Pesquisadores admitem a existência da consciência em animais
19/07/2012
- Vejam abaixo interessante reportagem nas
páginas eletrônicas da Revista Veja -
por Marco Túlio Pires
Chimpanzé alimenta um filhote de tigre dourado,
em mini zoológico na cidade de Samutprakan, Tailândia:
percepção de sua própria existência e do
mundo ao seu redor (Rungroj Yongrit/EFE)
A afirmação não é de ativistas
radicais defensores dos direitos dos animais. Pelo contrário.
Um grupo de neurocientistas — doutores de instituições
de renome como Caltech, MIT e Instituto Max Planck — publicou
um manifesto asseverando que o estudo da neurociência evoluiu
de modo tal que não é mais possível excluir mamíferos,
aves e até polvos do grupo de seres vivos que possuem consciência.
O documento divulgado no último sábado (7), em Cambridge,
esquenta uma discussão que divide cientistas, filósofos
e legisladores há séculos sobre a natureza da consciência
e sua implicação na vida dos humanos e de outros animais.
- leiam
o documento (em inglês) -
Apresentado à Nasa nesta quinta-feira, o manifesto não
traz novas descobertas da neurociência — é uma compilação
das pesquisas da área. Representa, no entanto, um posicionamento
inédito sobre a capacidade de outros seres perceberem sua própria
existência e o mundo ao seu redor. Em entrevista ao site
de VEJA (mais abaixo), Philip Low, criador do iBrain, o aparelho
que recentemente permitiu a leitura das ondas cerebrais do físico
Stephen Hawking, e um dos articuladores do movimento, explica que nos
últimos 16 anos a neurociência descobriu que as áreas
do cérebro que distinguem seres humanos de outros animais não
são as que produzem a consciência.
"As estruturas cerebrais responsáveis pelos processos
que geram a consciência nos humanos e outros animais são
equivalentes", diz. "Concluímos então que
esses animais também possuem consciência."
Estudos recentes, como os da pesquisadora Diana Reiss (uma das cientistas
que assinaram o manifesto), da Hunter College, nos Estados Unidos, mostram
que golfinhos e elefantes também são capazes de se reconhecer
no espelho. Essa capacidade é importante para definir se um ser
está consciente. O mesmo vale para chimpanzés e pássaros.
Outros tipos de comportamento foram analisados pelos neurocientistas.
"Quando seu cachorro está sentindo dor ou feliz em vê-lo,
há evidências de que no cérebro deles há
estruturas semelhantes às que são ativadas quando exibimos
medo e dor e prazer", diz Low.
Personalidade animal - Dizer que os animais têm
consciência pode trazer várias implicações
para a sociedade e o modo como os animais são tratados. Steven
Wise, advogado e especialista americano em direito dos animais, diz
que o manifesto chega em boa hora.
"O papel dos advogados e legisladores é transformar conclusões
científicas como essa em legislação que ajudará
a organizar a sociedade", diz em entrevista ao site de VEJA.
Wise é líder do Projeto dos Direitos de Animais não
Humanos.
O advogado coordena um grupo de 70 profissionais que organizam informações,
casos e jurisprudência para entrar com o primeiro processo em
favor de que alguns animais — como grandes primatas, papagaios
africanos e golfinhos — tenham seu status equiparado ao dos humanos.
O manifesto de Cambridge dá mais munição ao grupo
de Wise para vencer o caso.
"Queremos que esses animais recebam direitos fundamentais, que
a justiça as enxergue como pessoas, no sentido legal."
Isso, de acordo com o advogado, quer dizer que esses animais teriam
direito à integridade física e à liberdade, por
exemplo.
"Temos que parar de pensar que esses animais existem para servir
aos seres humanos", defende Wise.
"Eles têm um valor intrínseco, independente de como
os avaliamos."
Questão moral - O manifesto não decreta
o fim dos zoológicos ou das churrascarias, muito menos das pesquisas
médicas com animais. Contudo, já foi suficiente para provocar
reflexão e mudança de comportamento em cientistas, como
o próprio Low.
"Estou considerando me tornar vegetariano", diz.
"Temos agora que apelar para nossa engenhosidade, para desenvolver
tecnologias que nos permitam criar uma sociedade cada vez menos dependente
dos animais."
Low se refere principalmente à pesquisa médica. Para
estudar a vida, a ciência ainda precisa tirar muitas. De acordo
com o neurocientista, o mundo gasta 20 bilhões por ano para matar
100 milhões de vertebrados. Das moléculas medicinais produzidas
por esse amontoado de dinheiro e mortes, apenas 6% chega a ser testada
em seres humanos.
"É uma péssima contabilidade", diz Low.
