17/04/2012
O Correio Fraterno de abril de 2012 traz
um artigo em que o professor Jáder Sampaio discute o debate de
Kardec com os espíritas franceses durante a viagem espírita
de 1862.

O espiritismo não é uma produção
solitária de um grupo perdido na capital francesa do século
19. O estudo dos fenômenos espirituais e da vida após a
morte também não é uma produção burguesa,
classe social adormecida para os problemas do mundo e do que hoje se
chama de pessoas em situação de vulnerabilidade social.
Allan Kardec deu-lhe o status de reflexão
sobre o mundo e de adversário das vias materialistas para o futuro
da humanidade.
Vemos alguns momentos distintos do trabalho de Rivail. No primeiro,
ele reagiu às notícias que propunham a existência
e interferência dos espíritos dos chamados mortos em nossas
vidas. Em seguida, pesquisador, não se furtou de estudar os fenômenos
espirituais, considerando-os a priori como fruto de alguma força
física, como o magnetismo animal de Mesmer. Da observação
cuidadosa dos fatos, ele teorizou, encontrando diversas explicações
para o que via, mas sustentando a existência e comunicabilidade
dos espíritos.
Uma vez aceita a mediunidade, começou a explorar e a checar
as informações oriundas dos médiuns de sua época,
o que lhe permitiu escrever uma opinião coletiva dos espíritos,
através de um artifício curioso: buscava ideias semelhantes,
lógicas e racionais, obtidas por médiuns diferentes, de
preferência desconhecidos entre si. Seu trabalho não foi
apenas passivo. Ele interrogou os espíritos comunicantes e, não
raro, procurou médiuns diferentes para fazer as mesmas questões.
A revisão de O livro dos Espíritos para a publicação
da segunda edição é uma prova viva disto.
Obtidos resultados importantes com as pesquisas, começou o trabalho
de publicação e divulgação de suas observações
e conclusões em diálogo com a espiritualidade. Fundou
seu próprio grupo de pesquisas, a Sociedade Parisiense de Estudos
Espíritas (SPEE), iniciou a publicação dos livros
da codificação, e iniciou a publicação da
Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos, periódico
mensal e denso, que o colocou em comunicação à
distância com o mundo leitor de sua época.
Na falta de um meio de comunicação como a internet, Kardec
começou a receber cartas da França, de diversos países
europeus, do norte da África e da América. Embora ele
negasse que a SPEE fosse a sede de algum movimento federativo, situando-a
como um grupo de estudos e pesquisas, ele não se negava a responder
as cartas e a emitir sugestões e orientações a
quem quer que o pedisse com boas intenções e seriedade.
Em 1860, Kardec fez uma visita a Lyon, e segundo Wallace Rodrigues
foi recebido no Centro Espírita de Broteaux, por Dijon e sua
esposa, um casal operário. No ano seguinte, volta à cidade
dos mártires e encontra novos grupos formados.
Fizemos esta introdução para que possamos entender o
livro que foi traduzido e publicado pela Casa e Editora O Clarim e que
se chama Viagem Espírita em 1862*, de autoria
de Allan Kardec.
Dois anos após sua primeira viagem com finalidade espírita,
Kardec realizou a “mais extensa” de toda a sua vida. Esboçamos
um pequeno mapa que mostra em que cidades ele esteve pela França.
As informações sobre a viagem impressionam. São
vinte cidades e mais de cinquenta reuniões. Imagino que o deslocamento
se deu por algum veículo de tração animal ou via
férrea. O calçamento das est/radas e vias seguramente
não era nada igual ao que temos hoje, e as despesas, como Allan
Kardec fez questão de deixar claro, correram por conta própria,
ao contrário do que acusaram seus adversários.
Os relatos da viagem foram publicados sob a forma de livro para evitar
a ocupação de um grande espaço da Revista Espírita.
Kardec deseja mostrar não apenas o grande crescimento do movimento
espírita francês, mas igualmente levar ao grande público
o conteúdo de suas palestras.

São quatro os grandes temas tratados pelo conferencista:
Ele aborda os adversários do espiritismo, agrupando-os em adversários
naturais e adversários entre os adeptos do espiritismo. Estes
últimos já haviam sido descritos em O livro dos médiuns:
os que apenas se interessam por fenômenos, os que entendem haver
uma moral decorrente do estudo do espiritismo, mas não a praticam
(espíritas experimentadores).
Kardec reafirma que ser espírita não é apenas
uma questão de crença, mas de caráter também,
embora reconheça que aqueles que ele chama de espíritas-cristãos
ou verdadeiros espíritas, possam não conseguir viver em
plenitude a ética espírita, cometendo erros, mas fazem
esforços para torná-la cotidiana. Ele parafraseia sua
própria frase de efeito, explicando: “Fora da caridade
não há verdadeiros espíritas”.
Outro ponto alto do “recado” de Kardec aos novos espíritas
é uma espécie de síntese dos princípios
da moral espírita, que transcrevemos aqui:
• Amai-vos uns aos outros.
• Perdoai os vossos inimigos.
• Retribuí o mal com o bem.
• Não ter ira, rancor, animosidade, inveja ou ciúme.
• Ser severos consigo mesmos e indulgentes com os outros.
Kardec discute com seu público sobre as animosidades no meio
espírita. Essas são sesquicentenárias, pelo visto,
talvez porque façam parte do espírito humano, que se encontra
em processo de educação no meio espírita, mas têm
impulsos de difícil controle.
Ele fala da mediunidade paga, criticando-a pela grande propensão
à fraude, e dá uma alternativa: a cobrança de mensalidades
para o funcionamento das sociedades. Uma cobrança que não
é imposta, que respeita os que não podem pagar, e que
possibilita o exercício mediúnico (mas certamente não
remunerará nenhum médium por sua faculdade).

