19/10/2011
Estamos dando veneno para as crianças -
Médica ataca indústria por estimular uso de remédios
psiquiátricos para pacientes infantis

A médica americana Marcia Angell, 72, ex-editora
da revista especializada "NEJM" e autora do livro "A
Verdade sobre os Laboratórios Farmacêuticos"
- Jodi Hilton - 23.jan.2009/The New York Times”
CLÁUDIA COLLUCCI
DE WASHINGTON
DA FOLHA DE SÃO PAULO
Primeira mulher a ocupar o cargo de editora-chefe no
bicentenário "New England Journal of Medicine", a médica
Marcia Angell já foi considerada pela revista "Time"
uma das 25 personalidades mais influentes nos EUA. Desde 2004, Angell,
72, é conhecida como a mulher que tirou o sossego da indústria
farmacêutica e de muitos médicos e pesquisadores que trabalham
na área. Naquele ano, ela publicou a explosiva obra "A Verdade
sobre os Laboratórios Farmacêuticos", que desnuda
o mercado de medicamentos.
Usando da experiência de duas décadas de trabalho no "NEJM",
ela conta, por exemplo, como os laboratórios se afastaram de
sua missão original de descobrir e fabricar remédios úteis
para se transformar em gigantescas máquinas de marketing.
Professora do Departamento de Medicina Social da Universidade Harvard,
Angell é autora de vários artigos e livros que questionam
a ética na prática e na pesquisa clínica. Tornou-se
também uma crítica ferrenha do sistema de saúde
americano. Tem se dedicado a escrever artigos alertando sobre o excesso
de prescrição de drogas antipsicóticas, especialmente
entre crianças.
"Estamos dando veneno para as pessoas mais vulneráveis
da sociedade", diz ela.
Mãe de duas filhas e avó de gêmeos
de oito meses, ela diz que recebe muitos convites para vir ao Brasil,
mas se vê obrigada a recusá-los. "Não suporto
a ideia de passar horas e horas dentro de um avião."
A seguir, trechos da entrevista ao jornal Folha de São Paulo.
Folha - Houve alguma mudança
no cenário dos conflitos de interesses entre médicos e
indústria farmacêutica desde a publicação
do seu livro?
Marcia Angell - Não. Os fatos continuam os mesmos.
Talvez as pessoas estejam mais atentas. Há mais discussão,
reportagens, livros, artigos acadêmicos sobre esses conflitos,
então eles parecem estar mais sutis do que eram no passado. Mas
é claro que as companhias farmacêuticas sempre encontram
uma forma de manter o lucro.
E os pacientes? Algumas pesquisas mostram eles parecem não
se importar muito com essas questões.
Em geral, os pacientes confiam cegamente nos seus médicos. Eles
não querem ver esses problemas.
Além disso, as pessoas sempre acreditam que os medicamentos sejam
muito mais eficazes do que eles realmente são. Até porque
somente estudos positivos são projetados e publicados.
A mídia, os pacientes e mesmo muitos médicos acreditam
no que esses estudos publicam. As pessoas creem que as drogas sejam
mágicas. Para todas as doenças, para toda infelicidade,
existe uma droga. A pessoa vai ao médico e o médico diz:
"Você precisa perder peso, fazer mais exercícios".
E a pessoa diz: "Eu prefiro o remédio".
E os médicos andam tão ocupados, as consultas são
tão rápidas, que ele faz a prescrição. Os
pacientes acham o médico sério, confiável, quando
ele faz isso.
Pacientes têm de ser educados para o fato de que não existem
soluções mágicas para os seus problemas. Drogas
têm efeitos colaterais que, muitas vezes, são piores do
que o problema de base.
A sra. tem escrito artigos sobre o excesso de prescrições
na área da psiquiatria. Essa seria hoje uma das especialidades
médicas mais conflituosas?
Penso que sim. Há hoje um evidente abuso na prescrição
de drogas psiquiátricas, especialmente para crianças.
Crianças que têm problemas de comportamento ou problemas
familiares vão até o médico e saem de lá
com diagnóstico de transtorno bipolar, ou TDAH [transtorno de
déficit de atenção e hiperatividade]. E é
claro que tem o dedo da indústria estimulando os médicos
a fazer mais e mais diagnósticos.
Às vezes, a criança chega a usar quatro, seis drogas diferentes
porque uma dá muitos efeitos colaterais, a outra não reduz
os sintomas e outras as deixam ainda mais doentes.
Drogas antipsicóticas estão claramente associadas ao diabetes
e à síndrome metabólica. Estamos dando veneno para
as pessoas mais vulneráveis da sociedade.
Pessoas que acham que isso não é assim tão terrível
sempre argumentam comigo que essas crianças, em geral, chegaram
a um estado tão ruim que algo precisa ser feito. Mas isso não
é argumento.
Hoje, fala-se muito em medicina personalizada. Na oncologia,
há uma aposta de que drogas desenvolvidas para grupos específicos
de pacientes serão uma arma eficaz no combate ao câncer.
A sra. acredita nessa possibilidade?
Para mim, isso é só propaganda. Não faz o menor
sentido uma companhia farmacêutica desenvolver uma droga para
um pequeno número de pessoas. E que sistema de saúde aguentaria
pagar preços tão altos?
Algumas escolas de medicina nos EUA começaram a cortar
subsídios da indústria farmacêutica e de equipamentos
na educação médica continuada. No Brasil, essa
dependência é ainda muito forte. É preciso eliminar
por completo esse vínculo ou há uma chance de conciliar
esses interesses?
Deve ser completamente eliminado. Professores pagam para fazer cursos
de educação continuada, advogados fazem o mesmo, por que
os médicos não podem? A diferença é que
você não precisa ir a um resort no Havaí para ter
educação médica continuada. É preciso pensar
em modelos de capacitação mais modestos. E, com a internet,
todos os países, mesmo os pobres ou em desenvolvimento, podem
fazer isso. A educação médica não pode ser
financiada por quem tem interesse comercial no conteúdo dessa
educação.
MARCIA ANGELL
IDADE
72 anos
OCUPAÇÃO
Professora titular do departamento de Medicina Social da Escola Médica
de Harvard e membro da Associação de Médicos Americanos
FORMAÇÃO
Graduada em medicina interna e patologia na Universidade de Boston
TRAJETÓRIA
Fez parte do corpo editorial do "New England Journal of Medicine"
entre 1979 e 1999; primeira mulher a ocupar o cargo de editora-chefe
no "NEJM"; eleita pela "Times", em 1997, como uma
das 25 personalidades mais influentes nos EUA
PUBLICAÇÕES
É autora dos livros "A Verdade sobre os Laboratórios
Farmacêuticos" (editora Record) e "Science on Trial:
The Clash of Medical Evidence and the Law in Breast Implant Case"
(sem tradução no Brasil)