20/11/2012
Uma pesquisa inédita usa equipamentos de
última geração para investigar o cérebro
dos médiuns durante o transe. As conclusões surpreendem:
ele funciona de modo diferente
DENISE PARANÁ, DA
FILADÉLFIA, ESTADOS UNIDOS
Estávamos no mês de julho de 2008. Na Rua
34 da cidade da Filadélfia, nos Estados Unidos, num quarto do
Hotel Penn Tower, um grupo seleto de pesquisadores e médiuns
preparava-se para algo inédito. Durante dez dias, dez médiuns
brasileiros se colocariam à disposição de uma equipe
de cientistas do Brasil e dos EUA, que usaria as mais modernas técnicas
científicas para investigar a controversa experiência de
comunicação com os mortos. Eram médiuns psicógrafos,
pessoas que se identificavam como capazes de receber mensagens escritas
ditadas por espíritos, seres situados além da palpável
matéria que a ciência tão bem reconhece. O cérebro
dos médiuns seria vasculhado por equipamentos de alta tecnologia
durante o transe mediúnico e fora dele. Os resultados seriam
comparados. Como jornalista, fui convidada a acompanhar o experimento.
Estava ali, cercada de um grupo de pessoas que acreditam ser capazes
de construir pontes com o mundo invisível. Seriam eles, de fato,
capazes de tal engenharia?

MEDIUNIDADE SOB INVESTIGAÇÃO
Uma médium brasileira psicografa no laboratório
do
Hospital da Universidade da Pensilvânia
(Foto: Denise Paraná/ÉPOCA)
A produção de exames de neuroimagem (conhecidos como tomografia
por emissão de pósitrons) com médiuns psicógrafos
em transe é uma experiência pioneira no mundo. Os cientistas
Julio Peres, Alexander Moreira-Almeida, Leonardo Caixeta, Frederico
Leão e Andrew Newberg, responsáveis pela pesquisa,
garantiam o uso de critérios rigorosamente científicos.
Punham em jogo o peso e o aval de suas instituições. Eles
pertencem às faculdades de medicina da Universidade de São
Paulo, da Universidade Federal de Juiz de Fora, da Universidade Federal
de Goiás e da Universidade da Pensilvânia, na Filadélfia.
Principal autor do estudo, o psicólogo clínico e neurocientista
Julio Peres, pesquisador do Programa de Saúde, Espiritualidade
e Religiosidade (Proser), do Departamento de Psiquiatria da Faculdade
de Medicina da USP, acalentava a ideia de que a experiência espiritual
pudesse ser estudada por meio da neuroimagem.
Em frente ao Q.G. dos médiuns no Hotel Penn Tower, o laboratório
de pesquisas do Hospital da Universidade da Pensilvânia estava
pronto. Lá, o cientista Andrew Newberg e sua equipe aguardavam
ansiosos. Médico, diretor de Pesquisa do Jefferson-Myrna Brind
Centro de Medicina Integrativa e especialista em neuroimagem de experiências
religiosas, Newberg é autor de vários livros, com títulos
como Biologia da crença e Princípios de neuroteologia.
Suas pesquisas são consideradas uma referência mundial
na área. Ele acabou por se tornar figura recorrente nos documentários
que tratam de ciência e religião. Meses antes, Newberg
escrevera da Universidade da Pensilvânia ao consulado dos EUA,
em São Paulo, pedindo que facilitasse a entrada dos médiuns
em terras americanas. O consulado foi prestativo e organizou um arquivo
especial com os nomes dos médiuns, classificando-o como “Protocolo
Paranormal”.
“É conhecido o fato de experiências
religiosas afetarem a atividade cerebral. Mas a resposta cerebral
à mediunidade, a prática de supostamente estar em comunicação
com ou sob o controle do espírito de uma pessoa morta, até
então nunca tinha sido investigada”, diz Newberg.
Os cientistas queriam investigar se havia alterações
específicas na atividade cerebral durante a psicografia. Se houvesse,
quais seriam? Os dez médiuns, quatro homens e seis mulheres,
participavam do experimento voluntariamente. Foram selecionados no Brasil
por meio de uma longa triagem. Entre os pré-requisitos, tinham
de ser destros, saudáveis, não ter nenhum tipo de transtorno
mental e não usar medicações psiquiátricas.
Metade dos voluntários dizia carregar décadas de experiência
no “intercâmbio espiritual”. Outros, menos experientes,
apenas alguns anos.
Na Filadélfia, antes de a experiência começar, os
médiuns passaram por uma fase de familiarização
com os procedimentos e o ambiente do hospital onde seriam feitos os
exames. O experimento só daria certo se os médiuns estivessem
plenamente à vontade. Todos se perguntavam se o transe seria
possível tão longe de casa, num hospital em que se podia
perguntar se Dr. Gregory House, o personagem de ficção
interpretado pelo ator inglês Hugh Laurie, não apareceria
ali a qualquer momento.
