26/10/2012
A cooperação é fundamental para o comportamento
social humano
O jornal "O Estado de São Paulo", na edição
de 18 de outubro de 2012, trouxe reportagem do jornalista Fernando Reinach
que apresentava os resultados de pesquisa realizada por um grupo de
cientistas sobre o tema "A Generosidade e o egoísmo".
Spontaneous
giving and calculated greed
David G. Rand, Joshua D. Greene & Martin A.
Nowak
-
clique aqui para baixar o papel completo, em inglês (pdf) -
Abaixo texto reproduzido da página eletrônica
do "Estadão" na internet:
Imagine que você está andando por um trilha e se depara
com uma cobra. Em uma fração de segundo, você pula
para trás. Seu cérebro agiu rapidamente, de maneira quase
instintiva. Você não chegou a raciocinar se aquilo era
mesmo uma cobra ou se ela era venenosa. Esse é um exemplo da
forma rápida de pensar.
Essa forma de pensar é útil, pois permite reações
rápidas, baseadas em informações limitadas. É
importante em muitos momentos, mas pode levar a interpretações
errôneas. No momento seguinte, você observa a cobra, seu
cérebro conclui que ela não está em posição
de ataque, que provavelmente não é venenosa e é
bem pequena. Além disso, seu cérebro observa que ela está
se dirigindo para o mato. Você conclui que o perigo não
é grande. Espera um pouco e continua sua caminhada. Esse segundo
momento é um exemplo da forma lenta de pensar. Como é
lenta, ela não te salvaria da picada de uma jararaca prestes
a dar o bote, mas, exatamente por ser lenta, permite um julgamento crítico
da situação, baseado em experiências anteriores
e no conhecimento adquirido.
Imagine agora que você está caminhando pela calçada
e se depara com uma pessoa desmaiada. Você pode parar para ajudar,
uma atitude que poderíamos chamar de generosa (se você
for generoso, talvez alguém vai te ajudar em caso de necessidade);
ou você pode decidir que não é um problema seu e
continuar sua caminhada, uma atitude que podemos chamar de egoísta
(se todos forem egoístas, ninguém vai te ajudar em caso
de necessidade).
Será que nossa forma rápida de pensamento é intrinsecamente
generosa e nossa forma lenta leva a uma reação egoísta?
Ou ocorre o inverso: nossa forma rápida de pensamento tende a
produzir uma resposta egoísta e nossa forma lenta tende a produzir
uma resposta generosa?
Para responder esta questão, um grupo de cientistas fez diversos
experimentos com um número grande de pessoas. Um deles consiste
em propor para grupos de quatro delas o seguinte jogo: cada uma recebe
R$ 10 e o cientista as informa de que elas podem separar uma parte desse
dinheiro e colocá-la em um "bolo" comum. A quantidade
de dinheiro que cada um põe no "bolo" é decidida
individualmente e os outros não são informados da decisão.
O cientista informa também que o dinheiro colocado no "bolo"
será duplicado (se houver R$ 4, o cientista colocará mais
R$ 4 e o "bolo" passará a conter R$ 8), e o novo total
do "bolo" será dividido igualmente.
É fácil entender que se todos os quatro jogadores forem
generosos e colocarem seus R$ 10 no "bolo", R$ 80 serão
divididos e cada um acabará com R$ 20. Mas se somente um jogador
for generoso e colocar seus R$10 no "bolo", somente R$ 20
serão divididos por quatro e os três egoístas terminarão
com R$ 15, enquanto o generoso acabará com apenas R$ 5. Durante
cada rodada, cabe a cada jogador decidir se quer tomar uma atitude generosa
ou uma atitude egoísta.
Resultados. Num primeiro experimento, 848 pessoas foram divididas em
grupos de quatro e jogaram uma rodada do jogo descrito acima. Elas podiam
levar o tempo que quisessem para decidir quanto contribuiriam para o
"bolo", mas os cientistas marcaram o tempo que cada um levava
para decidir. O resultado demonstrou que as pessoas que decidiam em
menos de 10 segundos contribuíam para o "bolo" 65%
do dinheiro recebido. As pessoas que levam mais de 10 segundos para
decidir tinham um comportamento mais egoísta, contribuindo em
média 50% para o "bolo". O mais interessante foi que
os que decidiam instantaneamente (1 segundo) contribuíam até
85% e os que levavam até 100 segundos contribuíam apenas
35% para o "bolo".
Em um outro experimento, com quase mil pessoas, os voluntários
foram instruídos a decidir quanto contribuiriam em menos de 10
segundos. Nesse caso, a média de contribuição foi
de 65%. Quando eles eram forçados a pensar mais por de 10 segundos
antes de decidir, a contribuição média caía
para 35%. Diversos outros experimentos em que o tempo de reação
era relacionado com atitudes egoístas ou generosas chegaram ao
mesmo resultado.
Os cientistas acreditam que esse resultado demonstra que somos instintivamente
generosos, ou seja, que nosso modo rápido de pensar leva à
generosidade da mesma maneira que nos leva a fugir de qualquer coisa
que se pareça com uma cobra. Provavelmente, é um resquício
do tempo em que vivíamos em pequenos grupos, em que a colaboração
era essencial para a sobrevivência de todos. Já o pensamento
lento, mais racional e influenciado pelas experiências anteriores
e pela educação, resulta em um componente maior de egoísmo,
talvez um reflexo da vida em sociedades complexas, onde nossa decisão
de não ajudar uma pessoa desmaiada não nos exclui automaticamente
da possibilidade de sermos ajudados num momento de necessidade.
A conclusão é de que somos programados para, no caso de
termos de agir rapidamente, optarmos por uma atitude generosa. Se isso
é verdade, nossa sociedade se tornará muito melhor se
não pensarmos muito antes de ajudar o próximo.
Spontaneous
giving and calculated greed
David G. Rand, Joshua D. Greene & Martin A.
Nowak
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Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,a-generosidade-e-o-egoismo-,947051,0.htm
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