Contudo, a pesquisa com animais ainda é necessária. O
endocrinologista americano Michael Conn, autor do livro The Animal Research
War, sem edição no Brasil, argumenta que se trata de uma
escolha priorizar a espécie humana.
"Conceitos como os de consentimento e autonomia só fazem
sentido dentro de um código moral que diz respeito aos homens,
e não aos animais", disse em entrevista ao site de VEJA.
"Nossa obrigação com os animais é fazer
com que eles sejam devidamente cuidados, não sofram nem sintam
dor — e não tratá-los como se fossem humanos,
o que seria uma ficção", argumenta.
"Se pudéssemos utilizar apenas um computador para fazer
pesquisas médicas seria ótimo. Mas a verdade é
que não é possível ainda."
O
que é consciência?
PARA A FILOSOFIA Filosoficamente,
é o entendimento que uma criatura tem sobre si e seu lugar
na natureza. Alguns atributos definem a consciência, como
ser senciente, ou seja, sentir o mundo à sua volta e reagir
a ele; estar alerta ou acordado ou ter consciência sobre
si mesmo (o que, para a filosofia já basta para incluir
alguns animais “não-linguísticos” entre
os seres com consciência). Fonte: Enciclopédia de
Filosofia de Stanford
PARA A CIÊNCIA A
ciência considera como consciência as percepções
sobre o mundo e as sensações corporais, junto com
os pensamentos, memórias, ações e emoções.
Ou seja, tudo o que escapa aos processos cerebrais automáticos
e chega à nossa atenção. O conteúdo
da consciência geralmente é estudado usando exames
de imagens cerebrais para comparar quais estímulos chegam
à nossa atenção e quais não. Como
resumiu o neurocientista Bernard Baars, em 1987, o cérebro
é como um teatro no qual a maioria dos eventos neurais
são inconscientes, portanto acontecem “nos bastidores”,
enquanto alguns poucos entram no processo consciente, ou seja,
chegam ao “palco”.
Neurocientista explica por que pesquisadores se uniram
para assinar manifesto que admite a existência da consciência
em todos os mamíferos, aves e outras criaturas, como o polvo,
e como essa descoberta pode impactar a sociedade
"Não é mais possível dizer que não
sabíamos", diz Philip Low
Estruturas do cérebro responsáveis
pela produção da consciência são análogas
em humanos e outros animais, dizem neurocientistas (Thinkstock)
O neurocientista canadense Philip Low ganhou destaque no noticiário
científico depois de apresentar um projeto em parceria com o
físico Stephen Hawking, de 70 anos. Low quer ajudar Hawking,
que está completamente paralisado há 40 anos por causa
de uma doença degenerativa, a se comunicar com a mente. Os resultados
da pesquisa foram revelados no último sábado (07/07/2012)
em uma conferência em Cambridge. Contudo, o principal objetivo
do encontro era outro. Nele, neurocientistas de todo o mundo assinaram
um manifesto afirmando que todos os mamíferos, aves e outras
criaturas, incluindo polvos, têm consciência. Stephen Hawking
estava presente no jantar de assinatura do manifesto como convidado
de honra.
Philip Low :
"Todos os mamíferos e pássaros têm consciência"
Low é pesquisador da Universidade Stanford e do MIT (Massachusetts
Institute of Technology), ambos nos Estados Unidos. Ele e mais 25 pesquisadores
entendem que as estruturas cerebrais que produzem a consciência
em humanos também existem nos animais.
"As áreas do cérebro que nos distinguem de outros
animais não são as que produzem a consciência",
diz Low, que concedeu a seguinte entrevista ao site
de VEJA:
Estudos sobre o comportamento animal já
afirmam que vários animais possuem certo grau de consciência.
O que a neurociência diz a respeito?
Descobrimos que as estruturas que nos distinguem de outros animais,
como o córtex cerebral, não são responsáveis
pela manifestação da consciência. Resumidamente,
se o restante do cérebro é responsável pela consciência
e essas estruturas são semelhantes entre seres humanos e outros
animais, como mamíferos e pássaros, concluímos
que esses animais também possuem consciência.
Quais animais têm consciência?
Sabemos que todos os mamíferos, todos os pássaros e muitas
outras criaturas, como o polvo, possuem as estruturas nervosas que produzem
a consciência. Isso quer dizer que esses animais sofrem. É
uma verdade inconveniente: sempre foi fácil afirmar que animais
não têm consciência. Agora, temos um grupo de neurocientistas
respeitados que estudam o fenômeno da consciência, o comportamento
dos animais, a rede neural, a anatomia e a genética do cérebro.
Não é mais possível dizer que não sabíamos.
É possível medir a similaridade
entre a consciência de mamíferos e pássaros e a
dos seres humanos?
