29/04/2012
Jovens brasileiros conciliam bem ciência
e religião, revela pesquisa
Pesquisa revela que a maioria dos estudantes
do ensino médio não vê a fé como barreira
à aceitação da teoria evolutiva de Darwin
HERTON ESCOBAR
- O Estado de S.Paulo
A maioria dos jovens brasileiros vive em paz com
suas crenças religiosas e a ciência da teoria evolutiva.
Tem fé em Deus e, ao mesmo tempo, concorda com as premissas estabelecidas
por Charles Darwin mais de 150 anos atrás, de que todas as espécies
da Terra - incluindo o homem - evoluíram de um ancestral comum
por meio da seleção natural. É o que sugere uma
pesquisa realizada com mais de 2,3 mil alunos do ensino médio
no País, coordenada pelo professor Nelio Bizzo, da Faculdade
de Educação da Universidade de São Paulo (USP).
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A conclusão flui de um questionário sobre religião
e ciência respondido por estudantes de escolas públicas
e privadas de todas as regiões do País, com média
de 15 anos de idade. A base de dados e a metodologia usadas na pesquisa
foram as mesmas do Programa Internacional de Avaliação
de Alunos (Pisa), segundo Bizzo, para garantir que os resultados fossem
estatisticamente representativos da população estudantil
brasileira. "É o primeiro dado com representatividade nacional
sobre esse assunto para esta faixa etária", diz o educador,
que apresentou os dados pela primeira vez neste mês, em uma conferência
na Itália.
"Ainda vamos fracionar e analisar mais profundamente as estatísticas,
mas já dá para perceber que os alunos religiosos brasileiros
são bem menos fundamentalistas do que se esperava", avalia
Bizzo, que também é formado em Biologia e tem livros
e trabalhos publicados sobre a história da teoria evolutiva.
"É surpreendente. Algo que sugere que no futuro teremos
uma população com uma interpretação mais
elástica das doutrinas religiosas e mais sensível à
ciência."
Aos 15 anos, diz Bizzo, os jovens estão passando por uma fase
de definição moral, em que consolidam suas opiniões
sobre temas fundamentais relacionados à ética e à
moralidade.
"É um período crucial. Dificilmente os conceitos
de certo e errado mudam depois disso."
O questionário apresentava aos alunos 23 perguntas ou afirmações
com as quais eles podiam concordar ou discordar em diferentes níveis.
Mais de 70% disseram que se consideram pessoas religiosas e acreditam
nas doutrinas de sua religião (52% católicos e 29% evangélicos,
principalmente, além de 7,5% sem religião). Ao mesmo tempo,
mais de 70% disseram que a religião não os impede de aceitar
a evolução biológica; e 58%, que sua fé
não contradiz as teorias científicas atuais. Cerca de
64% concordaram que "as espécies atuais de animais e plantas
se originaram de outras espécies do passado".
Só quando a evolução se aplica ao homem e à
origem da vida, as respostas ficam divididas. Há um empate técnico,
em 43%, entre aqueles que concordam e discordam que a vida surgiu naturalmente
na Terra por meio de "reações químicas que
transformaram compostos inorgânicos em orgânicos".
E também entre os que concordam (44%) e discordam (45%) que "o
ser humano se originou da mesma forma como as demais espécies
biológicas".
Sensibilidade. Os pesquisadores chamam atenção para o
fato de que nenhuma das respostas que seriam consideradas fundamentalistas,
do ponto de vista religioso, ultrapassam a casa dos 29%, porcentagem
de entrevistados que se declararam evangélicos (denominação
em que a rejeição à teoria evolutiva costuma ser
mais forte). Apenas em dois casos elas ultrapassam 20%: entre os alunos
que "discordam totalmente" que o ser humano se originou da
mesma forma que as outras espécies (24%) e que os primeiros seres
humanos viveram no ambiente africano (26%).
"A porcentagem dos que rejeitam completamente a origem biológica
do homem é menor que a de evangélicos da amostra, o
que é uma surpresa, já que os evangélicos no
Brasil costumam ser os mais fundamentalistas na interpretação
do relato bíblico", avalia Bizzo.
"A teoria evolutiva é talvez a coisa mais difícil
de ser aceita do ponto de vista moral pelos religiosos. Mesmo assim,
os dados mostram que a juventude brasileira é sensível
aos produtos da ciência."
Divulgada em 1859, com a publicação de A Origem das Espécies,
a teoria evolutiva de Charles Darwin propõe que todos os seres
vivos têm uma ancestralidade comum, e que as espécies evoluem
e se diversificam por meio de processos de seleção natural
puramente biológicos, sem a necessidade de intervenção
divina ou de forças sobrenaturais - um conceito amplamente confirmado
pela ciência desde então.
Apesar de ser frequentemente (e erroneamente) resumida como "a
lei do mais forte", a teoria evolutiva é muito mais complexa
que isso. A Origem das Espécies tinha 500 páginas, e Darwin
ainda considerava isso muito pouco para explicá-la. Desde então,
com o surgimento da genética e o desenvolvimento de várias
outras linhas de pesquisa evolutiva, a complexidade da teoria só
aumentou, dificultando ainda mais sua compreensão - e, possivelmente,
sua aceitação - pelo público leigo.
"O problema é que a maioria dos estudantes - ainda mais
com 15 anos - não tem muita clareza sobre o que está
envolvido na teoria darwiniana. Com isso há o potencial de
surgirem respostas contraditórias", avalia o físico
e teólogo Eduardo Cruz, professor do Departamento de Ciência
da Religião da Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo.
"Isso não tem a ver com a qualidade da pesquisa, mas com
a pouca compreensão de temas tanto científicos quanto
teológicos. Além do que, quando se trata de perguntas
que envolvem a intimidade das pessoas, as respostas nem sempre são
confiáveis. É como perguntar a rapazes de 15 anos se
ainda são virgens."
Aceitação.
Uma pesquisa nacional realizada pelo Datafolha em 2010, com 4.158 pessoas
acima de 16 anos, indicou que 59% dos brasileiros acreditam que o homem
é fruto de um processo evolutivo que levou milhões de
anos, porém guiado por uma divindade inteligente. Só 8%
acreditam que o homem evoluiu sem interferência divina. Os dados
também mostram que a aceitação da teoria evolutiva
cresce de acordo com a renda e a escolaridade das pessoas - o que pode
ou não estar relacionado a uma melhor compreensão da teoria.
"Há uma discussão se a aceitação
depende do entendimento, e uma análise mais precisa será
realizada, mas uma análise superficial dos dados não
encontrou essa correlação", afirma Bizzo sobre
sua pesquisa, financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Faculdade de
Educação da USP.
"Há indícios de que a compreensão básica
seja acessível a todos e que a decisão de concordar
que a espécie humana surgiu como todas as demais não
depende de estudos aprofundados na escola."
Para a filósofa e educadora Roseli Fischmann, os resultados
da pesquisa são "compatíveis com a capacidade dos
jovens de viver o mundo de descoberta da ciência sem abalar sua
fé".
"A fé, se bem sustentada, não é ameaçada
pelo conhecimento científico", diz Roseli, coordenadora
da Pós-Graduação em Educação da
Universidade Metodista e professora da USP.
"Sozinhas, nem a ciência nem a religião garantem
que o ser humano seja bom e que o bem comum seja alcançado.
É preciso a presença da ética, do respeito a
todo ser humano, da consciência da responsabilidade individual
na construção do bem comum."
Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,jovens-brasileiros-conciliam-bem-ciencia-e-religiao-,866748,0.htm