24/02/2016
Suicídio de jovens mulheres
avança em São Paulo
por Lucas Ferraz / Folha de São
Paulo
A curta história de Ariele Vidal
Farias integra um fenômeno crescente na cidade de São Paulo:
os casos de suicídio de jovens mulheres, com idade entre 15 e
34 anos.
Mais velha de três irmãos, Ariele vivia com a mãe
—os pais, separados, mas de convivência amistosa, contam
que nunca notaram sinais de depressão na primogênita.
Em março de 2014, ao voltar para casa à tarde, após
a escola, a irmã mais nova encontrou Ariele enforcada. Ela tinha
18 anos.
A família descobriria depois que a ex-escoteira treinara os
nós a partir de um livro, deixado fora do lugar, e até
uma boneca foi encontrada nos seus pertences com um laço no pescoço.
Na carta de despedida, escreveu:
"Gente morta não decepciona ninguém".
O número de suicídios de mulheres de 15 a 34 anos na
capital, que representava 20% do total nessa faixa em 2010, pulou para
25% quatro anos depois.
De acordo com o "Mapa da Violência — Os Jovens
do Brasil", estudo elaborado pela Flacso (Faculdade Latino-Americana
de Ciências Sociais), a taxa de suicídio dos jovens em
São Paulo aumentou 42% entre 2002 e 2012.

Oficial de Justiça Ivo Oliveira Farias,
pai de Ariele; ela se matou em 2014, aos 18 anos, enforcada
Bruno Santos/Folhapress
"Tenho duas conjecturas para a decisão dela. Uma possível
crise pela descoberta da homossexualidade, ela tinha contado para
uma tia que gostava de uma menina, e o fato de ser muito exigente
consigo mesma", responde o pai de Ariele, o oficial de justiça
Ivo Oliveira Farias, 58.
A filha se preparava para seguir sua carreira. Dias depois do enterro,
a família receberia a notícia de que ela fora aprovada
em direito.
Psiquiatras entrevistados pela Folha citam o agravamento de doenças
psíquicas como o principal fator para explicar o aumento de casos
entre jovens mulheres. Contribuem também aspectos como maior
competitividade e pressão —profissional e familiar—,
bullying, dificuldade para lidar com decepções e o consumo
de álcool e drogas.
Em grandes cidades, outro fator citado por psiquiatras e psicólogos
é o isolamento.
"Há uma mudança de comportamento nas mulheres,
as mais jovens mostram dificuldade para enfrentar adversidades, pessoais
e profissionais", afirma a psiquiatra Alexandrina Meleiro, coordenadora
de prevenção e suicídio da Associação
Brasileira de Psiquiatria.
O aumento segue tendência mundial, elevando a prática
para a segunda causa de morte entre jovens mulheres —entre os
homens, o suicídio está na quarta posição.
Considerado tabu, o tema tem alta subnotificação, que
especialistas estimam em cerca de 30%. Na certidão de óbito
de Ariele, consta como a causa da morte enforcamento, não suicídio.
ELAS E ELES
Os suicídios costumam ocorrer com mais frequência, segundo
estatísticas, na parte da tarde, com os atos realizados geralmente
em casa.
Apesar de as práticas violentas estarem mais associadas aos
homens, especialistas alertam para o crescimento de suicídios
violentos entre as mulheres, com um expressivo número de casos
de moças que se jogaram de prédios, por exemplo.
O enforcamento, contudo, ainda é o principal meio para se tirar
a vida, seja entre homens ou mulheres. Ainda assim, são eles
quem se matam mais —a exceção mundial é a
China.
"Geralmente, a média é de a cada três suicídios
de homem, ocorre um de mulher. Entre os jovens, estamos observando
que a taxa diminuiu, de três para dois ou mesmo de dois para
um", acrescenta Alexandrina Meleiro.
Para os familiares, o mais difícil é lidar com o luto.
Não raro, pais, filhos e viúvas desenvolvem elas também
a vontade de se suicidar.