Numa sala com aviso de perigo, alta radiação, começaram
os exames. Por meio do método conhecido pela sigla Spect (Single
Photon Emission Computed Tomography, ou Tomografia Computadorizada de
Emissão de Fóton Único), mapeou-se a atividade
do cérebro por meio do fluxo sanguíneo de cada um dos
médiuns durante o transe da psicografia. Como tarefa de controle,
o mesmo mapeamento foi realizado novamente, desta vez durante a escrita
de um texto original de própria autoria do médium, uma
redação sem transe e sem a “cola espiritual”.
Os autores do estudo partiam da seguinte hipótese: uma vez que
tanto a psicografia como as outras escritas dos médiuns são
textos planejados e inteligíveis, as áreas do cérebro
associadas à criatividade e ao planejamento seriam recrutadas
igualmente nas duas condições. Mas não foi o que
aconteceu. Quando o mapeamento cerebral das duas atividades foi comparado,
os resultados causaram espanto.
Segundo a pesquisa, a mediunidade
pode ser considerada uma manifestação saudável
Surpreendentemente, durante a psicografia os cérebros
ativaram menos as áreas relacionadas ao planejamento e à
criatividade, embora tenham sido produzidos textos mais complexos do
que aqueles escritos sem “interferência espiritual”.
Para os cientistas, isso seria compatível com a hipótese
que os médiuns defendem: a autoria das psicografias não
seria deles, mas dos espíritos comunicantes. Os médiuns
mais experientes tiveram menor atividade cerebral durante a psicografia,
quando comparada à escrita dos outros textos. Isso ocorreu apesar
de a estrutura narrativa ser mais complexa nas psicografias que nos
outros textos, no que diz respeito a questões gramaticais, como
o uso de sujeito, verbo, predicado, capacidade de produzir texto legível,
compreensível etc.
Apesar de haver várias semelhanças entre a ativação
cerebral dos médiuns estudados e pacientes esquizofrênicos,
os resultados deixaram claro também que aqueles voluntários
não tinham esquizofrenia ou qualquer outra doença mental.
Os cientistas afirmam que a descoberta de ativação da
mesma área cerebral sublinha a importância de mais pesquisas
para distinguir entre a dissociação (processo em que as
ações e os comportamentos fogem da consciência)
patológica e não patológica. Entre o que é
e o que não é doença, quando alguém se diz
tocado por outra entidade. Os médiuns estudados relataram ilusões
aparentes, alucinações auditivas, alterações
de personalidade e, ainda assim, foram capazes de usar suas experiências
mediúnicas para tentar ajudar os outros. Pode haver, portanto,
formas saudáveis de dissociação. Uma das conclusões
a que os cientistas chegaram é que a mediunidade envolve um tipo
de dissociação não patológica, ou não
doentia. A mediunidade pode ser uma expressão comum à
natureza humana. Essas conclusões, que ÉPOCA antecipa
na edição que chegou às bancas na sexta-feira (16),
foram divulgadas na revista científica americana Plos One. O
estudo Neuroimagem durante o estado de transe: uma contribuição
ao estudo da dissociação tem acesso gratuito desde sexta-feira,
dia 16, no endereço eletrônico: dx.plos.org/10.1371/journal.pone.0049360.

EXPERIÊNCIA
1. Q.G. dos médiuns em quarto do Hotel Penn
Tower, na Pensilvânia
2. Médium recebe marcador radioativo para captar a atividade
cerebral durante o transe
3. Escaneamento cerebral por meio da técnica de tomografia computadorizada
com emissão de de fóton único
4. Checagem final para garantir a qualidade do experimento, feita num
pequeno laboratório 5. Análise das primeiras imagens cerebrais
capturadas pelos cientistas Julio Peres e Andrew Newberg
(Fotos: Denise Paraná/ÉPOCA)
O maior de todos os psicógrafos
Naquele verão, na Filadélfia, os dez médiuns produziram
psicografias espelhadas – escritas de trás para a frente
–, redigiram em línguas que não dominavam bem, descreveram
corretamente ancestrais dos cientistas que os próprios pesquisadores
diziam desconhecer, entre outras tantas histórias. Convivendo
com eles naquele experimento, colhendo suas histórias, ouvindo
os dramas e prazeres de viver entre dois mundos, encontrei diferentes
biografias. Todos eles compartilham, porém, a crença de
que aquilo que veem e ouvem é, de fato, algo real. Outro ponto
em comum: todos nutriam enorme respeito por Chico Xavier, considerado
o modelo de excelência da prática psicográfica.