Um segundo problema, grave ainda nos dias de hoje, são os que
utilizam do espiritismo como um pedestal para se promoverem. Não
se trata da promoção do trabalho espírita ou do
pensamento espírita, mas da personalidade. Estes o fazem sem
interesses econômicos, mas como uma forma compensatória
para os insucessos da vida pessoal, profissional e mesmo social, fora
da esfera da comunidade espírita. Continua atualíssimo
e nos convidando à reflexão.
O codificador fala dos ciúmes para com o sucesso de sua obra.
Os estudiosos de história do espiritismo já identificaram
alguns dos atores sociais que cabem dentro desta avaliação.
Médiuns que participaram dos grupos frequentados por Rivail,
que tinham sua centralidade aí e passaram a criticá-lo
após o sucesso de O Livro dos Espíritos, por exemplo.
Os médiuns fascinados por espíritos (e por seu próprio
ego), também estão na pauta de discussões do conferencista
francês. Eles acreditam que tudo o que lhes sai da ponta da pena
é sublime e correto. No livro A obsessão, Allan Kardec
dialoga com um espírito fascinador de um médium francês
e lhe diz que irá tentar tirar “a venda dos olhos”
da vítima, ao que ele lhe responde: “... não tereis
resultado, porque farei tais coisas que ele não vos acreditará.”
Esta consideração parece ter sido escrita ontem, e certamente
continuará útil no futuro.
Outro tema de agora são as “suscetibilidades excessivas”,
que costumamos tratar como melindres. Eles faziam e ainda fazem “baixas”
nas sociedades espíritas.
Um “arquétipo” da comunidade espírita, observado
por Kardec são os que entendem que se está agindo com
muita lentidão. Ao lado destes, seu oposto de mesmo efeito, os
que acham que se está agindo com muita rapidez. Kardec engloba
os dois na categoria dos descontentes.
Por fim, ele aponta os que fazem pequenas calúnias nos grupos
e na sociedade, que põem pessoas em posições falsas
e comprometedoras, espalhando a descrença e a discórdia,
até sem o perceber.
No segundo discurso, Allan Kardec faz uma análise da propagação
do espiritismo e da oposição do materialismo e se. Aponta
a mudança de mentalidade de sua época, que não
aceita mais crenças sem justificativas e sem conhecimento. Ele
se volta contra a proposta materialista e a proposta individualista
que lhe decorre logicamente. Com o desenvolvimento do materialismo no
mundo e uma crítica do pensamento cristão, temos visto
algumas sociedades cada vez mais individualistas, que se recusam a adotar
políticas de bem-estar social e apostam na prosperidade de cada
um. O resultado é um grande número de pessoas sem acesso
à saúde, com acesso a uma educação de segunda
categoria, e o crescimento de “moradores de rua”. Allan
Kardec parece ter se antecipado em pelo menos um século ao problema
da fundamentação da ética do materialismo.
O terceiro e último discurso de Kardec trata da caridade. Não
de uma caridade de esmolas, de doações inconsequentes,
nem apenas das virtudes teologais, mas de uma atitude interior que deve
presidir a consciência do homem de bem. Wallace percebe que o
codificador trata da benevolência, da justiça e indulgência
em relação ao próximo, baseada no que queríamos
que o próximo nos fizesse.
É importante perceber que Allan Kardec fez uma análise
dos reformadores sociais de sua época e que ele entende que visaram
apenas a vida material, o que não é suficiente para sustentar-se
uma sociedade que se estruture em laços de fraternidade, e não
em uma sociedade de sagazes, que divide as pessoas entre exploradores
e explorados. “O espiritismo, por sua poderosa revelação,
vem, pois, acelerar a reforma social” - afirmou.
* 2a. edição, 1981, trad. Wallace
Leal V. Rodrigues.
Jáder Sampaio foi professor da Universidade
Federal de Minas Gerais. Doutor em Administração e espicialista
em Psicologia do Trabalho. Além de escritor e articulista, mantém
o blog espiritismocomentado@blogspot.com
Fonte: http://www.correiofraterno.com.br/nossas-secoes/103-especial/942-ha-um-seculo-e-meio
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