, com uma linha de abordagem psicanalítica-Bowlbyana
e sistêmica, fundamentando intervenções na Teoria
da Formação e Rompimento de Vínculos Afetivos,
como consta no site.
No Ceará, o Instituto Ciclo – Instituto de Psicologia
em perdas e luto , oferece apoio ao enlutado, além de cursos
e artigos disponibilizados no site, como um afirmando que o luto não
deve ser tratado com antidepressivos. E em Minas Gerais, tem o API –
Apoio a Perdas Irreparáveis, com filial em Belo Horizonte, Três
Pontas e Divinópolis.
Há instituições sérias que se propõe
a oferecer suporte e amparo ao enlutado, com apoio psicológico
presencial ou mesmo teórico, disponibilizados em seus portais.
Mas muitos não as conhecem. A iniciativa do “Vamos falar
sobre o luto” procura ser uma ferramenta de comunicação
importante e o resultado de sua pesquisa pode ser útil aos profissionais
que se dedicam com tanto empenho a tratar desse delicado tema, na difícil
missão de tornar a perda de um ente querido um pouco mais suportável.
Fonte: http://mortesemtabu.blogfolha.uol.com.br/2014/12/15/vamos-falar-sobre-o-luto/
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