22/06/2012
Criança autista ainda é vista como
deficiente mental
O transtorno de desenvolvimento,
que atinge cerca de uma em cem crianças, é o tema do novo
livro da psiquiatra carioca Ana Beatriz Barbosa Silva. Conhecida pela
série de livros cujos nomes começam por "Mentes"
("perigosas", "ansiosas", entre outros), ela lança
agora "Mundo Singular", em parceria com o
também psiquiatra Leandro Thadeu Reveles e a psicóloga
Mayra Bonifacio Gaiato
PSIQUIATRA BEST-SELLER DIZ QUE PAIS PRECISAM ENTENDER
QUE HÁ MUITOS TIPOS DE AUTISMO E QUE É POSSÍVEL
ESTIMULAR INTELIGÊNCIA DOS FILHOS

A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa
- Cecilia Acioli/Folhapress
Frase
"Boa parte dos autistas é muito inteligente, eles até
se alfabetizam sozinhos. Estudam e vão fundo nos assuntos. E
10% são "savants", têm uma ilha de saber extraordinário
cercada por deficiências. É o caso daqueles que tocam piano
sem nunca ter lido uma partitura"
DÉBORA MISMETTI
EDITORA-ASSISTENTE DE “CIÊNCIA+SAÚDE”
FOLHA DE SÃO PAULO
Um mundo fragmentado e difícil de decifrar é o que as
crianças autistas enfrentam.
O transtorno de desenvolvimento, que atinge cerca
de uma em cem crianças, é o tema do novo livro da psiquiatra
carioca Ana Beatriz Barbosa Silva. Conhecida pela série de livros
cujos nomes começam por "Mentes" ("perigosas",
"ansiosas", entre outros), ela lança agora "Mundo
Singular", em parceria com o também psiquiatra
Leandro Thadeu Reveles e a psicóloga Mayra Bonifacio Gaiato (Editora
Fontanar, 296 págs., R$ 39,90).
Com capítulos permeados por casos reais que passaram pela equipe
da psiquiatra, o livro traz o didatismo de praxe nas obras de Ana Beatriz.
Esclarecer o público quanto às grandes variações
que existem dentro do espectro do autismo é um dos objetivos
dela.
"Essas crianças ainda são vistas como débeis
mentais, como limitadas. Isso é um grande erro."
*
Folha - Qual é a reação dos pais ao saberem
que o filho tem autismo?
Ana Beatriz Barbosa - É um momento de desespero, de luto, não
por aquela criança que nasceu, mas pela que eles esperavam que
ia nascer. É preciso ter cuidado com promessas de cura. O que
podemos oferecer são estratégias com embasamento científico,
viver juntos as tristezas e comemorar os avanços.
Como está a detecção do problema no país?
O diagnóstico no Brasil é pouco realizado. As crianças
com autismo ainda são tidas como débeis mentais e ponto,
com limites intelectuais e retardo mental mesmo. Isso é um grande
erro. O autismo é um transtorno do desenvolvimento do sistema
nervoso que traz uma gama de comportamentos diferenciados. Por isso
falamos do espectro autista, que vai desde casos leves até os
muito graves.
Como se define o transtorno biologicamente?
Essa criança nasce com um sistema nervoso central diferente,
e essa diferença é na comunicação entre
os neurônios, que é mais lenta e acontece menos. Por isso
ela vê o mundo em partes, e não como algo global.
Se você olha para o meu rosto, vê nariz, olhos, boca e já
sabe: é a Bia. É muito rápido. O autista vê
nariz, orelha e vai se prendendo nos detalhes. Isso causa dificuldades
de socialização.
Mas essas crianças têm muito afeto, diferentemente do que
se pensa. Por muito tempo, o autismo foi chamado de psicopatia infantil,
porque a dificuldade de socialização parece uma indiferença
com o outro, e não é.
Quais as estratégias para melhorar esses relacionamentos?
O autista tem pensamento concreto, você precisa criar manuais
para ele. É preciso treinar o cérebro para abrir conexões
que ele não tem. A medicação é usada para
que a criança fique menos hiperativa e mais atenta a esses ensinamentos.
A maior descoberta na neurociência nos últimos 20 anos
é a neuroplasticidade, a gente muda o cérebro de dentro
para fora e de fora para dentro. Os autistas têm o sistema emocional
funcionante. Mas levam um tempo maior para manifestar a emoção.
E nos casos mais graves também há dificuldades de linguagem.
Por isso é comum que crianças com graus mais severos de
autismo usem as pessoas como instrumento: ela pega você e leva
até a geladeira para pegar o que quer.
Por que muitos autistas são tão dependentes de
rituais?
O mundo é um excesso de estímulos para eles. Se o autista
domina algo, como o caminho da casa até a escola, isso é
ótimo para ele. Se você mudar alguma coisa, causa desespero.
Qualquer mudança deve ser negociada.
Boa parte dos autistas é muito inteligente, muitos se alfabetizam
sozinhos. Eles estudam e vão a fundo nos assuntos. E 10% são
savants, têm uma ilha de conhecimento extraordinário cercada
por um mundo de deficiências. São aquelas criaturas que
tocam piano sem nunca ter tido aula, mas não conseguem trocar
a roupa sozinhas. Um autista é incapaz de mentir e de entender
ironias. Por isso eles gostam de bichos, porque eles têm poucas
expressões muito simples.
Por que é tão importante detectar o problema
cedo?
O diagnóstico feito até os três anos é um
divisor entre uma vida funcional, que não vai ser perfeita, mas
em que a pessoa vai poder se cuidar, ter uma articulação
com as pessoas, e uma vida em que isso não acontece. Pediatras
bem informados podem detectar o problema facilmente.
Bebê que se incomoda em ser amamentado é um sinal, assim
como demorar para falar, não olhar para os pais quando falam,
andar na ponta dos pés se está nervoso, não olhar
nos olhos. Tudo isso é muito precoce. Um investimento nos pediatras
traria diagnóstico em 100% dos casos antes dos dois anos, o que
seria revolucionário para o prognóstico das crianças.
Os autistas são estrangeiros onde quer que estejam. Nosso mundo
para eles é assustador. Mas nós podemos buscá-los.
Quem trata esse tipo de alteração precisa gostar muito
de gente. É preciso exercitar a solidariedade. E isso faz bem
para todos. Para mim, faz. Cada beijo que ganho de um autista é
um grande troféu.
Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saudeciencia/47654-crianca-autista-ainda-e-vista-como-deficiente-mental.shtml
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