31/01/2016
Filhos de religiosos são menos
generosos e punem mais

A pesquisa analisou cerca de mil crianças
de seis países - Canadá, China, Jordânia, Turquia,
Estados Unidos e África do Sul
ROOS KOOLE/ AFP
Filhos de religiosos são menos generosos
e punem mais!
A conclusão é de um estudo americano e evidencia que não
existe relação direta entre religiosidade e valores morais
por Thais Paiva
Ser uma pessoa religiosa não faz
necessariamente de ninguém um bom samaritano. É o que
aponta um estudo americano realizado por pesquisadores da Universidade
de Chicago e publicado na Current Biology.
De acordo com a conclusão do estudo, que envolveu seis países
de crenças diversas, filhos criados em núcleos familiares
religiosos apresentam uma maior tendência para punir outras pessoas
e também se mostram menos generosos.
Ainda segundo o estudo, atualmente cerca de 5,8 bilhões de pessoas,
isto é, 84% da população mundial, se identificam
como religiosos. Para os pesquisadores, embora seja geralmente aceita
a ideia de que a religião dá contornos aos julgamentos
morais das pessoas e incentiva comportamentos pró-sociais, a
relação entre religiosidade e moralidade é ainda
questionável.
Para chegar à conclusão, a pesquisa avaliou o altruísmo
e o nível de religiosidade do núcleo familiar de 1.170
crianças com idade entre 5 e 12 anos e oriundas de seis países
– Canadá, China, Jordânia, Turquia, Estados Unidos
e África do Sul -, bem como os pais relatavam a empatia e sensibilidade
à justiça de seus filhos.
Em todos os países, os resultados foram os mesmos. Os pais religiosos
relataram que seus filhos expressavam mais empatia e sensibilidade para
a justiça na vida cotidiana do que os pais não religiosos.
No entanto, a religiosidade foi inversamente preditiva do altruísmo
da criança e esteve positivamente correlacionada com suas tendências
punitivas.
“Juntos, esses resultados revelam
a semelhança entre os países na forma como a religião
influencia negativamente o altruísmo das crianças, desafiando
a visão de que a religiosidade facilita o comportamento pró-social”,
diz o estudo.
Para Yves de La Taille, pesquisador e estudioso
do desenvolvimento moral e professor do Instituto de Psicologia da USP,
a investigação mostra que não é possível
inferir uma relação direta entre religião e a moralidade
das pessoas.
“A maioria das pessoas tem um
deus, é adepta de uma religião e o mundo não
está melhor por causa disso. Um exemplo interessante é
o Cunha [Eduardo Cunha, presidente da Câmara] que diz ser evangélico
e, portanto, deveria ter a caridade como valor, o que aparentemente
não o impede de ter dinheiro escondido na Suíça”,
critica.
Sobre a conclusão de filhos de religiosos
serem mais punitivos, La Taille vê uma coerência.
“As religiões cristãs,
entre outras, dão muito valor para o castigo. Há muitas
regras e, portanto, toda transgressão precisa levar a uma punição.
Mas eu acrescentaria que a tendência da sociedade atual é
ser mais punitiva. E quem julga muito, quem pensa muito em punição,
não é generoso”, reflete.
Em relação à menor
generosidade, a interpretação é mais abstrata.
“Não há regras para
a generosidade, é um conceito subjetivo e, frequentemente,
a religião leva as pessoas a terem uma moral heterônoma,
cuja fonte é exterior. Então a pessoa tem a ideia vaga
de que deve ser generosa, mas sem muitos parâmetros para agir,
para colocar isso na prática”.
Até porque, lembra o especialista,
o ódio, que seria o contrário da generosidade, tantas
vezes nasce no próprio seio das religiões e seus dogmas.
“Basta olhar para o Estado Islâmico
e afins. Hoje, temos uma certa volta para a Idade Média. As
guerras mais sangrentas da atualidade são em nome da religião”.
Então o ateu é o bom samaritano?
Também não, alerta La Taille.
“Do mesmo jeito que não
existe uma relação de causa e efeito entre ser religioso
e ser boa pessoa do ponto de vista moral, não há com
não ser religioso. Há ateus extremamente morais e outros
não-morais. Acho que os valores morais de uma pessoa dependem
muito de um percurso pessoal e cultural”.
Fonte: http://www.cartaeducacao.com.br/reportagens/filhos-de-pais-religiosos-sao-menos-generosos-e-punem-mais-diz-estudo
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