14/11/2011
Reportagem do Jornal Valor Econômico
sobre o aumento da expectativa de vida, os avanços da medicina
e os impactos na sociedade e na economia. Para alguns cientistas, estamos
às vésperas de uma extensão radical na longevidade
humana, e a primeira pessoa que viverá 150 anos já nasceu.
Além de problemas éticos e existenciais, a longevidade
implica a redefinição dos sistemas de previdência
e seguridade.
Valor Econômico
Por Marta Barcellos
Ninguém quer morrer, disse Steve Jobs. No discurso para formandos
da Universidade de Stanford que entraria para a história, o fundador
da Apple continuou o raciocínio:
"Ainda assim, a morte é o destino que
todos nós compartilhamos. Ninguém nunca conseguiu escapar.
E assim deve ser, porque a morte é muito provavelmente a principal
invenção da vida. É o agente de mudança
da vida."

Jobs inventou a nossa relação com a tecnologia, porém
sucumbiu à "principal invenção da vida"
mais cedo do que o esperado. Morreu aos 56 anos, enquanto a expectativa
de vida para homens nascidos nos Estados Unidos em 1955 era de 66,6
anos. Mas a morte do empresário, vítima de um câncer
pancreático, poderá ser vista no futuro como ainda mais
precoce. Da mesma forma como hoje nos espantamos com mortes que seriam
evitadas no passado com um simples antibiótico, poderemos lamentar
que o gênio da tecnologia não tenha chegado a usufruir
de avanços que estavam tão próximos em áreas
como terapia genética e reconstrução de órgãos.
Para alguns cientistas, estamos às vésperas de uma extensão
radical na longevidade humana, e a primeira pessoa que viverá
150 anos já nasceu.
Mas será que Jobs gostaria de viver tanto, se tivesse o pâncreas
reconstruído pela engenharia de tecidos e o câncer debelado
por genes terapêuticos? A julgar pelo discurso em Stanford e pela
hesitação diante da cirurgia indicada na ocasião
para extirpar o seu câncer, talvez não. Motivações
filosóficas, porém, tendem a ser ofuscadas em debates
sobre a existência humana quando entra em cena a promessa grandiosa
de uma vida prolongada, com saúde e menos sofrimento.
"Chegará um tempo em que problemas de saúde serão
raros, assim como hoje são raras as doenças infecciosas
nos países desenvolvidos", afirma a futuróloga
Sonia Arrison, que acaba de lançar nos Estados
Unidos o livro "100 Plus: How the Coming Age of Longevity Will
Change Everything, From Careers and Relationships to Family and Faith"
(Basic Books, 2011).
Neurocientista impressionou ao afirmar que "estamos próximos
do
instante em que o cérebro vai se libertar dos limites físicos
do corpo"
_______________________________________________________
A previsão de que nossa longevidade dobrará neste século,
amparada por cuidadosa pesquisa em torno de progressos comprovados na
medicina e na biotecnologia, destaca o livro de Sonia no segmento de
títulos que prometem revelar os segredos de uma vida longa e
saudável, um filão crescente nos Estados Unidos. O assunto
empolga também no Brasil, onde o interesse vai desde as 150 pílulas
alternativas tomadas diariamente pela jornalista Glória Maria
para retardar o envelhecimento até os avanços obtidos
por pesquisadores brasileiros como o neurocientista Miguel Nicolelis,
que impressionou a plateia da última Festa Literária Internacional
de Paraty (Flip) ao afirmar que "estamos próximos do instante
em que o cérebro vai se libertar dos limites físicos do
corpo".
Depois de desenvolver uma nova técnica cirúrgica, baseada
na simulação elétrica da medula espinhal, testada
como novo tratamento para o mal de Parkinson, Nicolelis criou uma interface
cérebro-máquina que poderá ser desenvolvida junto
com um exoesqueleto robótico de corpo inteiro. Ou seja, além
da substituição de órgãos que começam
a falhar por outros feitos sob medida com nosso DNA, como se fossem
peças de um automóvel, podemos no futuro prescindir do
corpo inteiro, envelhecido, enquanto nosso cérebro estiver saudável.
O cenário de ficção científica pode parecer
exagerado se considerarmos que o experimento de Nicolelis envolve até
agora macacos e o sucesso da terapia genética para retardar o
envelhecimento, e também a evolução de doenças
degenerativas, foi comprovado apenas em animais de laboratório.
Exageros, de fato, existem. O gerontologista inglês Aubrey de
Grey, por exemplo, caiu em descrédito ao prever que a próxima
geração viverá mil anos, quando os experimentos
mais espetaculares de manipulação genética possibilitaram
uma vida seis vezes maior apenas em um pequeno verme - o "Caenorhabditis
elegans", alterado geneticamente pela biologista molecular Cynthia
Kenyon, da Universidade da Califórnia.