Mineiro de família pobre, fala mansa e sorriso tímido,
Chico Xavier recebeu apenas o ensino básico. Isso não
o impediu de publicar mais de 400 livros, alguns em dez idiomas diferentes,
cobrindo variados gêneros literários e amplas áreas
do conhecimento. Ao final da vida, vendera cerca de 40 milhões
de exemplares, cujos direitos autorais foram doados. Psicografou por
sete décadas. Nenhum tipo de fraude foi comprovada. Isso não
significa que seus feitos mediúnicos sejam absoluta unanimidade.
Há controvérsias. O pesquisador Alexandre Caroli Rocha,
doutor em teoria e história literária pela Universidade
Estadual de Campinas (Unicamp), chegou a conclusões que parecem
favorecer a hipótese de que Chico fosse mesmo uma grande e sintonizada
antena. Em seu mestrado, ele analisou o primeiro livro publicado pelo
médium, Parnaso de além-túmulo, que trazia 259
poemas atribuídos a 83 autores já mortos.
Seu estudo considerou os aspectos estilísticos, formais e interpretativos
dos poemas e concluiu que a antologia não era um produto de imitação
literária simples. Rocha descobriu, por exemplo, que Guerra Junqueiro
(1850-1923), um dos autores mortos, assinava a continuação
de um poema inacabado em vida. Não havia indício de que
Chico tivesse tido acesso ao poema antes de psicografar sua continuação.
No doutorado, Rocha concluiu que Chico reproduzia perfeitamente o estilo
do popular escritor Humberto de Campos (1886-1934). Nos textos que saíam
da ponta de seu lápis havia, segundo Rocha, um estilo intrincado
e sofisticado, detectável apenas por aqueles que conhecem bem
como Humberto de Campos funciona. Muitos dos textos atribuídos
a Campos continham informações que estavam fora do domínio
público. Encerradas num diário secreto, tais informações
só foram reveladas 20 anos depois da morte de Campos e do início
da produção mediúnica de Chico.
A ciência pode desvendar a natureza
da alma?
“Se eu pudesse recomeçar minha vida, deixaria de lado
tudo o que fiz, para estudar a paranormalidade.”
Essa confissão de Sigmund Freud a seu biógrafo oficial,
Ernest Jones, marca um dos capítulos pouco conhecidos da história
do pensamento humano. Pouca gente sabe também que muitas das
teorias reconhecidas hoje pela ciência sobre o inconsciente e
a histeria baseiam-se em trabalhos de pesquisadores que se dedicaram
ao estudo da mediunidade. Talvez menos gente saiba que Marie Curie,
a primeira cientista a ganhar dois prêmios Nobel, e seu marido,
Pierre Curie, também Nobel, dedicaram espaço em suas atribuladas
agendas ao estudo de médiuns. No Instituto de Metapsíquica
em Paris, no início do século passado, Madame Curie inquiriu
com seus assombrados olhos azuis a médium de efeitos físicos
Eusapia Palladino. O casal Curie supôs que os segredos da radioatividade
poderiam ser revelados por meio de uma fonte de energia espiritual.
Quem seria capaz de imaginar isso hoje?
Outros cientistas laureados com o Nobel consagraram parte de sua vida
buscando respostas para os mistérios da alma e a possibilidade
de comunicação com os mortos. Pesquisas que hoje seriam
consideradas assombrosas, como materialização de espíritos,
movimentação de objetos à distância, levitação
etc., foram realizadas na passagem entre os séculos XIX e XX.
Houve forte oposição materialista. Experimentos frustrados
e a comprovação de fraude de alguns médiuns lançaram
um manto de ceticismo e silêncio sobre o tema. Essa linha de pesquisa
entrou em crise. Experimentos com mediunidade aos poucos se tornaram
uma mácula nos currículos oficiais dos eminentes cientistas.
E a ciência moderna acabou por condenar ao esquecimento inúmeras
pesquisas científicas sobre o assunto, algumas rigorosas. Enquanto
o cinema, a TV e a literatura cada vez se apropriam mais das questões
do espírito, a ciência dominante tem torcido o nariz e
deixado essas reflexões fora de seu campo.”
A questão tem sido esquecida, mas não totalmente. Apesar
de ainda tímidas, pesquisas científicas sobre comunicações
mediúnicas, como a da Filadélfia, têm sido realizadas
recentemente. Basicamente, encontraram que, além de fenômenos
que revelam fraude proposital ou inconsciente do médium, há
muito a explicar. Muita coisa não cabe dentro do discurso que
prevalece hoje na ciência. Pesquisadores da área acreditam
que a telepatia do médium com o consciente ou o inconsciente
daquele que deseja uma comunicação espiritual não
explica psicografias nas quais se revelam informações
desconhecidas das pessoas que o procuram.
