09/02/2016
O Centro Espírita Auta de Souza,
localizado na Área Especial 14, na avenida principal de Sobradinho
II, Distrito Federal, foi incendiado na madrugada do dia 29 de janeiro
último.
As chamas tiveram início por volta
das 2h45 e um homem, Valdecy de Lima Silva, de 24 anos, ficou ferido
e precisou ser levado ao Hospital Regional de Sobradinho, após
sofrer queimaduras nos pés, no rosto e nos braços.
O assistente social responsável pelo local,
Guilherme Varandas, disse à reportagem do Correio Braziliense:
“Já fiz o registro da ocorrência
na delegacia. Estamos muito tristes com tudo isso. Mas não
vamos acabar com o nosso trabalho de caridade. Continuaremos com fé”.
E acrescentou:
“Tinha sinais de arrombamento. Uma grade de
uma das janelas estava arrebentada. Em dois anos, essa é a
segunda vez que sofremos algum tipo de ataque.”
A vizinha do lote, Tamires de Lima Silva Alves, 27,
irmã do jovem que se queimou no incêndio, explicou o que
aconteceu:
“Acordei com um susto. Um dos meus irmãos
gritou que o centro estava pegando fogo e corremos para tentar ajudar.
O Valdecy pegou uma mangueira, mas, como as chamas estavam muito altas,
acabou se queimando”. Tamires reside no local há mais
de 18 anos e afirmou que o local já havia sido invadido.
O crime ocorreu uma semana depois de ser criada pelo
Governo do Distrito Federal (GDF) a Delegacia Especial de Repressão
aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou por
Orientação Sexual ou contra a Pessoa Idosa ou com Deficiência.
Essa medida foi tomada após uma sucessão de ataques contra
terreiros de matrizes africanas, cuja soma atingiu 15 ocorrências
em 2015. Por isso, em outubro último, representantes de aproximadamente
50 terreiros do Distrito Federal e do Entorno estiveram na Câmara
Legislativa, em audiência pública, para tentar preservar
a religião africana.
Em face do incêndio do Centro Espírita
Auta de Souza, Paulo Maia, presidente da Federação Espírita
do Distrito Federal, divulgou o seguinte comunicado:
“A Federação Espírita
do Distrito Federal (FEDF) vem a público lamentar o ato criminoso
que resultou no incêndio do Centro Espírita Auta de Souza,
em Sobradinho II, na chácara 14 do Núcleo Rural 2, ocorrido
na última madrugada, 29 de janeiro.
As chamas destruíram parcialmente as dependências do
centro e também provocaram ferimento em uma vítima.
Os danos poderiam ter sido piores caso não houvesse a atitude
de vizinhos do centro, que ajudaram a combater o incêndio, e
a atuação do Corpo de Bombeiros.
O Centro Espírita Auta de Souza atua desde a década
de 1970. Nesses anos, conquistou reputação na comunidade
Chão de Flores pelas atividades religiosas e sociais.
Difícil de compreender e aceitar que uma instituição
com esse perfil seja alvo de um delito de ódio!
Esse episódio evidencia que a tolerância religiosa está
sob risco no Brasil. Importante mencionar que fatos semelhantes tendo
por alvo outros segmentos vêm sendo registrados com frequência
no Distrito Federal e no país.
A FEDF espera que as autoridades apurem com celeridade e responsabilizem
legalmente os autores do ato criminoso.
Da mesma forma ressalta que o respeito e o direito da liberdade de
fé e de credo são valores professados no Brasil e uma
conquista que não pode ser maculada.
Esperamos que os valores cristãos, das demais religiões
orientais, afrodescendentes e de cidadania sejam defendidos e preservados
pela sociedade e pelas instituições brasileiras.
Que este ato, fruto da ignorância das leis divinas, possa fortalecer
as ações de integração das lideranças
religiosas e da sociedade no desenvolvimento da cultura da Paz, tão
necessária para vivermos em harmonia.”
Fazemos nossas as palavras do confrade Paulo Maia.
É preciso dar um basta à intolerância religiosa
que grassa em nosso país, porque o ocorrido em Sobradinho não
constitui um fato isolado, como mostra a sucessão de episódios
semelhantes que vêm ocorrendo nos últimos anos em uma nação
cuja população, em sua esmagadora maioria, se orgulha
em dizer-se cristã. Mas o cristão, é bom que todos
lembremos, reconhece-se pelas suas obras e não apenas pelas suas
crenças.