05/12/2011
Virtudes e vícios dividem os mesmos circuitos no cérebro
Neurocientista mostra em livro que cérebro não discrimina
prazer de jogo e bebida de atividades como filantropia
POR CLÁUDIA COLLUCCI
DA FOLHA DE SÃO PAULO - EM WASHINGTON
O que o orgasmo, a comida gordurosa, o jogo, a bebida, a filantropia,
os exercícios físicos e as drogas têm em comum?
Sob o ponto de vista químico e fisiológico do cérebro,
muita coisa. Em seu recente livro, "The Compass of Pleasure"
(A bússola do prazer, sem edição no Brasil), o
neurocientista David Linden, professor na Universidade Johns Hopkins,
revela como agem os diferentes tipos de prazer nos circuitos cerebrais
e como eles podem se tornar vícios.
"Há uma unidade neural de virtude e vício. E o
prazer é a nossa bússola, não importa o caminho
que tomamos", diz Linden, 50.
Ele afirma que há estudos experimentais para o desenvolvimento
de uma vacina capaz de prevenir dependências em pessoas com predisposição
genética. Os genes respondem por até 60% da vulnerabilidade
ao vício.
Em um futuro distante, Linden aposta que haverá meios artificiais
de ativar os mecanismos de prazer.
"Talvez teremos algo como um capacete que ativará os
circuitos cerebrais do prazer na intensidade que você desejar."
Folha - Por que o sr. escreveu um livro sobre prazer?
David Linden - Todo mundo está interessado
em prazer. As pessoas amam comida, sexo, jogos, drogas, exercícios.
E o prazer é uma questão central no nosso sistema legal
e governamental. Várias leis falam de prazer, quando regulam
atividades sexuais, drogas ou jogos.
No entanto, hoje sabemos que, do ponto de vista fisiológico
e químico, o prazer que sentimos em atividades como correr ou
fazer um trabalho filantrópico é o mesmo dos vícios.
Há uma unidade neural de virtude e vício. E o prazer é
a nossa bússola, não importa o caminho que tomamos.
Quando o prazer vira vício?
O prazer está associado à liberação de
dopamina no cérebro. Esse neurotransmissor dispara quando ingerimos
uma comida deliciosa, durante o orgasmo ou quando praticamos um ato
generoso. A dopamina integra o sistema de prazer e recompensa.
Os genes respondem por até 60% da vulnerabilidade à dependência.
Se você herda variantes desse gene que levam a baixos níveis
de receptores de dopamina, isso o fará mais suscetível
ao vício. É como se as pessoas ficassem doentes de prazer.
O que acontece com o cérebro de uma pessoa dependente?
Se eu pedir para três pessoas com vícios diferentes escreverem
sobre os sentimentos associados a essas experiências, você
verá que são os mesmos.
Começam porque se sentem bem e, depois, vão precisando
de mais e mais. Todo o desejo se transforma em necessidade.
A dependência gera mudanças estruturais, químicas
e elétricas dos neurônios. Vamos dizer que você é
alcoólatra e está "limpo" há três
anos. Se você toma um drinque que seja, a sensação
de prazer será muito maior para você do que para alguém
que nunca foi dependente.
Por que é tão difícil o tratamento do
dependente?
O dependente costuma recair em períodos de muito estresse. Sabemos
hoje que existem muitas atividades prazerosas, como a prática
de exercícios físicos, de meditação, de
rezas ou mesmo brincadeiras com os filhos, que podem ajudar a aliviar
o estresse e as recaídas.
O sr. acredita na possibilidade de terapias que evitariam a
dependência?
Há pesquisas com animais para desenvolver uma vacina para pessoas
com predisposição genética ao vício. Mas
há muita polêmica, especialmente pelas questões
éticas [de se medicar antes de o problema se manifestar].
No momento, não há muitas drogas eficazes para tratar
as dependências. Mas acho que nos próximos 15 anos teremos
remédios eficazes para as crises de abstinência.
Mas chegaremos a ter uma droga capaz de curar uma dependência?
Não acredito que exista ou vá existir uma cura fácil.
As pessoas fazem terapias em clínicas de reabilitação,
mas estudos já mostraram que elas não são muito
eficazes.
Psicoterapia e drogas podem ajudar. Mas internar a pessoa, deixá-la
anestesiada por três dias e dizer que está curada, para
mim, é mentira. Eles só querem seu dinheiro.
