14/11/2011
A voz da consciência - Antonio Damásio
e a festa movediça dos pensamentos
O neurocientista António R. Damásio propõe
um modelo para explicar a consciência humana, que segundo ele
seria um "trabalho em andamento", fruto do acúmulo
de nossas experiências e reflexões sobre o mundo. Em seu
quarto livro, "E o Cérebro Criou o Homem"
o autor prossegue sua ambiciosa investigação sobre o papel
do corpo e de nossa origem animal nas representações mentais
e propõe tese pioneira ao apontar o tronco cerebral, e não
o córtex pré-frontal, como centro da consciência.
Damásio reconhece que é preciso ter fé na ciência
e acredita em tratamentos médicos e espirituais combinados.
(...) "O correto seria "tenho sentimentos,
logo existo". (...) Sempre que alguém usa a ciência
para tentar impor suas crenças, me parece algo excessivo e
deslocado. Ainda sabemos tão pouco que não temos como
fazer pronunciamentos sobre problemas tão profundos quanto
crenças e as razões do universo. As pessoas podem ter
opiniões, mas não devem dizer aos outros o que pensar."
ANTONIO R. DAMASIO,
Nascido em Portugal, radicou-se nos Estados Unidos.
Chefe do departamento de neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade
de Iowa,
é também professor adjunto no Instituto Salk de Estudos
Biológicos, em La Jolla, Califórnia.
Recebeu vários prêmios e honrarias científicas,
como o prêmio Beaumont da Associação Médica
Americana.
DAMÁSIO, António. E o Cérebro Criou o Homem.
São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
Outras Obras do autor publicadas pela Companhia das Letras :
- 'O Erro de Descartes' 'O Mistério da Consciência'
CARLOS MESSIAS
DA FOLHA DE SÃO PAULO
O neurocientista António R. Damásio
propõe um modelo para explicar a consciência humana,
que se formaria em três níveis: o "protosself",
o "self central", desenvolvidos na infância, e o "self
autobiográfico", que segundo ele seria um "trabalho
em andamento", fruto do acúmulo de nossas experiências
e reflexões sobre o mundo. Em seu quarto livro, "E
o Cérebro Criou o Homem" ele aprofunda seu mergulho
na "festa movediça" de imagens, memórias e
sentimentos que é a consciência humana. No livro, o autor
prossegue sua ambiciosa investigação sobre o papel do
corpo e de nossa origem animal nas representações mentais
e propõe tese pioneira ao apontar o tronco cerebral, e não
o córtex pré-frontal, como centro da consciência.
Neodarwinista e ex-pupilo de Norman Geschwind, o pai da neurologia
comportamental, Damásio reconhece que é preciso ter
fé na ciência e acredita em tratamentos médicos
e espirituais combinados.
O "SELF"
PODE ser entendido como a consciência do eu e do mundo ao redor,
a unidade central e reguladora do que somos, sentimos e vivemos.
Em seu "Livro do Desassossego", Fernando Pessoa se refere
à consciência como uma "orquestra oculta" e diz
desconhecer quais "instrumentos tangem e rangem" nela: "Só
me conheço como sinfonia".
Em seu quarto livro, "E o Cérebro
Criou o Homem" [trad. Laura Teixeira Motta, Companhia
das Letras, 439 págs., R$ 49], outro português, o neurocientista
António R. Damásio, 67, aprofunda seu mergulho na sinfonia
citada por Pessoa - ou, em suas palavras, na "festa movediça"
de imagens, memórias e sentimentos que é a consciência
humana. No livro, o autor prossegue sua ambiciosa investigação
sobre o papel do corpo e de nossa origem animal nas representações
mentais e propõe tese pioneira ao apontar o tronco cerebral,
e não o córtex pré-frontal, como centro da consciência.
"Procuro articular a forma como os sentimentos
são fundamentais na construção da consciência,
tanto do que somos quanto do que está a nossa volta",
disse o autor em entrevista à Folha, concedida por telefone,
em seu gabinete na Universidade do Sul da Califórnia, onde
coordena o Instituto de Cérebro e Criatividade.
