01/02/2016
Projeto temático, com a participação
de vários pesquisadores, investiga a trajetória do catolicismo
no Brasil desde meados do século XIX e sua influência em
vários campos da vida nacional

Pesquisa investiga a produção teórica
e a atuação prática dos católicos no país,
desde o final do século XIX, e destaca a trajetória do
escritor Alceu Amoroso Lima
(foto: Almoço Comemorativo da Associação Universitária
Católica (1936)/Fundação Dom Vital)
Por: José Tadeu Arantes | Agência
FAPESP –
Apesar de persistente declínio
numérico ao longo das últimas décadas, o catolicismo
ainda é a religião majoritária no Brasil. Segundo
dados do Censo de 2010, o último realizado, havia, na população
da época, 64,6% de católicos apostólicos romanos;
22,2% de evangélicos (não pentecostais ou pentecostais);
2% de espíritas; 0,7% de testemunhas de Jeová; e 0,3%
de umbandistas e candomblecistas, para mencionar apenas os cinco segmentos
religiosos com maior expressão quantitativa. No mesmo levantamento,
realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), 8% dos entrevistados declararam-se “sem religião”.
Um projeto temático, com a participação
de vários pesquisadores, investiga a trajetória do catolicismo
no Brasil desde meados do século XIX e sua influência em
vários campos da vida nacional. Trata-se do estudo “Congregações católicas, educação e Estado nacional no Brasil”,
coordenado por Agueda Bernardete Bittencourt,
professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual
de Campinas (Unicamp), com o apoio da FAPESP.
Um dado interessante destacado pelo estudo foi que,
embora a colonização europeia do território brasileiro
tenha se dado sob a égide do catolicismo, a presença quantitativa
de religiosos católicos era muito pequena no país até
a última década do século XIX.
“Em 1880, havia no Brasil apenas sete ordens
religiosas masculinas e 11 femininas, e todo o clero católico
era composto por menos de 3 mil pessoas. A entrada maciça de
religiosos católicos provenientes da Europa ocorreu a partir
de 1890, com picos importantes nas décadas de 1920, 1950 e
1960”, disse Bittencourt à Agência FAPESP.
Os religiosos, homens e mulheres, vieram em congregações
– algumas delas previamente estabelecidas no país; a maioria
instalando-se com sua chegada. Um dos motivos de sua vinda foi a expulsão
dessas congregações dos países europeus devido
ao processo de laicização dos Estados nacionais. Outro
motivo foi a demanda da elite brasileira e da elite eclesiástica
por pessoal qualificado, para estabelecer aqui colégios e asilos,
oferecer atendimento à saúde, e mesmo atuar em outras
áreas especializadas, como a imprensa.
“Essa entrada maciça de religiosos foi
também um projeto da Igreja Católica, que tinha interesse
em catolicizar as repúblicas da América Latina –
não apenas o Brasil, mas igualmente a Argentina, o Chile, a
Colômbia, o México, o Peru, o Uruguai, a Venezuela etc.
Pois, durante o século XIX, por decorrência da Revolução
Francesa e do ideário liberal ou positivista, houve forte restrição
à atuação católica no continente. Conventos
foram fechados em países como a Argentina e o Peru. E chegaram
a ocorrer perseguições aos religiosos na Colômbia,
no México e na Venezuela”, informou a pesquisadora.
De qualquer modo, o Brasil foi o país que mais
recebeu religiosos, pela vastidão do território e porque
não tinha uma infraestrutura escolar e de saúde que cobrisse
tal espaço. Assim, ao longo de quase um século, foram
registrados os seguintes números para a entrada de novas congregações:
13 (1890), 20 (1900), 23 (1910), 41 (1920), 29 (1930), 26 (1940), 51
(1950), 41 (1960), em um universo de 260 congregações
mapeadas pela pesquisa até o momento.
