29/12/2011
Novo envelhecimento - Envelhecimento e urbanização
são as principais tendências demográficas do século
21 e a sociedade terá que repensar o lugar do idoso na cidade,
afirmam especialistas
Por Fábio de Castro
A página eletrônica da Agência FAPESP trouxe
reportagem sobre o envelhecimento e a urbanização no século
XXI e as novas tendências demográficas no século
21. A população urbana, que já corresponde à
metade da humanidade, dobrará até 2050, de acordo com
a Organização das Nações Unidas (ONU). Por
outro lado, se hoje existem cerca de 600 milhões de pessoas com
mais de 60 anos, em 2050 a população nessa faixa etária
será de quase 2 bilhões.
A consequência disso é que a sociedade precisará
repensar o lugar dos idosos nas cidades e implantar uma nova cultura
do envelhecimento. Essa é uma das principais conclusões
dos especialistas que participaram, no dia 29 de março, em São
Paulo, da mesa-redonda "Aspectos urbanos e habitacionais em uma
sociedade que envelhece".
O evento integrou a programação do ciclo "Idosos
no Brasil: Estado da Arte e Desafios", promovido pelo
Institutos de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de São
Paulo (USP), pelo Grupo Mais-Hospital Premier e pela Oboré Projetos
Especiais de Comunicação e Artes.
Coordenada por David Braga Jr., do Grupo Modelo de Atenção
Integral à Saúde (Mais), a mesa-redonda – a terceira
do ciclo – teve a participação de Alexandre Kalache,
da Academia de Medicina de Nova York (Estados Unidos), e de Guita Grin
Debert, professora do Departamento de Antropologia da Universidade Estadual
de Campinas (Unicamp).
De acordo com Kalache, carioca que dirigiu por 13 anos o Programa Global
de Envelhecimento e Saúde da Organização Mundial
da Saúde (OMS), os dados da ONU mostram que a população
mundial crescerá cerca de 50% (para 9 bilhões) até
2050. No mesmo período, a população acima de 60
anos terá aumentado 350%, sendo que a maior parte desse aumento
ocorrerá nos países em desenvolvimento, cada vez mais
urbanizados.
Essa perspectiva de futuro, segundo ele, deverá ser compreendida
pela sociedade, que precisará desenvolver com urgência
uma “cultura do envelhecimento” – o que inclui mudanças
nas cidades e no comportamento ao longo da vida.
“É importante destacar que 2050 não é
uma data distante. Os idosos de quem estamos falando são as
pessoas que hoje já são adultas, que podem ter 20 ou
40 anos. Por isso, é fundamental personalizar a mensagem”,
disse à Agência FAPESP.
Com os avanços da medicina e da própria sociedade urbana,
a parcela da vida que um indivíduo passa na condição
de idoso será cada vez maior, apontou o especialista. Com essa
tendência, já ocorre uma mudança de paradigmas em
relação ao que significa envelhecer
. “A ideia da vovó fazendo tricô e do vovô
de pijama, lendo jornal, é um estereótipo do envelhecimento
que não nos serve mais”, disse.
Segundo Kalache, quando o prussiano Otto Von Bismarck implementou pela
primeira vez a aposentadoria, no século 19, a expectativa de
vida na Alemanha era de 45 anos e os idosos tinham muito menos acesso
à saúde. Se continuassem trabalhando, teriam produtividade
baixíssima e criariam muitas dificuldades no ambiente de trabalho.
“Era plausível dar um dinheirinho para que o idoso ficasse
em casa pelos poucos anos que lhe restavam. É óbvio
que isso não pode dar certo nas condições atuais,
muito menos nas condições que teremos até 2050.
É preciso que os jovens reinventem seu planejamento de vida”,
afirmou.
No modelo convencional, a primeira etapa da vida era dedicada ao aprendizado,
enquanto a segunda etapa era voltada para a produção e
a aplicação do aprendizado no trabalho. A etapa final
seria dedicada ao descanso e ao ócio.
