28/06/2012
Saulo de Tarso F. Netto:
“O papel da imprensa espírita é
dar continuidade à divulgação séria da doutrina
espírita”
O editor do jornal Correio Espírita, que é
publicado em Niterói e circula em oito capitais e centenas de
cidades brasileiras, fala sobre as dificuldades enfrentadas pela imprensa
espírita
por MARCUS VINICIUS DE AZEVEDO BRAGA

Saulo de Tarso F. Netto (foto), editor
do jornal Correio Espírita e presidente do Centro Cultural Correio
Espírita, de Niterói-RJ, que é a entidade mantenedora
do jornal, fala-nos, entre outros assuntos, sobre o papel da imprensa
espírita e as origens do Correio Espírita e as dificuldades
que o periódico enfrentou e continua enfrentando até hoje.
Prezado Saulo, fale-nos sobre sua trajetória pessoal
no movimento espírita, como conheceu a doutrina e em que tipo
de atividades já participou e participa atualmente.
Residindo na cidade de Niterói e cursando o último
ano de faculdade no Rio de Janeiro, meu pai indicou uma casa espírita
tradicional de Niterói que ele já frequentava: a UMEN
- União das Mocidades Espíritas de Niterói. Na
verdade, nunca aceitei os postulados católicos na sua totalidade,
apesar de frequentar a igreja aos domingos. Por várias vezes,
durante o último ano de faculdade não conseguia ir à
UMEN, pois sempre tinha uma coisa a fazer. Após a colação
de grau cheguei ao Espiritismo em definitivo por esta casa. Fui diretor
de divulgação do CEPEAK – Centro de Estudos e Pesquisas
Espíritas Allan Kardec e hoje estou à frente do jornal
Correio Espírita e sou presidente do Centro Cultural Correio
Espírita, pessoa jurídica do jornal.
Conte-nos como surgiu a ideia de fazer um jornal como o Correio
Espírita e como se deu sua criação.
A história é longa, com um início em papel A4
e com 50 cópias. Vou resumir partindo da base construída
com muito sacrifício, quando estávamos à frente
do jornal CEPEAK, que era distribuído gratuitamente em locais
afins, bem como em instituições espíritas. Entretanto
a “pressão espiritual” continuava, e ouvia em meu
íntimo “O jornal precisa crescer, o jornal precisa crescer”.
Depois de cinco anos de jornal CEPEAK, com 5 mil exemplares e com 12
páginas em tamanho tabloide, partimos para o Correio Espírita,
cuja primeira edição começou a circular em 3 de
dezembro de 2004.
O Correio Espírita é um jornal vendido nas bancas.
Fale-nos um pouco das peculiaridades desse veículo, de sua linha
editorial, estratégia de distribuição e publicidade,
colunas, logística e articulação com autores.
Bem, começamos uma empreitada sem saber as suas dimensões.
O jornal era bimestral e um ilustre desconhecido. Entretanto, como falei
anteriormente, sempre com muita coragem, amparo espiritual e com as
experiências quando estivemos à frente do jornal CEPEAK.
Bem, já tínhamos passado as humilhações
de bater de porta em porta oferecendo um produto (jornal) aos comerciantes
que até então ninguém conhecia, em troca de anúncios
publicitários. Recebemos inúmeros “nãos”,
inclusive de empresários espíritas. Com o início
desta nova empreitada com o jornal Correio Espírita, tendo em
suas bases uma divulgação a princípio em todo o
Estado do Rio de Janeiro, veio a fase de divulgá-lo nas instituições
espíritas de todo o Estado através de contatos com quase
todos os representantes do extinto CRE - Conselho Regional Espírita,
hoje CEU (Conselho Espírita Unificado) - em todo o Estado do
Rio de Janeiro. Muitos desses representantes nos perguntavam: “Quem
está à frente do jornal? O jornal tem fidelidade a Kardec?”.
E, na verdade, conseguimos muito pouco. Aliás, houve mais decepções
do que alegrias. De outra forma, sofremos constrangimento em algumas
instituições espíritas com a alegação
de o jornal possuir anúncios, ser mercantilista... Lamentamos.
Outras casas alegavam que o jornal Correio Espírita ofuscaria
o informativo de sua instituição. Ridículo... E
assim sucessivamente. Obtivemos pouco sucesso junto às instituições
que deveriam abraçar e apoiar o jornal e até hoje pouca
coisa avançou. Concomitante a tudo isso, já tínhamos
contratos assinados com a empresa Distribuidora Folha Dirigida para
distribuição do jornal Correio Espírita.