O sr. acredita que a obesidade seja consequência de um
vício em comida?
Sim. Nós gostamos de pensar em "metabolismos" para
explicar por que ganhamos peso. Na verdade, 90% das pessoas que estão
severamente obesas o são porque comem demais, não porque
têm desordens metabólicas. Isso acontece porque seus cérebros
são diferentes.
Nossos corpos estão adaptados para aquelas situações
de milhares de anos atrás em que você precisava de muita
gordura e açúcar porque você não sabia se
teria comida na semana seguinte. Só assim você sobrevivia,
tinha filhos e passava seus genes adiante.
E a indústria aprendeu rápido como manipular nossos cérebros
para comer mais alimentos que engordam...
É verdade. Nos EUA, a média de peso da população
hoje está 11 quilos acima do que era na década de 1960.
E não é porque nossos genes mudaram. Quando eu era criança,
a garrafa de Coca-Cola era pequena, agora veja o tamanho dela! Quanto
maior o tamanho das porções, mais você tende a comer
e a beber.
As corporações aprenderam que certos sabores ajudam as
pessoas a comer em excesso. Comer muitos alimentos gordurosos e doces,
por muito tempo tempo, muda os circuitos do prazer do seu cérebro.
Então você quer comer mais e mais. É parecido com
heroína.
E as paixões, o orgasmo, também podem viciar?
Sim, o processo é bem parecido. A Universidade Albert Einstein,
em Nova York, comparou o funcionamento dos cérebros de pessoas
em novos relacionamentos quando elas olham para fotos do parceiro e
para fotos de amigos. Não foi surpresa ver que há um disparo
de dopamina ao olhar para a foto do amado.
Interessante também é que partes do cérebro têm
funções desligadas nesses estados de paixão ou
durante o orgasmo, especialmente aquelas áreas relacionadas à
cognição e lógica. Quando estamos muito apaixonados
não conseguimos fazer uma boa avaliação da pessoa.
Qual será o futuro do prazer, especialmente na nossa
atual sociedade em que é tão fácil encontrá-lo?
O acesso facilitado a coisas prazerosas, sem dúvida, aumenta
o seu uso. Se você gostava de jogar, tinha que ir ao cassino.
Agora, qualquer um entra na internet e pode jogar o tempo que quiser.
Em um futuro distante, penso que teremos meios de ativar nossos mecanismos
de prazer de forma não invasiva, talvez algo como um capacete
de beisebol que, colocado na cabeça, ativará seus circuitos
cerebrais do prazer na intensidade que você desejar.
THE COMPASS OF PLEASURE
AUTOR David Linden
EDITORA Viking
PREÇO US$ 13,69 (R$ 25,73) na Amazon (livro eletrônico)
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/11725-virtudes-e-vicios-dividem-os-mesmos-circuitos-no-cerebro.shtml
Frases
"As corporações aprenderam que certos sabores ajudam
as pessoas a comer em excesso. Ingerir muitos alimentos gordurosos e
doces, por um logo período de tempo, muda os circuitos do prazer
do seu cérebro. Então você quer comer mais e mais.
É parecido com heroína"
"Os genes respondem por algo entre 40% e 60% da vulnerabilidade
à dependência. Se você herda variantes que levam
a baixos níveis de receptores de dopamina, isso o fará
mais suscetível ao vício e a achar mais prazerosa a experiência
com as drogas, por exemplo. É como se as pessoas ficassem doentes
de prazer"
Raio-X David J. Linden
NASCIMENTO
1961, na Califórnia
ATUAÇÃO
Professor de neurociência na Universidade Johns Hopkins (Baltimore,
Maryland) e editor-chefe do "Journal of Neurophysiology"
LIVROS
"The Compass of Pleasure" (2011) e "The Accidental Mind:
How Brain Evolution Has Given Us Love, Memory, Dreams, and God"
(2007)
Números do vício
210 MILHÕES
é o número de usuários de drogas no mundo
200 MIL
pessoas no planeta morrem por ano por causa de drogas ilícitas
CERCA DE 1%
da população está sob risco de ter compulsão
por jogos
41%
da população brasileira está acima do peso -nos
EUA, dois terços da população estão nessa
situação
Fontes: Organização Mundial da Saúde; "World
Drug Report 2011"; IBGE; Hermano Tavares, psiquiatra