14/10/2011
O professor Jáder Sampaio fez em seu blog uma análise
sobre o novo lançamento sobre a vida das Irmãs Fox
- http://espiritismocomentado.blogspot.com/2011/09/mais-sobre-vida-das-irmas-fox.html
-

Margareth e Katie Fox
Barbara Weisberg fez a incursão que muitos de
nós gostaríamos de fazer e publicou seu diário
de viagens com o título “Talking to the dead: Kate and
Maggie Fox and the rise of spiritualism” indevidamente traduzido
para “Falando com os mortos: as irmãs americanas e o surgimento
do espiritismo”, possivelmente para atingir o público espírita.
O passeio é generoso. Barbara consultou livros, revistas e documentos
de diversos arquivos em busca das Fox. Discutiu seus manuscritos com
muitos especialistas, procurou descendentes e nos ofereceu não
apenas um trabalho biográfico, mas todo um cenário dos
eventos sociopolíticos e culturais dos Estados Unidos e Inglaterra
no período da vida das Fox.
A primeira pergunta que se faz quando se está diante de um trabalho
biográfico polêmico como este é: qual é a
visão da autora? Ela é espiritualista? Ela é cética?
Ela é uma feminista escrevendo sobre mulheres do século
XIX? Não tenho uma resposta. Seu texto oscila entre cada uma
destas três tendências, ou, pelo menos, das duas últimas.
Um ponto positivo: ela se esforça para apresentar sempre as opiniões
dos que creem nos fenômenos e dos que estão obsessivamente
procurando pelos truques que Kate e Maggie Fox teriam produzido.
Apesar da simpatia que ela desenvolve por Kate e Maggie, talvez por
percebê-las como mulheres ativas em um mundo extremamente limitado
para a mulher, Barbara não oculta os fatos, nem os dissimula:
relatórios favoráveis e desfavoráveis, o alcoolismo
do pai e depois das duas irmãs, a prisão a que se submeteu
Maggie Fox na esperança do amor, ou pelo menos do casamento de
Elisha Kane, as fantasias, as declarações que elas fizeram
de ter fraudado os fenômenos, seguida do desmentido de sua própria
declaração, tudo isso é descrito e exaustivamente
referenciado ao longo do seu texto.
O livro aponta para uma época esquizofrenicamente intolerante
e interessada. As Fox sofrem ao mesmo tempo o assédio público
e o repúdio, comum a muitas personalidades famosas dos dias de
hoje, o que legou ao futuro controvérsias e versões sobre
sua vida.
O ALCOOLISMO NA FAMÍLIA FOX
A história das Irmãs Fox se encontra repleta
de contradições, uma vez que foi contada por simpatizantes
e adversários. Seguramente, seu pioneirismo em assumir publicamente
a condição de médiuns lhes trouxe mais adversários
que simpatizantes em uma sociedade de origens protestantes, como é
a norte-americana, e em uma época vitoriana, como é o
século XIX.
Inspirados pela versão adversária, e com algum gosto pelo
trágico, Stine Nymand Svensson and Elianna Morningstar Hansen
fizeram este curta-metragem de animação.
Kate aparece alcoólatra desde a infância e com a aceitação
da família, especialmente de Leah, sua irmã mais velha,
o que é difícil de aceitar. Leah aparece como uma exploradora
da mediunidade das irmãs, e Margaretta (mãe das Fox) está
ausente, o que é também incoerente com o que se tem nos
trabalhos encontrados sobre a família.
Barbara Weisberg, citada na última publicação do
EC, afirma que na juventude o pai das Fox era alcoólatra e jogador
(p. 60), o que gerou o afastamento entre ele e a esposa.
John abandonou seus hábitos em 1830, tornando-se metodista e
líder em sua comunidade. (p. 63) As doutrinas evangélicas
do livre-arbítrio desta época, que atingiram a comunidade
batista, metodista e presbiteriana (p. 63) podem ter sido a razão
para o abandono do álcool pelo Sr. John, que iniciou vida nova.
É nesta vida nova que ele reatou seu casamento com Margaretta
e nasceram suas filhas Margareth e Kate.
As meninas devem ter sido criadas em um ambiente de austeridade, contudo,
o alcoolismo manifestaria-se na história de Kate. Weisberg relata
problemas domésticos e sociais de Kate em 1886, quando ela é
flagrada bêbada em um bar, após a morte de seu marido Henry
Jenken. Em 1888 ela foi presa, acusada de negligenciar seus filhos,
Ferdie e Henry. "Altos e esguios, com olhos brilhantes, Ferdie
e Henry pareciam muito bem-cuidados aos oficiais de polícia,
mas Kate estava inegavelmente bêbada". (p. 335)
Kate afirmou ao jornal World, de Nova York, que "... quando ela
e a irmã, Maggie, eram jovens e famosas, forma levadas para inúmeros
jantares e festas regadas a álcool; as pessoas lhes enviavam
cestas com garrafas de champagne. Foi assim que nasceu seu hábito
de beber." (p. 335)
A referência mais antiga que encontrei envolvendo as Fox ao álcool
(mas não ao alcoolismo) no trabalho de Weinberg (p. 2690, foi
publicada por George Templeton Strong, que se limitava a dizer, em torno
de 1852, que "ópio, álcool e excitação
mental" desempenhavam papel importante nas manifestações.
Conan Doyle (p. 115) no seu "História do espiritualismo"
(traduzido indevidamente como "História do espiritismo")
entende que após um fenômeno de efeito físico, muitos
médiuns tentavam recuperar suas forças por meio de álcool,
e que sentiam-se tentados a fraudar "quando as forças se
ausentam" e que sofrem a influência de espíritos "que
cercam um grupo promíscuo".
Seguramente a questão do alcoolismo das Fox vai além do
uso após as sessões, e como propõe Barbara Weinberg,
tem base na sua história familiar, e, arrisco dizer, na situação
de franca hostilidade e pressão a qual se encontravam constantemente
expostas, associada a aceitação social e pessoal do uso
de álcool.
Se os autores do curta acima não são fiéis às
biografias existentes (não posso dizer que maldosamente), não
se pode deixar de reconhecer a triste trajetória das irmãs
Fox pela mediunidade profissional, e pela fragilidade, principalmente
de Kate, ao alcoolismo.
MAGGIE E ELISHA KANE