"O luto não termina", conta Ivo. "Parece que
não estávamos à altura para lidar com o sofrimento
dela. É algo que te tira a sensibilidade para todas as demais
tragédias."
Ivo era dançarino de salão, mas não bailou mais
desde a morte de Ariele.
"Não consigo dançar. Nem os meus amigos conseguem
entender".
GRUPOS DE AJUDA
Aos poucos, as histórias começam a ser contadas pelos
oito participantes de uma reunião mensal realizada na pequena
sala de uma casa no bairro da Bela Vista, na região central de
São Paulo. Apenas dois dos presentes se conhecem de encontros
anteriores. Os demais visitam o local pela primeira vez.
Um rapaz de 34 anos relata o suicídio do namorado, que tinha
se jogado de um prédio havia 50 dias.
À sua direita, o jovem que o acompanhava, amigo do casal, também
tinha um caso de suicídio no círculo familiar: a irmã
mais nova se enforcara em casa, há cinco anos.
Um jovem de 19 anos conta que começou a pensar em se matar após
a namorada pôr fim à relação entre eles.
Para a garota de 18 anos ao seu lado, a vontade se manifestou pela
primeira vez, disse, aos 10.
"Ninguém nunca percebeu a minha depressão",
contou.
A jovem disse que, depois de tentar se matar, no ano passado, o pai,
separado da mãe, deixou de falar com ela e se afastou, suspendendo
os pagamentos da faculdade e a mesada.
Conduzido por voluntários do CVV (Centro de Valorização
da Vida), que atua na prevenção do suicídio, o
encontro tem função terapêutica para os participantes.
Segundo Tino Peres, um dos voluntários, o objetivo é
promover a troca de experiências entre os sobreviventes, como
são chamados familiares de suicidas e quem sobreviveu à
tentativa de se matar.
A reportagem da Folha acompanhou a reunião no início
deste mês, que contou ainda com a participação do
oficial de justiça Ivo Oliveira Farias e de outras três
pessoas —uma mulher, cujo pai se matou há 17 anos, e mãe
e filha, esta última, segundo contou, sobrevivente de duas tentativas
de suicídio.
"Relatos de jovens que tentam se matar desde os dez anos são
mais frequentes do que se imagina", afirma a psicóloga
Karen Scavacini, do Instituto Vita Alere, que também organiza
encontros entre sobreviventes. "Os grupos têm uma função
essencial, eles criam um fator de pertencimento forte. Falar sobre
o suicídio é muito importante para preveni-lo".
Em relação às tentativas de suicídio, elas
chegam a ser 20 vezes maiores do que os óbitos consumados.
No ano passado, uma das jovens que tentou se matar em São Paulo
foi uma adolescente de 15 anos (seu nome é preservado a pedido).
Após cortar o pulso seis vezes, ela passou a ter acompanhamento
médico e psicológico, e então a situação
ficou sob controle.
Um dos motivos, segundo o pai, foi a dúvida sobre a sua sexualidade,
sem saber se gostava de meninos ou meninas.
"Acho que, se quisesse, ela teria se matado. Mas e se numa
tentativa dessas ela erra a mão e passa do ponto?", pergunta.
Das 2.240 pessoas que, pelas estatísticas, tentaram suicídio
em São Paulo em 2014, 34 morreram antes do atendimento médico
ou durante ele.
MONITORAMENTO
Fenômeno que ocorre cada vez mais entre os jovens, homens ou
mulheres, o suicídio deve ser abordado sem estigmas, afirmam
especialistas.
Os tratamentos psiquiátricos e psicológicos são
recomendados para os sobreviventes, estejam eles participando ou não
de grupos como os do CVV (Centro
de Valorização da Vida).
Na rede pública de saúde de São Paulo, a Covisa
(Coordenação de Vigilância em Saúde) monitora
casos de potenciais suicidas. Se alguma pessoa for internada duas vezes
seguidas por intoxicação, por exemplo, o órgão
pode encaminhá-la para acompanhamento.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/02/1742198-suicidio-de-jovens-mulheres-avanca-em-sao-paulo.shtml
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