Neodarwinista e ex-pupilo de Norman Geschwind, o pai da neurologia comportamental,
Damásio reconhece que é preciso ter fé na ciência
e acredita em tratamentos médicos e espirituais combinados.
Folha - Em que sentido "E o Cérebro Criou o Homem"
complementa "O Erro de Descartes"?
António R. Damásio - Em vários sentidos.
"O Erro de Descartes" teve muito a ver com o problema fundamental
da emoção e a maneira como ela influencia as nossas decisões.
Este livro também fala sobre isso, mas procuro articular a forma
como os sentimentos são fundamentais na construção
da consciência, tanto do que somos quanto do que está ao
redor. Eu me aprofundo mais nas origens da mente, nos sentimentos básicos
e na consciência.
Mas, se a consciência é fundamental para tomarmos
conhecimento do mundo, estava Descartes (1596-1650) realmente tão
equivocado?
Sim, pois são os sentimentos básicos que nos permitem
ter consciência. Eles são os alicerces da nossa realidade
refletida. Depois vêm a linguagem, o raciocínio complexo
e toda a criatividade. "Penso, logo existo" dá uma
impressão falsa de que só os seres que têm capacidade
de pensar podem existir, mas, muito antes de haver pensamento, já
existiam seres que sentem seus próprios corpos, sentem suas vidas
e, portanto, existem. O correto seria "tenho sentimentos, logo
existo".
A linguagem seria a unidade fundamental da consciência?
Existem muitos outros aspectos associados com a memória, com
o raciocínio complexo e eventualmente com a linguagem e com o
raciocínio baseado na linguagem. Um cão ou um chimpanzé
são capazes de raciocinar até muito bem. No entanto, eles
não têm linguagem como nós temos, o que nos permite
explicar nossas ideias e nos comunicar uns com os outros.
Essa relação de continuidade estaria explícita
na sua tese de que o tronco cerebral, estrutura mais primitiva do que
a região cortical, seria o centro da consciência?
Exatamente. Um dos pontos fundamentais do livro é mostrar como
entender a consciência como função cortical é
pensar ao contrário. É como construir um edifício
a partir do 20º andar, quando, na verdade, deve-se começar
pelo alicerce. E o tronco cerebral é o alicerce da consciência
e do sentir. Só depois vêm muitos andares, onde as funções
tornam-se mais complexas. E, quando se chega ao córtex cerebral,
as coisas tornam-se de fato muito complexas.
Se é tão óbvio, por que tanta demora em
chegar a essa conclusão?
É interessante que essa constatação seja baseada
em muitos dados que já existiam. O deslumbramento com o córtex
cerebral é fruto de uma era das neurociências que está
prestes a acabar. Isso poderia ter sido concluído há mais
tempo, mas as pessoas ainda se deixam levar pelo fascínio pelo
córtex cerebral, afinal, é a estrutura mais distintamente
humana e induz a concluir que aquilo que é mais complexo é,
portanto, humano. O que não significa que seja o sítio
onde começa a humanidade.
Desse processo advêm as três instâncias do
self que o sr. propõe?
Com certeza. Há um protosself, extremamente simples e primordial.
Depois, há um self central, que é um pouco mais complexo
e compartilhado com vários animais. Por fim, há o self
autobiográfico, que é sobretudo humano.
É aquilo que todos nós compreendemos, pois nos dá
uma história própria. Distingue aquilo que vivemos, aquilo
que pensamos e, portanto, nos dá noção de que somos
seres únicos. Essa, sim, depende do córtex cerebral. Para
chegar a esse estágio, todas as partes do cérebro trabalham
colaborativamente.
Quando essas propriedades do self se manifestam no processo
de desenvolvimento de uma criança?
