27/02/2016
Refugiados em
montanha, samaritanos resistem em região tensa da Cisjordânia
por Marcel Vincenti
Colaboração para o UOL Viagem, de Kiryat Luza (Cisjordânia)
A história do samaritano que, ao
passar pela rota entre Jerusalém e Jericó, se depara com
um homem espancado por assaltantes e, sem pestanejar, ajuda a aliviar
suas feridas é um dos momentos mais famosos do Novo Testamento.
A parábola, que teria sido contada por Jesus
e aparece em Lucas 10:30-37, constitui um dos exemplos máximos
de compaixão na mensagem cristã e criou a imagem mítica
do Bom Samaritano.
Quase dois mil anos após a narração
do episódio do Bom Samaritano na Bíblia, uma pequena comunidade
de samaritanos resiste em uma montanha da Cisjordânia, a algumas
de dezenas de quilômetros de Jerusalém e Jericó.
E assim como nos tempos bíblicos, se vê rodeada por uma
região tensa, agora não infestada de ladrões de
beira de estrada, mas disputada, de maneira sangrenta, por judeus e
palestinos.
Monte Gerizim é o nome do seu lar. Segundo os
samaritanos, foi aqui que Abraão, sob o desafio de Deus, quase
sacrificou seu filho Isaac. E para eles, é esta montanha (e não
monte Moriá, em Jerusalém) o local designado para a construção
do Templo Sagrado.

O sacerdote Husney Cohen é um dos líderes
da comunidade de samaritanos do monte Gerizim, na Cisjordânia
“Hoje, há apenas 785 samaritanos no mundo,
385 deles vivendo aqui”, conta o sacerdote Husney Cohen, um dos
líderes da comunidade do monte Gerizim. “Em templos bíblicos,
éramos milhões de pessoas. Mas, ao longo da história,
fomos mortos pelos assírios, babilônios, árabes
e outros conquistadores que passaram por esta área. Há
100 anos, sobravam pouco mais de 130 samaritanos no planeta”.
Tal declínio também é atribuído
à conversão forçada de muitos samaritanos ao islã,
nas épocas em que governos muçulmanos controlaram o que
hoje é a Cisjordânia.

Localizada na Cisjordânia, a vila de Kiryat
Luza abriga 385 samaritanos
Encruzilhadas
Estar no meio de uma encruzilhada de civilizações proporciona
um perfil complexo aos habitantes de Kiryat Luza, a vila que abriga
os samaritanos no monte Gerizim. Eles conversam entre si em árabe,
alguns exibem feições europeias, mas todos mantêm
suas práticas religiosas que, em muitos momentos, dialoga com
o judaísmo. Muitos deles têm, ao mesmo tempo, documentos
israelenses e palestinos.
“A origem dos samaritanos remonta aos seguidores de Moisés
no Êxodo do Egito”, afirma Cohen. “Eu, por exemplo,
sou descendente direto do sacerdote levita Eleazar, filho de Aarão,
irmão de Moisés, o que me dá o direito de ser uma
autoridade religiosa aqui”.
O samaritanos observam o sabá, rezam em sinagogas em hebraico
antigo, esperam pela chegada do Messias e sua população
masculina é circuncidada. Seus livros sagrados abrigam diversos
pontos em comum com a Torá judaica, mas se desviam da fé
dos judeus ao afirmar que o monte Gerizim, e não Jerusalém,
é o local designado para receber o Templo Sagrado.
O sacerdote Cohen também considera Jesus, o homem que deu aos
samaritanos fama mundial, uma "pessoa que passou importantes mensagens
ao mundo". Cristo, entretanto, não é uma figura sagrada
para a sua comunidade.
Seu calendário não está em 2016, mas em 3654,
contando a partir do momento em que, segundo os samaritanos, os israelitas
teriam entrado em Canaã, após o êxodo do Egito.
Suas datas mais importantes incluem o Yom Kippur e o Pesach, e são
sempre celebradas no topo do monte Gerizim, onde, no século 5
a.C., foi erguido um templo – e que teria sido destruído
séculos depois pelos macabeus, que o consideravam herético.
Os sacerdotes samaritanos, porém, não se vestem como as
autoridades religiosas judaicas: Cohen circula por Kiryat Luza envergando
uma túnica cinza e um adereço vermelho na cabeça.
Em eventos religiosos, eles usam túnicas brancas, mas, no dia
a dia, a maioria dos habitantes de Kiryat Luza envergam roupas ocidentais.
Poucos homens têm barbas longas como os muçulmanos e judeus
ortodoxos. As mulheres, por sua vez, não precisam cobrir o cabelo
na rua.
Hoje, uma das questões que mais mobiliza os habitantes do monte
Gerizim é a preocupação com sua pequena população.
Os samaritanos sempre foram avessos a se casar com pessoas de fora de
sua comunidade. Por isso, atualmente, muitos deles dividem laços
sanguíneos. Casamentos entre primos e o nascimento de crianças
com problemas congênitos eram fatos comuns entre eles.
