17/01/2016
01/04/2014 (data original da notícia em seu local de publicação
de origem)
por Luís Miguel Queirós e Isabe Salema
O historiador que nos explicou a invenção
do Purgatório
Le Goff Mudou a percepção que
tínhamos da Idade Média e escreveu várias obras
que se tornaram clássicos.
Jacques Le Goff numa fotografia não datada AFP
O historiador francês que revolucionou a historiografia
moderna e reabilitou a imagem da Idade Média europeia, mostrando-a
como um período bastante mais dinâmico do que o humanismo
renascentista quis fazer crer, morreu em Paris, aos 90 anos.
Além de centenas de artigos, Jacques Le Goff
tinha mais de 40 livros publicados, desde Os Intelectuais na Idade
Média e Mercadores e Banqueiros na Idade Média,
ambos de 1957 (as edições portuguesas são da Gradiva),
até ao recente À la recherche du temps sacré,
Jacques de Voragine et la Légende Dorée, de 2011.
Bernardo Vasconcelos e Sousa, autor da obra História de Portugal,
juntamente com Rui Ramos e Nuno Monteiro, diz que Le Goff “é
um dos historiadores mais importantes da segunda metade do século
XX à escala mundial, sem dúvida e sem favor nenhum”.
Com George Duby, outro grande historiador francês falecido em
1996, “mudou de forma radical e muito profunda a maneira de
ver a Idade Média ocidental”.
O historiador francês pertencia à terceira geração
de historiadores da escola dita dos Annales. A sua concepção
de antropologia histórica e o seu interesse pela história
da cultura e das mentalidades, de O Nascimento do Purgatório
à monumental biografia do rei São Luís, distinguem-no
dos modelos de interpretação social e econômica
de Fernand Braudel, representando um modo criativo de retomar o legado
da revista fundada em 1929 por Marc Bloch e Lucien Febvre.
Sucessor de Braudel na direcção da École des Hautes
Études en Sciences Sociales, publica em 1964 A Civilização
do Ocidente Medieval, uma obra que toma como objecto de estudo
um vasto âmbito geográfico e um período de tempo
longo e nos dá, diz Bernardo Vasconcelos e Sousa, uma nova Idade
Média “combatendo quer a visão negra de uma
Idade Média de ‘feios, porcos e maus’, que ainda
hoje tem uma representação no discurso político
ou jornalístico, quer uma imagem dourada e cor-de-rosa”,
alimentada pelo romantismo. Na Idade Média que construiu, juntamente
com a sua geração, “estudam-se as estruturas, as
mentalidades, os valores, as representações do cotidiano”.
Se tivesse de escolher uma obra para um leitor leigo, Vasconcelos e
Sousa destacaria A Civilização do Ocidente Medieval,
“um livro de carácter científico que se lê
como um bom romance”, um manual de história geral
onde Le Goff defende a existência “de uma civilização
do Ocidente medieval”, uma civilização que
sucede à Antiguidade Greco-Romana e antecede o mundo moderno.
O historiador da Universidade Nova de Lisboa cita também O
Nascimento do Purgatório (a obra que o próprio Le
Goff preferia entre as outras) como “um livro magistral”,
onde se analisa a criação, a invenção, do
Purgatório, sobretudo a partir do século XII, como lugar
intermédio entre o Céu e o Inferno:
“Mesmo que não se esteja em condições
de aceder de imediato à harmonia celestial, há uma lugar
intermédio, de esperança, que possibilita que se venha
a aceder ao Céu. É uma sociedade que se está
a diversificar, a complexificar, e isso teve consequência na
estruturação do pensamento e da devoção
cristãos.”
Na obra Para Um Novo Conceito da Idade Média,
onde junta vários pequenos estudos, Vasconcelos e Sousa destaca
um intitulado “O tempo da Igreja e o tempo do mercador”,
em que o historiador francês compara e contrapõe uma representação
da vivência do tempo por parte da Igreja, de um tempo cíclico
das horas litúrgicas, dos ciclos naturais, a um tempo quantificado
dos mercadores, um tempo linear, um tempo que é dinheiro:
“Esse tempo começa a fazer a sua afirmação
a partir dos séculos XIII e XIV, passando pela sua materialização,
quantificado já não pela sucessão das horas diárias,
pelo bater do sino das igrejas, mas pelo relógio mecânico
que começa a surgir precisamente nas cidades ao longo do século
XIV.”
Na sua abordagem antropólogica, na sua ambição
de abarcar o homem em todas as suas dimensões, Le Goff construiu
uma história das mentalidades medievais em que mostrou como estavam
então interligados domínios aparentemente tão distantes
como a teologia ou o comércio.
Esta diversificação dos temas, que abriu muitas linhas
de investigação, dá uma ideia, diz Vasconcelos
e Sousa, “da revolução que houve nos estudos medievais,
de que Le Goff e Duby foram mais directamente responsáveis”.