Como podem ver, tudo se encaixava: o jornal nasceu mesmo para as bancas,
para levar o Espiritismo além das casas espíritas, com
acesso para todas as pessoas e para os neófitos. A luta maior
foi vencer as inúmeras barreiras dos próprios redistribuidores
de jornais a um produto novo e pior, com distribuição
bimestral. Sem falar da discriminação que os produtos
espíritas sofrem até os dias de hoje. Posso garantir e
citar alguns exemplos de como a coisa funciona: as bancas recebiam o
jornal e com uma semana devolviam o produto para a Folha Dirigida sem
que ela fizesse a chamada do encalhe. De outra forma, eu mesmo percorria
inúmeras bancas anotando os endereços e muitas dessas
bancas alegavam que não trabalhavam com o Jornal Correio Espírita.
Mentira, pois a Folha Dirigida atestava a distribuição
para aquelas bancas que negavam vender o produto. Isso de forma muito
expressiva aconteceu por um bom tempo. Outras bancas solicitavam brindes
em camisas, canetas etc. em troca de amostragem do jornal, o que não
foi possível atender pela falta de recursos.
Importante ressaltar que logo no início tínhamos a certeza
de que a credibilidade do jornal viria com seus artigos, a linha editorial
ditaria o futuro do jornal. Lembrando a mensagem psicografada pela médium
Ermance Dufaux, em Obras Póstumas, segunda parte no Capítulo
Revista Espírita, depois de traçar um verdadeiro roteiro
de divulgação espírita que Kardec soube cumprir
à risca: lamentavelmente, a grande maioria dos dirigentes espíritas
nada sabe de divulgação espírita. Ficou claro na
mensagem que a regularidade é que fideliza o público.
Depois fizemos uma parceria com a Rádio Rio de Janeiro para tornar
o jornal mais popular. Fora da nossa equipe, cito Gerson Simões
Monteiro que, na época, era o presidente da FUNTARSO e que acreditou
neste trabalho abrindo as portas da Rádio Rio de Janeiro para
o jornal Correio Espírita.
Começamos em dezembro de 2004 com oito páginas e uma
tiragem de 5.000 exemplares bimestrais. No ano de 2006, com edições
mensais de 12 páginas e, atualmente, de 16 páginas sendo
4 coloridas, sempre no tamanho standard.
Se o início foi difícil, manter o jornal também
é muito difícil. A cada edição, uma batalha
vencida com muito amor e alegria. Sabemos que os Espíritos nos
dão muita assistência. O maior vitorioso deste trabalho
é a doutrina espírita. De forma inédita, conseguimos
colocar um jornal espírita lado a lado com qualquer outro jornal.
Hoje, o Correio Espírita está presente em oito capitais
e em centenas de cidades. É bom frisar que o Jornal Correio Espírita,
para alcançar este momento, não foi rotulado por nenhuma
casa espírita; não possuímos diretor de doutrina,
seguimos bem as orientações e experiências de Kardec
quando começou a editar a Revista Espírita. Sugerimos
a leitura de Obras Póstumas no capítulo Revista Espírita.
Na sua visão, dada a existência da literatura
espírita, qual a importância de veículos de divulgação
como jornais e revistas especializadas?
Começamos pelas palavras de Emmanuel: “A maior caridade
que podemos fazer para o Espiritismo é a sua própria divulgação”.
Entretanto, a grande maioria dos espíritas está excessivamente
presa às questões sociais de caridade, e não na
audácia de divulgar e apoiar os meios de comunicação
espírita. As revistas, os jornais contados a dedo, as livrarias
e editoras agonizam. A informação espírita atrai
o público para as instituições espíritas.
Tenho diversos casos de frequentadores de casas espíritas que
chegaram a elas pelas páginas consoladoras do Jornal Correio
Espírita. Não querendo ser pedante, mas conheço
espíritas que sequer vão ao cinema ou ao teatro para apoiar
os trabalhos da crescente doutrina. Se tivéssemos maior atenção
aos meios de comunicação espírita, posso assegurar
que o Espiritismo estaria à frente do que está hoje e,
por conseguinte, o mundo também.
Qual o perfil de escritores espíritas nos periódicos
espíritas em geral observados pelo senhor?
A grande maioria já se tocou que o Espiritismo é dinâmico.
Outros escritores precisam ser mais atualizados como Kardec foi escrevendo
sobre acontecimentos do dia-a-dia na Revista Espírita. No seu
aspecto essencial, a revista descortina verdadeiramente o pensamento
de um homem genial que fez dela uma grande provocação
e instigava o leitor a ler, não somente pelos seus títulos
inteligentes, mas também pela seleção de artigos
de dar inveja a qualquer jornalista do momento atual. Tenho lido excelentes
artigos em jornais e revistas. Entretanto, pela falta de hábito
dos espíritas de não ler jornais e revistas, os artigos
passam despercebidos. Lamento profundamente que os espíritas
não levem jornais e revistas de termas atuais para discussão
e debate nas casas espíritas com mais frequência.