“Os religiosos que vieram até a primeira
metade do século XX estavam, em sua maioria, comprometidos
com o projeto de centralização da Igreja, nos moldes
propostos pelo Concílio Vaticano I, realizado na segunda metade
do século XIX. Com base no dogma da infalibilidade papal, promulgado
em 1870 pelo papa Pio IX no decorrer desse concílio, a Igreja
se arvorou o direito de ‘dizer a verdade’ a partir de
Roma”, afirmou Bittencourt.
Religião do Estado
Tal centralização ou romanização
teve importante repercussão na Igreja instalada no Brasil. Esta,
durante boa parte do século XIX, fora bastante contida pela ação
do imperador Pedro II. Influenciado pelo liberalismo e pelo positivismo,
e aberto a ideias novas, como a teoria da evolução de
Darwin, Pedro II manteve o catolicismo como religião do Estado,
mas procurou restringir a influência da Igreja, proibindo a abertura
de seminários, controlando a seleção dos bispos
e coibindo a entrada de novos quadros estrangeiros.
Como depositária da religião oficial,
a Igreja Católica estava submetida ao Estado. Por isso, quando
os bispos de Olinda e Belém, influenciados pela ênfase
antiliberal do Concílio Vaticano I, desafiaram abertamente o
direito civil, ordenando a expulsão dos maçons das irmandades
católicas leigas, o caso foi levado ao Superior Tribunal de Justiça,
que condenou, em 1874, os dois religiosos a quatro anos de prisão,
com trabalhos forçados. O imperador comutou a pena para prisão
simples, mas só anistiou os bispos depois que o Vaticano anulou
as interdições aos maçons. Tal caso ficou conhecido
na historiografia brasileira como a “Questão Religiosa”.
Não por acaso, a entrada das congregações católicas
no Brasil só adquiriu importância numérica a partir
da década de 1890, após a proclamação da
República.
“Fragilizada na Europa, e buscando legitimar
uma política centralizada em Roma, a Igreja elegera a América
Latina, colonizada por dois países católicos, Espanha
e Portugal, como um espaço de forte investimento. Já
em 1858 fora fundado o Colégio Pio Latino-Americano de Roma,
criado para formar quadros para os países de língua
latina alinhados com os cânones romanos. No entanto, o ponto
alto da investida constitui-se na convocação de todos
os arcebispos e bispos do continente pelo papa Leão XIII para
o Concílio Plenário da América Latina, celebrado
na sede do papado no apagar das luzes do século XIX. Desse
conclave, que reuniu 53 prelados, dos quais 11 brasileiros, emanaram
as diretrizes para a ação da Igreja no século
seguinte”, escreveu a pesquisadora.
Romanização e conservadorismo
A entrada das congregações
católicas trouxe ao Brasil religiosos qualificados, provenientes
principalmente da França e da Itália, que passaram a atuar
em escolas, hospitais e imprensa. Na primeira etapa, que se estendeu
da década de 1890 até a década de 1950, a Igreja,
comprometida com o processo de romanização e o ideário
conservador, empregou esses novos recursos humanos principalmente em
sua própria estruturação. Assim, o número
de dioceses, inferior a duas dezenas por ocasião da Proclamação
da República, cresceu até chegar às 272 dioceses
atuais .
“A preocupação
de não mais se limitar a combater escritores laicos, ateus
ou agnósticos, e sim produzir uma imprensa própria,
constituída por livros, revistas e jornais com a mesma qualidade
intelectual e gráfica dos produzidos pelas empresas laicas,
levou a Igreja a incentivar a manifestação de escritores
católicos. E esse movimento, no Brasil, foi capitaneado pelo
grupo do Rio de Janeiro, que fundou, em 1921, a revista A Ordem, e,
no ano seguinte, o Centro Dom Vital. Depois da morte acidental de
Jackson de Figueiredo (1891 – 1928), criador dos dois projetos,
o mais importante protagonismo intelectual desse grupo foi exercido
por Alceu Amoroso Lima”, relatou Bittencourt.