“Não podemos mais pensar assim. A expectativa de vida
é cada vez mais longa e as pessoas serão idosas por
um período cada vez maior de suas vidas. Elas terão
condições de produzir até uma idade bem mais
avançada. Por outro lado, a pessoa não pode mais parar
de adquirir conhecimento aos 25 anos de idade, pois o aprendizado
fica obsoleto cada vez mais cedo”, disse.
Se a produção e o trabalho serão uma realidade
cada vez mais presente na velhice, em contrapartida a aquisição
de conhecimento não poderá mais ficar confinada apenas
às primeiras décadas. “É do interesse da
sociedade que a pessoa mantenha o aprendizado e que produza ao longo
de toda a vida. As pessoas terão oportunidades – que a
sociedade vai precisar oferecer – para se reciclar, estudar e
se reavaliar”, afirmou.
De acordo com Kalache, a capacidade funcional dos indivíduos
será preservada, cada vez mais, para além dos 65 anos.
Com isso, espera-se que a aposentadoria compulsória possa ser
revista. “Isso é saudável, porque o passado idealizado
do idílio do pijama e do tricô é algo que talvez
nunca tenha existido. Na maior parte dos casos, sob esse estereótipo
se escondia um idoso sem autonomia, sofrendo abusos e deprimido”,
disse.
O envelhecimento e a urbanização, segundo Kalache, são
as duas principais tendências demográficas do século
21. O Brasil, segundo ele, é um modelo adequado para se observar
essa realidade.
“Somos um país emergente já urbanizado, que envelhecerá
mais do que qualquer outro. Mas temos que fazer nossa própria
discussão sobre o envelhecimento. Os modelos do Japão,
da Dinamarca ou da França não nos interessam. Esses
países enriqueceram primeiro, depois envelheceram. Não
teremos essa oportunidade. Se imitarmos esses modelos, vamos apenas
perpetuar a desigualdade”, disse.
No Brasil, segundo Kalache, a população de mais de 60
anos passou de 8% para 12% nos últimos 30 anos. Na França,
foram necessários 115 anos para que a proporção
de idosos passasse de 7% para 14%.
“Por outro lado, a concentração urbana também
foi vertiginosa no Brasil. Um terço da população
vivia em cidades em 1945 e hoje essa proporção passou
para 87%. Vamos precisar mudar a realidade do idoso no contexto urbano
– e para isso é fundamental ouvi-lo e fazê-lo contar
como é a experiência de ser idoso na cidade”, afirmou.
Kalache foi responsável pela publicação, em 2007,
do Guia da OMS das Cidades Amigas dos Idosos, produzido com base em
pesquisas em 35 cidades em todo o mundo, fundamentadas em entrevistas
com grupos focais de idosos durante seis meses.
Uma das experiências do programa foi feita no bairro de Copacabana,
no Rio de Janeiro, onde Kalache nasceu. Em 33 anos na Europa, o pesquisador
fundou o Departamento de Epidemiologia do Envelhecimento da Escola de
Higiene e Medicina Tropical de Londres, no Reino Unido. Hoje, trabalha
na criação de um Centro Internacional de Políticas
para o Envelhecimento.
Questão pública
Guita Debert, que integra a coordenação da área
de Ciências Humanas e Sociais da FAPESP e coordena o Núcleo
de Estudos de Gênero Pagu da Unicamp, destacou que trabalhar com
a velhice representa um enorme desafio, já que a questão
passou por muitas modificações recentes.
Um dos principais panos de fundo dessa mudança é que
a velhice, que historicamente dizia respeito à esfera privada,
vem se tornando cada vez mais uma questão pública.
“A velhice passou a fazer parte da geografia social, por assim
dizer. À medida que a gerontologia se consolidou como saber
específico, criado para identificar necessidades do idoso,
ela se tornou um ator político e também um agente do
mercado de consumo”, afirmou.
Inicialmente focada na ideia do idoso como um indivíduo que
perde os papéis que tem na sociedade, a gerontologia passou a
mudar seu enfoque a partir da década de 1980.