Muitas informações fornecidas por médiuns, dizem
eles, se confirmaram verdadeiras só mais tarde, após pesquisa
sobre o morto. Como pensar então em telepatia se só o
morto detinha as informações? Seria possível a
ideia de comunicação direta com os mortos? Alguns cientistas
que estudam as percepções mediúnicas discordam
dessa hipótese. Acreditam que é possível não
haver limite de espaço e tempo para percepções
mediúnicas. O médium poderia andar para a frente e para
trás no tempo e no espaço, coletando as informações
que desejasse, quando e onde elas estivessem. Num fenômeno em
que comprovadamente não houvesse fraude ou sugestão inconsciente,
sobrariam apenas duas hipóteses: ou haveria a capacidade do médium
de captar informações em outro espaço e tempo;
ou existiria mesmo a capacidade de comunicação entre o
médium e o espírito de um morto.
Atuais referências no estudo científico de fenômenos
tidos como espirituais, cientistas como Robert Cloninger, Mario Beauregard,
Erlendur Haraldsson, Stuart Hameroff e Peter Fenwick aplaudem a iniciativa
de Julio Peres em seu estudo. Esse neurocientista brasileiro,
que tem colhido apoio em seus pares, afirma que seus achados “compõem
um conjunto de dados interessantes para a compreensão da mente
e merecem futuras investigações, tanto em termos de replicação
como de hipóteses explicativas”.
Outro coautor do estudo, o psiquiatra Frederico Camelo Leão,
coordenador do Proser, defende mais estudos acerca das experiências
tidas como espirituais.
“O impacto das pesquisas despertará a comunidade científica
para como esse desafio tem sido negligenciado”, diz.

O QUE É MATÉRIA E O QUE NÃO
É?
Da esquerda para a direita, os cientistas Alexander
Moreira-Almeida, Júlio Peres e Andrew Newberg discutem os exames
em 2008. O artigo final com todos os achados só foi publicado
quatro anos depois.
(Foto: Denise Paraná/ÉPOCA)
O pesquisador Alexander Moreira-Almeida, coautor do
estudo e diretor do Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e
Saúde (Nupes), da Universidade Federal de Juiz de Fora, é
o principal responsável por colocar o Brasil em destaque nessa
área no cenário internacional. Moreira-Almeida recebeu
o Prêmio Top Ten Cited, como o primeiro autor do artigo mais citado
na Revista Brasileira de Psiquiatria, com Francisco Lotufo Neto e Harold
G Koenig. É editor do livro Exploring frontiers of the mind-brain
relantionship (Explorando as fronteiras da relação mente-cérebro,
em tradução livre), pela reputada editora científica
Springer.
Ele afirma que a alma, ou como prefere dizer, a personalidade ou a mente,
está intimamente ligada ao cérebro, mas pode ser algo
além dele. Para esse psiquiatra fluminense, pesquisas sobre experiências
espirituais, como a mediunidade, são importantes para entendermos
a mente e testarmos a hipótese materialista de que a personalidade
seja um simples produto do cérebro. Moreira-Almeida lembra que
Galileu e Darwin só puderam revolucionar a ciência porque
passaram a analisar fenômenos que antes não eram considerados.
“O materialismo é uma hipótese, não é
ainda um fato cientificamente comprovado, como muitos acreditam”,
diz Moreira-Almeida.
Apesar de todos os avanços da ciência materialista, a
humanidade continua aceitando as dimensões espirituais. Dados
do World Values Survey revelam que a maioria da população
mundial acredita na vida após a morte. Em todo o planeta, um
número expressivo de pessoas declara ter se sentido em contato
com mortos: são 24% dos franceses, 34% dos italianos, 26% dos
britânicos, 30% dos americanos e 28% dos alemães. Não
há dúvida de que o materialismo científico foi
instrumento de enorme progresso para a humanidade. A dúvida é
se ele, sozinho, seria capaz de explicar toda a experiência humana.
Para a maioria da população, a visão materialista
parece deixar um vazio atrás de si. Na busca de respostas para
nossas principais questões, muitos assinariam embaixo da frase
de Albert Einstein: o homem que não tem os olhos abertos para
o mistério passará pela vida sem ver nada.
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Denise Paraná é jornalista,
doutora em ciências humanas pela Universidade de São Paulo
e pós-doutora, como visiting scholar, pela Universidade de Cambridge,
Inglaterra
Fonte: http://revistaepoca.globo.com/vida/noticia/2012/11/os-avancos-da-ciencia-da-alma.html
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