A nova história
Nos anos 1970, coordena duas obras colectivas de grande
envergadura que se tornarão as referências teóricas
da Nouvelle Histoire, a corrente historiográfica que funda com
Pierre Nora, e que procurará levar mais longe a herança
dos Annales: os três volumes de Fazer História
(1974), e A Nova História, em colaboração
com Jacques Revel (1978). A primeira foi traduzida pela Bertrand e a
segunda pelas Edições 70.
Num artigo de 2010 que a edição online
do jornal Le Nouvel Observateur recuperou a propósito
da morte de Le Goff, André Burguière defende a tese de
que, tal como os alemães têm de ter, em cada época,
um grande filósofo, os franceses “querem ter um grande
historiador que o mundo inteiro lhes inveje”. E acrescenta que
desde a morte de Fernand Braudel esse historiador era Jacques Le Goff.
Burguière lembra que Le Goff sempre se reclamou da lição
de Marc Bloch, co-fundador da revista Annales e pioneiro em
contrapor à historiografia convencional do feudalismo uma abordagem
sociológica. Mas as investigações de Bloch e dos
seus discípulos focavam-se essencialmente na história
rural e agrícola. Caberá a Le Goff propor uma história
da cidade medieval, já anunciada nos títulos dos seus
primeiros livros, que evocam, com um sabor deliberadamente anacrónico,
os intelectuais e banqueiros da Idade Média. Le Goff, diz Burguière,
“combate o lugar-comum que identifica a herança da Idade
Média com o mundo rural”.
Quando recebeu, em 2004, o prestigiado prémio Dr. A. H. Heineken
de História, atribuído pela Academia Real das Artes e
Ciências dos Países Baixos, a declaração
do júri dizia que Le Goff “mudou a nossa percepção
da Idade Média”.
Le Goff punha mesmo em causa as cronologias tradicionais, defendendo
que a Idade Média correspondia a todo o período durante
o qual a Igreja e a respectiva doutrina tinham sido consideradas como
a fonte da verdade, um estado de coisas que só teria verdadeiramente
sido posto em causa, na esfera económica, com a revolução
industrial iniciada em Inglaterra em meados do século XVIII,
e também, na ordem das mentalidades, com a Revolução
Francesa. Ou seja, teríamos uma Idade Média que se estenderia
até à primeira metade do século XVIII e que, desde
o século IV, teria tido, diz Le Goff numa entrevista ao mesmo
André Burguière, “várias fases de progresso
que se podem qualificar como renascenças”, do desenvolvimento
das cidades à criação das universidades. Le Goff
crê ainda que uma das mais fundas dívidas do sujeito moderno
ao cristianismo medieval é o reconhecimento da “noção
de interioridade”, que este favoreceu.
De Ivanhoe aos Annales
Filho de um professor de inglês,
Jacques Le Goff nasceu no dia 1 de Janeiro de 1924 em Toulon, no Sul
de França, onde fez os estudos liceais e teve como professor
o historiador Henri Michel, que depois se tornaria um especialista na
história da Segunda Guerra. Le Goff referir-se-ia sempre com
veneração a Henri Michel, cujo magistério terá
contribuído para que se tornasse historiador.
Mas Toulon, dirá mais tarde Le Goff, era uma cidade profundamente
racista, e o estudante ficou satisfeito quando teve de se mudar para
a mais cosmopolita Marselha, com o seu porto de mar e a sua população
multiétnica. Frequenta em Marselha os estudos preparatórios
de acesso ao ensino superior, mas vai pouco às aulas. Convocado
para o “serviço de trabalho obrigatório”,
vulgo STO, imposto pela Alemanha nazi ao Governo de Vichy, foge e junta-se
à Resistência. Leitor compulsivo e omnívoro, devora
os romances históricos de Walter Scott, como Ivanhoe,
cuja influência na sua decisão de se tornar medievalista
ele próprio não descartará.
No pós-guerra, estuda literatura, mas acabará por se licenciar
em História. Em 1947, prossegue os seus estudos na Universidade
de Praga. Da invasão soviética que porá fim, em
1968, à Primavera de Praga, dirá depois Le Goff que foi
a “vacina” que o imunizou definitivamente contra o comunismo.
Concluídas as provas de agregação em 1950, torna-se
professor e começa por dar aulas num liceu de Amiens, vai depois
para a Universidade de Oxford como bolseiro, e em 1954 assume funções
docentes na Universidade de Lille.
Em 1958 conhece o historiador Maurice Lombard, especialista no Islã
medieval, um encontro que se revelará decisivo. Le Goff dirá
sempre que foi com Lombard que mais aprendeu, e foi também ele
que o apresentou a Braudel, que após ter lido as primeiras obras
do jovem historiador lhe arranja um lugar de assistente na prestigiada
VI Secção (ciências económicas e sociais)
da École Pratique d’Hautes Études, que então
dirigia.
Em 1969, Le Goff torna-se co-director da revista Annales e,
em 1972, sucede a Braudel na presidência da VI Secção
da École Pratique d’Hautes Études.
Grande comunicador, estreia-se em 1968 no programa radiofónico
Les Lundis de l’Histoire, que ainda hoje é emitido
pela France Culture, e com o qual Le Goff colaborou até ao final
da vida.
Fonte: http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/morreu-o-historiador-jacques-le-goff-1630555
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