A trajetória pessoal de Alceu Amoroso Lima (1893
– 1983) é exemplar da trajetória coletiva do catolicismo
brasileiro no século XX. Por isso, convém descrevê-la
com maior detalhe. Filho de industrial e neto de aristocrata, formou-se
em Direito no Rio de Janeiro e deu continuidade aos estudos na França,
onde frequentou o curso ministrado pelo filósofo Henri Bergson
(1859 – 1941) na Sorbonne. De volta ao Brasil, trabalhou como
advogado, antes de assumir a direção jurídica de
uma fábrica da família. Ao iniciar sua atuação
na imprensa como crítico literário, em 1919, adotou o
pseudônimo de Tristão de Athayde, para não confundir
a atividade jornalística com a atividade empresarial.
Liberal em política e agnóstico em filosofia, Alceu converteu-se
ao catolicismo em 1928, depois de uma intensa troca de ideias com Jackson
de Figueiredo. Sua conversão teve grande repercussão tanto
na esfera familiar quanto na esfera pública. No âmbito
familiar, a principal consequência viria a ser, duas décadas
mais tarde, o ingresso de sua filha Lia no monastério e na clausura.
Nascida em 1929, em Petrópolis, no Rio de Janeiro, Lia, com o
nome religioso de madre Maria Teresa, tornou-se, aos 22 anos, monja
enclausurada no mosteiro beneditino de Santa Maria, em São Paulo.
No âmbito público, a intensa produção literária,
jornalística e epistolar de Alceu constituiu-se no principal
baluarte do pensamento católico no país.
No decurso de uma vida longa, ele redigiu quase uma centena de livros,
um número incontável de artigos, publicados em periódicos
como O Jornal, Diário de Notícias, Tribuna da Imprensa,
Jornal do Brasil e Folha de S. Paulo, e manteve correspondência
com alguns dos mais importantes intelectuais brasileiros. Para a filha
enclausurada, escreveu quase diariamente, durante 30 anos, mantendo-a
informada do que se passava no país.
“Até o final dos anos 1940, Alceu caracterizou-se
por posições bastante conservadoras e chegou a simpatizar
com a Ação Integralista Brasileira, embora não
tenha participado dessa organização de inspiração
fascista. Nesse período, engajou-se em causas como a indissolubilidade
do casamento, a pluralidade sindical e o ensino religioso nas escolas
públicas. Ao modelo de educação laica, pública
e obrigatória, defendido por Anísio Teixeira, contrapôs
a proposição de uma educação livre, de
escolha da família. E, em oposição à Universidade
do Distrito Federal (UDF), criada por Anísio Teixeira, empenhou-se
na fundação da Pontifícia Universidade Católica
do Rio de Janeiro (PUC-RJ), a primeira das PUCs, cujo modelo inspiraria
as demais, inclusive a de São Paulo”, disse a pesquisadora.
O grupo do Rio de Janeiro era liderado pelo cardeal
Sebastião Leme (1882 – 1942) e, além
de Alceu, reunia vários intelectuais influentes, como o padre
Leonel Franca, o escritor Gustavo Corção,
o jurista Sobral Pinto, entre outros. E incorporou,
mais tarde, o então padre e futuro cardeal Hélder
Câmara (1909 – 1999).
Catolicismo progressista
Uma forte inflexão, da direita
para o centro e do centro para a esquerda, operou-se no meio intelectual
católico brasileiro a partir da Segunda Guerra Mundial.
“Durante a guerra, e especialmente
no pós-guerra, ocorreu na Europa uma transformação
profunda no pensamento e na prática dos religiosos. Foi um
direcionamento para o trabalho no mundo, em prol da superação
das desigualdades e da promoção da justiça social.
