31/01/2016
Descoberto texto antigo de Astronomia
da Babilônia que demonstra como esta cultura antiga era altamente
desenvolvida
O astroarqueólogo Mathieu
Ossendrijver, da Universidade Humboldt de Berlim, traduziu um texto
não-estudado sobre Júpiter e descobriu algo surpreendente.

Por: Maddie Stone
Mais de mil anos antes dos primeiros telescópios,
os astrônomos babilônios acompanhavam o movimento dos planetas
no céu noturno usando aritmética simples. E um texto recém-traduzido
revela que eles também usaram um método muito mais avançado,
que antecipou o desenvolvimento do cálculo em mais de um milênio.
É um fato bem conhecido que os babilônios eram astrônomos
matemáticos bastante hábeis, que preservavam seus conhecimentos
em centenas de tabuletas de argila. Mas quando o astroarqueólogo
Mathieu Ossendrijver, da Universidade Humboldt de Berlim,
traduziu um texto não-estudado sobre Júpiter, ele descobriu
algo surpreendente.
Para acompanhar a trajetória do gigante de gás no céu,
os babilônios usavam uma técnica geométrica –
o procedimento trapezoidal – que é uma base do cálculo
moderno. Até agora, acreditava-se que este método tinha
sido inventado na Europa medieval, cerca de 1.400 anos depois.
“Isso mostra como esta cultura
antiga era altamente desenvolvida”, disse Ossendrijver ao Gizmodo.
“Eu acho que ninguém esperava algo como isto sendo encontrado
em um texto babilônico.”
A descoberta foi publicada na revista
Science. (clique
aqui e acesse o link - em inglês)
Tabuletas
O texto pertence a uma coleção
de milhares de tabuletas de argila, inscritas com a escrita cuneiforme
e escavadas no Iraque durante o século XIX. Ao traduzi-las e
estudá-las ao longo do século passado, os arqueólogos
aprenderam muito sobre os babilônios, incluindo o seu sistema
avançado de astronomia, que se desenvolveu a partir do zodíaco
em torno de 400 a.C.
Os astrônomos babilônios, que também
eram sacerdotes, acreditavam que todos os acontecimentos terrestres
– o clima, o preço dos grãos, o nível dos
rios – estavam ligados ao movimento dos planetas e estrelas. E
de todas as forças que influenciam nosso mundo, nenhuma foi tão
importante como Marduk, o patrono de Babilônia – ele foi
associado a Júpiter.

Marduk, o deus patrono de Babilônia
Como Ossendrijver explica em seu estudo,
cerca de 340 tabuletas de astronomia babilônica possuem dados
sobre as posições planetárias e lunares, dispostos
em linhas e colunas como uma planilha. Outras 110 tabuletas são
processuais, com instruções que descrevem as operações
aritméticas (adição, subtração e
multiplicação) utilizadas para calcular as posições
dos objetos celestes.
Mas uma coleção – um conjunto de quatro tabuletas
sobre a posição de Júpiter – parece preservar
fragmentos de uma técnica para o cálculo da área
abaixo de uma curva.
Estes textos são fragmentários, e durante décadas
seu significado astronômico foi desconhecido. Em 2014, Ossendrijver
descobriu o manual de instruções: uma tabuleta que “simplesmente
passou despercebida”, segundo ele, e que acumulava poeira no Museu
Britânico desde 1881.
Um dos textos babilônicos fragmentários
(à esquerda), mostrando uma porção de um cálculo
para determinar o deslocamento de Júpiter no plano da eclíptica:
trata-se da área sob a curva tempo-velocidade (à direita)/Mathieu
Ossendrijver - clique na imagem para ampliá-la.
O “texto A”, agora descodificado,
descreve um procedimento para calcular o deslocamento de Júpiter
através do plano da eclíptica, o caminho que o Sol parece
seguir através das estrelas ao longo de um ano. De acordo com
o texto, os babilônios faziam isso acompanhando a velocidade de
Júpiter como uma função do tempo e determinavam
a área sob a curva tempo-velocidade.
Até agora, a primeira origem deste conceito datava do século
XIV na Europa. “Em 1350, os matemáticos entendiam que,
se você calculasse a área sob esta curva, você teria
a distância percorrida”, disse Ossendrijver. “Isso
é uma visão bastante abstrata sobre a conexão entre
o tempo e movimento. Estes textos mostram que tal percepção
surgiu na Babilônia.”
Na visão de Ossendrijver, é improvável que esse
método tenha sobrevivido ao enorme abismo de tempo entre o desaparecimento
da cultura babilônica e a Europa medieval.
“Eu acho mais provável
que [os europeus] tenham desenvolvido isso de forma independente”,
disse ele, observando que o procedimento trapezoidal não parece
ter sido popular entre os astrônomos babilônios, e que
muito de seu conhecimento foi perdido quando a cultura morreu em cerca
de 100 d.C.
“Quem sabe o que mais está escondido nas milhares de
tabuletas em museus ao redor do mundo?”, continuou Ossendrijver.
“Isso faz parte da história da ciência, e eu espero
que aumente a consciência do valor de proteger essa herança.”
> Texto recém-traduzido
e detalhado na revista Science/Mathieu Ossendrijver
>
clique aqui para acessar o texto original da Science em inglês,
em pdf.
Fonte: http://gizmodo.uol.com.br/calculo-astronomia-babilonia
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