27/12/2011

Jáder Sampaio:
“Vivemos em uma sociedade cada vez menos cristã”
Guaraci Lima Silveira:
O conhecido estudioso e escritor espírita
Jáder Sampaio analisa o atual estágio do movimento espírita
brasileiro e diz que a atuação espírita no campo
social demarca uma contribuição concreta de melhora
do mundo em que vivemos
Jáder Sampaio (foto) nasceu na cidade de Belo Horizonte-MG,
tendo já residido em Montes Claros-MG e São Paulo. Oriundo
de lar espírita, assumiu o Espiritismo ainda na adolescência.
Atua na Associação Espírita Célia Xavier
(AECX) de Belo Horizonte, sendo ainda membro da Liga de Pesquisadores
do Espiritismo (LIHPE), que é uma organização em
rede. Mantém o blog Espiritismo Comentado. É professor-colaborador
do programa de pós-graduação em psicologia da Universidade
Federal de Minas Gerais, coordenador da Câmara de Assessoramento
do Programa de Capacitação de Recursos Humanos da Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais e Psicólogo
do trabalho. Autor de dezenas de livros espíritas e obras relacionadas
à profissão que exerce, traduziu recentemente o livro
“Diálogo com os Céticos”, de Alfred Russel
Wallace, e organizou com Jeferson Betarello o livro “O Espiritismo
visto pelas áreas de conhecimento atuais”.
Jader conversou sobre vários assuntos que
envolvem o Espiritismo e o movimento espírita, oferecendo-nos
sua experiência.
Como vê o avanço dos estudos espíritas dentro
das universidades brasileiras nos dias atuais?
Com a ampliação acentuada dos cursos de pós-graduação
e a atual política de publicações nacionais e internacionais
das universidades e agências de fomento à pesquisa, o tema
Espiritismo vem crescendo acentuadamente. Tiago Paz Albuquerque (2011)
mostrou-nos o registro de 171 teses de doutorado e dissertações
de mestrado nos anos entre 1989 e 2009, com uma tendência de ampliação.
Os temas estudados mais comuns, associados ao Espiritismo, são:
saúde, instituições espíritas, personalidades
espíritas e religiões em relação ao universo
literário. Ainda citando Albuquerque (2011), as universidades
onde mais se defenderam teses e dissertações relacionadas
ao Espiritismo são: a UNICAMP, a PUC-SP, a USP, a UFRJ, a Universidade
Federal de Juiz de Fora e a Universidade Estadual Paulista. Os pesquisadores
não são necessariamente espíritas ou simpatizantes.
Eles perceberam a necessidade de estudar o Espiritismo ou o movimento
espírita ao aprofundarem-se em suas respectivas áreas
de conhecimento, e identificaram ausência de estudos ou lacunas
do conhecimento oficial.
O jovem acadêmico e o Evangelho de Jesus. Pode discorrer algo
sobre isto?
Vivemos em uma sociedade cada vez menos cristã e menos católica,
no Brasil, em especial nos segmentos da população que
tiveram mais acesso ao ensino superior. Há meio século,
grande parte da população brasileira, seja nas capitais
ou no interior, tinha acesso às catequeses, às igrejas,
aos cultos e à evangelização espírita. O
cristianismo estava mais presente na mídia que atingia o grande
público, e era mais discutido no Brasil. Eu cursei um curso superior
na área de ciências humanas (psicologia), na década
de 80, no qual praticamente não tive a oportunidade de estudar
filósofos cristãos, embora tenha estudado filósofos
naturalistas, céticos, existencialistas e, quando muito, humanistas.
Falar em cristianismo era ser malvisto pelos colegas e mestres. Perguntei
uma vez sobre Paulo de Tarso a um padre, que também era psicólogo
social de renome, e ele achou que eu o estivesse ridicularizando. Da
mesma forma que considerar uma pessoa como positivista era uma depreciação,
usava-se e usa-se o jargão “judeu-cristão”
para depreciar qualquer coisa que aparentasse ser conservadora. Apesar
de nossas raízes culturais serem cristãs, africanas e
indígenas, nas ciências humanas ainda se acha mais relevante
estudar os mitos gregos, por sua relação com a filosofia
e pela influência do pensamento europeu e norte-americano. O que
vivenciei como professor foi uma pequena abertura para o estudo da experiência
cristã, nos trabalhos do Prof. Miguel Mahfoud (UFMG), que adotou
uma perspectiva fenomenológica. Ele não se vinculou a
nenhuma religião específica em seu trabalho de entender
o “senso religioso” e já orientou dissertações
sobre a vivência de voluntários espíritas. O cristianismo
é uma grande mensagem, descaracterizada com o passar do tempo
e das instituições cristãs. Jesus, por exemplo,
reconhecia mulheres, escravos, servos e gente do povo como pessoas de
direito, em uma época na qual estes segmentos eram vistos como
pouco mais que objetos de uso e comércio. Na minha opinião
é necessária uma reflexão mais substancial das
universidades sobre a filosofia cristã, mas os preconceitos são
de difícil mudança. Grande parte de nossos jovens universitários
deixam-se levar pelo utilitarismo moderno, pelo consumismo, pelo individualismo
e pelo sensualismo, que consideram ser um avanço das liberdades
individuais. O cristianismo, nas universidades que conheço, forma
uma espécie de cultura underground, como se nunca tivesse saído
das catacumbas e ainda vivêssemos na Roma antiga.