Exercícios em praça do Rio: quem
pretende
adiar o envelhecimento deve seguir dieta
bastante restritiva do ponto de vista calórico para
retardar o processo de divisão das células, diz médico
No entanto, longe dos laboratórios já há resultados
concretos - e impressionantes - de cura em humanos, a partir da utilização
de células-tronco, envolvendo casos de cegueira e de alguns tipos
de câncer. Sonia Arrison destaca a história de uma mulher
de 30 anos, Claudia Castillo, que precisava de um transplante de traqueia
depois de ter sofrido danos irreversíveis em seus órgãos
respiratórios por causa da tuberculose. Os médicos usaram
a traqueia de um doador, limparam-na com substâncias químicas
para matar todas as células e revestiram a estrutura que restou
com células da própria paciente - evitando, assim, a rejeição
ao órgão doado.
O sucesso da cirurgia foi considerado emblemático da nova fase
da medicina regenerativa, cujo financiamento conta com a ajuda decisiva
do Departamento de Defesa americano.
"O governo dos Estados Unidos vem aplicando muito dinheiro nesse
campo porque gostaria de ser capaz de recuperar os soldados que voltam
para casa com sérios ferimentos", diz a escritora americana.
"O [projeto] Genoma Humano redundará em imensos progressos
e novas formas de tratamento", prevê também o médico
brasileiro Alexandre Kalache, que chefiou o Programa de Envelhecimento
e Saúde da Organização Mundial de Saúde
(OMS) e é conselheiro em envelhecimento da Academia de Medicina
de Nova York.
"Para uma minoria, com acesso à alta tecnologia, talvez
não haja limites do que possa ser feito no sentido de oferecer-lhe
longevidade com saúde."
A questão levantada por Kalache é um dos poucos pontos
a preocupar a otimista Sonia. Tudo indica que aumentará a disparidade
entre a esperança de vida de uma elite e o resto da população
mundial, que pode contar no máximo com os anos extras proporcionados
por mudanças no estilo de vida - fugindo do cigarro, do excesso
de álcool, do sedentarismo e das dietas pouco saudáveis.
Kalache prefere "pôr os pés na terra" e fugir
das especulações sobre o bebê que terá 150
ou mil anos.
"Não estou interessado nelas", diz. "O que
mais me entusiasma é a nossa compreensão sobre a importância
de nossos hábitos de vida e dos fatores sociais que determinam
o envelhecimento saudável e ativo."
Além de problemas éticos e existenciais, a longevidade
implica
a redefinição dos sistemas de previdência e
seguridade
____________________________________________________
Já Sonia torce para que os avanços tecnológicos
rumo à expansão da longevidade cheguem rápido às
camadas menos favorecidas da população global, pulando
etapas, assim como os celulares se tornaram acessíveis em países
que mal tinham um sistema de telefonia fixa.
"Historicamente, a distribuição das novas tecnologias
vem se acelerando", lembra. Além disso, na prática,
a humanidade já estaria dividida em categorias que vivem mais
ou menos tempo, sem que para isso se desenhem cenários de ficção
científica: "Uma pessoa morando em Mônaco pode esperar
viver 89 anos, enquanto outra em Angola tem uma expectativa de apenas
38 anos", compara a escritora.
A esperança de vida ao nascer, ressalta o demógrafo José
Eustáquio Alves, é uma média muito influenciada
pela mortalidade infantil - o que de certa forma explica o seu expressivo
crescimento à medida que mortes de crianças são
evitadas. O resultado é que nas últimas seis décadas
a população mundial tem ganhado 2,5 anos de vida a cada
10 anos, o que representou um acréscimo de 15 anos. "Os
otimistas acreditam que esse ritmo vai continuar", diz Alves, professor
titular do mestrado em estudos populacionais da Escola Nacional de Ciências
Estatísticas (Ence) do IBGE. De qualquer forma, como a taxa de
fecundidade vem caindo, a população mundial envelhece
rapidamente, inclusive no Brasil, onde o número de pessoas com
mais de 90 anos aumentou de 261 mil em 2000 para 449 mil em 2010, um
salto de 72%, segundo dados do IBGE.
Alves é cético em relação ao ritmo de aumento
da longevidade porque o impacto da redução de mortes precoces
deve diminuir, ao mesmo tempo em que o ser humano parece ter encontrado
uma espécie de limite documentado para a espécie. Oficialmente,
o recorde de longevidade pertence à francesa Jeanne Calment,
que morreu em 1997 aos 122 anos. No ano passado, a brasileira Maria
Gomes Valentim, moradora de Carangola (MG), chegou a deter o título
de "decano da humanidade", reconhecido pelo Guinness World
Records, mas morreu pouco antes de completar 115 anos.