O protosself e o self central desenvolvem-se rapidamente após
o nascimento. Um bebê com um ano tem o protosself e o começo
do self nuclear. O self autobiográfico só se desenvolve
entre os 18 meses e os dois anos de idade. Há quem diga que demora
mais que isso, porque muito poucas pessoas têm memórias
de quando tinham essa idade.
O self autobiográfico é um trabalho em andamento. O self
que eu tenho hoje é completamente diferente do que eu tinha aos
12 anos. Vai ganhando mais profundidade por causa do acúmulo
de experiência em decorrência da nossa análise dessa
vivência, pois constantemente analisamos e repensamos aquilo que
nós somos.
O seu livro não emite conclusões fechadas, mas
reconhece que a consciência é uma somatória de fatores.
Ainda será possível mapear todas as funções
cerebrais?
Sem dúvida nenhuma vamos avançar cada vez mais. Só
é preciso ter alguma modéstia para reconhecer que jamais
poderemos mapear o homem completamente. Não podemos nos esquecer
de que, quando nos ocupamos do ser humano, estamos olhando para algo
extremamente belo e complexo. Só se fôssemos muito presunçosos
poderíamos pensar que vamos explicar tudo isso.
Ficamos contentes quando avançamos, mas sempre haverá
algo a explicar. Acho bom que algo complexo como o ser humano não
seja, nem será em cem anos, completamente explicável.
Há de se esperar com paciência e modéstia.
Se isso ocorresse, o homem poderia passar a induzir, em si
mesmo ou nos outros, estados de consciência?
Sou um otimista. É claro que é preciso ficar atento para
não deixar que o conhecimento seja usado para finalidades vis.
É interessante pensar que, quanto mais soubermos sobre isso,
mais poderemos usufruir desses avanços a nosso favor. É
preciso pensar como esse tipo de conhecimento traz mais benefícios
do que malefícios.
O sr. é a favor do uso de psicofármacos?
Tudo o que puder ajudar alguém a deixar de sofrer é de
grande serventia. A depressão, por exemplo, é causa de
grande sofrimento. E não deve ser combatida só com medicamentos.
É preciso, antes de mais nada, entender o que se passa e refletir
sobre isso. Algumas causas estão relacionadas ao cérebro,
outras ao ambiente e muitas vêm dos dois. Precisamos atacar as
duas frentes.
O sr. é um dos principais representantes do neodarwinismo,
como o biólogo Richard Dawkins ou o etólogo Desmond Morris.
No entanto, não levanta a bandeira do ateísmo.
Tenho admiração por trabalhos de ambos. Mas não
me identifico com a apresentação pública deles.
Não sinto necessidade nenhuma de declarar minha orientação
religiosa. As pessoas não têm nada a ver com o que acredito.
Sempre que alguém usa a ciência para tentar impor suas
crenças, me parece algo excessivo e deslocado. Ainda sabemos
tão pouco que não temos como fazer pronunciamentos sobre
problemas tão profundos quanto crenças e as razões
do universo. As pessoas podem ter opiniões, mas não devem
dizer aos outros o que pensar.
Ciência e religião têm uma coisa em comum:
a fé. Em qual o sr. acredita?
Ambas precisam de fé. Mas, para ser coerente com a minha resposta
anterior, prefiro não me pronunciar quanto às minhas crenças
religiosas.
Como médico, aceita que a religião seja usada
no tratamento?
Desde que a pessoa tenha consciência do que está fazendo,
não vejo problema nenhum em que ela concilie as duas coisas.
"'Penso, logo existo' dá impressão de que
só seres capazes de pensar podem existir, mas, antes do pensamento,
já existiam seres que sentem seus corpos e, portanto, existem"
"É preciso ter modéstia para reconhecer que
jamais poderemos mapear o homem completamente. O ser humano é
algo extremamente belo e complexo"
"Não sinto necessidade de declarar minha orientação
religiosa. Ninguém tem nada a ver com o que acredito. Usar
a ciência para tentar impor crenças me parece algo excessivo"
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/il0611201104.htm