Isso foi deixado em aberto pelo manifesto. Não temos uma métrica,
dada a natureza da nossa abordagem. Sabemos que há tipos diferentes
de consciência. Podemos dizer, contudo, que a habilidade de sentir
dor e prazer em mamíferos e seres humanos é muito semelhante.
Que tipo de comportamento animal dá
suporte à ideia de que eles têm consciência?
Quando um cachorro está com medo, sentindo dor, ou feliz em ver
seu dono, são ativadas em seu cérebro estruturas semelhantes
às que são ativadas em humanos quando demonstramos medo,
dor e prazer. Um comportamento muito importante é o autorreconhecimento
no espelho. Dentre os animais que conseguem fazer isso, além
dos seres humanos, estão os golfinhos, chimpanzés, bonobos,
cães e uma espécie de pássaro chamada pica-pica.
Quais benefícios poderiam surgir a
partir do entendimento da consciência em animais?
Há um pouco de ironia nisso. Gastamos muito dinheiro tentando
encontrar vida inteligente fora do planeta enquanto estamos cercados
de inteligência consciente aqui no planeta. Se considerarmos que
um polvo — que tem 500 milhões de neurônios (os humanos
tem 100 bilhões) — consegue produzir consciência,
estamos muito mais próximos de produzir uma consciência
sintética do que pensávamos. É muito mais fácil
produzir um modelo com 500 milhões de neurônios do que
100 bilhões. Ou seja, fazer esses modelos sintéticos poderá
ser mais fácil agora.
Qual é a ambição do
manifesto? Os neurocientistas se tornaram militantes do movimento sobre
o direito dos animais?
É uma questão delicada. Nosso papel como cientistas não
é dizer o que a sociedade deve fazer, mas tornar público
o que enxergamos. A sociedade agora terá uma discussão
sobre o que está acontecendo e poderá decidir formular
novas leis, realizar mais pesquisas para entender a consciência
dos animais ou protegê-los de alguma forma. Nosso papel é
reportar os dados.
As conclusões do manifesto tiveram
algum impacto sobre o seu comportamento?
Acho que vou virar vegetariano. É impossível não
se sensibilizar com essa nova percepção sobre os animais,
em especial sobre sua experiência do sofrimento. Será difícil,
adoro queijo.
O que pode mudar com o impacto dessa descoberta?
Os dados são perturbadores, mas muito importantes. No longo prazo,
penso que a sociedade dependerá menos dos animais. Será
melhor para todos. Deixe-me dar um exemplo. O mundo gasta 20 bilhões
de dólares por ano matando 100 milhões de vertebrados
em pesquisas médicas. A probabilidade de um remédio advindo
desses estudos ser testado em humanos (apenas teste, pode ser que nem
funcione) é de 6%. É uma péssima contabilidade.
Um primeiro passo é desenvolver abordagens não invasivas.
Não acho ser necessário tirar vidas para estudar a vida.
Penso que precisamos apelar para nossa própria engenhosidade
e desenvolver melhores tecnologias para respeitar a vida dos animais.
Temos que colocar a tecnologia em uma posição em que ela
serve nossos ideais, em vez de competir com eles.
O vídeo mostra diversas situações
em que o polvo consegue resolver problemas. Desde a captura de presas
em diferentes tipos de recipientes até escapar de locais extremamente
difíceis. As situações mostram que o animal é
capaz de formular soluções para problemas específicos,
o que denota, na opinião dos neurocientistas, um estado de consciência
inteligente.
O corvo que faz ferramentas
Uma das condições para diferenciar
seres humanos de outros animais é a capacidade de produzir ferramentas.
Vários animais já demonstraram essa capacidade, como ursos
e corvos. No vídeo, o animal entorta um pedaço de arame
para formar um gancho. A ferramenta é utilizada para retirar
o alimento de dentro do frasco.
Consciência dos elefantes
Ao avistar o filhote preso na enorme poça
d'água, a mamãe elefante tenta resgatá-lo. Em seguida,
outro elefante vem ajudar mãe e filho. A situação
demonstra que os elefantes têm capacidade de perceber a necessidade
de outros, uma das qualidade levadas em consideração na
hora de definir se um ser possui consciência ou não.
Os ratos também dão risadas
Pesquisadores descobriram que os ratos também
sentem cócegas, assim como os seres humanos. Ao passar os dedos
ao longo do corpo dos animais, os cientistas descobriram que eles emitem
um som inaudível aos seres humanos (a frequência é
alta demais). A análise do áudio, contudo, revelou que
os ratinhos morrem de rir. Isso só ocorreria, defendem os pesquisadores,
se o animal tivesse algum tipo de consciência. "Não
é possível rir inconsciente", argumentam.