"Passar dos 100 anos está fácil", diz Alves.
"Mas os estudiosos perceberam que ultrapassar os 115 é
quase impossível, como se esse fosse um limite, do cérebro
e do corpo."
O limite atual seria dado pela nossa divisão celular, afirma
o presidente da Academia Brasileira de Medicina Antienvelhecimento,
Kose Horibe.
"Como nossas células têm potencial para se dividir
54 vezes, nosso corpo pode viver até 120 anos, se atrasarmos
cada fase da divisão celular."
É aí que entram as medidas antienvelhecimento, que pautam
a entidade criada nos moldes da academia americana, difusora do conceito
repudiado por gerontológos que defendem o envelhecimento como
um processo natural - e não a ser evitado.
Quem pretende adiar ao máximo o envelhecimento deve, por exemplo,
seguir uma dieta bastante restritiva do ponto de vista calórico,
o que comprovadamente retarda o processo de divisão das células.
Horibe, que tem 70 anos, faz a dieta, assim como segue as indicações
do livro "The Project Longevity", no qual os pesquisadores
Howard Friedman e Leslie Martin analisaram um estudo de oito décadas
com 1.500 americanos desde a infância, concluindo sobre quais
hábitos levam à longevidade, como a maneira de pensar
e se exercitar.
Cirurgião plástico com doutorado pela Faculdade de Medicina
da Universidade de São Paulo (USP), Horibe acompanha os estudos
antienvelhecimento internacionais e reconhece que é preciso desconfiar
das novidades. "Existe um comércio grande em torno de efeitos
miraculosos." Mas se entusiasma diante dos experimentos com comprovação
científica:
"A prevenção do envelhecimento tende a ficar mais
eficaz com os diagnósticos de doenças latentes. As tecnologias
da substituição vão permitir transplantes feitos
a partir do nosso DNA, e poderemos trocar partes preventivamente,
como fazemos com os carros."

Horibe, especialista em longevidade:
"As tecnologias da substituição vão permitir
transplantes feitos a partir do nosso DNA,
e poderemos trocar partes preventivamente,
como fazemos com os carros"
A comparação entre corpos e automóveis, presente
também no livro de Sonia Arrison, é um prato cheio para
filósofos.
"A tecnociência contemporânea se move em direção
a um projeto de ultrapassagem da finitude", diz Maria Cristina
Franco Ferraz, doutora em filosofia pela Universidade de Paris I-Sorbonne
e professora titular de teoria da comunicação da Universidade
Federal Fluminense (UFF).
"Enquanto no século XIX o avanço visava a um aprimoramento
das condições da vida humana sobre o planeta, na contemporaneidade
ele passou a almejar a superação da insistente tendência
do 'orgânico' ao envelhecimento, à obsolescência
e à degradação."

A repórter Glória Maria, que não
fuma,
não bebe álcool, não come carne vermelha
e toma 150 pílulas por dia para retardar o envelhecimento:
"Acho morrer uma inutilidade"
Na medida em que envelhecer deixa de ser "natural" e perde
qualquer sentido positivo, surgem novos problemas éticos e existenciais,
diz Maria Cristina. Evitar o envelhecimento tornou-se um "imperativo
e dever moral", que solicita a responsabilização
pelo próprio corpo, pela saúde e pelas doenças.
Para aumentar a angústia de quem conta rugas no espelho e faz
check-up anual, ela acrescenta que o envelhecimento contraria valores
das sociedades liberais avançadas, tais como autonomia e independência
social e financeira.
"Envelhecer, em nossa cultura, passou a ser algo pelo qual somos
responsáveis, se não quisermos viver o inferno da 'dependência'
em uma sociedade em que laços afetivos duradouros vão
visivelmente se esgarçando", afirma Maria Cristina,
autora de "Homo Deletabilis: Corpo, Percepção,
Esquecimento: do Século XIX ao XXI" (Garamond/Faperj).
"Os eufóricos a respeito da busca da longevidade talvez
não tenham se dado conta dessas questões."
A filósofa termina se perguntando, como outros entrevistados
desta reportagem: e por que seria melhor viver muito tempo?
Em "100 Plus...", Sonia Arrison rebate as críticas
ao que alguns já chamam de "tecnolongevidade".
"Argumentos contra a extensão da vida são muitas
vezes simplesmente um apelo ao status quo. Dizem que, se os seres
humanos vivessem mais, o mundo de alguma forma seria menos nobre,
belo ou emocionante. Mas o que há de nobre, belo e emocionante
na deterioração e no declínio? O que é
moralmente suspeito em amenizar o sofrimento humano?"
