05/12/2011
DOUTOR E MÉDICO EM PSIQUIATRIA DEFENDE "TESE DE DOUTORADO"
SOBRE "MÉDIUNS ESPÍRITAS"
Alexander Moreira
de Almeida é médico e doutor em psiquiatria pela
USP – Universidade de São Paulo, coordenador do NEPER –
Núcleo de Estudos de Problemas Espirituais e Religiosos do Instituto
de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina
da USP e director técnico e clínico do HOJE – Hospital
João Evangelista. O fato de registo, é que o doutor Alexander
de Almeida defendeu sua Tese de Doutorado sobre “Fenomenologia
das experiências mediúnicas, perfil e psicopatologia de
médiuns espíritas" recorrendo a dezenas
de médiuns espíritas e a varias associações
espíritas de São Paulo, onde concedeu uma entrevista exclusiva
ao Jornal de Espiritismo.
Como médico psiquiatra, o que o levou a
escolher tal Tese de trabalho, para o seu doutoramento: “Fenomenologia
das experiências mediúnicas, perfil e psicopatologia de
médiuns espíritas"?
Alexander Moreira de Almeida
– A importância que as vivências mediúnicas
tiveram e ainda têm nas diversas civilizações e,
mesmo assim, serem praticamente inexploradas no meio académico.
Como os seus examinadores e a própria Faculdade de Medicina
da Universidade de São Paulo, viram a sua Tese de Doutorado?
AMA – Muito bem. Sempre recebi todo o apoio do Departamento de
Psiquiatria da USP, da FAPESP (Fundação de Amparo Á
Pesquisa do Estado de São Paulo), bem como a banca teve uma postura
muito científica: - rigorosa, mas aberta.
E o orientador da Tese de Doutorado? Quem foi?
AMA – Francisco Lotufo Neto, professor livre-docente do Departamento
de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São
Paulo..
Quem foram seus examinadores?
AMA – Prof. Dr.. Paulo Dalgalarrondo, Doutor pela Universidade
de Heildelberg (Alemanha), livre-docente em Psiquiatria da Faculdade
de Medicina da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas); Prof. Dr.
Leonardo Caixeta, psiquiatra, doutor em Neurologia pela Universidade
de São Paulo, professor da UFG (Universidade Federal de Goiás);
Prof. Homero Vallada, livre-docente, Professor de Psiquiatria da Faculdade
de Medicina da USP e da Universidade de Londres, maior especialista
em genética psiquiátrica no Brasil e pelo Prof. Dr. Paulo
Rossi Menezes, psiquiatra e epidemiologista, doutor pela London Universisty,
livre-docente da faculdade de Medicina da USP.
Existiu algum critério específico para a composição
da Banca Examinadora?
AMA – Que fossem pesquisadores destacados e que estudassem áreas
relacionadas ao tema da tese.
Durante seu estudo, verificou por certo o grau de escolaridade
dos médiuns espíritas. São eles incultos e ignorantes
como se diz?
AMA – 46,5% dos médiuns tinham escolaridade superior
ou superior com pós-graduação. O Censo Brasileiro
de 2000 mostrou que o Espiritismo é a única religião
em que a proporção de adeptos aumenta quanto maior o nível
educacional do segmento estudado.
Os médiuns espíritas sofrem de transtornos dissociativos,
psicóticos ou transtornos de personalidade múltipla?
AMA – Eles também podem apresentar estes e outros transtornos
mentais, como qualquer indivíduo, no entanto, a prevalência
de problemas psiquiátricos entre os médiuns estudados
foi menor que o encontrado na população geral.
Então os médiuns espíritas não
são esquizofrénicos?
AMA – Não, eles são até mais saudáveis
que a população geral. Isto, apesar de terem muitas vivências
alucinatórias e de influência que normalmente são
consideradas como sintomas clássicos de esquizofrenia.
Como a mediunidade é vista pela medicina?
A.M.A – Como a expressão de uma manifestação
cultural, religiosa, que não necessariamente é patológica.
Sobre a explicação de sua origem, habitualmente é
considerada como um fenômeno dissociativo em que se manifestam
conteudos do inconsciente do indivíduo. No entanto, estas ideias
são baseadas em muitas opiniões e poucas pesquisas.
A mediunidade é causa de doenças mentais?
AMA – Apesar de, historicamente, nos últimos 150 anos
ter se acreditado nisto, não há evidências a este
respeito.
Quais os possíveis mecanismos neurofisiológicos
da mediunidade?
AMA – Desconheço estudos a este respeito, tudo que eu
dissesse seria meramente especulativo.
Alguns colegas defendem que a glândula pineal é o órgão
sensorial da mediunidade. Sabemos que essa hipótese não
é nova. O espírito de André Luiz através
do respeitado médium Francisco Cândido Xavier trouxe de
novo a “lume”.
Qual a sua opinião?
AMA – Há uma longa história de associação
da pineal com o Espírito, isto vem desde Descartes. Do ponto
de vista científico, desconheço qualquer estudo trazendo
evidências da pineal se relacionar com mediunidade. Entretanto,
sem dúvida é uma interessante hipótese a ser testada.