“Em vez de um momento de perdas, a velhice passou a ser considerada
um momento de lazer, de novas experiências e projetos. A velhice
foi deixando de ter o sentido de uma perda do papel na sociedade e
se tornou o momento de direito ao não-trabalho, na qual o lazer
se torna central.”
Segundo Guita, o Brasil adquiriu know-how e sofisticação
nas opções de lazer e atividades para os idosos. Mas isso
se limita aos “jovens idosos”, isto é, aquela parcela
que preserva sua autonomia funcional.
“Há um grande contraste. Para os idosos que têm
a autonomia funcional comprometida, estamos em estágio precário,
não oferecemos nada”, afirmou.
Para integrar o idoso à cidade, segundo a pesquisadora, não
basta levar em conta apenas a diversidade de poder aquisitivo, raça
e local de moradia, entre outros fatores. É necessário
também pensar nas diferenças de autonomia e capacidade.
“É preciso avaliar sobretudo as diferenças de custos
de políticas públicas para os idosos ‘jovens’
e para os outros. É hipocrisia dizer que existe uma política
para idosos, se ela só está beneficiando justamente a
parcela que tem menos dificuldades. São boas iniciativas, mas
têm foco apenas em uma parcela privilegiada dos idosos”,
disse.
A antropóloga destacou também que as mudanças
ocorridas no espaço urbano recentemente podem permitir um aprimoramento
da autonomia do idoso.
“Devemos fugir da confusão entre morar só e
estar submetido à solidão. Principalmente porque hoje
é possível operar com a ideia da intimidade a distância,
viabilizada pelos meios de comunicação, sobretudo eletrônicos.
E isso pode ocorrer até mesmo fora das relações
familiares.”
Segundo ela, a gerontologia ainda valoriza profundamente a ideia de
manter o idoso junto à família, fechado no universo privado.
“É importante rever essa ideia, quando pensamos na cidade
que acolhe o idoso”, afirmou.
Estudos realizados em ciências sociais, em especial na antropologia,
mostram que se tinha pouca informação sobre a vida do
idoso há 100 ou 200 anos, segundo Guita. Ainda assim, é
provável, segundo ela, que a vida no seio da família tenha
sido a preferência do idoso apenas quando ele não tinha
a opção de ser autônomo.
A antropóloga sugeriu também que seja repensada a oposição
entre integração e segregação. Segundo ela,
os trabalhos sobre envelhecimento não confirmam a ideia de que
a integração com sociedade multigeracional garante o bem-estar
do idoso.
“Muitas vezes, nos ambientes onde todos são idosos,
a velhice deixa de ser uma marca identitária e a satisfação
passa a ser maior. Há uma busca de independência e de
estar entre os iguais, de forma similar aos adolescentes. É
importante não ter uma visão binária de segregação
e integração”, afirmou.
A preservação da vida na comunidade é outra ideia
predominante no senso comum, segundo Guita. Para preservar a qualidade
de vida do idoso, nessa concepção, o indivíduo
deveria permanecer sempre na mesma casa, ou bairro.
“Mas isso nem sempre é verdade, porque a dinâmica
urbana é muito intensa. Os bairros podem passar por rápidos
processos de degradação. Ou podem passar por um súbito
enriquecimento, fazendo com que os antigos moradores desapareçam.
Nesses casos, as perdas da coletividade estão muito presentes.
A ideia de que a comunidade é sempre boa e deve permanecer
deve ser revista”, disse.
A pesquisadora destacou também a importância de se dar
voz aos idosos.
“Essa já é uma ideia muito presente, mas é
preciso valorizar a pluralidade de vozes. Não se pode ouvir
representantes, mas os protagonistas, em toda sua diversidade. É
preciso que haja vozes dissonantes”, disse.
Guita criticou ainda as políticas públicas brasileiras
em relação ao novo papel assumido pela família
quanto à responsabilidade pelo idoso.
“Há uma hipocrisia nas políticas de distribuição
de renda que têm enfoque familiar. Elas concentram as responsabilidades
na família e, em especial nas mulheres, que acabam assumindo
essas obrigações”, afirmou.
Fonte: http://www.agencia.fapesp.br/13669