Sobre o Correio Espírita, o senhor tem algum caso típico
para nos contar, alguma carta, interação com leitores
digna de nota?
Recebemos muitas correspondências ao longo desses sete anos.
Mas o que mais me chamou atenção foi uma cobertura jornalística
em uma casa espírita muito antiga, diria até uma das mais
antigas do mundo, localizada na Rua Carmo Neto, no centro antigo da
cidade do Rio de Janeiro. Lá estivemos o jornalista Marcelo José
e eu. As instalações muito antigas, livros de presença
de renomados espíritas daquela época. Um relógio
de parede vindo de Portugal que, depois de vinte anos sem funcionar,
deu até badaladas. E tudo isso sendo registrado pelo Marcelo
e pelas lentes de minha Cyber-Shot. Uma bíblia antiquíssima
que não conseguimos fotografar. A princípio, o defeito
era com o fotógrafo. Substituímos o fotógrafo,
depois trocamos as pilhas da máquina, depois outra máquina
e nada fez com que fotografássemos a bíblia. Por fim,
o fato intrigou a todos os presentes e acabei levando a bíblia
para minha residência, onde consegui fazer um scanner, cuja imagem
foi inserida na edição da cobertura jornalística
e publicada no Correio Espírita.
Como funciona no Correio Espírita o trabalho dos jornalistas
que produzem matérias próprias?
Todos os trabalhos jornalísticos são voluntários,
bem como o trabalho de todos os articulistas e colunistas. Não
há interferência da redação, apenas orientamos
no escopo editorial e nas pautas. Logicamente, há artigos que
recebemos que não se enquadram na proposta editorial, e assim
os excluímos de nossas pautas.
Com o avanço da internet, qual a sua opinião
sobre os rumos da comunicação social espírita?
Os jornaleiros reclamam que a internet roubou boa parte de seus leitores.
As vendas de produtos impressos caíram bastante. Isso é
sinal de um novo modelo de comunicação. Vejo um progresso
na mídia de informação neste momento, em que as
redes sociais adentram em nosso tempo, encurtam as distâncias
e logicamente o tempo. Isso é muito bom para o Espiritismo, que
caminha lado a lado com o progresso científico e tecnológico
da informação séria. Entretanto, ressaltamos que
a falta de reflexão sobre a comunicação espírita
traz prejuízos à Doutrina Espírita, cuja informação
jornalística é muito incipiente.
O movimento espírita, como qualquer organização
humana, apresenta pontos polêmicos e discordâncias públicas.
Qual é, em sua opinião, o papel da imprensa espírita
nessas polêmicas?
Os movimentos espíritas são o conjunto de ideias de cada
simpatizante, não obstante a minha opinião ser igual ou
diferente da sua. Importante é ter Kardec como norte de toda
a codificação. Acredito que as polêmicas existem
pela falta de conhecimento doutrinário e não pela falta
de doutrina. Melhor dizendo, os pensamentos de Allan Kardec continuam
sendo pouco estudados. Pergunto ao leitor: você já estudou
o livro O Céu e Inferno? Com certeza a Revista Espírita
também não. Na minha opinião, o papel da imprensa
espírita é dar continuidade à divulgação
séria da Doutrina Espírita. Por experiência própria,
evitamos publicar no Correio Espírita discussões vãs.
Entretanto, o jornal tem apresentado artigos polêmicos para a
sociedade como, por exemplo, a homossexualidade, a pederastia, o aborto,
pena de morte etc., em que o jornal sempre esteve presente para esclarecer,
à luz da razão e jamais por omissão, a sociedade.
Por fim, qual a sua opinião sobre o papel e as diretrizes
a serem observadas pelo comunicador social espírita?
Há um dito popular que diz: “o exemplo arrasta”.
Se esperarmos a nossa reforma íntima, jamais seremos um comunicador
espírita. O comunicador espírita antes de se tornar moralizado
precisa aprender a passar bem a informação espírita.
Vejo ainda alguns sermões em casas espíritas, e isso não
é bom. Em se tratando de jornalismo, acredito que o melindre
precisa ser transformado em profissionalismo e que somente boa vontade,
em se falando de divulgação, pode atrapalhar, pois erra
em não apresentar um trabalho bem-acabado.
Aos nossos irmãos de comunicação espírita
ainda resta uma grande oportunidade de aprender, de vivenciar e redescobrir
o pensamento sobre comunicação social espírita
que ainda continua oculta nas páginas de Obras Póstumas,
nas quais os Espíritos, sem TV, sem teatro, sem cinema, ditaram
a Kardec um roteiro de comunicação espírita a ser
seguido. Cabe aos espíritas apoiar a mídia espírita
impressa, virtual, falada ou televisiva.
Fonte: http://www.oconsolador.com.br/ano6/265/entrevista.html
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