29/05/2016
POR IAN JOHNSON

Autoridades chinesas já retiraram de igrejas
cristãs entre 1.200 e 1.700 cruzes como esta, segundo o governo
e moradores da província de Zhejiang
(Mark Schiefelbein / Associated Press)
SHUITOU, China —
Nos vales e montanhas que abraçam o mar do Leste da China, parece
que um tufão varreu a costa, decapitando imóveis aleatoriamente
na zona rural.
O motivo disso é uma campanha do governo chinês para retirar
cruzes de torres de igrejas.
Na cidade de Shuitou, trabalhadores deceparam uma cruz de três
metros de altura da torre de 40 metros da Igreja da Salvação.
Cerca de 20 km a leste, na localidade de Mabu, a tropa de choque da
polícia impediu fiéis de se aproximarem da Igreja Dachang,
enquanto operários erguiam um andaime e serravam a cruz. Nas
vizinhas aldeias de Ximei, Aojiang, Shanmen e Tengqiao, as cruzes jazem
sobre telhados e em pátios, ou foram enterradas.
Nos últimos dois anos, segundo autoridades e moradores da província
de Zhejiang, autoridades demoliram as cruzes de 1.200 a 1.700 igrejas,
às vezes após violentos confrontos com fiéis que
tentavam impedir a ação.
“Está sendo muito difícil”,
disse um idoso paroquiano de Shuitou, que pediu anonimato por medo
de represálias.
“Só nos resta ajoelhar e rezar.”
A campanha está limitada à
província de Zhejiang, que abriga uma das maiores e mais vibrantes
populações cristãs da China. No entanto, pessoas
familiarizadas com as deliberações do governo dizem que
a remoção das cruzes nesta região abre caminho
para um esforço nacional de regulação da vida espiritual
na China, refletindo o controle social mais rigoroso defendido pelo
presidente Xi Jinping.
Num importante discurso sobre a política religiosa, em abril,
Xi pediu ao Partido Comunista que “vigie resolutamente contra
infiltrações do exterior por meios religiosos” e
advertiu sobre a necessidade de “achinesar” as religiões
no país. Essas orientações refletem o antigo temor
do governo de que o cristianismo venha a minar a autoridade partidária.
Muitos advogados de direitos humanos na China são cristãos,
e muitos dissidentes disseram-se influenciados pela ideia de que os
direitos são uma dádiva de Deus.
Nas últimas décadas, o partido vinha tolerando o renascimento
religioso na China, e centenas de milhões de pessoas abraçaram
as principais religiões do país: budismo, taoísmo,
islamismo e cristianismo. Existem hoje cerca de 60 milhões de
cristãos na China. Muitos frequentam igrejas cadastradas pelo
governo, mas pelo menos metade está ligada a igrejas não
registradas, muitas vezes com a complacência das autoridades locais.
No entanto, a decisão de Xi de convocar uma “conferência
de trabalho sobre assuntos religiosos” sugeriu que ele está
descontente com algumas dessas políticas. As autoridades locais
deverão começar a examinar as finanças e relações
externas de igrejas, como parte de um esforço para limitar a
influência de religiões vistas como uma ameaça,
especialmente o cristianismo.
“O que está acontecendo
em Zhejiang é um teste”, disse Fan Yafeng, jurista de
Pequim sem afiliação política.
“Se o governo vir [essa campanha] como um sucesso, ela será
expandida.”
A ampliação da campanha de
regulação religiosa pode ter um efeito contrário
para Xi, caso os fiéis troquem as igrejas geridas pelo governo
por congregações clandestinas. A medida poderia ser mal
recebida por profissionais urbanos qualificados que vêm adotando
o cristianismo.
A campanha começou em 2014, quando o governo anunciou a intenção
de demolir imediatamente uma igreja na vizinha cidade de Wenzhou, alegando
que ela não tinha os alvarás de construção
adequados. Então, o governo começou a intimar igrejas
de toda a província a retirarem suas cruzes.
A Igreja da Salvação se tornou um centro de resistência.
Centenas de paroquianos cercaram o local para proteger a cruz, enfrentando
policiais da tropa de choque.
Num dos confrontos, cerca de 50 fiéis ficaram feridos. Fotos
de cristãos com hematomas e outras lesões inundaram as
redes sociais e sites de grupos ativistas do exterior.
Vários clérigos disseram estar sob pressão para
comprovar sua lealdade ao Partido Comunista. Algumas igrejas começaram
a exaltar a campanha de Xi em prol dos “valores socialistas centrais”
— um slogan que busca oferecer um sistema laico de crenças
que reforce a legitimidade do partido.
Em Shuitou, um dirigente eclesiástico disse, sob anonimato, que
ele e os outros clérigos concordaram com a retirada da cruz porque
temiam que a igreja fosse demolida. “Há mais de três
décadas, sequer tínhamos uma igreja”, disse. “A
perseguição na história da igreja nunca parou.”
Fonte: http://nyt.audiencemedia.com/folha/content/view/full/42275
>>> clique aqui para acessar a página principal
de Notícias
>>>
clique aqui para voltar a página inicial do site
>>>
clique para ir direto para a primeira página de Artigos, Teses e Publicações