Em sua opinião, o que o centro espírita
representa para a comunidade?
As sociedades espíritas são inicialmente vistas como
o lugar em que se reúnem os espíritas, onde se pode assistir
a uma palestra pública, tomar passes, procurar por orientações
ou mesmo por uma ajuda material. Bezerra de Menezes e Chico Xavier foram
percebidos pela sociedade brasileira como “homens-santos”
e adentraram assim o imaginário nacional com essa aura, que oculta
sua contribuição intelectual e sua condição
humana. Para as comunidades economicamente vulneráveis, que não
são poucas em nosso país, o centro espírita é
uma alternativa de sobrevivência, de educação e
até mesmo de lazer. Fiquei conhecendo uma jovem senhora que na
infância almoçava aos domingos no Centro Espírita
mantido por Wagner Gomes da Paixão no interior de Minas. Vi uma
jovem mãe pedir a inscrição dos filhos na evangelização
infantil, há três décadas, em busca de alguma forma
de educação moral, visto que era indiferente se levava
os filhos ao centro espírita, ao culto evangélico ou à
igreja católica, espaços em que transitava todas as semanas.
O censo de 2000 mostra que os que se identificam como espíritas,
ou espíritas kardecistas, são em sua grande maioria pessoas
de classe média ou alta, com grau de escolarização
médio de 9,6 anos (o maior dos segmentos religiosos).
Qual o ponto de relevância das atividades
sociais amplamente exercidas nos centros espíritas?
Kardec preocupava-se com a sociedade em que vivia, e não apenas
com as comunicações espirituais. Ele ensinava voluntariamente
à juventude francesa que tinha dificuldades de acesso à
educação pública e gratuita. Ele publicou muitas
orientações espirituais que recomendavam a generosidade
e a solidariedade, como a famosa mensagem do Espírito Cáritas.
Ele também fez um projeto para o movimento espírita no
qual se preocupava com a realização de ações
sociais, ao lado dos estudos sobre a doutrina espírita. As atividades
sociais, na minha opinião, são muito importantes, porque
demarcam uma contribuição concreta de melhora do mundo
em que vivemos. A questão que se impõe hoje é a
revisão do que fazemos. Mais e mais o estado brasileiro tem assumido
a realização de políticas de bem-estar social.
Como exemplo, trinta anos atrás, quando construímos uma
creche no modelo casulo, a educação fundamental não
era atribuição do município. Hoje, o município
estabeleceu uma parceria com a sociedade espírita que frequento
e custeia grande parte da despesa com a creche. A distribuição
de cestas básicas e o serviço de sopões era atividade
imperiosa na Campinas de Dona Vandir, nos anos 60, pelo intenso fluxo
migratório e a total falta de infraestrutura das comunidades
que se formavam. Não tenho medo de dizer que ela salvou muitas
vidas e incluiu muitas pessoas enquanto outros apenas cobravam a construção
de uma política pelo governo. Hoje temos novos problemas nas
grandes e médias cidades brasileiras. O tráfico de drogas
recruta jovens nas comunidades acenando com a esperança de um
futuro melhor. Um grande contingente de moradores de rua e uma geração
de crianças que nasceram e vivem nas ruas. A violência
doméstica, incluindo a sexual, afeta crianças e adolescentes.
O meio ambiente deteriorado como efeito do crescimento urbano e econômico.
A exclusão de um grande número de pessoas do mercado de
trabalho e a falta de acesso a cargos que exigem qualificação.
A gravidez na adolescência e a mudança dos papéis
no núcleo familiar. São novos e maiores desafios esperando
uma ação concreta do movimento espírita, que precisa
reconstruir suas ações de promoção social.
Os centros de pesquisas universitários
deveriam estreitar os limites entre a fé e a razão?
Os centros de pesquisa universitários devem estudar seus temas
sem assumir inconscientemente o materialismo e o ceticismo como pano
de fundo dos seus estudos. Se a fé traz contribuições
para a saúde das pessoas, por exemplo, deve-se investigar, constatar
e conhecer melhor seus efeitos. Se a espiritualidade tem um impacto
nas relações humanas, por que não estudar o tema?
O que são os grupos religiosos e como se estruturam em nossa
sociedade? Estas não são questões menores, porque
constituem a experiência humana. O ser humano não é
apenas um organismo biológico.
Dentro dos centros espíritas deveria haver programas
de cursos dentro de áreas organizacionais, visando a uma melhor
adequação dos trabalhadores para mais amplo atendimento
às suas propostas e àqueles que buscam as casas espíritas?
Não tenho dúvida disso, mas como é algo novo,
as sociedades espíritas precisam de mais sinergia entre si e
com o movimento federativo, para praticamente desenvolver as ações
de treinamento e desenvolvimento de seu pessoal. Veja o nosso caso.