Capa do livro em inglês
Outro ponto alto do livro "Falando com os mortos"
é o envolvimento de Maggie Fox com o Sr. Elisha Kane. Barbara
Weisberg desenha um Kane igualmente contraditório. Ao mesmo tempo
que se apresenta à sociedade norte-americana como herói,
é uma pessoa dependente dos pais, do dinheiro dos pais e da imagem
que ele cria de si mesmo na sociedade.
Não se sabe se ele se apaixona por Maggie ou se ela se torna
um de seus caprichos, mas ele a proíbe de praticar a mediunidade,
a interna em uma escola para mulheres e exige sua conversão ao
catolicismo, em vão, posto que suas tentativas de fazê-la
aceitável pela rígida sociedade vitoriana e por seus pais
não é bem sucedida. Margareth vai viver à sombra
deste homem, que resolve sair em expedição ao ártico.
Como não foi aceita pelos pais, Kane exige que um jornal retrate
a notícia de que ela iria casar-se com ele após sua volta
do Ártico, mas continua a procurá-la. Para o Kane público,
Maggie era apenas um ato de caridade, mas para o Kane privado, Maggie
parece ser uma fixação.
Kane resolve fazer uma cerimônia particular e não oficial
de casamento, enfrentando a oposição de Margaretta Fox
(mãe de Maggie). Margareth se submete a esta situação
e fica na ingrata situação de ser esposa de Kane sem o
ser formalmente. A morte de Elisha Kane a deixará em uma situação
ingrata, abandonada pela família, sem profissão (a não
ser médium) e sem herança, apenas com as cartas de amor
que trocaram e que ela resolve publicar em forma de livro.
Abandonada e frustrada em seus sonhos de mulher, ela voltará
a fazer sessões mediúnicas após a morte de seu
companheiro, que ela insiste em apresentar como marido, mas que não
será capaz de lhe assegurar o futuro após a morte.
Eu pesquisei alguns sites norte-americanos que tratam do tema e achei
muito curiosa a identificação das autoras com Margareth.
Por que mulheres do século XXI consideram-se semelhantes a uma
mulher do século XIX, à parte da sociedade, em busca do
amor de um homem que a tripudia? Mistério.
AS FOX E A MEDIUNIDADE COMO OFÍCIO

Peça publicitária da época
Dando continuidade à biografia das Irmãs
Fox escrita por Weisberg, ela trata como nenhum outro que li sobre a
mediunidade paga. Para Barbara é como se as Fox houvessem criado
um novo ofício, mais bem remunerado que qualquer outro ao seu
alcance social, como mulheres de classe média-baixa dos Estados
Unidos.
Um dólar por atendimento, é o preço que aparece
em algumas partes do texto, em outras elas negociam o valor de uma temporada
a serviço de pesquisadores, por exemplo, que ficam na faixa de
milhares de dólares. Dependendo do ofício, elas receberiam
três dólares por semana em uma fábrica, para termos
noção do valor da moeda americana àquela época.
Apesar da vigilância de Margaretta Fox, em sua juventude, e dos
cuidados de alguns amigos na idade adulta, o ofício as expunha
em demasia para a época. Homens as procuravam em um misto de
curiosidade e com um desejo interessado no toque de mãos para
a realização dos fenômenos. Alguns, mais rudes,
gabavam-se disto.
Outra coisa curiosa eram as tourneés por cidades norte-americanas.
As médiuns viajavam em busca de um público novo que as
pudesse remunerar por algum tempo. O fenômeno tornava-se mais
importante que o conteúdo do que diziam os espíritos através
delas.

William Crookes (?) examina uma médium
Barbara não poupa tinta para tratar das fraudes
de médiuns profissionais para se manterem nesta nova indústria.
Cúmplices, truques de magia, articulações estalantes,
ventriloquia, sapatos com chumbo para serem seguros pelos ingênuos
observadores, tudo isso é descrito, e as Fox dão mostras
de conhecerem estes artifícios. Teriam utilizado estes truques
para não descontinuarem suas sessões? Não se sabe.
Barbara afirma que não foram flagradas fazendo truques em quarenta
anos. O máximo que se conseguiu foi o relatório dos observadores
de Buffalo, que não obtiveram batidas após imobilizarem
com as mãos os joelhos das jovens.
Penso que muito sofrimento seria poupado se elas aceitassem o conselho
evangélico de Allan Kardec: "Dai de graça o que de
graça recebestes", ou a sabedoria prática de Chico
Xavier. "O telefone toca de lá para cá."