Ela enfatiza que o motivo de seu otimismo reside não no prolongamento
da vida em si, mas no prolongamento da saúde humana. Indagada
sobre quantos anos gostaria de viver, ela responde que almeja o máximo
possível - com saúde.

Com corpo e mente saudáveis, de qualquer forma, outras questões
terão de ser enfrentadas, nos relacionamentos, no trabalho e
nas finanças. Enquanto os governos, desde já, precisam
reavaliar seus sistemas de previdência e seguridade, do ponto
de vista individual a aposentadoria deveria ser redefinida como um tempo
livre para o retreinamento para uma nova carreira, diz Sonia, apresentando
estudos que mostram a longevidade produtiva como fator de enriquecimento
dos países. Com uma expectativa média de 150 anos, mais
casamentos serão possíveis ao longo da vida, poderá
haver maior diferença de idade entre cônjuges e também
entre irmãos - o número de pais idosos tenderia a aumentar
com o congelamento de óvulos e a evolução das tecnologias
de reprodução.
Esse futuro pode ser distante para a maioria, mas para Glória
Maria parece bem palpável.
"Se puder, estico a vida até uns 180 anos", afirma
a jornalista do "Globo Repórter".
"Agora que tenho minhas filhas, serei obrigada a viver pelo menos
mais 50 anos."
Glória não diz com quantos anos se tornou mãe
das filhas adotivas Maria e Laura, de dois e três anos, para não
revelar a idade - estimada em "terceira idade" pelas revistas
de celebridades que a perseguem atrás da fórmula de sua
aparência jovem.
"Uso tudo o que estiver à disposição",
resume.
Além de não beber álcool, não fumar nem
comer carne vermelha, toma cerca de 150 pílulas ao longo do
dia. "Fui incorporando o que eu descobria, por isso são
tantas."
As "descobertas" se referem mais a substâncias naturais
e alternativas do que a novidades científicas - que ela, no entanto,
não descarta utilizar.
"Trocaria um órgão meu que estivesse com problemas,
mas não substituiria preventivamente. Aí já é
birutice total."
Influenciada pelas reportagens que fez viajando pelo mundo quando era
apresentadora do "Fantástico", a jornalista incluiu
no seu arsenal "anti-aging" excentricidades como ninhos de
passarinho importados da China, cujos microorganismos agiriam na elasticidade
da pele.
"Se funcionou com os samurais, por que não vai funcionar
comigo?", pergunta.
O motivo de ela se empolgar mais com as novidades da medicina alternativa
do que com a tecnologia foi a sua observação dos hábitos
de pessoas centenárias - de uma comunidade isolada no Japão
à sua avó, que morreu lúcida aos 104 anos.
"Eu aceitaria ficar congelada por dez anos se me garantissem
a fórmula da imortalidade quando eu acordasse", afirma.
"Acho morrer uma inutilidade."
O demógrafo Alves:
"Passar dos 100 anos está fácil, mas os
estudiosos perceberam que ultrapassar os 115
é quase impossível, como se esse fosse um limite,
do cérebro e do corpo"
A imortalidade na literatura, retratada quase sempre
de forma sombria, é citada por aqueles que temem o prolongamento
da vida. Em "Todos os Homens São Mortais", de Simone
de Beauvoir, um conde que toma o elixir da juventude se cansa de tentar
mudar o destino da humanidade, cita o demógrafo Alves, para justificar
a idade com que gostaria de morrer: "Cem anos está bom.
A fila anda." O médico Kalache cita "As Intermitências
da Morte", romance de José Saramago no qual a morte é
abolida de um país, para rechaçar o desejo da imortalidade:
"Ela roubaria da humanidade sua inocência e humildade. Viver
em um mundo arrogante seria um martírio para mim." Já
a filósofa Maria Cristina lembra de "Os Imortais",
conto de Jorge Luis Borges que narra o "tédio mortal sentido
pelos que nunca morrem": "O fato de sermos os únicos
a sabermos que vamos morrer é um aguilhão que dá
sabor e intensidade à vida. Além disso, é uma grande
generosidade saber sair de cena para que novos seres nasçam."
E voltamos assim ao discurso de Steve Jobs, que precocemente abriu
o seu lugar para Tim Cook na Apple ou para outro gênio da tecnologia
talvez presente na formatura de Stanford:
"A morte é o agente de mudança da vida",
continuou o discurso.
"Ela limpa o velho para abrir caminho para o novo. Neste momento,
o novo é você. Mas algum dia, não muito distante,
você gradualmente se tornará um velho."
Marta Barcellos/Valor Econômico