26/03/2012
‘A pesquisa histórica proporciona
vida à fala e ao movimento do ator’
Fábio Fidelis de Oliveira
é natural de Natal (RN). Bacharel em Direito, especialista em
Direito Público, mestre em Ciências Sociais e professor
universitário. É membro do Grupo Persona de Teatro Espírita,
desde 2007, desempenhando as funções de ator e dramaturgo.
É também palestrante e integrante do Conselho Deliberativo
da Federação Espírita do Rio Grande do Norte. É
associado fundador da Abrarte.

1. Como você começou seu trabalho com arte espírita?
O convite de alguns companheiros serviu de incentivo para que me integrasse
ao Grupo Persona de Teatro Espírita que, naquela época,
reiniciava as suas atividades depois de alguns anos de recesso. A ideia
de divulgar as referências espíritas através do
teatro serviu de estímulo para que contribuísse, inicialmente,
como ator na adaptação de “Loucura e Obsessão”
e, posteriormente, também na escrita de algumas peças
(“Flores de Amor”, “Pedro e Inês” e “Emmanuel”).
2. Você escreve peças espíritas. Poderia
nos dizer como é o seu processo criativo?
Meu processo de criação tem seu início no garimpo
do tema a ser abordado que passa, necessariamente, pela observação
de sua relevância doutrinária. Para a construção
das cenas, essas costumam chegar em “pacotes” de informação
que interagem com referências musicais, cenário e iluminação.
Segundo minhas incipientes percepções, creio que essa
é a fase de maior abertura para elementos espirituais interessados
em contribuir, pela via inspirativa, com a construção
de novos projetos. Tendo a espinha dorsal do texto já organizada
em tópicos marcantes, passo para a fase da escrita propriamente
dita. Com a conclusão do texto é iniciada sua socialização
para o grupo e companheiros que possam contribuir com novas observações
sobre o material até então construído.
3 – Você tem a característica de escrever
peças baseadas em obras literárias, porém, não
se limitando ao enredo dos livros em si, mas procurando ir além,
pesquisando novas informações a fim de contextualizar
melhor a história encenada. Poderia falar um pouco dessa experiência
e da importância dessa pesquisa histórica para o subsídio
da peça?
O mergulho nas realidades históricas que circundam certas obras
literárias já escritas ou temas que escolhemos para a
criação dos textos teatrais é fundamental para
uma melhor vivência e compreensão da mensagem que pretendemos
passar para o público. Esse esforço tem se mostrado muito
proveitoso, pois proporciona a "vida" que procuramos transplantar
para a fala e movimento de cada ator. Na montagem ou aprimoramento de
cada texto relacionado com a possibilidade de conexão com um
outro tempo histórico, somos sempre brindados com o encontro
de documentos, pessoas, paisagens e outros elementos que nos imantam
espiritualmente em "psicosfera" específica. Na trajetória
do Grupo Persona ocorreram interessantes “coincidências”
que contribuíram para a qualidade doutrinária do que estávamos
realizando. Quem sabe a espiritualidade superior, entendendo nosso esforço,
tenha possibilitado alguns incentivos no caminho em alguns contatos
enriquecedores. Quando estávamos escrevendo sobre duas encarnações
de Emmanuel, estivemos na cidade de São Paulo e manuseamos documentos
escritos por Manuel da Nóbrega. Escrevendo sobre lances da vida
de Chico Xavier colhemos interessantes observações na
própria cidade de Pedro Leopoldo. Na adaptação
da obra “Mensagens de Inês de Castro”, entramos em
contato com o Sr. Caio Ramacciotti que nos informou diretamente sobre
a recepção das cartas de Inês por Chico Xavier e
seu pessoal envolvimento com a trama narrada na obra que lhe foi confiada
pelo próprio médium. Do contato com o Sr. Caio, lembro
que sentimos uma imensa responsabilidade na troca de ideias sobre a
peça, pois estávamos dialogando com um dos personagens
do próprio texto só que em outra roupagem física!
Coisas que só o Espiritismo aborda de maneira tão clara
e natural. Em suma, o convívio direto com fatos, memórias,
paisagens e pessoas - por vezes, os mesmos espíritos que figuram
nos textos em outras reencarnações - além de um
enriquecimento doutrinário pessoal, permite o manejo de preciosas
referências que, sem esse trabalho, poderiam estar fadadas ao
esquecimento.
4. Como o grupo Persona funciona? Qual sua rotina de trabalho?
O grupo é aberto à comunidade? Como acontece o ingresso
de novos integrantes?
O Grupo Persona está ligado à Sociedade Espírita
de Cultura e Assistência (SECA), instituição que,
há décadas, trabalha com atividades artísticas.
As reuniões específicas do Grupo apresentam periodicidade
semanal, às sextas feiras à noite, e são destinadas
aos ensaios e construção de novos projetos. Novos participantes
ingressam a partir da frequência em oficinas habitualmente oferecidas
e a sequencial aprovação pela maioria do grupo através
de votação específica.
5. Quais os novos projetos do Persona?
Além da continuidade nas apresentações do teatro
de bonecos “Chiquinho para crianças” e da comédia
“Vivos de Morrer”, o grupo está trabalhando em uma
peça baseada no livro “Voltei”, psicografado por
Chico Xavier e de autoria espiritual do Irmão Jacob (Frederico
Figner). O projeto “Voltei”, além de valorizar a
imensa contribuição espiritual da produção
bibliográfica do médium mineiro, tem como elemento central
a temática da desencarnação e da importância
do desenvolvimento de luz espiritual em nossas experiências religiosas,
ou seja, a noção de que a mera adesão a uma crença
não é passaporte de acesso direto aos planos superiores.
Essa adaptação trabalha com a ideia de que é preciso
viver aquilo que pregamos e, por isso mesmo, contribui para uma reflexão
de interesse universal.
6. Como você define a arte espírita?
É a arte a serviço do Consolador. Arte intimamente relacionada
com os princípios fundamentais do Espiritismo, ou seja, com as
bases de sustentação para a experiência do Cristianismo
Redivivo em contato direto com o público e na vivência
pessoal de cada artista.
7. A arte espírita pode contribuir para o progresso
da humanidade?
Sim. Na medida em que essa produção artística
estiver efetivamente identificada com a essência do Espiritismo
que, por natureza, é a essência de todos os caminhos espirituais
que orientam a humanidade. Se cada artista espírita conseguir
transcender a mera adesão formal e buscar a verdadeira identificação,
no território íntimo, com as ideias espirituais que pretende
abraçar, sua arte será o texto, a plasticidade, o movimento,
a atuação, a canção e a voz do Consolador
junto aos companheiros do caminho.
Fonte: Informativo virtual da Abrarte
Site: www.abrarte.org.br / Portal Arte Espírita: www.arteespirita.com.br
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