14/11/2011
PRÊMIO NOBEL FALA SOBRE A DIFICULDADE DE
FAZER DIAGNÓSTICOS OBJETIVOS DE TRANSTORNOS MENTAIS
A psiquiatria está em crise, porque falta comprovação
biológica para seus conceitos. Essa é a opinião
do neurobiólogo Eric Kandel, 81, ganhador do Prêmio Nobel
de Medicina de 2000

O neurobiólogo Eric Kandel
RAFAEL GARCIA
DA FOLHA DE SÃO PAULO
DE WASHINGTON
A psiquiatria está em crise, porque falta comprovação
biológica para seus conceitos. Essa é a opinião
do neurobiólogo Eric Kandel, 81, ganhador do Prêmio Nobel
de Medicina de 2000.
O cientista, premiado por seus estudos com memória, desembarca
nesta semana no Rio de Janeiro para participar do Congresso Brasileiro
de Psiquiatria.
Em entrevista à Folha, Kandel condenou o uso de remédios
como a ritalina (droga para tratar deficit de atenção)
para melhorar a concentração de pessoas saudáveis.
Ele falou também sobre a validade da psicanálise, que
pode cobrir lacunas da psiquiatria, caso adote padrões científicos
mais rígidos. O pesquisador comenta também sobre sua nova
invenção: um camundongo "esquizofrênico"
para testar medicamentos.
Folha - Psiquiatras estão debatendo mudanças
no manual de diagnósticos de transtornos mentais. Muitos acham
que o livro não pode tentar ser muito objetivo. O que o sr. acha?
Eric Kandel - A preocupação com a objetividade
foi introduzida há uns 20 anos quando houve uma tentativa de
validar os critérios do manual para descrever transtornos. Isso
foi extremamente importante para que diferentes psiquiatras pudessem
dar o mesmo diagnóstico a um mesmo paciente.
Mas não houve muitos avanços desde então. Uma das
razões para isso é que os psiquiatras não têm
os chamados "marcadores biológicos" à disposição.
Se você diagnostica diabetes ou hipertensão, pode usar
medições objetivas, independentes. Não precisa
se basear apenas naquilo que o paciente lhe conta. Nós, psiquiatras,
ainda temos que recorrer à história do paciente. Precisamos
desesperadamente de bons marcadores biológicos. Sem isso, podemos
publicar quantas edições quisermos do manual, que não
chegaremos a lugar nenhum.
A esquizofrenia afeta capacidades mentais humanas. Como é
possível usar um camundongo para estudá-la?
A esquizofrenia tem três classes de sintomas. Há os "positivos"
-ilusões, alucinações e loucura-, os "negativos"
-reclusão, isolamento social e falta de motivação-
e os "cognitivos" -a dificuldade de organizar as ideias e
trabalhar. É difícil criar um modelo para estudar os sintomas
positivos em cobaias, mas podemos modelar os cognitivos e negativos.
Criamos um camundongo cujo corpo estriado [estrutura no núcleo
do cérebro] produz em excesso uma proteína que os neurônios
usam para captar o neurotransmissor dopamina. Essa é uma lesão
genética que ocorre em parte dos pacientes com esquizofrenia.
Depois, encontramos um medicamento que supera essa deficiência
e a restaura ao normal. Achamos que isso poderá ser útil
para tratamentos de depressão também.
O que o sr. acha de usar drogas, como a ritalina (receitada
para deficit de atenção) para "turbinar" a inteligência,
aumentando a concentração?
Não acho que seja boa ideia para pessoas saudáveis. Esses
remédios devem ser prescritos para pessoas com problemas cognitivos.
Essa drogas não devem nunca ser vendidas sem receita. Não
são vitaminas.
O sr. vem falar no Brasil, onde a psicanálise é
relativamente bem aceita. Nos EUA, não é assim. Que papel
o sr. vê para as ideias de Freud hoje?
Não vejo problema em ler Freud da mesma forma que lemos Nietzche,
Dostoiévski ou Shakespeare -grandes pensadores que escreveram
sobre a mente humana. Mas se você quer que a psicanálise
seja uma terapia eficaz, é preciso ter estudos que mostrem resultado.
É necessário explicar o que ocorre no cérebro.
Isso seria trabalhoso, mas é precisa ser feito.
O maior problema não é com Freud, mas com aqueles que
o sucederam. Eles não desenvolveram uma tradição
científica na psicanálise. O treinamento para psicanálise
deveria mudar, de forma que uma parte das pessoas formadas se dedicasse
exclusivamente à pesquisa.
Não existe hoje uma aceitação maior de
que a mente descrita por Freud possui estruturas correlatas no cérebro?
Sim. O córtex pré-frontal está muito relacionado
à moralidade e ao julgamento de valores, por exemplo. Uma lesão
nessa região do cérebro pode tornar uma pessoa amoral,
um psicopata. Mas acima disso, a ideia geral de Freud sobre processos
mentais inconscientes é muito importante para nossas vidas. Boa
parte de nossa atividade mental é inconsciente. Isso acabou se
mostrando uma verdade universal.
O sr. passou a infância em Viena, quando Freud ainda
vivia lá, sofrendo também a perseguição
nazista. Isso o influenciou em sua maior aceitação à
psicanálise?
Isso teve efeitos positivos e negativos em mim. De um lado, parte de
minha vida era superar o transtorno do estresse pós-traumático,
porque foi uma experiência terrível. Mas eu fui influenciado
pela cultura de Viena, tinha muitos amigos cujos pais eram psicanalistas,
e tinha interesse nisso.
Eu só desisti da psicanálise quando me apaixonei pela
neurobiologia. E eu me interessei pelos mecanismos de armazenamento
de memória, porque é um assunto central da psicanálise.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saude/sd0211201101.htm