Temos um coordenador administrativo na creche, imposto pela prefeitura.
Como aperfeiçoar este profissional? Ou delegamos à prefeitura
o seu desenvolvimento ou nos associamos com outras creches espíritas
para qualificar todos os coordenadores administrativos. Hoje existe
a possibilidade de parcerias com o poder público e com a iniciativa
privada. Como estabelecer esta parceria? Como obter as certificações
e usufruir dos direitos de imunidade e isenção? Como captar
recursos sem abrir mão das nossas convicções e
valores? Isto é algo que não pode ficar sem reflexão,
sem produção de conhecimento e troca de experiências.
Nossa imprensa espírita, salvo raras exceções,
não apresenta alternativas. Recentemente o Centro de Cultura,
Documentação e Pesquisa do Espiritismo, em São
Paulo, ofereceu cursos sobre gestão de casas espíritas
e palestras sobre planejamento estratégico, o que foi uma iniciativa
muito importante e merece ser multiplicada e consolidada pelo movimento.
Sabemos que você recentemente lançou no mercado
editorial a tradução do livro “Diálogo com
os Céticos”, de Alfred Russel Wallace. Qual a contribuição
daquele naturalista para a história do Espiritismo?
Wallace era um intelectual corajoso e não temia nadar contra
a corrente de sua época, pagando um preço alto por sua
audácia. Ele fez pesquisas com médiuns e não se
omitiu a afirmar a realidade deles. Após publicar “O Aspecto
Científico do Sobrenatural” ele percebeu que a comunidade
científica inglesa se recusava a estudar os fenômenos espirituais
por puro preconceito e por espelhar seu espírito de época.
Ele, então, identificou os filósofos e cientistas céticos,
naturalistas e materialistas e exibiu publicamente as contradições
e equívocos de seu pensamento, que era passivamente aceito pela
inteligentsia dos países ocidentais. Avaliamos que era muito
importante publicar este livro em língua portuguesa, porque ele
não é “mais do mesmo”, e traz uma reflexão
epistemológica capaz de intrigar quem faz pesquisa nos dias de
hoje.
Embora sendo contemporâneos, Alfred
Russel Wallace não teve contato com Kardec. Uma vez que postulavam
princípios semelhantes por que, em sua opinião, não
estreitaram relações em suas pesquisas?
Havia o abismo da língua e um afastamento entre o espiritualismo
moderno e o Espiritismo franco-latino. Wallace falava e publicava em
inglês, a obra de Kardec estava em francês. A maioria das
fontes de Wallace estava em língua inglesa, pelo que me lembro.
Há também a distância cultural entre “a ilha
e o continente”, que ainda tem reflexos nos dias de hoje em outras
áreas do conhecimento. A aproximação entre os espíritas
latino-europeus e os espiritualistas anglo-saxões começou
a dar-se com os congressos do final do século XIX e teve protagonistas
como Conan Doyle, Léon Denis e outros. Há também
um pequeno descompasso no tempo. Kardec iniciou seus estudos em 1853
e desencarnou em 1869 e Wallace iniciou suas pesquisas sobre os fenômenos
mediúnicos em 1862, publicando seu primeiro livro em 1866 e seu
segundo livro em 1871.
Como concilia suas amplas atividades profissionais
com as atividades no movimento espírita do qual participa?
Sempre estudei o Espiritismo e participei do movimento espírita,
desde a adolescência. Os sábados são meus dias de
dedicação ao Espiritismo, e minha família também
adotou esta agenda. Acho que o mais difícil tem sido resistir
ao “canto da sereia” da universidade. Hoje estou aposentado
e posso dedicar um pouco mais de tempo aos projetos espíritas,
mas não posso descuidar da minha família, dos amigos e
dos laços de trabalho que ainda me ligam ao meio acadêmico.
Vemos que a cada dia mais os universitários
e membros dos corpos docentes das universidades aproximam-se dos estudos
espíritas. Como os centros espíritas devem se preparar
para este novo tempo?
Lembrando dos nossos antepassados franceses, ingleses e italianos,
que se dispunham a estudar e publicar o que estava acontecendo nas universidades.
Como hoje o volume de conhecimento é muito maior, precisamos
ser mais humildes e ouvir mais as associações de especialistas
que estão se formando (médicos espíritas, psicólogos
espíritas, advogados espíritas, pedagogos espíritas
etc.). Estas associações precisam desenvolver estudos
com metodologia acadêmica, que envolvem revisão de literatura
ampla e atualizada, proposta de problemas de pesquisa, metodologia rigorosa
e publicação não apenas no meio espírita
ou através de livros, mas nos periódicos nacionais e internacionais
indexados.
Suas palavras finais.
Estamos vivendo uma época muito rica de transformações.
Desejo de coração que as lideranças espíritas
mais lúcidas possam tomar decisões sábias, mantendo
o que deve ser conservado e mudando o que deve evoluir com os tempos,
minimizando a influência das vaidades pessoais.
Fonte: http://www.oconsolador.com.br/ano5/239/entrevista.html