27/12/2011

A empresária Adriana Trussardi em seu escritório
em São Paulo
Foto: Gabo Morales/Folhapress
A dor dos outros
Clínica paulistana se especializa em ajudar
parentes de pessoas doentes a lidar com o diagnóstico de problemas
graves e evitar a desestruturação da família
MARIANA VERSOLATO
DA FOLHA DE SÃO PAULO
Um diagnóstico impactante de doenças
como câncer ou mal de Alzheimer geralmente é acompanhado
de um pacote de turbulências que desestruturam a família.
Negação (por parte do doente ou dos familiares), culpa
ou sobrecarga de um dos parentes podem fazer parte do "combo",
junto a outras questões próprias de cada núcleo
familiar.
Foi para tratar especificamente parentes que se sentem despreparados
para lidar com um diagnóstico difícil que a psicóloga
Cláudia Barroso e a psicanalista Sonia Pires criaram o Bem-me-Care
- SOS Family.
O serviço da clínica, em São Paulo, é um
tipo de pronto-atendimento para os parentes e pode ser feito em um a
sete encontros.
"A gente não trabalha os conflitos preexistentes; a ideia
é olhar especificamente para esse trauma que 'quebrou' a família",
afirma Pires
"Na maioria das vezes, as angústias dos familiares passam
na periferia. O efeito existe, mas nem sempre se olha para isso",
diz Barroso.
O atendimento tem uma regra: o paciente não pode participar.
Sua presença poderia inibir os familiares a falar sobre a culpa
ou a raiva que sentem em relação à situação.
TRATAMENTO
Segundo as especialistas, o trabalho ajuda a fortalecer mecanismos
para enfrentar a doença e, como resultado, pode até aumentar
o sucesso do tratamento do adoecido.
"Se há negação da doença, o paciente
deixa de ter o atendimento e a melhora que poderia ter. Quando você
trata a família, acaba provocando efeitos no paciente, colabora
com a adesão ao tratamento. Há um entendimento maior
sobre a doença e o prognóstico", afirma Barroso.
Foi o que aconteceu com a professora aposentada Reginea Diana Nunes,
56.
O marido dela, Luiz Carlos Ferreira, 61, recebeu o diagnóstico
de câncer de intestino no fim do ano passado.
"Aparentemente, ele recebeu bem a notícia, mas, quando
saiu do consultório, parecia enlouquecido. Estava em total
desequilíbrio. Perguntava 'Por que comigo?', e chorava muito",
conta.
"Ele não queria aceitar a doença e colocou na
minha mão toda a responsabilidade por sua vida. Eu tinha que
falar para ele beber água, comer, ele agia como se fosse uma
criança, não seguia as recomendações médicas."
Ela sugeriu que o marido fizesse terapia, mas ele não quis.
Abalada, ela própria foi atrás de ajuda profissional.
Reginea ficou mais tranquila e auxiliou o marido a enfrentar a doença.
"Vi o que era bom para mim e para ele. Mostrei o que ele não
via, que poderia acontecer com qualquer um e que ele tinha um caminho
a percorrer no tratamento, estava amparado."
Ela dizia também que ele tinha de resolver a insegurança
e o medo que sentia da doença voltar e de não poder voltar
a trabalhar. Deu tão certo que Luiz Carlos procurou um psicólogo
depois.
LIMITES
A empresária Adriana Trussardi, 41, também procurou ajuda
quando sua mãe, Katia Abdenour, foi diagnosticada com câncer
de ovário em estágio avançado.
"Era difícil acreditar na doença. Queria fazer
o possível e o impossível para ela ficar viva",
conta.
Quando os médicos falavam em tentar uma nova quimioterapia,
sua mãe se recusava.
"Ela dizia que queria descansar e eu falava que ela não
podia nos abandonar. Sabia que era egoísmo, mas queria lutar
até o último minuto", conta Adriana.
A terapia a ajudou a entender e respeitar o sofrimento da mãe.
"Minha mãe não falava, não comia e eu
a queria viva. Comecei a respeitar a vontade dela."
Ela conta que seu sofrimento se refletiu em seus filhos.
"Praticamente passei a morar no hospital e vi que não
estava dando muita atenção a eles. A terapia trouxe
a estrutura familiar de volta."
DIFERENÇAS
Cada família, com suas relações afetivas, lida
com o diagnóstico de uma forma diferente. A recomendação
é procurar ajuda quando a pessoa sentir que não consegue
suportar a situação.
"As famílias podem ficar presas ao trauma. Às
vezes, a pessoa já morreu, mas os parentes ficam voltando àquela
época, podem acusar uns aos outros, há quem diga:
'Eu fiquei responsável pelo papai e vocês não
fizeram nada'", diz Pires.
Sessões de psicoterapia ou psicanálise, mesmo que fora
de centros especializados no tema, ajudam a família a lidar com
a questão. Outra opção são os centros de
psicologia de hospitais e os grupos de apoio de pacientes. A diferença
é que, no último caso, o tratamento costuma ser em grupo.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saude/16980-a-dor-dos-outros.shtml