Uma das soluções encontradas foi buscar esposas estrangeiras,
usando sites de relacionamento na internet: “o número de
mulheres em Kiryat Luza está escasso, por isso, recentemente,
realizamos matrimônios com mulheres russas e ucranianas cristãs.
Mas todas elas tiveram que se converter e seguir nossas tradições,
como não tocar em ninguém durante o período menstrual”,
conta o sacerdote, ressaltando ainda que o inverso não pode ocorrer:
mulheres samaritanas são proibidas de casar com homens de fora
da comunidade.
O Monte Gerizim fica na Cisjordânia, ao norte
da cidade de Jerusalém
Terra disputada
O estabelecimento dos samaritanos em Kyriat Luza, porém, é
recente. Até os anos 1980, eles viviam na cidade palestina de
Nablus, localizada ao pé da montanha. A eclosão, em 1987,
da Primeira Intifada – o levante palestino contra Israel que gerou
conflitos mortais em toda a Cisjordândia – fez com que a
comunidade buscasse refúgio no topo do monte Gerizim.
“Esta é a primeira vez em nossa história de milhares
de anos que vivemos aqui”, diz o sacerdote Cohen. “Tememos
pela nossa segurança quando explodiu a Primeira Intifada. Antes,
só subíamos o monte para realizar nossas celebrações
religiosas”.
A tensão, porém, segue viva lá embaixo. Do monte
Gerizim se vê, de um lado, o amontoado urbano de Nablus e, do
outro, assentamentos habitados por judeus ultraortodoxos, que justificam
sua presença dizendo que esta área faz parte da terra
de seus ancestrais. Classificadas como ilegais pelas Nações
Unidas, por estarem fora das fronteiras reconhecidas de Israel, tais
colônias são protegidas por soldados israelenses armados
até os dentes.
A grande proximidade entre colonos judeus e a população
palestina é proporcional ao tamanho do ódio que muitos
deles nutrem um pelo outro. Foi nos arredores de Nablus que, em julho
de 2015, um grupo de colonos queimou um bebê vivo ao atear fogo
em uma casa habitada por uma família palestina na vila de Duma.
Palestinos, por sua vez, têm esfaqueado judeus (incluindo mulheres
grávidas) que vivem na Cisjordânia.
Cohen afirma que, sob esta turbulência sem fim, os samaritanos
preferem adotar uma posição neutra. “Nós
não nos aliamos nem com judeus nem com palestinos. Por isso,
somos respeitados pelos dois lados”, afirma ele.
Segundo Cohen, o monte Gerizim é ocasionalmente visitado tanto
por palestinos como por judeus, curiosos em conhecer a história
da comunidade. “Aqui sempre falamos para eles: a guerra não
é boa para nenhum dos dois lados. Precisamos todos caminhar em
paz. É importante que haja dois países, os palestinos
com sua capital em Jerusalém oriental e os israelenses com capital
em Jerusalém ocidental. Rezamos todos os dias para que haja uma
trégua entre esses dois povos”.
Eficaz ou não, utópica ou não, a mensagem mostra
que, talvez, o bom samaritano ainda tenha um papel a desempenhar no
mundo.
Os samaritanos fugiram da cidade palestina de Nablus
(na foto) durante a 1ª Intifada
SERVIÇO
Uma viagem pela tensa Cisjordânia nunca
é livre de riscos, mas Kiryat Luza é aberta a visitas
turísticas. O local oferece um interessante museu sobre a história
dos samaritanos e um centro cultural, administrado pelo sacerdote Husney
Cohen, com uma extensa biblioteca sobre essa comunidade bíblica.
Nem sempre a vila se encontra muito movimentada. Muitos
dos habitantes passam o dia fora de Kiryat Luza, trabalhando em Nablus
e ou se dedicando a fazer negócios em Israel, onde a perspectiva
de fazer mais dinheiro é maior.
Sexta-feira é um dia interessante para visitar
o lugar, quando os samaritanos se celebram o começo do sabá
e circulam pelas ruas em trajes típicos. O Pesach, que relembra
o êxodo do Egito, também gera intensas celebrações
no monte Gerizim.
Uma das maneiras mais práticas de chegar até
lá é pegando um ônibus de Jerusalém até
Ramallah e, depois, tomar outro transporte público até
Nablus. Do centro de Nablus, táxis levam turistas até
Kiryat Luza. Todo este percurso dura cerca de quatro horas.
Há uma outra comunidade de samaritanos vivendo
na cidade israelense de Holon, ao lado de Tel Aviv, em um ambiente um
pouco menos volátil.
Fonte: http://viagem.uol.com.br/guia/cisjordania/jerusalem/roteiros/refugiados-em-montanha-samaritanos-resistem-em-regiao-tensa-da-cisjordania
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