Sendo médico e doutor em psiquiatria, o que é
a mediunidade?
AMA – Penso que a mediunidade é uma manifestação
de uma habilidade humana que tem estado presente na maioria das civilizações
ao longo da história. A origem destas vivências em muitos
casos, acredito, podem estar realmente no inconsciente dos médiuns.
Entretanto, há um considerável número de casos
em que esta explicação é insuficiente, a pontando
para alguma fonte externa ao médium.
Como relaciona psiquiatria, espiritualidade e mediunidade?
AMA – A psiquiatria deve estar interessada numa visão
abrangente e multifacetada do ser humana, assim a espiritualidade deve
ser levada em conta, como todas as demais dimensões da existência
humana. Por fim, a mediunidade é uma vivência que pode
nos revelar muito sobre o funcionamento da mente e sua relação
com o corpo. Muitos de nossos trabalhos na área podem ser acessados
na página www.hojenet.org no item “teses & artigos”.
Como distingue em seus pacientes “mediunidade”
com distúrbios meramente neuropsicológicos?
AMA – Esta pergunta não admite uma resposta simples.
Faz-se necessária uma avaliação cuidadosa e ampla
da pessoa, o que ela tem vivenciado, suas crenças e seu contexto
social e cultural. Em linhas gerais, para uma certa vivência ser
considerada indicativa de um transtorno mental, deve estar associada
a sofrimento, falta de controle sobre sua ocorrência, gerar incapacitação,
coexistir com outros sintomas de transtornos mentais e não ser
aceita pelo grupo cultural ao qual pertence o indivíduo.
Ao receber um paciente portador de faculdade mediúnica,
como conduz o caso?
AMA – Trato o transtorno mental existente além de recomendar
que o paciente continue com suas práticas religiosas. No entanto,
se ele estiver com desequilíbrios mais graves, inicio o tratamento
farmacológico e psicoterápico e solicito o afastamento
das atividades mediúnicas. No entanto, recomendo que continue
participando das demais atividades religiosas (palestras, orações,
cultos, passes...)
O seu estudo reuniu a maior amostra de médiuns espíritas
alguma vez investigada na área médica no mundo. A sua
tese já teve repercussões no meio médico ou em
algum centro de investigação universitário? Quais?
AMA – Tenho apresentado os resultados da tese em congressos
científicos no Brasil e nos EUA, como por exemplo o Congresso
Brasileiro de Psiquiatria e International Conference on Mediumship promovido
pela Parapsychology Foundation
Nesses congressos científicos, como os investigadores
brasileiros e norte-americanos reagiram à sua investigação?
AMA – Muito bem, demonstrando bastante interesse.
Como vê a doutrina espírita, codificada por Allan
Kardec?
AMA – Como uma proposta bem fundamentada de se fazer uma investigação
científica e com bases empíricas de fenômenos antes
considerados metafísicos e fora do alcance da ciência.
O que é o NEPER – Núcleo de Estudos de
Problemas Espirituais e Religiosos do Instituto de Psiquiatria do Hospital
das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São
Paulo?
AMA – É um grupo de estudos interdisciplinar das relações
entre religiosidade saúde. É composto por psiquiatras,
neurologistas, historiadores, psicólogos, antropólogos,
filósofos. Não está vinculado a nenhuma religião,
se prende apenas à rigorosa investigação científica
nesta área.
Que mensagem gostaria de deixar aos médicos europeus?
AMA – Na Europa já existem iniciativas muito interessantes
na área da espiritualidade, como a Fundação BIAL
em Portugal, a Society for Psychical Research e muitos médicos
britânicos que investigam o tema, bem como a disciplina de parapsicologia
da Universidade de Edimburgo, além de iniciativas das Associações
Médico-Espíritas. Que continuem se interessando e investigando
cada vez mais as desafiadoras e fascinantes relações entre
espiritualidade e ciência.
DADOS DA INVESTIGAÇÃO
Total: 115 médiuns espíritas
Mulheres: 76,5%
Média de Idade: 48 anos
Desemprego: 2,7%
Curso superior: 46,5%
Média de anos no espiritismo: 16 anos
Possuíam mais de 3 tipos de mediunidade;
Incorporação: 72%
Psicofonia: 66%
Vidência: 63%
Audiência: 32%
Psicografia: 23%
Exerciam a mediunidade por semana: 7 a 14 vezes
PRINCIPAIS CONCLUSÕES
1- Os médiuns espíritas diferiam das características
de portadores de transtornos de personalidade múltipla e possuíam
uma alta média de sintomas de primeira ordem para esquizofrenia,
mas estes não se relacionavam aos escores de outros sintomas
psiquiátricos e não se relacionavam a problemas no trabalho,
família ou estudos.
2- A maioria teve o início de suas manifestações
mediúnicas na infância e estas, atualmente, se caracterizam
por vivências de influência ou alucinatórias que
não necessariamente implicam num diagnóstico de esquizofrenia.
3- A mediunidade provavelmente se constitui numa vivência diferente
do transtorno de personalidade múltipla.
Texto: Luís de Almeida