Como reflexo disso, Alceu Amoroso Lima viveu uma espécie de
segunda conversão durante os anos 1950, mudando de campo. De
simpatizante do integralismo, tornou-se interlocutor do chamado catolicismo
progressista. Foi um dos protagonistas do processo de renovação
promovido pelo Concílio Vaticano II (1961 – 1965). E,
após o golpe de Estado que depôs o presidente João
Goulart, em 1964, colocou-se abertamente no campo da oposição
à ditadura civil-militar”, informou Bittencourt.
Ainda nos anos 1950, outra forte influência na
renovação do catolicismo no país foi a do padre
francês Louis-Joseph Lebret (1897 – 1966),
criador do movimento “Economia e Humanismo”, como uma espécie
de terceira via diante da dicotomia “capitalismo versus socialismo”.
Lebret – que viria a ter mais tarde atuação decisiva
no Concílio Vaticano II, participando da redação
da constituição Gaudium et Spes (“Alegria e Esperança”)
e da encíclica Populorum Progressio (“Do Progresso dos
Povos”), proclamadas pelo papa Paulo VI (1897 –1978) –
visitou várias vezes o Brasil, orientou pesquisas sobre as condições
de vida nos bairros pobres de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo
Horizonte e Recife e formou jovens ativistas, como Plínio
de Arruda Sampaio, Francisco Whitaker e outros,
que compuseram uma espécie de ala esquerda do Partido Democrata
Cristão.
“As atuações de Alceu e de Lebret
visavam, cada qual a seu modo, a formação de uma elite
intelectual progressista. A de Alceu priorizava o debate no campo
literário e jornalístico. A de Lebret, uma capacitação
técnica capaz de formar quadros altamente qualificados para
assessorar os governos. Um ponto central enfatizado pelos dois protagonistas
e seus seguidores foi o da produção bibliográfica.
Isso levou à criação da Editora Agir no Rio de
Janeiro e da Editora Duas Cidades em São Paulo. Pensadores
fundamentais na renovação do catolicismo, como Emmanuel
Mounier, Jacques Maritain e Teilhard
de Chardin foram lidos e discutidos no período”,
lembrou a pesquisadora.
Segundo ela, houve ainda um terceiro influxo, este
dialogando diretamente com os segmentos populares. Foi o dos “padres
operários”, que surgiram na Europa dos anos 1940
e chegaram ao Brasil nos anos 1950, principalmente por meio da ordem
dominicana. Mas não se deve pensar que essa inflexão obteve
unanimidade no corpo da Igreja Católica e em sua área
de influência. Ao contrário, estas experimentaram uma forte
polarização entre direita e esquerda nas décadas
de 1940, 1950 e 1960.
“Após a primeira visita do padre Lebret
ao Brasil, em 1947, ele ficou cinco anos sem poder voltar, devido
a gestões, junto ao Vaticano, dos arcebispos conservadores
do Rio de Janeiro e de São Paulo, Dom Jaime de Barros Câmara
e Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, respectivamente. E Gustavo
Corção, que fora introduzido no catolicismo por Alceu
Amoroso Lima, tornou-se, depois, seu maior opositor, como um dos principais
ideólogos do conservadorismo católico”,
sublinhou Bittencourt.
“A transição que se operou desde o final do século
XIX até o Concílio Vaticano II foi a formulação
de um humanismo cristão, que trouxe a profissionalização
e também a politização dos quadros da Igreja,
possibilitando uma produção e apropriação
do conhecimento científico. Principalmente os jesuítas
e os dominicanos, mas não apenas eles, protagonizaram esse
movimento. A opção pelo trabalho social levou esses
religiosos a procurar entender as condições de geração
da miséria na sociedade contemporânea. E isso os aproximou
dos pensamentos marxista e anarquista. Tal análise foi demandada
pelos próprios trabalhos de base, em movimentos como o dos
padres operários, de formação de comunidades
de base, de educação popular, de atuação
no meio rural etc. E tudo isso acabaria levando, depois, à
formulação da Teologia da Libertação”,
concluiu a pesquisadora.
Fonte: http://agencia.fapesp.br/a_trajetoria_do_pensamento_catolico_no_brasil/22616/
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